<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><rss xmlns:atom='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0' version='2.0'><channel><atom:id>tag:blogger.com,1999:blog-1989948983729069475</atom:id><lastBuildDate>Wed, 01 Sep 2010 06:05:02 +0000</lastBuildDate><title>Zarah Luna, os Anéis de Aine</title><description></description><link>http://www.zarahluna.com.br/</link><managingEditor>iarafp_soares@yahoo.com.br (Iara Fepasiso)</managingEditor><generator>Blogger</generator><openSearch:totalResults>12</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>25</openSearch:itemsPerPage><item><guid isPermaLink='false'>tag:blogger.com,1999:blog-1989948983729069475.post-170660731307171355</guid><pubDate>Thu, 25 Mar 2010 19:49:00 +0000</pubDate><atom:updated>2010-03-25T12:51:01.469-07:00</atom:updated><title>SORRY!</title><description>gente... desculpem a demora p postar os capítulos, mas meu pc estragou e está no concerto... JURO QUE VOU POSTAR LOGO LOGO&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1989948983729069475-170660731307171355?l=www.zarahluna.com.br' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://www.zarahluna.com.br/2010/03/sorry.html</link><author>iarafp_soares@yahoo.com.br (Iara Fepasiso)</author><thr:total>1</thr:total></item><item><guid isPermaLink='false'>tag:blogger.com,1999:blog-1989948983729069475.post-284623857717669896</guid><pubDate>Sun, 08 Nov 2009 18:35:00 +0000</pubDate><atom:updated>2010-08-31T22:38:44.882-07:00</atom:updated><title>Cap. 7  Quem é Muriel?</title><description>Desamarrei a fita de couro e, rapidamente, desenrolei a carta.&lt;br /&gt;- “Origem guardada em coração puro”. &lt;br /&gt;- “Origem guardada em coração puro”. – repetiu. Correu os olhos sobre a grande mesa de madeira. – Tudo bem. – suspirou – Coração puro é uma pessoa boa, não é? – isto não era uma pergunta. Ela nem ao menos esperou que eu respondesse. – Então nós precisamos saber quem, nas lendas que eu li, tinha coração puro. – de repente, sua expressão mudou. De satisfação para incerteza. &lt;br /&gt;– Ou pode ser uma pessoa ingênua. – arqueei as sobrancelhas.&lt;br /&gt;- É! – sorriu, impressionada - As pessoas ingênuas não vêem maldade em nada. Isto as faz ter o coração puro – concordou. – Mas... Eu não me lembro de lenda alguma contendo UMA pessoa ingênua, especifi-camente. Têm várias, onde os Sidh enganam os humanos intrometidos, mas não há uma lenda que diz o nome de um destes humanos. &lt;br /&gt;- Você tem certeza? &lt;br /&gt;- Não completamente. – coçou a cabeça, em busca de lembranças – Será que aqui tem internet?&lt;br /&gt;- Olhe para isto, Tah. – mostrei a sala - Você acha mesmo possível haver internet aqui? Provavelmente não tenha nem televisão! – recla-mei.&lt;br /&gt;- Como nós vamos saber de que lenda seu pai está falando? &lt;br /&gt;- Não sei. &lt;br /&gt;Tayla fez o mesmo que eu. Ficamos caladas alguns minutos, esperando algo cair do céu.&lt;br /&gt;- É isso, Zah! – sorriu – Como eu sou idiota! Como não pensei nisso antes? – fitou-me.&lt;br /&gt;- Mas... eu... disse alguma coisa?&lt;br /&gt;- Não, você não disse nada, como sempre! – sorriu, novamente.&lt;br /&gt;- Ah. &lt;br /&gt;- Zarah, nós estamos na sua casa. – apontou.&lt;br /&gt;- Não me diga! – debochei.&lt;br /&gt;- Zarah, sua casa é o lugar com mais livros que eu já vi. E todos os livros são sobre os Sidh. &lt;br /&gt;- Você não está querendo procurar em todos os livros. – fitei-a - Está?&lt;br /&gt;- Não. Lógico que não! &lt;br /&gt;- Ufa!&lt;br /&gt;- Não precisaremos procurar em todos eles por que essa lenda não é sobre um dos Deuses. Sendo assim os diários dos Deuses estão descar-tados. – sorriu. – Isto faz nossa procura cair um terço. – fez sinal com as mãos.&lt;br /&gt;- Ah. – repeti seu sinal – Cair um terço? Que ótimo saber. Nós temos quantos livros agora? Duzentos mil?&lt;br /&gt;- Não exagere Zarah! &lt;br /&gt;- Não estou exagerando! – franzi a testa.&lt;br /&gt;- Agora você parece uma criança teimosa. – divertiu-se. &lt;br /&gt;- Acho melhor nós começarmos, já que o tempo é tão curto.&lt;br /&gt;- Por onde começaremos?&lt;br /&gt;- Você é o cérebro da operação. – coloquei os dedos sobre sua cabeça.&lt;br /&gt;- Pare com isso! - protestou&lt;br /&gt;Retirei meus dedos. Ela esfregou um pouco a testa, provavelmente pensando qual o melhor lugar para começar.&lt;br /&gt;- Eu já sei aonde nós iremos primeiro!&lt;br /&gt;Virou-se, na direção oposta à que entramos, passou por uma grande porta e seguiu em frente no corredor. Segui, logo atrás, perguntando-me para onde estávamos indo. Passamos por algumas portas fechadas, duas grandes salas, sem portas, e chegamos ao fim do corredor. Tayla parou em frente a uma enorme porta de madeira. &lt;br /&gt;- O que foi? – perguntei, depois de perceber que ela não abriria a porta.&lt;br /&gt;- Abra! – disse Tayla, olhando-me.&lt;br /&gt;- Por que você não abre?&lt;br /&gt;- Eu não posso. – isso pareceu incomodá-la.&lt;br /&gt;- Por que não?&lt;br /&gt;- Por que eu não sou um Sidh. Elas não permitem que humanos as toquem. – correu os olhos para o chão. &lt;br /&gt;- HA.HA. Se eu te colocar numa dessas salas e fechar a porta você nunca mais sai? – sorri.&lt;br /&gt;- Cale a boca, Zah! – deu um tapa no meu ombro.&lt;br /&gt;- Se você me bater de novo eu te coloco dentro de uma sala dessas e nunca mais volto. – ameacei, divertindo-me.&lt;br /&gt;- Abra logo, Zah! – revirou os olhos&lt;br /&gt;Apesar de grande, a porta não era pesada. Havia uma maçaneta redon-da e de vidro, com dizeres antigos que se pareciam mais com as escri-tas de dentro das pirâmides do Egito do que latim.&lt;br /&gt;Ao entrar na sala tive uma sensação boa. Parecia que meu corpo reco-nhecia aquele lugar, e que estava feliz em revê-lo. &lt;br /&gt;Aquilo não era uma sala com as outras, tinha uma grande figueira no centro, uma enorme cúpula de vidro no lugar do teto, permitindo que os raios do sol inundassem a sala, e inúmeras estantes lotadas de livros de todos os tamanhos e espessuras. Havia centenas de estantes de ma-deira abarrotadas de livros antigos. A sala, ou biblioteca, era tão gi-gantesca que, de onde estávamos não dava para enxergar todas as pra-teleiras. Não havia janelas, mas, apesar de parecer uma estufa, o local era bem fresco. Em volta da árvore havia grama e algumas flores, des-conhecidas por mim, mas a grama se acabava antes mesmo de chegar perto de onde estavam as grandes estantes. Apesar de não haver jane-las, havia uma parede de vidro desenhado, transparente, atrás da árvo-re, com a ilustração de um antigo mapa. As estantes de livros estavam organizadas bem próximas umas das outras, algumas em fila indiana e outras encostadas, ocupando todo o espaço das paredes e dos grossos pilares de madeira.&lt;br /&gt;- Por onde começaremos? – perguntei, sem fôlego.&lt;br /&gt;- Eu não sei. – Tayla também estava impressionada.&lt;br /&gt;- Você nunca esteve aqui? – fitei-a.&lt;br /&gt;- Não. – disse, caminhando até onde começava a grama. &lt;br /&gt;- Como você sabia da existência dessa biblioteca? &lt;br /&gt;- Berserker me disse ontem à noite.&lt;br /&gt;- O que ele disse?&lt;br /&gt;- Que no fim do corredor da sala de jantar havia a maior biblioteca do castelo.  – desviou os olhos da grande figueira e seguiu em direção às estantes, rapidamente.&lt;br /&gt;- Aonde você vai? – tentei segui-la.&lt;br /&gt;- Tentar desvendar a pista. – gritou de onde estava.&lt;br /&gt;Elise desceu do meu ombro, apressada, logo depois de ver as pequenas flores na grama. Correu, em passos engraçados, até a grama e começou a andar enlouquecida entre os raios de sol. Perdeu totalmente o medo de me perder, pelo menos por enquanto. &lt;br /&gt;Isto é bom, mesmo que seja por algumas horas, assim eu conseguirei ajudar Tayla sem ser incomodada. &lt;br /&gt;Tayla pegou vários livros de uma estante que continha os livros mais velhos de toda a biblioteca. Ela os colocou sobre uma das elegantes mesas de madeira perto da figueira e começou a lê-los. Fiz o mesmo. Peguei o máximo de livros que agüentava e comecei a ver os sumários. Mas havia algo errado.&lt;br /&gt;- O que faremos agora? – perguntei, levantando o livro.&lt;br /&gt;Todos os livros estavam escritos numa língua estranha. No lugar das letras e números havia símbolos.&lt;br /&gt;- Ai... meu... Deus! O que a gente faz agora? – folheou o livro rapida-mente.&lt;br /&gt;- Morre na praia. É isso que a gente faz! – respondi. – Nadamos, na-damos, nadamos e agora vamos morrer na praia. – fechei o livro com força e o coloquei sobre mesa.&lt;br /&gt;- Vê se consegue falar com a Kika. – disse Tayla&lt;br /&gt;- O que? &lt;br /&gt;- Vê se consegue falar, ela vai saber traduzir isto. – apontou&lt;br /&gt;- Não garanto nada. – soltei.&lt;br /&gt;Fechei os olhos e relaxei o máximo que deu. Primeiro imaginei o rosto de Kika, depois pensei em voz alta “SOS na biblioteca, não sabemos ler na sua língua!” e esperei que ela estivesse perto o suficiente para ouvir.&lt;br /&gt;Por via das dúvidas permaneci de olhos fechados e pensando nela, para facilitar o contato.&lt;br /&gt;“Os livros?” – disse uma voz em minha cabeça. Era Kika.&lt;br /&gt;“É!” – pensei – “Não conseguimos ler. Tem um monte de símbolos iguais aos da maçaneta da porta. Você precisa vir aqui traduzir.”&lt;br /&gt;“Não é preciso. Basta você dizer a eles em qual língua deseja ler.”&lt;br /&gt;“O que?” – saiu como um grito pensado.&lt;br /&gt;“Fale com o livro que deseja ler. Agora eu tenho que ir. Estou ajudan-do Berserker em alguns assuntos.”&lt;br /&gt;Abri os olhos, ainda sem entender muito.&lt;br /&gt;- O que ela disse? – Tayla perguntou.&lt;br /&gt;- Para eu... falar com os livros. – fiz careta.&lt;br /&gt;- Falar o que? – fitou-me, sem entender.&lt;br /&gt;- Pelo que eu entendi, é para eu pegar o livro e dizer “português” e ele muda a escrita.&lt;br /&gt;- O que você está esperando? – sorriu, boquiaberta.&lt;br /&gt;Bom, a Kika não iria mentir para mim numa hora crítica assim. Só me restava tentar fazer o que ela disse e rezar para dar certo.&lt;br /&gt;Peguei um livro, olhei para ele e disse:&lt;br /&gt;- Quero ler em português. – apertei os olhos, esperando, mas nada de diferente aconteceu.&lt;br /&gt;- E? – perguntou Tayla.&lt;br /&gt;- Nad... Ai! – soltei o livro rapidamente.&lt;br /&gt;- O que foi? – perguntou Tayla, ansiosa.&lt;br /&gt;- Não sei, ele ficou gelado de repente. – fitei o livro caído sobre a me-sa.&lt;br /&gt;- Será que deu certo? – sorriu.&lt;br /&gt;Toquei o livro, de leve, com o dedo indicador, para ver se ainda estava gelado. &lt;br /&gt;- Está gelado ainda? – Tayla estava mais ansiosa que eu.&lt;br /&gt;- Voltou ao normal. – disse, segurando-o.&lt;br /&gt;- Veja se está em português. &lt;br /&gt;Abri o livro, e, para minha total surpresa, consegui entender cada pa-lavra. Apesar de sentir meus olhos embaçarem, mas deve ser pela mu-dança rápida de grafia. &lt;br /&gt;- Funcionou! – disse, alterando o tom de minha voz.&lt;br /&gt;- Que ótimo! – exclamou Tayla – Agora só faltam 1999 mil livros. – sorriu.&lt;br /&gt;- Putz! – reclamei – Um por um vai ser muito cansativo.&lt;br /&gt;- E se você disser uma vez só, para todos eles?&lt;br /&gt;Senti-me uma tola em ter de conversar com livros, mas era o único jeito de encontrar a pista.&lt;br /&gt;Levantei-me, olhei para todas aquelas estantes abarrotadas de livros e disse em voz alta:&lt;br /&gt;- Preciso que todos vocês mudem a escrita para português.&lt;br /&gt;Assim como antes, nada aconteceu durante alguns segundos, mas aí, do nada, a temperatura da sala caiu, era como se tivessem ligado o ar condicionado mais potente que já inventaram. Mas alguns segundos depois a temperatura agradável da biblioteca havia voltado.&lt;br /&gt;- Deu certo? – perguntou Tayla&lt;br /&gt;- Sim, você não sentiu? – como ela não sentiu a sala diminuir 10ºC? &lt;br /&gt;- Não senti nada. – reclamou.&lt;br /&gt;- Ficou muito frio. Como você não notou?&lt;br /&gt;- Zarah, eu não sinto a magia. Sou humana, lembra? A aberração aqui é você.&lt;br /&gt;Tayla pediu que eu lhe mostrasse cada nome de capítulo, antes de co-meçar a lê-lo, para não perder tempo em coisas desnecessárias. En-quanto ela lia, fazia sinal com o polegar, dizendo se eu podia ou não ler aqueles capítulos. Ficamos lá, lendo, por muito tempo, mas não encontramos nenhuma lenda como a que nós procurávamos. Todas elas eram sobre Sidh enganadores de humanos, uma penca de garotas ingênuas e virgens, homens à procura de um pouco de romance proi-bido, caminhos sem fim, feitiços e mentiras. As lendas não continham nomes, nem sequer dos Sidh. O último livro da minha pilha, a quinta, para falar a verdade, o qual tinha o nome “Janas” escrito na capa, fez os olhos de Tayla brilharem. Ela o tomou de mim, leu rapidamente o sumário e soltou um imenso sorriso. &lt;br /&gt;- Eu acho que encontramos! – mostrou um capítulo intitulado “Almas condenadas”.&lt;br /&gt;Fiz um esforço extra a fim de ler o que dizia, já que minha visão ainda estava um pouco embaçada.&lt;br /&gt;- O que isto tem a ver? A pista não fala nada sobre uma alma conde-nada. – critiquei, apontando o título.&lt;br /&gt;- Era esta lenda que eu estava procurando Zah! Eu não me lembrava o título, pois no dia em que a li tinha mais uma porção de outras lendas misturadas, mas agora eu me lembrei. Janas. Este era o nome da lenda!&lt;br /&gt;- Será que é esta? Você tem certeza? – desafiei.&lt;br /&gt;Torci para que fosse aquela lenda. Ah, como torci. Nem os Deuses tem noção o quanto era grande a minha torcida. &lt;br /&gt;Eu nunca me dei muito bem com livros de lendas e todas aquelas coi-sas mágicas. Só o fato de eu ter lido mais ou menos cinco pilhas de livros com este contexto, tive um pouco de náuseas e dor de cabeça. Nós ficamos tanto tempo sentadas naquela mesa, lendo, que o sol já havia se escondido e Elise já voltara para perto de mim. Ela estava dormindo de barriga para cima, toda gorda e esparramada, sobre o livro das ninfas azuis.&lt;br /&gt;- É esta sim! – fuzilou-me com os olhos – desde quando você duvida tanto assim da minha capacidade de lembrar das coisas? &lt;br /&gt;- Não estou duvidando, Tah. Eu só estou perguntando.&lt;br /&gt;Ela conseguiu me intimidar.&lt;br /&gt;- Eu vou ler este capítulo em voz alta. – deu um pigarro – Começarei daqui. – apontou para o meio da página. – Este começo é pura em-bromação.&lt;br /&gt;- Comece, então. – pedi, revirando os olhos.&lt;br /&gt;Tayla puxou um pouco de ar e começou.&lt;br /&gt;- “As Janas são seres condenados. São garotas enganadas e roubadas para sempre. São as almas de donzelas que foram deixadas a guardar tesouros. A Jana pode aparecer sozinha, acompanhada de outras Janas encantadas ou de um Sidh. Geralmente enganadas por um Sidh, elas têm suas almas aprisionadas em uma cripta de pedras brancas perto de um riacho. Aparecem junto de nascentes, fontes, pontes, rios, poços, cavernas, antigas construções ou velhos castelos. Se você vir uma de-las, perceberá que, não muito longe, está sua cripta. As Janas aparecem sempre segurando um baú de madeira. No baú há um tesouro, que ela protege como se fosse sua própria vida, em troca de um dia ter sua alma de volta. Existem diferentes meios de se obter o tesouro: pode ser oferecido pela Jana como recompensa, roubado, ou achado. Sempre que você encontrar alguma delas perceberá que ela é apenas um corpo sem vida, sem alma. Para realizar o desencantamento da Jana, é solicitado um segredo, um beijo, o pronunciamento de algumas pala-vras, ou a realização de alguma tarefa. Falhar é não desencantar a Jana e ‘dobrar o encanto’ ou não obter o tesouro desejado”.&lt;br /&gt;- V... você acha... que... que meu pai roubou a alma de uma garota... por que precisava que alguém de confiança guardasse a segunda pista? Ele não seria capaz de uma coisa tão horrível como essa. – levantei meus olhos até ver o rosto sardento - Seria? &lt;br /&gt;- Não temos certeza, Zarah. Não é certo sair por aí tirando conclusões precipitadas. – alertou.&lt;br /&gt;- As evidências estão aí, se estivermos certas. É claro que ele enganou uma garota. – fitei-a.&lt;br /&gt;- Eu não vi evidência alguma. – Tayla continuava com a voz calma.&lt;br /&gt;Aquilo me deixou um pouco mais aflita.&lt;br /&gt;- Está mais do que na cara! – fiz o tom de minha voz subir dois terços.&lt;br /&gt;- Não, não está! Seu pai não se aproveitou de alguma alma já conde-nada! – desafiou-me. – Ele não seria capaz de fazer mal nem à uma mosca.&lt;br /&gt;Aquilo fez o pequeno Chinnuril acordar assustado. Elise pulou, aflita, no meu colo, fazendo aqueles barulhinhos engraçados. Tentei acalmá-la, ainda prestando atenção em Tayla.&lt;br /&gt;- O que você quer dizer com isto? – pisquei várias vezes, expulsando as grossas lágrimas que desfocavam minha visão. &lt;br /&gt;- Nós duas sabemos que seu pai é um homem bom. – abaixou mais o tom de sua voz. &lt;br /&gt;- Ele poderia estar enganando a todos. – rolei os olhos até Elise.&lt;br /&gt;- Zarah, e se eu te dissesse que nós acabamos de passar para a pista 2? &lt;br /&gt;- O que? – desviei meu olhar, até encontrar o de Tayla. Ela estava ra-diante. – O que você quis dizer com “acabamos de passar para a pista 2”?  &lt;br /&gt;Tayla não disse nada. Ela pegou o livro de cima da mesa e apontou com o dedo.&lt;br /&gt;No meio da página havia um pequeno pedaço de papel. O nome Muriel estava escrito de caneta preta, na mesma elegante caligrafia da minha carta.&lt;br /&gt;- Quem é Muriel? – perguntei, sentindo uma leve dor de cabeça. &lt;br /&gt;- É o que precisamos descobrir. – Tayla parecia mais nervosa que antes. – Vamos sair daqui. – cochichou em meu ouvido&lt;br /&gt;- O que foi? – perguntei no mesmo tom.&lt;br /&gt;- Eu acho que tem alguém atrás da porta. Eu ouvi alguma coisa. – aler-tou.&lt;br /&gt;- Tipo o que? &lt;br /&gt;- Um bisbilhoteiro. – apressou-se – Vamos. Isto deve ter outra saída.&lt;br /&gt;- Tayla, você está louca? Não tem ninguém atrás da porta. – sorri. A-inda sussurrando, como ela fazia.&lt;br /&gt;Elise pulou da palma de minha mão, lançando-se em direção à porta. Tayla tentou alcançá-la, mas chegou tarde demais, e eu estava, ainda, na metade do caminho. O pequeno Chinnuril passou as mãozinhas na porta e começou a arranhá-la, fazendo um barulho irritante. Eu a pe-guei no colo, levei a mão à maçaneta de abri aporta. Tudo isso em poucos segundos.&lt;br /&gt;Tayla tinha razão. Havia alguém atrás da porta. &lt;br /&gt;Apertei Elise em minha mão, num susto, após abrir a porta e dar de cara com um rosto não muito agradável e desconfiado. O pobre Chin-nuril soltou um grunhido tão alto, que me fez voltar rapidamente do estado de choque. Eu não sabia o nome da pessoa que me deixou da-quele jeito, só a tinha visto duas vezes durante o almoço. Ela era a mãe de Noba e, segundo Aine, a “faz tudo do castelo”.&lt;br /&gt;- Nem precisei bater. – disse a mulher, sorrindo. Aquele não pareça o sorriso de alguém que estava planejando algo errado.&lt;br /&gt;- A... Se... Senhora quer alguma coisa? – perguntei. Recuperando-me do susto.&lt;br /&gt;- Vim perguntar se vocês duas estão com fome.&lt;br /&gt;- Est-&lt;br /&gt;- Não! – respondeu Tayla, rapidamente, interrompendo-me. – Quer dizer. – desviou o olhar – Ainda é cedo, né! – pigarreou.&lt;br /&gt;Não entendi o que ela quis dizer com aquilo, mas, se tem uma coisa que eu aprendi em todos estes anos foi que é melhor não contrariá-la. &lt;br /&gt;- Eu não estou com tanta fome assim. – soltei um meio sorriso.&lt;br /&gt;A mãe de Noba pareceu um pouco insatisfeita com minha resposta. Soltou um meio sorriso e disse:&lt;br /&gt;- Bem, se vocês precisarem de alguma coisa é só me chamar.&lt;br /&gt;- Nós chamaremos! - sorri&lt;br /&gt;A mulher não pareceu muito feliz em ir embora. Demorou um tempo a se locomover de perto da porta. Várias vezes seguidas ela mudou seu olhar, entre mim, Tayla e o lado de dentro da sala.&lt;br /&gt;Tayla passou à minha frente e serrou os olhos na mulher.&lt;br /&gt;- Mais alguma coisa? – perguntou, soltando o sorriso mais falso que eu já vi.&lt;br /&gt;- Não. – respondeu a mulher, entre dentes.&lt;br /&gt;Sem esperar que a mulher se locomovesse Tayla soltou a maçaneta, trocou sua mão pela minha e a empurrou até a porta se fechar. &lt;br /&gt;- Ai. – exclamou, sacudindo a mão.&lt;br /&gt;- O que foi?&lt;br /&gt;- Não posso tocar as portas. Lembra?&lt;br /&gt;- Ela... tentou te queimar? – notei um círculo vermelho na palma de sua mão.&lt;br /&gt;- Elas não gostam de humanos. – sorriu sem graça.&lt;br /&gt;- Tah. Por que você tratou a mãe da Noba daquele jeito? – a segui de volta à mesa.&lt;br /&gt;- Você não viu o jeito que ela te olhava? Parecia que você tinha des-coberto algum segredo dela. Achei até que fosse te bater. – alertou-me, como se eu tivesse perdido alguma parte da rápida conversa.&lt;br /&gt;- Eu não vi nada. – coloquei Elise na outra mão - Aliás, dona Tayla, você precisa parar de achar que todos no mundo estão conspirando contra você! – toquei a ponta de seu nariz. &lt;br /&gt;- Eu não acho que o mundo inteiro é uma conspiração, Zarah Luna! – serrou os olhos – Você é que vê o mundo de um jeito ingênuo demais. Você nunca acredita que as pessoas sejam capazes de cometer malda-des. – repetiu meu movimento.&lt;br /&gt;- Tudo bem. – levei Elise perto de minhas bochechas – Seu mundo é mal e o meu é bom. - sorri&lt;br /&gt;- Francamente, eu não sei como agüento você! – fechou o livro, juntou-o aos outros da mesa, fez uma pilha e dirigiu-se às prateleiras.&lt;br /&gt;Eu fiz o mesmo. Deixei minha bolinha de pêlos, reclamona, sobre a mesa, fiz minha pilha de livros e segui até as prateleiras.&lt;br /&gt;Limpamos a mesa em menos de cinco minutos. &lt;br /&gt;- Você tem idéia de onde o Leprechaum esteja? &lt;br /&gt;- Não sei. Ele disse que ia à cidade. – dei de ombros – Por quê? &lt;br /&gt;- Precisamos saber quem é Muriel. Ele deve saber quem é.&lt;br /&gt;- Ele disse para chamarmos a Kika se precisarmos de alguma coisa. – lembrei.&lt;br /&gt;- Chame-a! – Tayla parecia mais aflita que eu.&lt;br /&gt;Concentrei-me, repeti seu nome várias vezes.&lt;br /&gt;Era estranho, como se minha consciência estivesse falando comigo, na voz de Kika. É meio perturbador ter uma voz, que não seja a minha, em minha cabeça. Nunca acostumarei.&lt;br /&gt;- Você conseguiu falar com ela? – senti Tayla me sacudir. Seu humor ainda não mudara.&lt;br /&gt;Desfoquei por alguns segundos, recuperando-me da conversa inusita-da. &lt;br /&gt;- Ela disse para nós voltarmos ao meu quarto.&lt;br /&gt;- Ela disse mais alguma coisa?&lt;br /&gt;- Só isso.&lt;br /&gt;Dez segundos de silêncio. Tayla não parava de olhar a parede de espe-lhos atrás da grande figueira.&lt;br /&gt;- O que faremos? Ela pediu para não demorarmos. – apressei.&lt;br /&gt;- Faremos o que ela pediu. – disse sem me olhar.&lt;br /&gt;Tayla seguiu em direção a porta, vagarosamente. Parecia não estar muito empolgada em continuar seguindo as pistas.&lt;br /&gt;Saímos da sala e fizemos o mesmo caminho, para voltar ao meu quarto. Passamos pela sala de jantar, pegamos minha nova mochila, subimos as escadas, entramos no imenso corredor da linda sala de música e da velha poltrona vermelha. Tayla não disse uma palavra até chegarmos ao meu quarto. Todas as vezes que eu a olhava ela soltava um meio sorriso, sem graça, e voltava em seus pensamentos. Seu olhar dançava entre duas emoções diferentes. Algumas vezes parecia resolver cálculos de física avançada, outras vezes sua feição era de desprezo e repugnância.  &lt;br /&gt;Enfim chegamos ao meu quarto. Abri a porta e a deixei entrar primeiro. A Laranjinha Sardenta ainda estava com aquele olhar de matadora de aluguel. Em seu rosto não havia sinais de felicidade ou algo perto disso.  &lt;br /&gt;Tayla entrou no quarto, ainda pensativa, dirigiu-se até a chaise ao pé da cama, deitou e lá ficou. Seus olhos fitavam o teto e uma ou duas vezes ela olhava em direção ao mezanino lotado de livros. &lt;br /&gt;- O que houve com ela? Vocês discutiram? – perguntou Kika, num tom baixo. &lt;br /&gt;- Eu não sei, não falei nada a ela. Acho que deve ser a mão, a porta da sala de livros a queimou. – lancei o olhar para a coisinha laranja es-tendida sobre a chaise. Mas ela não parecia preocupada com a leve queimadura em sua mão.&lt;br /&gt;- Ela está muito machucada? – Kika deu alguns passos para dentro do quarto, preocupada com Tayla. &lt;br /&gt;- Não se preocupe, só ficou vermelho, nem saíram bolhas. &lt;br /&gt;- Por que ela tentou abrir a porta, ela sabia que seria impedida.&lt;br /&gt;- Foi um momento de descuido. Tayla estava muito apreensiva com a presença da mãe de Noba. Chegou até dizer que a coitada estava nos vigiando. – usei um tom irônico.&lt;br /&gt;- Mas o que fez Tayla pensar isto de Grianna? – Kika parecia muito interessada no rumo em que nossa conserva havia tomado.&lt;br /&gt;- A Tayla é louca, a... – dei uma pausa - Grianna?  &lt;br /&gt;Kika assentiu.&lt;br /&gt;- Ela só foi perguntar se nós estávamos com fome. &lt;br /&gt;- Não aconteceu mais nada? Eu não a conheço tão bem quanto você, mas tenho certeza que Tayla não é de tirar conclusões precipitadas. Grianna deve ter dito algo, sem que você perceba, e ela não gostou de ouvir.   &lt;br /&gt;- Não, ela não disse nada. – forcei a memória, mas fui incapaz de en-contrar algo que deixaria Tayla magoada. &lt;br /&gt;- Tayla não te disse nada? – perguntou apreensiva.&lt;br /&gt;- Ela disse que tinha alguém nos escutando do outro lado da porta. Fomos até lá e era Grianna.&lt;br /&gt;- Nada mais? &lt;br /&gt;- Acho que não. &lt;br /&gt;- Ela agiu como se tivesse sido pega de surpresa?&lt;br /&gt;- Não. Mas ela não parecia muito feliz. – lembrei-me.&lt;br /&gt;Kika permaneceu calada, pensativa, alguns segundos.&lt;br /&gt;- Talvez sua irmã esteja certa. – alertou.&lt;br /&gt;- Talvez não. – respondi insegura – Tayla sempre acha que todas as pessoas do mundo são más. Vive se metendo em encrenca por isso. – minha voz saltou dois terços, assim como a rapidez que as palavras saíram.&lt;br /&gt;- Garanto que ela quase nunca está errada.&lt;br /&gt;- Isto é verdade. – refleti&lt;br /&gt;- Não acha que está na hora de dar mais crédito a ela? Não percebe que ela está fazendo de tudo para você ter seus pais de volta? Ela viajou um dia inteiro em cima de um Grifo, segurando sua mão, enquanto você se contorcia de dor. Sozinha, aos quinze anos de idade, ela en-frentou o conselho dos anciãos do reino que não a queriam aqui. Você sabe por que eles a deixaram ficar? – perguntou, segurando meu olhar em seus olhos penetrantes. Nem parecia uma adolescente de dezoito anos. Ela falava como Valentina.  &lt;br /&gt;Fui incapaz de dizer uma frase sequer.&lt;br /&gt;- Por que essa garota de apenas quinze anos prometeu lhes entregar todas as lembranças que tiver daqui. – seu tom continuou baixo, porém áspero. &lt;br /&gt;Arregalei meus olhos, espantada. &lt;br /&gt;Nunca pensei que Tayla fosse capaz de fazer algo assim por mim. Perder suas lembranças só para que a idiota aqui, que nem ao menos acredita no que ela diz, tivesse sua família de volta.&lt;br /&gt;- Se não bastasse tudo isso – continuou -, ainda dormiu sentada na poltrona ao lado da cama esperando você melhorar. Ela fez tudo isso para que você, que nunca leva a sério ao que ela diz, tivesse a chance de ser feliz. &lt;br /&gt;- Eu-&lt;br /&gt;Kika interrompeu-me.&lt;br /&gt;- Eu ainda não terminei. &lt;br /&gt;Meus lábios se fecharam imediatamente.&lt;br /&gt;- Sua avó Aine me pediu pra ficar de olho em Tayla. &lt;br /&gt;- Por quê? – fechei a boca rapidamente. Esperei que ela não se zangas-se.&lt;br /&gt;Não pretendo estar perto quando essa cruza mutante, de fênix com leão, se zangar.&lt;br /&gt;- Por que ela é apenas uma humana indefesa, e é a humana mais inte-ligente que nós já conhecemos. Alguém pode fazer mal a ela. Nunca ouviu falar que “o ignorante vive mais que o sábio”?&lt;br /&gt;- Você está me dizendo que ela pode estar em perigo por que... Sabe demais? – diminuí mais o tom de voz, para que Tayla não ouvisse. &lt;br /&gt;- Exatamente! Zarah, seu tio não conseguiria entrar no castelo, as duas vezes em que seus pais sumiram se não contasse com a ajuda de al-guém de dentro. – sua respiração alterou – Tayla já havia tirado essas conclusões antes mesmo de virmos para cá. Ela acha que seu tio só conseguiria entrar se alguém daqui de dentro do castelo o ajudasse. Ela só não descobriu quem. &lt;br /&gt;- Mas você acha que Grianna seria capaz de trair meus pais deste jeito? – as palavras não saíram num tom amistoso.&lt;br /&gt;- Eu não sei Zarah, não acredito que seja verdade, pois ela trabalha há tanto tempo com sua família. Não acredito que seja ela. Antes de vir para cá, Grianna cuidava do castelo de Aine e Berserker.&lt;br /&gt;Senti meu coração acelerar e meu rosto esquentar. Uma onda de afli-ção e raiva dançou desde a ponta dos meus pés até o último fio de cabelo. &lt;br /&gt;Kika percebeu a mudança no meu rosto. &lt;br /&gt;- Por via das dúvidas eu estou de olho nela o máximo de tempo que posso. Não se preocupe. Você precisa se focar em desvendar as pistas de seu pai e deixar que do resto eu cuide. &lt;br /&gt;Assenti. &lt;br /&gt;- Conhece alguma Muriel? – lembrei-me &lt;br /&gt;- Ela falou com você? – o grande Grifo parecia aflito&lt;br /&gt;- Não. – sentei no chão à sua frente – A próxima pista está com ela.&lt;br /&gt;Kika abaixou-se lentamente até que seus olhos ficassem na altura dos meus. Seu olhar, antes preocupado, agora estava com um brilho dife-rente, como se um peso tivesse sido tirado de suas costas.&lt;br /&gt;- Coloque Elise no chão. – ordenou&lt;br /&gt;Sem entender, tirei Elise do meu ombro, na marra, e a coloquei no chão. Ela começou a protestar.&lt;br /&gt;- Elise, não faça isso! – forcei uma cara brava.&lt;br /&gt;Não adiantou nada. Elise continuou colada em mim. &lt;br /&gt;Kika lançou um olhar de dar medo em qualquer um. O pobre chinnuril ficou espantado, correu, de um jeito engraçado, e subiu no colo de Tayla.&lt;br /&gt;- O que aconteceu? – ela perguntou. A pequena “pluminha” branca em suas mãos estava de olhos arregalados, alternando o olhar entre mim e Kika.&lt;br /&gt;- Fique com ela – ordenei.&lt;br /&gt;- Tudo bem. – Tayla a segurou firme.&lt;br /&gt;- Não importa o que aconteça, não a solte. – disse Kika – Coloque a mochila na cama. – apontou. Andei alguns passos, tirei-a dos ombros o mais rápido que pude, jogando, com força, sobre a cama.&lt;br /&gt;- O que eu lhe mostrarei agora é muito importante e terá de ficar entre nós. – seu hálito de flores do campo tocou cada milímetro do meu rosto, me deixando fora do ar por segundos. &lt;br /&gt;Todo o quarto movimentou-se como um ciclone enquanto nós perma-necíamos imóveis. Aos poucos a imagem mudou, dando lugar a uma linda paisagem verde esmeralda alternada entre milhares de macieiras e aveleiras, salgueiros, carvalhos, olmeiros e bétulas e várias outras árvores e plantas postas em longas filas e colunas. Parecia que cada uma havia escolhido seu lugar na fila e obedecia à linha reta que se formava nos espaços vazios entre elas.&lt;br /&gt;Estou incrivelmente impressionada com a minha capacidade de dife-renciar toda aquela variedade de árvores que eu nunca tinha visto pes-soalmente. Era como se eu fizesse parte de toda aquela floresta orga-nizada. Era como se ela dependesse de mim e eu dela. Senti-me livre e mais saudável.&lt;br /&gt;- O que é tudo isso? – respirei fundo o ar que a grande quantidade de clorofila exalava. Fechei os olhos, respirei mais algumas vezes, espe-rando a resposta.&lt;br /&gt;- Esta é Dinniúntt. &lt;br /&gt;- Estou sem a tecla sap. – sorri ironicamente&lt;br /&gt;- Como é?&lt;br /&gt;- Eu não entendi o que disse. Você falou grego? – sorri novamente&lt;br /&gt;- Não Zarah. É a língua que todos falam aqui. Nossa língua mãe.&lt;br /&gt;- Por que, se todos falam português? – fucei meu cérebro, esperando alguma memória que respondesse minha pergunta.&lt;br /&gt;- Bem, nós estamos na terra dos Sidh. É normal que todos aqui falem esta língua. &lt;br /&gt;- Por que eu só ouvi falarem português?&lt;br /&gt;- Ah! Nós falamos muitas línguas. – deu uma pausa – “Falar” não é a palavra certa para o que eu faço, mas tudo bem. – &lt;br /&gt;- É – refleti.&lt;br /&gt;Kika encarou-me, mas havia uma espécie de sorriso escondido no grande bico e em todas aquelas penas.&lt;br /&gt;- Aprendemos desde pequenos, apesar de o português ter sido adicio-nado à nossa lista somente na época em que descobriram que Ryan fora escondido no Brasil.&lt;br /&gt;- Vocês falam todas as línguas do mundo? – perguntei impressionada.&lt;br /&gt;- Não todas, mas uma boa parte delas. Não somos obrigados a apren-der, apesar de a grande maioria dos Sidh fazer questão.&lt;br /&gt;- Em que lugar da Irlanda nós estamos? &lt;br /&gt;- Nos limites dos Anéis de Aine. Não existe um lugar certo para os Anéis, é sua avó quem determina o lugar, estamos sempre mudando de cidade. Pode-se dizer que somos nômades. – a voz mudou para um tom divertido.&lt;br /&gt;- Por que você me trouxe para cá? – lembrei do principal motivo de estarmos aqui.&lt;br /&gt;- Como assim, Zarah? Este é o seu mundo. Você precisa salvar seus pais. – a doce ave deu lugar a um leão aborrecido.&lt;br /&gt;- Eu não quis dizer para dentro dos Anéis. Perguntei sobre esta flores-ta. - apontei&lt;br /&gt;O leão voltou a ser a calma e delicada ave de antes.&lt;br /&gt;- Ah. – sentiu-se envergonhada pela ação precipitada - Eu te trouxe aqui para mostrar algo que seu pai me deu antes de te esconder.&lt;br /&gt;- Uma floresta? – fiz cara de desprezo&lt;br /&gt;- Pare de ser tão... Tão adivinha! – seu humor fez o leão tentar sair.&lt;br /&gt;- Desculpe. – disse rapidamente, tentando evitar que o leão ganhasse a briga com a fênix.&lt;br /&gt;- Desculpas aceitas.&lt;br /&gt;Kika desviou os olhos dos meus, o que me deu certa segurança, e fixou sua visão até depois das grandes árvores. Eu segui seu olhar, atenta a não perder detalhe algum.&lt;br /&gt;Aos poucos as árvores ficaram cada vez mais próximas. Era como estar parada em uma grande e movimentada estrada de mão única, na contramão, com muitos carros passando em alta velocidade ao nosso lado. &lt;br /&gt;Todo aquele movimento de galhos e folhas me deu uma leve vertigem. &lt;br /&gt;- É meio... – arfei - rápido isso, né. – sentei, coloquei a cabeça entre os joelhos, esperei a tontura passar e a respiração voltar ao normal.&lt;br /&gt;A grande ave-mamífero não desviou os olhos das árvores um segundo sequer.&lt;br /&gt;- Você já pode olhar. – inclinou-se até tocar, de leve, o bico em minha cabeça.&lt;br /&gt;Levantei lentamente, temendo sentir náuseas. &lt;br /&gt;- Nossa!&lt;br /&gt;Kika havia nos levado para dentro da floresta, perto de um riacho re-pleto de pedras com musgos, algumas cachoeiras e muitas árvores num tom de verde tão lindo que dava vontade de tocar para ter certeza de que não era apenas uma ilusão. &lt;br /&gt;- Isto é... – não encontrei a palavra certa para descrever aquele lugar. Se eu dissesse incrível, seria uma ofensa a tal beleza.&lt;br /&gt;- Repugnante. – era o leão quem falava agora.&lt;br /&gt;- Repugnante? Eu não diria isso, diria extraordinário, sobrenatural, magnífico, impressionante ou qualquer sinônimo.&lt;br /&gt;- Como pode achar extraordinário um ato tão cruel quanto este? Na-quele momento, se a parte leão de Kika fosse a da frente, ela teria me mostrado todos os dentes e ainda soltaria um bom rugido.&lt;br /&gt;- O que você tem contra a natureza? – perguntei incrédula.&lt;br /&gt;- Não é a floresta. – apontou a cabeça na direção da maior das cacho-eiras.&lt;br /&gt;- O que eles estão fazendo? – perguntei espantada.&lt;br /&gt;Havia quatro homens armados com lanças esperando algo sair de den-tro da grande cachoeira. Eles vestiam camisas, sem botão, brancas e encardidas e botas de couro aparentemente feitas à mão e sem acaba-mento algum. Um deles era bem alto e forte, tinha cabelos negros e olhos verdes. O outro, ao seu lado, também muito forte, era pouco mais baixo, tinha cabelos castanhos e barba por fazer e um tom de pele muito claro. O terceiro homem, a meu ver, era gêmeo com o segundo, pois as feições eram praticamente as mesmas: cabelos castanhos, forte e pele branca. Exceto pela ausência da barba e estar pouco acima do peso.  O que estava mais perto da cachoeira não era forte como os outros, mas era alto como o primeiro homem. Tinha cabelos loiros encaracolados, pele dourada e rosto de aparência angelical.&lt;br /&gt;- O que eles estão fazendo? – dei alguns passos em direção à cachoeira&lt;br /&gt;- Esperando Muriel sair. – disse. Ela estaria trincando os dentes se tivesse algum.&lt;br /&gt;- Eles farão o que com ela? – tentei não pensar o pior.&lt;br /&gt;- Prendê-la! - uma lágrima rolou de seus olhos flamejantes – Minha mãe morreu tentando protegê-la.&lt;br /&gt;- Eu sinto muito. – acariciei a ponta de sua asa.&lt;br /&gt;- É agora! – arfou.&lt;br /&gt;De dentro de uma passagem secreta, na lateral da cachoeira, saiu uma linda e delicada jovem de pele dourada, olhos castanhos, boca carnu-da, orelhas levemente pontudas e sobrancelhas arqueadas. A jovem deveria ter uns vinte anos, não mais que isso. Seus longos cabelos negros tocavam abaixo do rústico cinto preso numa calça de couro grosso com costuras nas laterais. A camisa, parecida com a dos homens que a aguardavam, apesar de ser feminina, era azul com manga, de sino, 3/4. Algo parecido com um corpete, bem amarrado à esbelta silhueta, mantinha a camisa colada no seu abdome e frouxa nos braços. &lt;br /&gt;- O que ela é? – perguntei, sem desviar os olhos.&lt;br /&gt;- Muriel é uma ninfa da floresta. – disse baixinho.&lt;br /&gt;- Ela não parece uma ninfa. – discordei&lt;br /&gt;- Você já viu uma? – desafiou-me.&lt;br /&gt;- Não, mas nos livros elas são loiras, delicadas e usam vestidos feitos de flores. – dei de ombros.&lt;br /&gt;- Livros. – debochou – Eles gostam de contar histórias erradas. Aposto que nenhuma destas ninfas que você viu possui um Grifo. – senti seu olhar me fuzilar.&lt;br /&gt;- Não mesmo! – sussurrei, tentando evitar que os homens nos ouvis-sem.&lt;br /&gt;- É melhor acreditar em mim. – disse, me olhando. Menos de um piscar de olhos ela estava séria novamente, olhando na direção dos quatro seres repugnantes.&lt;br /&gt;Os homens estavam mais perto da cachoeira, mais perto de Muriel e se distanciando de nós duas.&lt;br /&gt;- Precisamos ajudá-la! – sussurrei.&lt;br /&gt;Kika não saiu do lugar.&lt;br /&gt; Saí correndo em direção aos homens, sem planejar nada. Com certeza apanharia, mas pelo menos daria para salvar Muriel e a mãe de Kika.  &lt;br /&gt;- Não adianta. – disse Kika numa voz melancólica.&lt;br /&gt;Parei há alguns metros dos quatro homens. Olhei nos olhos do Grifo, que agora não passava de um animal triste e indefeso. &lt;br /&gt;- Nós precisamos ajudá-las. – sussurrei para que não me ouvissem.&lt;br /&gt;- Não há como interferir. Isto é apenas uma visão.&lt;br /&gt;Desviei o olhar, passando-o entre os quatro homens e Muriel, que ain-da não os tinha visto.&lt;br /&gt;Permaneci imóvel. Senti uma dor insuportável por não poder ajudá-la, mas não havia nada o que fazer a não ser sentar e esperar tudo aconte-cer.&lt;br /&gt;Quando Muriel puxou as pedras para fechar a entrada da caverna os quatro homens a cercaram. &lt;br /&gt;A garota era uma ótima lutadora. Mas os quatro também lutavam mui-to. Ela lutou com eles por um longo tempo, encheu o loiro de socos e o jogou no grandão, que por sua vez tentou lhe dar uns bons golpes enquanto os gêmeos se esquivavam dos chutes e pontapés e tentavam pegá-la. &lt;br /&gt;Quatro homens bons de briga era um número grande para as habilida-des da pobre garota. Os gêmeos, de tanto rodearem-na, acabaram con-seguindo achar um ponto fraco e a prenderam. Apesar de já estar a-marrada ela não desistiu da luta. Esperneou tanto que acabou chutando o rosto de um deles, o qual ficou muito bravo e lhe deu um soco no estômago, deixando-a caída no chão, sem forças.  &lt;br /&gt;De repente, surge no céu um brilho incandescente.  &lt;br /&gt;- Máthair. – sussurrou Kika&lt;br /&gt;- O que?&lt;br /&gt;- Minha mãe! – seus olhos brilharam em chamas douradas.&lt;br /&gt;À medida que a mãe de Kika se aproximava, deixava de ser apenas um brilho incandescente e se tornava uma grande Grifo flamejante.&lt;br /&gt;Ouvi o gêmeo mais gordo dizer algo. Todos deixaram Muriel de lado, pegaram as lanças e esperaram o Grifo chegar mais perto.&lt;br /&gt;“Téigdh!” – disse Muriel numa voz rígida, quebrada pelo arfar de sua respiração. &lt;br /&gt;O homem mais forte mantinha os olhos colados na mãe de Kika.&lt;br /&gt;O Grifo deu um rasante, pegou o loiro com suas grandes garras, o le-vou para cima e o soltou. Foi uma queda livre sem pára-quedas. Aquele estava fora de combate para sempre.  &lt;br /&gt;O ato do Grifo só fez os outros três ficarem ainda mais raivosos. &lt;br /&gt;Eles começaram a gritar, gesticulavam chamando-a e apontavam as lanças em sua direção enquanto gritavam em outra língua.&lt;br /&gt;- Você não precisa ver isto. – disse para Kika, sem tirar os olhos da luta.&lt;br /&gt;- Eu preciso. – parecia incomodada – Preciso entender. Seu pai não me deu isto em vão, há algo que eu não consigo ver, algo implícito. Já revi esta cena muitas e muitas vezes, mas não consigo encontrar nada. – sacudiu a cabeça, indignada.&lt;br /&gt;- Você acha que é algo que eles dizem?&lt;br /&gt;- Não creio que seja isto. Eles não dizem nada importante, na verdade eles nem falam muito. Tenho certeza que é algo simples que está aí o tempo todo, simples de mais para ser notado. &lt;br /&gt;Seu brilhante rosto estava tão submerso em tristeza que me fez ser incapaz de dizer algo. Permaneci ali, olhando atentamente enquanto aquele imenso ser mágico tinha seu momento de tristeza e decepção.&lt;br /&gt;- Nós iremos descobrir. – fiz o melhor que pude, evitando que minha voz tremesse.&lt;br /&gt;Enquanto eu tentava esconder o nervosismo e prestar atenção na luta, Muriel nocauteou o grandão depois de acertar mais de seis socos em seu grande e redondo rosto, agora ensangüentado. &lt;br /&gt;Sobraram somente os gêmeos, que agora mostravam sinais claros de pânico e pavor ao ter de enfrentar um Grifo e uma Ninfa sozinhos.&lt;br /&gt;Senti-me confiante e segura de que eles desistiriam da briga e iriam embora. Não havia como a mãe de Kika e Muriel se darem mal. Não agora que sobraram somente os clones covardes. &lt;br /&gt;Muriel encarou um dos gêmeos, que deu um passo atrás. A mãe de Kika aterrissou com tanta rapidez e força que fez a terra do chão subir. Ela parou exatamente atrás do outro gêmeo, que se virou rapidamente para encará-la.  &lt;br /&gt;- Esta é a terceira pista. – disse. Seus olhos não desviavam um segundo sequer da imagem de sua mãe.&lt;br /&gt;Senti um arrepio. &lt;br /&gt;Podia ver a grande neblina de nervosismo prestes a me desfocar. “Não há tempo para isto! Você é forte, controle-se!” repedi várias e várias vezes em minha cabeça. Meus sentimentos estão diretamente ligados aos de Kika, portanto se eu me descontrolar tudo irá por água abaixo. Já basta ter de compartilhar sua tristeza, uma dose extra de pânico em nós duas iria complicar ainda mais as coisas.&lt;br /&gt;- Por que você não me disse antes? – fitei-a. Mas ela não parecia ouvir.&lt;br /&gt;- Não precisa assistir esta parte, se não quiser. – alertou.&lt;br /&gt;- É agora? – perguntei espantada. &lt;br /&gt;Como pode ser o final? Não há como elas perderem agora. Não contra estes dois clones idiotas.&lt;br /&gt;Meus olhos encheram de grossas lágrimas, e com elas veio um aperto no coração, como se ele estivesse sendo esmagado. Algo muito além de tristeza. Aquele sentimento não estava certo, era como se alguém estivesse me apertando forte o bastante que impedisse meu coração de bater regularmente e também havia a sensação de nunca mais sentir felicidade. Doía muito, e eu realmente não estava entendendo o por-quê do sentimento tão intenso. Foi aí que me lembrei da ligação entre Kika e eu. Era óbvio que o aperto em meu coração é exatamente o que ela sentiu ao perder a mãe.&lt;br /&gt;Lancei o olhar ao grande rosto da ave. Kika estava de olhos fechados, apertados, e todas as suas penas e pêlos eriçados. Ela parecia cem qui-los mais gorda, como os pássaros ficam em dia de chuva, apesar de nela as proporções serem bem maiores.&lt;br /&gt;Eu ainda não conseguia entender como Muriel e a mãe de Kika perde-ram aquela luta contra os gêmeos sem cérebro. Era tudo tão óbvio. Elas já os haviam dominado. Por algum tempo cheguei a pensar que talvez esta visão terminasse de maneira diferente das outras que Kika teve. &lt;br /&gt;Este rápido pensamento se afastou como um relâmpago. &lt;br /&gt;Os quatro homens, que era a quantidade inicial deles, não estavam sozinhos. Era por isso que os gêmeos não estavam com medo de en-frentar as duas. Eu deveria saber que havia algo mais, senão eles já teriam corrido de lá há muito tempo.&lt;br /&gt;Foi aí que minha respiração acelerou.&lt;br /&gt;De trás da cachoeira saíram duas águias gigantescas, pouco menores de Kika, com olhos cor âmbar líquido e fulminando de raiva.&lt;br /&gt;Naquele momento eu tive vontade de correr na direção delas. Gritar para chamar sua atenção, assim evitando que elas matassem Muriel e a grifo. Qualquer coisa estúpida que eu fizesse seria melhor do que ficar aqui parada assistindo o estrago ser feito.&lt;br /&gt;- O que- &lt;br /&gt;– Bem vinda ao mundo real! – exclamou, desanimada.&lt;br /&gt;- Mundo real? – fitei-a - Como assim? Este não é o mundo real, o que você sabe sobre o mundo real? Você vive no mundo dos contos de fada, da magia, feitiçaria. Valentina, Tayla, Cadu, Milla, Nolan, eles sim vivem no mundo real.&lt;br /&gt;- Você não percebeu? – disse impaciente.&lt;br /&gt;- Percebi o que? – desafiei.&lt;br /&gt;- Aquele é o mundo de contos de fada, Zarah! – seus grandes olhos se encheram de presunção. – Este é o mundo real! O mundo em que você vivia é o mundo que todas as criaturas boas daqui gostariam de estar. Um mundo em que uma lei serve para todos e não há seres malignos percorrendo os bosques atrás de vítimas, destruindo tudo e todos que vêem pela frente. Aqui as regras mudam conforme o jogador. Cada espécie, tribo, criatura, reino, vila tem suas próprias regras. Agora você vem me dizer que eu vivo em um conto de fadas? Pense bem. Olhe ao seu redor, Zarah! Estamos assistindo minha mãe morrer, seus pais estão desaparecidos, com apenas dezoito anos você é a única que pode salvá-los. Onde no seu “mundo real” isto aconteceria? Você ouviu falar, em qualquer uma das histórias dos contos de fada, de leis ou alguém que as façam ser cumpridas? Não, você nunca ouviu! E por quê? Porque isto não existe no mundo real!&lt;br /&gt;Aquilo me deixou com medo, nunca vi Kika descontrolada deste jeito, apesar de tê-la conhecido ontem. Ela falava tão calmamente, tão mei-ga, que esta explosão de raiva me assustou.&lt;br /&gt;- Me desculpe, eu não quis... – não sabia como me desculpar. Percebi que a melhor coisa a fazer era me calar. Evitaria a chance de dizer outra idiotice. &lt;br /&gt;- Sinto muito por dizer todas estas coisas, mas você realmente me tirou do sério com esta conversa de “conto de fadas”. – desculpou-se – Eu não quis te assustar. – seu rosto alternava os sentimentos de dor e culpa.&lt;br /&gt;- Me desculpe. – apoiei todo o lado esquerdo do meu corpo em Kika. Fitei o chão, envergonhada. Ela passou a asa em volta de mim, acei-tando minhas desculpas.&lt;br /&gt;A esta altura, as águias já haviam entrado na luta. As duas foram na mãe de Kika enquanto Muriel tentava dar conta dos gêmeos covardes.&lt;br /&gt;Minha atenção estava toda voltada para Muriel. Ela estava se saindo muito bem, um dos homens estava contundido, caído no chão e sem fôlego, mas o outro resistia bravamente. &lt;br /&gt;É, acho que posso dar um crédito a ele. Ele até que é valente, mesmo sabendo que não vai agüentar por muito tempo.&lt;br /&gt;- Ele é resistente. – sussurrei. Mas Kika não me deu ouvidos. Ela me apertou junto de si, me protegendo.&lt;br /&gt;Foi aí que me lembrei de sua mãe e as duas águias. Eu sabia que aquilo não acabaria nada bem. &lt;br /&gt;Elas não lutavam no chão, como Muriel e o homem. Elas sobrevoavam a cachoeira, arranhando-se, e as duas águias estavam dando um trabalho e tanto para a Grifo. Tentavam se chocar contra ela, bicavam, arranhavam e faziam de tudo para derrubá-la. Mas a mãe de Kika re-sistiu o máximo que pôde. Apesar de ser pouco maior que aquelas aves demoníacas e conseguir que seu corpo todo ficasse em chamas, ela não resistiu muito tempo, caindo aos poucos até seu corpo atingir a parte mais rasa e cheia de pedras do rio.&lt;br /&gt;- Não! – gritei junto com Muriel.&lt;br /&gt;Kika me apertou ainda mais, baixou a cabeça até tocar a minha, ten-tando me consolar.&lt;br /&gt;- Shhhh... Já acabou. – disse calmamente, afagando minha cabeça com o bico.&lt;br /&gt;Ficamos assim alguns segundos, até eu não agüentar mais ouvir Muriel gritar desesperadamente.&lt;br /&gt;A pobre garota estava tão focada em ajudar a mãe de Kika, que esque-ceu sua luta contra o gêmeo remanescente. Este se aproveitou do mo-mento de fraqueza dela e a dominou de vez. &lt;br /&gt;Naquele momento percebi que Muriel havia desistido de tudo, até mesmo de viver. Ela poderia lutar contra o homem, sim poderia, e se sairia muito bem, mas não o fez. A vida não tinha mais sentido depois que sua companheira alada se fora. Havia fraqueza e tristeza estampa-da em seu rosto marcado por cortes e arranhões. Os olhos não tinham vida ou brilho, o corpo não se mexia por conta própria, o único esforço visível era do homem que a carregava, amarrada e amordaçada, sobre os ombros.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1989948983729069475-284623857717669896?l=www.zarahluna.com.br' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://www.zarahluna.com.br/2009/11/cap-7-quem-e-muriel.html</link><author>iarafp_soares@yahoo.com.br (Iara Fepasiso)</author><thr:total>3</thr:total></item><item><guid isPermaLink='false'>tag:blogger.com,1999:blog-1989948983729069475.post-3095190964252749454</guid><pubDate>Thu, 15 Oct 2009 04:05:00 +0000</pubDate><atom:updated>2009-10-14T21:07:05.918-07:00</atom:updated><title></title><description>Gente... quero pedir desculpas, mas ainda não consegui terminar o cap 7!&lt;br /&gt;a facul está muito corrida e coisa e talss... mas prometo dar um jeito de não passar deste feriado.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1989948983729069475-3095190964252749454?l=www.zarahluna.com.br' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://www.zarahluna.com.br/2009/10/gente.html</link><author>iarafp_soares@yahoo.com.br (Iara Fepasiso)</author><thr:total>1</thr:total></item><item><guid isPermaLink='false'>tag:blogger.com,1999:blog-1989948983729069475.post-7812608710267070803</guid><pubDate>Thu, 17 Sep 2009 01:43:00 +0000</pubDate><atom:updated>2010-08-31T22:38:00.994-07:00</atom:updated><title>Cap. 6  A Carta</title><description>Tomei coragem e, finalmente, desenrolei o papel, já amassado. Por alguns instantes fui incapaz de ler. A letra era tão linda, leve e elegante que parecia estar gravada naquele papel há mil anos. Ela dançava entre os espaços vazios, do papel, cuidadosamente desenhada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meu solzinho&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Antes de começar a contar tudo o que você, provavelmente, está ansiosa para saber, preciso dizer que esta carta, ao contrário do que você pensa, não foi escrita por sua mãe. &lt;br /&gt;Desculpe-me por mentir, todos estes anos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meu nome é Ryan, eu sou seu pai. &lt;br /&gt;Assinei esta carta com o nome de Zarah por não ter outra alternativa. Você não sabe, aliás, ninguém sabe, mas eu sou o irmão adotivo de Valentina, o irmão desaparecido, que foi embora e deixou apenas um bilhete, e nunca mais voltou. É estranho que tudo esteja se repetindo, não exatamente igual, mas está. &lt;br /&gt;Assim como você, eu descobri que pertencia a outra família, uma família totalmente diferente do perfil que estava acostumado. &lt;br /&gt;Aos 19 anos recebi a visita de um homem muito bem vestido e de boa aparência. Este homem me contou a história de um menino que fora levado de seus pais, ainda bebê. Este menino pertencia a um mundo onde coisas que ele julgava serem impossíveis, aconteciam. Um mundo mágico, e que parte deste mundo dependia de sua volta. &lt;br /&gt;Quando ele me contou, pensei que estivesse louco e não dei muita importância, apesar de a história ser muito comovente. Mas aos poucos percebi alguns “deslizes” em sua fala, como: você, meu filho e algumas características que, em parte, se pareciam comigo. Tentei pensar o contrário, mas já não havia como. Eu estava, na época, tão empenhado em encontrar meus verdadeiros pais que me agarraria até a menos provável das chances. Porém, minhas suspeitas só foram confirmadas depois de ele responder minha pergunta sobre o fim da história, com um simples: “A partir daí, é com você, meu filho!”. &lt;br /&gt;O homem, que, agora, era meu verdadeiro pai, me pediu para voltar com ele, para o reino ser salvo.&lt;br /&gt;Eu pedi um tempo para pensar, mas ele me disse que seu tempo era curto e eu precisava decidir o mais rápido possível. Pensei em todas as possibilidades e resolvi acompanhá-lo, pretendendo voltar a Bonito logo depois que tudo estivesse resolvido.&lt;br /&gt;Não havia tempo para explicações, então minha única alternativa era deixar uma carta, para minha família, comprovando que eu estava bem e voltaria em breve. &lt;br /&gt;Quando cheguei ao meu “verdadeiro lar”, tudo era completamente diferente do que eu já havia visto. Havia seres poderosos, crianças com poderes especiais, pessoas do tamanho de borboletas, comidas diferentes, centauros, fadas, unicórnios, e muitas outras coisas. Minha primeira semana lá foi horrível, por que eu não conhecia ninguém, não havia nada de bom para fazer, além de ler, e eu não podia sair na rua, que as pessoas já começavam a apontar o dedo e cochichar umas com as outras: “Olha, aquele é o filho de Malvino e Nimue. O desaparecido!”. Ainda tinha que agüentar um irmão mais novo, pentelho, que só conversava comigo em outras línguas, para me irritar. A minha sorte é que consegui fazer um amigo, depois daquela semana infernal, que me levava para conhecer os reinos visinhos. &lt;br /&gt;Foi numa destas visitas que eu vi Zarah, a garota mais meiga e encantadora que conheci. Eu a vi, pela primeira vez, deitada em baixo de uma macieira, dormindo profundamente. A partir deste momento eu não consegui mais tirar meus olhos dela. &lt;br /&gt;Aproximei-me um pouco mais, observei os traços delicados de seu rosto, o tom alaranjado de seus cabelos e sua boca rosada. Porém, o que me chamou mais atenção foi o objeto caído sobre suas mãos, um desenho, perfeito, do meu rosto. Cheguei mais perto, a fim de pegar o pedaço de papel de suas mãos e olhar melhor, mas, sem querer, escorreguei num pequeno pedaço de madeira podre, há alguns centí-metros dela. A garota acordou muito assustada, mas o susto maior foi o meu, por que assim que me viu caído no chão, morrendo de vergonha, ela soltou um sorriso hipnotizador e de abraçou. Naquele momento meu coração disparou e eu fiquei sem reação. Fui incapaz de dizer uma só palavra. Ela não me dava espaço. Ficava o tempo todo dizendo “Sabia que você viria! Eu não desisti um só minuto...”. Ela só parou de falar depois de perceber que eu havia entrado em estado de choque. Não estava acostumado a lidar com garotas. Eu era tão tímido, que a única garota que já havia chegado assim tão perto de mim era minha irmã Valentina. A garota, então, libertou-me de seu abraço e sorriu, sem graça. Ela se apresentou, educadamente, e, antes que eu dissesse o meu nome, ela o fez. Perguntei surpreso, como ela sabia, e ela me explicou que já esperava por mim há algum tempo. Contou que eu era seu prometido, segundo aquela árvore, e me disse que se eu não a quisesse, ela não se importaria, pois o que importava era que eu estava lá, naquela hora. Eu não sabia o que dizer. Corei de vergonha, meu coração acelerou ainda mais e minhas mãos gelaram. A única coisa de que tinha certeza era que, depois daquele momento, não conseguiria viver um só minuto longe daquela garota. Então, pela primeira vez em minha vida, fiz algo impensado.&lt;br /&gt;A beijei.&lt;br /&gt;Depois daquele dia, nós nunca mais nos desgrudamos. Sem saber com agir, uma semana depois, a pedi em casamento, e alguns meses depois do casamento ela descobriu que estava grávida. Nove meses depois, você veio nos iluminar. Foi o dia mais feliz de nossas vidas. Nós dois éramos muito jovens para ser pais, mas conseguimos provar, para todos, que os míseros 20 anos pouco importavam, perto do inexplicável sentimento que tínhamos por você, e pela alegria de saber que você era o fruto do nosso amor. &lt;br /&gt;Meu irmão mais novo, Dylan, ficou completamente fora de si depois que Zarah e eu unimos as quatro magias. Ele tentou me matar e foi expulso dos limites do reino. &lt;br /&gt;Isto aconteceu antes de você nascer. &lt;br /&gt;Ele permaneceu longe durante muito tempo, mas, quando você completou um mês de idade, ele voltou. E estava mais forte. Trazia consigo uma magia antiga, que nem eu e Malvino fomos capazes de prever. Meu irmão invadiu o castelo, jogou um dos pedidos em Zarah, e ela desapareceu logo em seguida. Nós sabíamos que ele não descansaria até que todos estivéssemos fora de seu caminho. Tive alguns segundos para pensar, antes que ele desejasse algo sobre mim. Foi aí que tive a idéia de levar você para Valentina.Você, certamente, está chocada com toda esta história. Quero que saiba que meu amor nunca mudou e nunca mudará. Não pense que eu e Zarah te abandonamos, muito pelo contrário, nós estamos te protegendo. Esta foi à única forma, que encontrei de permitir que você cresça numa ótima família e longe dos perigos do seu verdadeiro mundo. É na certeza de que você terá um futuro seguro longe de tudo isso, que tomei todas estas decisões. Es-tá sendo muito difícil escrever esta carta. Olhando você aqui, dormindo profundamente em meus braços, me dá vontade de congelar este momento para toda a eternidade. Você dorme tranquilamente, o sono dos justos, nem parece que acabou de passar por tantas tragédias.Queria que sua mãe estivesse aqui. Eu deveria estar aprisionado em seu lugar, era eu que Dylan queria,, não Zarah. &lt;br /&gt;Eu a amo tanto. Assim como amo você. Isso é o que me torna forte em momentos como este que parece que o sol jamais nascerá de novo. Foi este sentimento que me amadureceu tão rápido. &lt;br /&gt;Quero que saiba que sua mãe e eu pensaremos em você todos os dias de nossas vidas. Não importa o que aconteça. &lt;br /&gt;Provavelmente não estarei mais entre vocês quando Valentina lhe entregar esta carta,. A dor que estou sentindo, em deixá-la, não pode ser medida ou comparada com nenhuma outra.&lt;br /&gt;Guiarei cada passo seu. Estarei sempre ao seu lado, mesmo quando você falhar. Quando o pior acontecer pense no esforço que fiz para mantê-la a salvo, e encontre as forças necessárias para se levantar e seguir em frente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alguns instantes antes de sua mãe desaparecer, Dylan baixou o bloqueio de sua mente, aproveitei o deslize e descobri onde ele a havia aprisionado. Como disse anteriormente, a magia que ele usou é muito antiga e possui várias armadilhas. Uma delas é a Magia do Selo, que impede a pessoa de dizer o que viu. Por isto estou proibido de dizer o lugar em que Zarah está. Mas não estou impedido de deixar pistas. &lt;br /&gt;Seu trabalho é desvendá-las o mais rápido possível.  &lt;br /&gt;Não se preocupe, elas te levarão direto para sua mãe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Tenho um pedido a fazer, antes de lhe entregar a primeira delas: &lt;br /&gt;Quando encontrar Zarah, dê um abraço bem forte, diga que eu a amo muito e que fiz tudo o que estava ao meu alcance para manter vocês a salvo. &lt;br /&gt;Lembre-se...&lt;br /&gt;Nunca deixe de acreditar no amor que sentimos por você! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com amor. Papai.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pista 01&lt;br /&gt;Origem guardada em coração puro.&lt;br /&gt;  &lt;br /&gt;Duas lágrimas rolaram de minhas bochechas, direto na carta. Sequei algumas, que ainda tocavam as maçãs do meu rosto, enrolei novamente o papel e levantei-me da poltrona. &lt;br /&gt;Tayla acompanhou, atentamente, todos os meus movimentos, sem se mover. Ao contrário do que previ, ela não pegou a carta de minhas mãos, perguntou o que estava escrito ou qual era a primeira pista. O que me deixou surpresa.&lt;br /&gt;Eu não estava mais chorando, e as lágrimas já haviam secado, mas de repente, quando meu olhar encontrou os dois lugares vagos da mesa de jantar, uma sensação de aperto no coração fez meus olhos inundarem, fazendo-me soluçar, de tanto chorar.   &lt;br /&gt;- Não fique assim. – disse Tayla, vindo em minha direção.&lt;br /&gt;Não fui capaz de respondê-la.&lt;br /&gt;O pequeno Chinnuril, percebendo minha tristeza, desceu de volta para minha mão, olhando-me atentamente, alojou-se em minha palma, fa-zendo um “carinho improvisado”. &lt;br /&gt;- Eu posso ver? – estendeu uma das mãos em direção à carta.&lt;br /&gt;Levei a carta, lentamente, em sua direção. Minhas mãos tremiam tanto que tive dificuldades em entregá-la.&lt;br /&gt;Tayla, com muito esforço, retirou-a de meu aperto forte e sentou-se, na mesma cadeira em que me observava ler a carta.&lt;br /&gt;Continuei onde estava. Esperando o ataque de choro passar e meus olhos pararem de nublar. Retirei o óculos, fiz um malabarismo, ten-tando não deixar Elise cair, limpei as lentes embaçadas pelas lágrimas, e coloquei-o logo em seguida.&lt;br /&gt;Fiz um enorme esforço para enxergar a pequena pessoa sentada na cadeira, poucos passos de mim, pois meus olhos ainda não haviam se recuperado da “super” quantidade de lágrimas. &lt;br /&gt;Diferente de mim, ao ler a carta, Tayla sorria constantemente, como se aquilo fosse um gibi da Turma da Mônica. Mas, quando terminou, percebi que algumas, tímidas, lágrimas começavam a brotar de seus grandes olhos castanhos. Ela levantou-se, me devolveu o pergaminho, já amarrado ao pedaço de couro que eu havia deixado sobre a mesa, soltou um grande suspiro, secou as lágrimas e disse:&lt;br /&gt;- O que nós faremos agora? &lt;br /&gt;- Eu, realmente, não sei! - respondi&lt;br /&gt;- Seu pai caprichou na pista em! &lt;br /&gt;- Eu não entendi nada. Acho que ele escreveu em outra língua. - re-clamei&lt;br /&gt;- Pare de ser lerda, Zah! Não deve ser tão difícil assim desvendá-la. Ele não seria capaz de escrever algo praticamente indecifrável. Nós só precisamos pensar com calma. Você verá como as coisas simplesmente se desenrolarão em nossas mãos. É só ter um pouco mais de paciência. – soltou uma piscadela.&lt;br /&gt;- Espero que você esteja certa. Espero mesmo. – fitei o chão.&lt;br /&gt;- Você pode ler a pista para mim? – disse Tayla, sentando-se numa das cadeiras.&lt;br /&gt;Acompanhei seu movimento, sentando-me na cadeira ao lado. &lt;br /&gt;Coloquei Elise sobre a mesa. Ela reclamou um pouco, fazendo aquele barulhinho engraçado, sapateou algumas vezes, mas eu não dei muita moral para ela, então, depois de algum tempo, ela parou.&lt;br /&gt;- Coitada! – reclamou Tayla.&lt;br /&gt;- Ela precisa saber que minha vida não gira em torno dela, Tah! Ou eu imponho limites enquanto ela inda é um bebê, ou ela será escandalosa assim para sempre. – passei a mão sobre sua vasta penugem branca. &lt;br /&gt;- Mas ela é só um bebê! - apontou&lt;br /&gt;- Você não ouviu quando Aine disse que ela fica atrás da mãe o tempo todo? &lt;br /&gt;- Ouvi.&lt;br /&gt;- E você ouviu quando ela disse que a mãe do Chinnuril, quando espe-ra ele sair do ovo, pode até morrer de fome por que ele não a deixa comer? Ouviu? – desafiei - Já pensou se Elise achar que eu tenho o dever de carregá-la nas mãos em todos os lugares que eu for? – es-palmei as mãos na mesa - Precisarei de minhas mãos quando estiver-mos decifrando as pistas. E outra, ela não vai ter um ataque cardíaco só por que não está “colada” em mim.&lt;br /&gt;Tayla concordou, silenciosamente.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1989948983729069475-7812608710267070803?l=www.zarahluna.com.br' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://www.zarahluna.com.br/2009/09/cap-6-carta.html</link><author>iarafp_soares@yahoo.com.br (Iara Fepasiso)</author><thr:total>3</thr:total></item><item><guid isPermaLink='false'>tag:blogger.com,1999:blog-1989948983729069475.post-7138141188984860802</guid><pubDate>Sat, 29 Aug 2009 02:39:00 +0000</pubDate><atom:updated>2009-08-28T19:43:04.620-07:00</atom:updated><title>Geeente</title><description>quando deixarem um comentário deixem também seu orkut ou twitter para poderem ser adicionados!!!&lt;br /&gt;Follow me &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;http://twitter.com/IFepasiso&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1989948983729069475-7138141188984860802?l=www.zarahluna.com.br' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://www.zarahluna.com.br/2009/08/geeente.html</link><author>iarafp_soares@yahoo.com.br (Iara Fepasiso)</author><thr:total>2</thr:total></item><item><guid isPermaLink='false'>tag:blogger.com,1999:blog-1989948983729069475.post-1386027341871113376</guid><pubDate>Wed, 26 Aug 2009 23:51:00 +0000</pubDate><atom:updated>2009-08-26T16:55:15.100-07:00</atom:updated><title>importante!!!</title><description>Gente, pra quem leu desde o começo...&lt;br /&gt;a Fênix do livro foi mudada para um Grifo, já que muitas pessoas me alertaram do exagero no tamanho dela. Depois de alguns dias pensando a respeito, e procurando um animal mais adequado, cheguei à conclusão de que mudá-la para um Grifo seria a melhor alternativa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para quem já leu, mil desculpas, mas a mudança foi necessária!!&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1989948983729069475-1386027341871113376?l=www.zarahluna.com.br' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://www.zarahluna.com.br/2009/08/importante.html</link><author>iarafp_soares@yahoo.com.br (Iara Fepasiso)</author><thr:total>2</thr:total></item><item><guid isPermaLink='false'>tag:blogger.com,1999:blog-1989948983729069475.post-3763971740017847894</guid><pubDate>Tue, 25 Aug 2009 03:02:00 +0000</pubDate><atom:updated>2010-08-31T22:34:45.854-07:00</atom:updated><title>Cap. 5 Surpresas</title><description>A sala, assim como o resto do castelo, possui as paredes, desenhadas. É decorada com alguns quadros antigos e enormes janelas medievais com vidros desenhados, cortinas vermelhas e um lindo lustre ao centro da larga e imponente mesa de refeições.&lt;br /&gt;Três dos enxutos idosos me deram as boas vindas abraçando-me edu-cadamente. Como já era de se esperar. &lt;br /&gt;Aine sorria, em pé ao lado de uma linda e delicada mesa de canto con-tendo diferentes tipos de bebidas.&lt;br /&gt;- Feliz aniversário Grania! – disseram, suavemente, como reis e rainhas se portam.&lt;br /&gt;- Grania, minha querida. Você não sabe a alegria que todos desta sala sentem em tê-la de volta. – disse a jovem senhora que, se eu não esti-ver errada, é minha avó paterna. &lt;br /&gt;Sorri, desconcertada.&lt;br /&gt;Todos parecem saídos de um conto de fadas medieval. &lt;br /&gt;Assim como Aine, a mãe de meu pai possui traços delicados e a pele sem rugas. A única semelhança entre as duas é a forma física esbelta e o andar leve e delicado. O cabelo dela é negro e, ao contrário da pele alva de Aine, a sua era dourada como a minha.&lt;br /&gt;A delicada senhora de longos cabelos negros, pele bronzeada, olhos negros penetrantes, vestia um traje parecido, no corte, com o de Aine, apesar de ser totalmente diferente na cor e textura. O tom do vestido lembrava a água do mar em dia de sol, azul esverdeado. Já o tecido era leve e descia rente ao corpo até tocar pouco abaixo da cintura marcada por um mais solto até os calcanhares, tentando realçar o “projeto de curvas” visível do esbelto corpo de modelo da jovem senhora.&lt;br /&gt;Os dois homens possuem barbas e roupas combinando, em época, com as das minhas duas avós. &lt;br /&gt;O marido de Aine, meu avô materno, é extremamente forte e possui uma carranca como feição, um bigode e nenhuma barba. Apesar da cara de mau, ele parece ser calmo. Ele é relativamente maior que Aine. Suas vestes podem ser comparadas aos cavaleiros das frentes de batalha, exceto pela modernidade, ausência de armadura e a longa capa vermelho-sangue que cobria quase todo o seu espaçoso corpo. &lt;br /&gt;Já o outro idoso, se é que posso considerá-lo um, tem aproximada-mente 1,90 metros de altura e está em plena forma física. Possui o cabelo misturando em tons de loiro e branco, assim como sua barba. Este se parece perfeitamente com um príncipe, aposentado, de histórias encantadas. Ele ainda estava vestido como nos tempos de glória, apesar de, como musculoso, sua roupa era mais moderna. &lt;br /&gt;Fiquei tão impressionada com a beleza de todos que sequer dei conta de já estar dentro da sala.&lt;br /&gt;- Eu sei que vai parecer estranho, mas – disse a mulher, abraçando-me – Eu sou Nimue, sua avó. É muito estranho sua avó precisar se apre-sentar, mas aqui estamos nós. Todos precisando nos apresentar.&lt;br /&gt;Senti vergonha, novamente, pela calorosa recepção de Nimue.&lt;br /&gt;- Sinto por não estar ao seu lado quando acordou, mas precisei resolver alguns conflitos no mundo das águas. Os Sidh estão eufóricos com a sua chegada, todos querem saber qual o seu iznuart. &lt;br /&gt;Ótimo, mais uma palavra para a “Tayla traduções simultâneas”. &lt;br /&gt;Antes de eu me virar e olhá-la, já prevendo, ela respondeu.&lt;br /&gt;- Iznuart é como se fosse sua preferência. Dentro de você há os pode-res dos dois reinos, mas você sempre se sairá melhor em uma das ra-mificações. Se demonstrar melhor habilidade no céu quem te guiará nos ensinamentos será sua avó Aine. Caso controle bem o fogo, sua mãe te ajudará. Vegetação, seu avô Malvino. - apontou o forte idoso ao meu lado, que deu um leve sorriso. – Em tudo o que envolve as artes, seu pai. Nas águas doce e salgada, Nimue. Não sei se você per-cebeu – alertou-me – mas ela mesma acabou de dizer que precisou “resolver alguns conflitos embaixo d’água”. &lt;br /&gt;Assenti.&lt;br /&gt;- E por último, mas não menos importante – olhou para o velho parru-do – se você for boa em lutar seu avô Berserker poderá dar conta do recado. – deu uma piscadela, retribuída, imediatamente, pelo “Senhor Forte”.  &lt;br /&gt;Eu devo ter dormido uma eternidade mesmo, pois ela já conhece tão bem todos os meus avós que já está íntima deles.&lt;br /&gt; - Bem, todos nós já fomos apresentados, portanto podemos mandar servir o almoço, certo? – Berserker apressou-se, saindo da sala. Dirigiu-se à cozinha, penso eu.&lt;br /&gt;- Tayla, às vezes você me assusta, sabia? Ainda vou perguntar algo que você não saiba. &lt;br /&gt;Todos riram.&lt;br /&gt;- Sua exagerada! – disse Tayla, depois de me dar um leve empurrão no ombro.&lt;br /&gt;- Ela sabe muitas coisas sobre este mundo.  Não penso que “assustar” seja a palavra correta. O termo certo é “impressionar”. – soltou Mal-vino - Fiquei muito impressionado com as perguntas que ela me fez ontem à noite. Ela me disse ter lido na internet. Não sabia que as pes-soas se interessavam tanto por nossas histórias. – virou-se à Nimue e Aine – Na Irlanda tudo bem, mas no Brasil? &lt;br /&gt;- Ela não tem nada para fazer. É por isso que sabe tantas coisas. – dei alguns passos, aproximando-me deles.&lt;br /&gt;- Diferente de você que só procura biografias dos compositores de música clássica e livros de magia, eu tento me informar sobre tudo. – mostrou-me a pequena língua.&lt;br /&gt;- Meninas, não é hora de discussão. – disse Aine, sentando-se à mesa junto com Nimue.&lt;br /&gt;- Desculpe. – dissemos juntas.&lt;br /&gt;- Estão desculpadas. – sorriu Malvino – Por que vocês também não se sentam? Noba servirá o almoço em alguns minutos. – puxou uma das majestosas cadeiras de madeira e sentou-se.&lt;br /&gt;Tayla e eu sentamos uma em cada lado da mesa. Ao meu, estavam Nimue e Malvino, ao lado dela Aine e o lugar vago de Berserker. Per-cebi que os pratos estavam colocados apenas nas laterais e a ponta da mesa possuía duas cadeiras vagas. &lt;br /&gt;- O que tem para o almoço? – perguntei curiosa. &lt;br /&gt;Se eu sou alérgica a comida humana, com certeza a daqui é muito di-ferente de tudo o que eu já experimentei. &lt;br /&gt;- Você verá. – disse Malvino – Mas não se preocupe, Noba tem mãos de ninfa em se tratando de cozinhar. Não há outra pessoa que cozinhe melhor.  &lt;br /&gt;- Relaxa Zah – antecipou-se Tayla.&lt;br /&gt;Fiquei envergonhada por desconhecer a cultura da minha verdadeira família. Tentei desconversar.&lt;br /&gt;- Porque ninguém se senta naquelas duas cadeiras? – apontei.&lt;br /&gt;Tayla meneou a cabeça, olhando para baixo.&lt;br /&gt;- São os lugares dos seus pais. – disse Aine. Afagou minhas costas depois de passar a mão em meu cabelo.&lt;br /&gt;- Desculpa. – abaixei a cabeça, envergonhada.&lt;br /&gt;- Você não precisa pedir desculpas Grania. Eles também são seus pais. Você pode perguntar qualquer coisa. &lt;br /&gt;- Qualquer coisa. – Malvino e Nimue disseram juntos.&lt;br /&gt;Tayla soltou um riso baixo.&lt;br /&gt;- O que foi? – perguntou Nimue.&lt;br /&gt;- Vocês não sabem como a vida de vocês era feliz antes das perguntas da Zarah começarem. – sorriu.&lt;br /&gt;- Nada a ver, sua mané. –&lt;br /&gt;- Eu não entendi. – Aine apoiou-se à mesa em sinal de interesse à conversa.&lt;br /&gt;- Não é nada Aine. – respondi – a Tayla que gosta de ficar me tirando.&lt;br /&gt;- Eu não ficaria tirando se você parasse de fazer perguntas idiotas e pensasse um pouco.   &lt;br /&gt;- Até parece que eu tenho culpa de não entender algumas coisas. – revidei. – você fala como se eu fosse burra, um porta.&lt;br /&gt;- Eu sei que você não é burra, Zah, o problema é que você nunca presta atenção em nada que as pessoas dizem. Você se desliga das conversas e não percebe. Se fosse burra não iria nem chegar perto de um livro, e você lê em um mês quase a mesma quantidade que eu leio em seis. Sem mencionar as músicas clássicas. – passou os olhos em todos da sala.&lt;br /&gt; - Cala essa boca Tah – alterei-me. Ela sabe muito bem que eu odeio que as pessoas saibam que eu ouço música clássica enquanto leio.&lt;br /&gt;- Vejam só. – levantou-se Malvino - Acabamos de descobrir o iznuart dela. – atravessou a mesa até posicionar-se atrás de mim – Ela será uma artista, como o pai. – beijou-me na testa, todo contente. &lt;br /&gt;- Melhor você não se apressar, querido. Ela pode apenas ter puxado o bom gosto do pai. – protestou Nimue.&lt;br /&gt;Pela primeira vez na vida senti que realmente pertencia a algum lugar. Foi divertido ver a discussão que se seguiu. Todos tentavam encontrar semelhanças comigo. Senti-me feliz, realmente existe a possibilidade de eu parecer com algum deles, desta vez é de verdade. Eu estou entre meus verdadeiros avós, em minha verdadeira casa.&lt;br /&gt;- Vocês moram todos aqui? – soltei, sem perceber que eles ainda dis-cutiam.&lt;br /&gt;Dois tons diferentes de risadas inundaram a sala. Delicados sopranos, de minhas avós e o barítono do meu avô. &lt;br /&gt;Outch! Pergunta errada de novo? Caramba. Será que eu não vou dar uma dentro?&lt;br /&gt;- Nós não moramos aqui, Grania. Viemos te ver e relembrar o tempo em que sentávamos a esta mesa para almoçar e jantar. Seus pais faziam questão da presença de todos. Diziam que você cresceria melhor e mais feliz, nos tendo por perto. – disse Malvino.&lt;br /&gt;- Mas vocês moram muito longe daqui? Eu e Tayla vamos dormir so-zinhas? Não é perigoso? – bombardeei-os com perguntas. &lt;br /&gt;- Primeiro; tenha mais calma ao falar, foi difícil entender o bolo de palavras saídas de sua boca. Segundo; é indelicado encher as pessoas de perguntas, espere até que respondam a primeira e dê um tempo para pensarem. – disse Nimue.  &lt;br /&gt;Assenti.&lt;br /&gt;- Nós moramos perto daqui, - começou Malvino - mas para você nós moramos longe, por que os humanos, com quem foi criada, têm a no-ção de espaço diferente da nossa. Para nós não existem lugares lon-gínquos e sim Sidh preguiçosos. – sorriu. – E, não se preocupe, há muitas pessoas trabalhando, dia e noite, neste castelo, e outras que dariam a vida para estar aqui cuidando de você. &lt;br /&gt;- Mas se vocês moram longe – pausei – como chegavam a tempo para o almoço e jantar? E... Todos os dias.&lt;br /&gt;- Magia. – respondeu Tayla – Essa eu sei!&lt;br /&gt;Como se existisse alguma pergunta que ela não seja capaz de respon-der.&lt;br /&gt;Revirei os olhos.&lt;br /&gt;- Você quer o que, que eu bata palmas? – levantei as mãos.&lt;br /&gt;- Não seja rude, Grania. – protestou vó Aine – Continue querida. – fez sinal para Tayla. &lt;br /&gt;- Eu não tenho certeza, – coçou a cabeça – mas uma vez eu li que vo-cês são como o ar. Não do jeito que nós pensamos em “ar”, e sim co-mo... Não sei qual a palavra. – olhou todos na sala.&lt;br /&gt;- Vou tentar explicar de uma maneira melhor. – disse Nimue – Quando você está lendo não tem a impressão de estar dentro do livro, vivendo a história? Como se o pensamento fosse forte o bastante para romper as barreiras do papel?&lt;br /&gt;- Si... Sim. &lt;br /&gt;- Então. O que nós fazemos é praticamente isto. Visualizamos o lugar e a nossa alma nos transporta até ele. É a força do pensamento. &lt;br /&gt;- Nossa! – arfei. Senti os pêlos dos meus braços arrepiarem – Eu tam-bém posso fazer?&lt;br /&gt;- Você fará melhor. – disse Malvino – você possui todos os nossos talentos. Ainda não houve manifestação por que nunca precisou deles. &lt;br /&gt;Serrei os punhos, tentando sentir algo. Mas foi só perda de tempo.&lt;br /&gt;Todos riram do meu movimento repentino.&lt;br /&gt;- Você precisa de treinamento. Para nós foi fácil por que sempre trei-namos para que os poderes aflorassem, sempre soubemos os poderes que teríamos. Mas você perdeu muito tempo, até ontem nem imaginava ser possível carregar tantos poderes dentro de si. Demorará muito tempo até você controlar todos os poderes. - soltou Nimue, do outro lado da mesa. &lt;br /&gt;- Mas se eu treinar bastante. O dia inteiro, durante um ano. – fiz uma pausa – Eu serei capaz de fazer todas as coisas, igual vocês fazem. Não é? &lt;br /&gt;Esperei, aflita, pela resposta.&lt;br /&gt;Todos se olharam e viraram em minha direção, ao mesmo tempo. &lt;br /&gt;- Com certeza é algo a ser considerado, Grania. – sorriu Malvino – Você precisará ser muito persistente e desprezar as falhas diárias. Tente pensar que está subindo uma escada. Se a escada é muito alta, com muitos degraus, você ficará cansada e logo pensará em desistir. Ao contrário disto, pode continuar e provar o delicioso sabor da vitória. Sem esquecer que toda vitória merece um prêmio. – deu uma piscade-la.&lt;br /&gt;- A escada... – engoli a seco - bom... Ela é muito alta? - encolhi &lt;br /&gt;- Tudo depende do seu desempenho, querida. – disse Aine.&lt;br /&gt;- Farei o possível! – sorri, animada.&lt;br /&gt;Todos me olharam e sorriram.&lt;br /&gt;- Finalmente Noba nos servirá! – Berserker surgiu de um longo corre-dor, com um sorriso enorme tocando suas bochechas rosadas. Era es-tranho ver um sorriso naquela carranca. &lt;br /&gt;Sentou-se ao lado de Aine, perto da ponta da mesa.&lt;br /&gt;Pouco tempo depois duas mulheres surgiram do mesmo lugar. A cozi-nha. Cada uma carregava uma bandeja média, de prata. &lt;br /&gt;As duas mulheres são parecidas. Cabelos negros e lisos, presos num rabo de cavalo e pele bronzeada. Ambas pouco acima do peso. Uma delas, a mais velha, usava um vestido azul, longo e avental branco. A outra, vinte anos mais jovem, estava usando um vestido pouco mais curto e lilás. Seus olhos eram de um, hipnotizador, azul celeste. &lt;br /&gt;- Olá Grania. – disse a mais velha. &lt;br /&gt;- Oi! – disse, desviando os olhos de seu rosto.&lt;br /&gt;A outra mulher, que depois pude ver que era apenas uma garota, cum-primentou-me com um leve aceno de cabeça e um sorriso sem graça.&lt;br /&gt;As bandejas possuíam dois recipientes cada. Na da garota havia uma pequena travessa, prateada, contendo verduras e legumes que eu nunca vi na vida, e outra, exatamente igual, contendo vários roedores, assados, claro, que lembravam porquinhos da índia.&lt;br /&gt;- Esta é Noba – disse Aine, referindo-se à garota. – A melhor cozi-nheira do reino. - sorriu&lt;br /&gt;A garota sentiu-se envergonhada, deu outro sorriso sem graça, colocou as bandejas na mesa e voltou para a cozinha.&lt;br /&gt;- E a outra, é quem? – perguntei baixo, perto de seu ouvido.&lt;br /&gt;- A outra é a mãe dela. Normalmente ela não ajuda na cozinha, ela cuida do castelo, é a “faz tudo” daqui. Divide os trabalhos igualmente, coordena, cuida do jardim. Ela é a governanta, como vocês dizem no Brasil.&lt;br /&gt;- Nossa, ela dá conta de fazer todas estas coisas?&lt;br /&gt;- Ela faz isto há tanto tempo que já se acostumou à cansativa rotina. – sorriu Aine.&lt;br /&gt;- O que são estes animais?&lt;br /&gt;- Ah! São os aifdin – respondeu Malvino.&lt;br /&gt;- Eles também são do Pântano Fenuso. – disse Nimue. &lt;br /&gt;- Vocês comem Jinkos também?&lt;br /&gt;- Não, Grania. Eles são sagrados para nós.&lt;br /&gt;- Mas... e estes legumes? Eu nunca os vi. – apontei&lt;br /&gt;- Estas verduras e legumes só existem aqui. – disse Nimue&lt;br /&gt;- E o que vocês comem, além de carne e salada? – procurei por algo diferente, na mesa.&lt;br /&gt;- Nosso cardápio é bastante variado. Não colocamos uma grande di-versidade de alimentos por que achamos melhor você começar pela carne e salada, já que está acostumada, apesar da leve diferença.&lt;br /&gt;- Ah! – admirei a preocupação deles - Mas a alimentação de vocês é muito diferente da nossa? &lt;br /&gt;- Completamente. – disse Berserker – Todos que provaram a comida humana e depois a nossa, dizem que esta é muito melhor. – apontou.&lt;br /&gt;Vô Berserker levantou-se e cortou os aifdin enquanto Nimue o entre-gava os pratos, um por um. Ele serviu a todos nós, sentou novamente em seu lugar e todos começaram a comer. Menos eu.  &lt;br /&gt;- Ora menina, não tenha medo, eles já estão mortos. Coma! – caçoou Malvino. &lt;br /&gt;Lancei meus olhos em Tayla, que devorava a comida com muita vora-cidade.&lt;br /&gt;Peguei os talheres e cortei um dos vegetais. Coloquei na boca, com medo, mastigando vagarosamente. O gosto se parece com o da cenou-ra, apesar de ser um pouco mais adocicado. Cortei outro vegetal, uma folha branca de nervuras vermelhas. Desta eu não gostei, por ser um pouco amarga. Já a carne do aifdin é muito boa, macia, suculenta e muito bem temperada. Não lembra a de nenhum animal que eu já tenha comido, mas a sensação foi a mesma de quando comi carne de jacaré pela primeira vez. Curiosidade, por nunca ter experimentado, e alívio, ao perceber o sabor delicioso. &lt;br /&gt;Depois que todos terminaram, Noba trouxe a bebida e a sobremesa. &lt;br /&gt;Numa linda jarra de vidro havia um líquido esverdeado. Era tão cha-mativo que só de olhar já dava água na boca. Noba nos serviu, deixou uma bandeja, com várias frutinhas verdes, sobre a mesa e voltou à cozinha. O suco eu não sabia do que era, mas a frutinha eu conhecia muito bem.&lt;br /&gt;- Guavira? – perguntei curiosa.&lt;br /&gt;- Sim, nós comemos muito disto por aqui. – disse Aine. &lt;br /&gt;- Mas esta é a mesma que tem lá em Bonito?&lt;br /&gt;- Sim, mas a nossa é mais pura.&lt;br /&gt;- Então é por isso que guavira nunca me fez mal. – peguei a maior fruta do pote.&lt;br /&gt;- Ah. Este é o néctar dos Deuses! – exclamou Berserker, colocando várias em seu prato e sorrindo em seguida.&lt;br /&gt;- Por que esta fruta também nasce no Brasil?&lt;br /&gt;- A guavira é uma fruta que nasce somente em terras de coração quen-te. – disse Malvino, colocando a mão sobre seu peito, como as pessoas fazem ao cantar hinos. &lt;br /&gt;- Como assim? – perguntou Tayla.&lt;br /&gt;- As pessoas no Brasil são muito hospitaleiras e calorosas. É por isso que dizemos “coração quente”. O Brasil está sempre de braços abertos a qualquer pessoa, de qualquer país, que vá para lá. A guavira procura nascer lugares onde as pessoas tenham, dentro de si, carinho para com os outros. É a única fruta do nosso mundo que também nasce no mun-do dos humanos. Mas ela também nasce em outros países.&lt;br /&gt;- Vocês fazem mais alguma coisa com ela? Remédio?&lt;br /&gt;- Sim, ela possui grandes poderes curativos. Mas o maior de todos os poderes dela é o de fazer as pessoas voltares no tempo.&lt;br /&gt;- Voltar no tempo? Como uma máquina? – perguntei, olhando para Tayla.&lt;br /&gt;- Não. – disse Berserker.&lt;br /&gt;Todos soltaram uma gostosa gargalhada.&lt;br /&gt;- O que acontece, Grania, é que quando uma pessoa come a guavira, depois de muito tempo sem prová-la, consegue lembrar-se até de coisas que aconteceram quando era pequena. A pessoa se lembra dos melhores momentos da vida, os melhores sorrisos, as pessoas mais importantes, tudo o que as fez feliz.&lt;br /&gt;- Isso é bom. – sorri.&lt;br /&gt;- Eu não sabia que era assim. Nunca senti nada parecido. – disse Tayla. – E esse suco é de quê? &lt;br /&gt;- Furnequí. – respondeu Berserker – A fruta mais popular por qui. É como uma praga. - sorriu.&lt;br /&gt;Aine levantou sua taça e todos imitaram seu movimento. &lt;br /&gt;- Um brinde à volta de Gania? – fitou-me, sorrindo.&lt;br /&gt;- Tim-Tim – disse Tayla.&lt;br /&gt;Não tive medo, desta vez. Se esta é a fruta mais popular por aqui, deve ser a mais saborosa também. Tomei um grande gole, sem me preocupar com o gosto, e percebi que realmente era muito bom. Mais uma vez não lembrei de nenhum outro que eu conheça e seja parecido. Sequei minha taça, rapidamente, e pedi para Aine servir-me novamente. Ela sorriu, assentiu e colocou suco até depois do meio da taça.&lt;br /&gt;- Fico feliz que tenha gostado. – disse Aine, dando outra de suas pis-cadelas. – Todos terminaram? – perguntou, dirigindo-se até a ponta da sala, próxima à porta da cozinha.&lt;br /&gt;- Hora das surpresas? – perguntou Malvino&lt;br /&gt;- Sim. Hora das surpresas de aniversário. - sorriu&lt;br /&gt;Ai... Meus... Deuses! Eu pensei ter escapado das terríveis surpresas de aniversário, ao vir para cá. Já vi que estava errada. &lt;br /&gt;Tayla olhou-me, fez sinal com as mãos para evitar futuros constran-gimentos, pedindo para eu não pirar. Não prestei atenção em seus mo-vimentos, pois estava acompanhando, com os olhos, tudo o que meus avós faziam. Malvino e Berserker sentaram-se em duas poltronas perto da mesa de bebidas e Aine e Nimue saíram da sala, voltando em seguida, com um presente cada. &lt;br /&gt;- Feliz Aniversário! – disseram juntas, discretamente. &lt;br /&gt;Nimue entregou-me uma grande e leve embalagem, decorada com uma fita azul clara. &lt;br /&gt;- Quando você nasceu, nós lhe demos isto que está em seu pescoço. – apontou o camafeu – ele é seu protetor. Agora daremos algo que lhe ajudará bastante na busca pelos seus pais.&lt;br /&gt;Estudei, na grande embalagem, a melhor forma de abrir sem causar danos ao presente. Consegui encontrar a ponta do laço e puxei com força, ele se desprendeu e a embalagem abriu. Tayla estendeu a mão para que eu lhe desse a embalagem, dando um passo atrás, logo em seguida. Desdobrei o presente e vi duas alças pretas. Terminei de des-dobrá-lo e então pude ver do que se tratava, era uma mochila. A mo-chila era num couro marrom, brilhante de tão limpo, de tamanho médio e muito bonita.&lt;br /&gt;- Obrigada. &lt;br /&gt;Os dois deram um aceno de cabeça.&lt;br /&gt;- Você não vai perguntar para quê serve? – indagou Malvino.&lt;br /&gt;- Para guardar... Coisas? – perguntei perdida.&lt;br /&gt;- Também. Mas esta é diferente das outras. Você pode guardar seu guarda-roupa inteiro aí e ela não ficará pesada ou abarrotada.&lt;br /&gt;- Nossa! – suspirei – Obrigada. Obrigada mesmo! – fui até onde esta-vam e dei um forte e encabulado abraço.&lt;br /&gt;Os dois sorriram e retribuíram o gesto.&lt;br /&gt;- Agora o nosso presente. – disse Berserker, levantando-se da poltrona.&lt;br /&gt;Estendi as mãos e Aine entregou-me uma pequena caixa retangular, amarela, cheia de furinhos nas laterais.&lt;br /&gt;- O que é isto, um cachorrinho? – perguntei curiosa&lt;br /&gt;- Abra. – encorajou-me Berserker, fazendo movimentos com as mãos.&lt;br /&gt;A caixa não possuía amarras, portanto, para abri-la era só levantar a tampa. Foi o que eu fiz. &lt;br /&gt;Dentro da caixa havia panos esfarrapados e uma bolinha branca cober-ta por finos pêlos macios e ouriçados.  &lt;br /&gt;Movi meus olhos rapidamente até Aine, fazendo cara de surpresa.&lt;br /&gt;- O que é isto?&lt;br /&gt;- O que? – disse Tayla, movendo alguns centímetros em minha direção.&lt;br /&gt;- É um Chinnuril. – disse Aine. &lt;br /&gt;- Ele morde?&lt;br /&gt;- Não, Grania, por quê? &lt;br /&gt;- Ele está com os olhos vendados. Por quê?&lt;br /&gt;- Ah! – sorriu Aine – Você deve ser a primeira pessoa que ele vê. As-sim pensará que é sua mãe, caso contrário ele ficaria procurando-a e faz um escândalo de trincar qualquer vidro.&lt;br /&gt;- Então... – corri meus olhos em seu pequeno corpinho de bola – ele nunca viu a mãe? – senti pena.&lt;br /&gt;- Ela os abandona antes que a vejam. Ninguém jamais viu uma Chin-nuril com filhotes, por que eles nunca a deixam caçar e precisam de muita atenção. &lt;br /&gt;- Coitado. – toquei, levemente, seu fino pêlo. – Eu posso tirar a venda? &lt;br /&gt;- Agora sim, mas não o deixe olhar para outra pessoa antes de te ver. &lt;br /&gt;Tayla afastou-se.&lt;br /&gt;Peguei o pequeno Chinnuril de dentro da caixa e o coloquei na mão. Tirei o pedaçinho de pano que cobria seus olhos, coloquei sobre a mesa e levei o bichinho perto do meu rosto. Esperei que fosse o lado certo, já que era impossível saber se estava de costas ou de frente. &lt;br /&gt;O Chinnuril abriu os olhos, e fez um som muito baixinho e engraçado. Pulava sem parar e mexia todo o pequeno corpinho, querendo que eu me aproximasse mais. Juntei a outra mão, fazendo uma concha, e ele ficou todo contente. Olhando-o mais de perto pude ver que seus pés pareciam patas de passarinho, apesar de mais robustas, cobertas com um milhão de finos pêlos brancos. Ele tinha pequenos braços, também cobertos de pêlos, e quatro dedos com garrinhas. Era tão fofinho e redondo que dava vontade de apertar até não querer mais. &lt;br /&gt;- Agora eu posso ver? – perguntou Tayla&lt;br /&gt;- Ele, com certeza, já sabe quem é a mãe – disse Nimue.&lt;br /&gt;- Ele é muito lindo. Tão fofinho! – exclamou Tayla, quando o coloquei em sua mão.&lt;br /&gt;O Chinnuril fez aquele barulho engraçado, novamente, mas desta vez não parecia estar feliz, deveria estar com medo de perder a “mãe”, já que o coloquei nas mãos de Tayla. A bolinha de pêlo começou a sapa-tear, aumentou o volume da reclamação e sacudiu os braços em minha direção.&lt;br /&gt;Tayla o devolveu, logo em seguida, depois de receber alguns aranhões.  &lt;br /&gt;- Este bicho é um pouco bravinho, não é? – examinou os arranhões.&lt;br /&gt;- Ele só está com medo de perder a mãe. – exclamou Aine, divertindo-se.&lt;br /&gt;- Podre bichinho. – alisei seu sedoso pêlo. &lt;br /&gt;- Você não vai dar um nome a ele? – perguntou Tayla.&lt;br /&gt;- Até queria, mas não sou boa em dar nomes. Você lembra muito bem dos animais que eu tive – tentei refrescar sua memória – a tartaruga Oi, o cachorro Cão, a gata Caolha, de um olho só, outra tartaruga, chamada Outra. &lt;br /&gt;Meus avós começaram a rir. &lt;br /&gt;- Você não é boa em nomes em. – disse Malvino, aproximando-se.&lt;br /&gt;Sorri, sem graça.&lt;br /&gt;- Criatividade, em nomes, não é o forte dela. – gargalhou Tayla.&lt;br /&gt;- É fácil – exclamou Berserker – O que você mais gosta de fazer? &lt;br /&gt;Todos me olharam.&lt;br /&gt;- Am... Ler? – tentei lembrar-me de outra atividade preferida.&lt;br /&gt;- Por que você não coloca o nome do personagem que você mais gos-ta?&lt;br /&gt;- É uma boa idéia. – refleti.&lt;br /&gt;- Então, qual será o nome? – perguntou Berserker&lt;br /&gt;- Já sei que nome colocarei nela. &lt;br /&gt;- Capitu? – disse Tayla – Dom Casmurro foi o livro que você mais gostou de ler, lembra?  &lt;br /&gt;- Não será o nome de uma personagem. Quer dizer, vai ser o nome de uma personagem que participou indiretamente na criação da obra.&lt;br /&gt;- Fale logo o nome! – disse Tayla, irritada.&lt;br /&gt;- Elise! - suspirei&lt;br /&gt;-Elise? Você nunca leu um livro que tenha esta personagem. – tentou lembrar-se.&lt;br /&gt;- Não é um livro. É uma música. – lembrei-a.&lt;br /&gt;- Fur Elise! – disse Malvino, ainda sentado na poltrona.&lt;br /&gt;- O que vocês acharam? – fitei-os.&lt;br /&gt;- Nossa, Zarah, você vai colocar o nome de uma música do Chopin? &lt;br /&gt;- Exatamente! – sorri.&lt;br /&gt;- Depois eu que sou a nerd. – revirou os olhos. – Olha só o nome que você escolheu!&lt;br /&gt;- Você sabia que esta é a música preferida do seu pai? – perguntou Malvino &lt;br /&gt;- Não. – rolei meus olhos até Tayla – também é a minha favorita. – baixei a cabeça até alcançar os brilhantes olhos azuis de Elise.&lt;br /&gt;Tayla me olhou, confusa. Com certeza ela pensou que eu não fosse me importar tanto.&lt;br /&gt;Meus olhos se encheram de lágrimas. &lt;br /&gt;Não sei por que isto vem acontecendo tão frequentemente. Antes eu não me emocionava com facilidade.&lt;br /&gt;Tentei disfarçar, mas não adiantou. Nimue viu as lágrimas tocarem meu rosto e avisou Aine.&lt;br /&gt;- Não chore minha querida. – Disse Aine. – Não fique triste. –abraçou-me.&lt;br /&gt;- Eu não estou triste. Só que – dei uma pausa – e se eu não conseguir encontrá-los? – disse, ainda sem tirar os olhos de Elise. – Se for tarde demais...&lt;br /&gt;Aine interrompeu-me.&lt;br /&gt;- Você os encontrará. Não deixe que as duras circunstâncias a façam fraquejar. – sussurrou em meu ouvido.&lt;br /&gt;Elise apoiou as duas “mãos” em meus dedos, improvisando um cari-nho. &lt;br /&gt;Sorri, passei o dedo indicador em seu corpo de bola, e pude perceber que ela possuía uma pequena divisão entre a cabeça e o resto do corpo. Ela era uma circunferência peluda. &lt;br /&gt;Lembrei-me.&lt;br /&gt;- A minha carta! – reclamei – Tah, nós precisamos voltar para casa. Na pressa, esquecemos a carta. – apoiei-me em seu ombro.&lt;br /&gt;- Relaxa Zah, a mamãe me entregou a carta. – retirou meu braço de seu ombro.&lt;br /&gt;- Por que você não me entregou-a logo depois que eu acordei? – fitei-a.&lt;br /&gt;- Você não me pediu. – olhou-me como se fosse a mais óbvia das res-postas.&lt;br /&gt;- Ah, claro! – queimei-a, com os olhos. – Onde ela está afinal?&lt;br /&gt;- Eu entreguei a Berserker. – apontou.&lt;br /&gt;Imediatamente, Berserker veio em minha direção. Em suas mãos havia uma espécie de pergaminho enrolado e amarrado numa fina tira de couro. Caminhou lentamente, posicionou-se frente a frente comigo, estendeu a mão ocupada pelo pequeno pergaminho.&lt;br /&gt;Estendi uma das mãos e o pedaço de papel enrolado deslizou em mi-nha palma. Olhei-o, alternando entre ele e meu avô. Sem saber como agir, permaneci estática. Toda a sala pareceu absorver minha angústia, assim como as pessoas, também paralisadas, que me olhavam apreen-sivas. &lt;br /&gt;- Você vai ficar aí parada? – indagou Tayla.&lt;br /&gt;Meu cérebro foi incapaz de formular uma resposta. &lt;br /&gt;Elise, prevendo que eu precisaria das duas mãos, escalou, rapidamente, meu braço, deixando marcas de suas pequenas mãozinhas por todo o meu antebraço.&lt;br /&gt;Voltei meus olhos no, velho, pergaminho e decidi desatar o laço. De repente senti meu coração disparar, meu rosto esquentar e meus dedos amolecerem. Estava com tanta pressa em desenrolá-lo e saber o que meu pai havia escrito que, sem perceber, comecei a tremer. Meus dedos foram incapazes de conciliar a tremedeira com a pressa, fazendo com que eu perdesse um bom tempo apenas no primeiro laço. Berserker, como um bom, sem paciência, Senhor da Guerra, não conseguiu, apenas, me observar “apanhar” do laço e, num ataque de falta de cal-ma, esvaziou minhas mãos. Devolveu, logo em seguida, o papel, já desenrolado e pronto para eu ler. &lt;br /&gt;- Já estava ficando impaciente! – disse, enrolando a pequena tira de couro nos, gorduchos, dedos da mão esquerda.&lt;br /&gt;- Ahmm – passei meus olhos em todos da sala – Será que eu posso... Ler... Ahmm... Ler em outro lugar? Eu queria ficar sozinha, um pouco. Acho que não conseguiria ler com todos estes pares de olhos me observando. – torci para que compreendessem, de maneira correta, o que eu quis dizer. &lt;br /&gt;Meus avós se entreolharam. &lt;br /&gt;- O que for melhor para você, minha querida. Nós desejávamos com-partilhar este momento, mas se prefere lê-la quando estiver sozinha, quem somos nós para discutir? Esta carta lhe pertence, nós sabemos a importância que ela representa para você. – alertou Aine. – Além do mais, nós precisávamos mesmo resolver alguns assuntos. – fitou os outros idosos - Voltaremos à tarde para ver como você está, e se con-seguiu desvendar a primeira pista. – caminhou em minha direção – Boa sorte. – abraçou-me.&lt;br /&gt;Retribuí o abraço. &lt;br /&gt;Pude sentir os dedos de Berserker entrelaçados aos meus, fazendo carinhos leves, atrás de Aine.&lt;br /&gt;- Obrigada. – respondi.&lt;br /&gt;Os dois saíram da sala, de mãos dadas, lentamente. Logo em seguida Nimue e Malvino vieram se despedir de mim, desejaram boa sorte, assim como Aine, e saíram. &lt;br /&gt;- Eu posso ficar aqui? – perguntou Tayla.&lt;br /&gt;- Se você quiser. – dei de ombros – Mas eu vou me sentar daquele lado da sala - apontei uma das poltronas – e você não vem comigo! – fitei-a. &lt;br /&gt;- Ah, Zarah! – reclamou.&lt;br /&gt;- Tayla. É a carta do meu pai. Você tem noção do quão importante este pequeno pedaço de papel velho representa para mim? Você pode respeitar o meu momento, pelo menos agora? – repreendi. – Eu não vou conseguir lê-la se você estiver olhando.&lt;br /&gt;- Pode até ser, mas você vai me contar tudo, Tim-Tim por Tim-Tim.&lt;br /&gt;- Depois, Tah. Depois. Agora, me deixe ler! &lt;br /&gt;Sentei-me numa das poltronas, tremendo de tanta ansiedade. Tayla permaneceu em pé, alguns segundos, procurando, estrategicamente, na mesa, a cadeira mais próxima de mim.&lt;br /&gt;Não me importei com sua curiosidade, estava tão ansiosa que perma-neci um bom tempo apenas olhando a carta.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1989948983729069475-3763971740017847894?l=www.zarahluna.com.br' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://www.zarahluna.com.br/2009/08/cap-5-surpresas.html</link><author>iarafp_soares@yahoo.com.br (Iara Fepasiso)</author><thr:total>2</thr:total></item><item><guid isPermaLink='false'>tag:blogger.com,1999:blog-1989948983729069475.post-8057720226710625693</guid><pubDate>Wed, 19 Aug 2009 03:07:00 +0000</pubDate><atom:updated>2009-08-18T20:11:53.246-07:00</atom:updated><title></title><description>O blog será modificado para que vocês possam ter o conteúdo dos capítulos em seus computadores. Haverá links para que as pessoas possam fazer downloads dos capítulos já postados e uma sinopse de cada um deles.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1989948983729069475-8057720226710625693?l=www.zarahluna.com.br' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://www.zarahluna.com.br/2009/08/o-blog-sera-modificado-para-que-voces.html</link><author>iarafp_soares@yahoo.com.br (Iara Fepasiso)</author><thr:total>3</thr:total></item><item><guid isPermaLink='false'>tag:blogger.com,1999:blog-1989948983729069475.post-6558217772598554326</guid><pubDate>Sat, 08 Aug 2009 04:35:00 +0000</pubDate><atom:updated>2010-08-31T22:34:00.795-07:00</atom:updated><title>Cap. 4 Aine</title><description>Não pude aproveitar em nada o passeio. As dores eram tão freqüente-mente fortes que não me deixavam abrir os olhos. Meu maxilar travou, meus dedos incharam, o tom de pele deu lugar a um amarelo horrível, pelo pouco que pude ver, os lábios racharam e minha saliva, antes com gosto de sangue, secou completamente. &lt;br /&gt;Tayla deitou-me em seu colo, como uma mãe faz para amamentar o filho. Minhas pernas ficaram penduradas para fora de Kika. Algumas vezes tive que controlá-las para não machucar a ave, pois não parava de pressionar meus calcanhares contra a lateral de seu corpo, quando as dores eram insuportáveis.&lt;br /&gt;Depois de alguns minutos de dor intensa, senti mil peixes, maiores que os de antes, se locomovendo por todo o meu corpo. A última coisa de que me lembro é de dois dos maiores peixes terem estourado dentro de mim. A partir daí a dor cessou, mas eu não conseguia abrir meus olhos. Lutei algumas vezes tentando falar algo, mas nada saiu. Meus lábios pareciam estar costurados. Tentei movimentar-me, mas minhas pernas e braços não me obedeciam.  O pânico tomou conta de todo o meu corpo. &lt;br /&gt;Será que eu morri? &lt;br /&gt;Se for isto, por que não vejo o paraíso ou o inferno, seja lá para onde eu fui? Tudo está escuro. Sinto que há alguém me tocando, mas não consigo ver quem é. Posso sentir também meu corpo encharcado por uma substância gosmenta. Não parece ser água ou suor. É algo gelado e pegajoso.  &lt;br /&gt;Concentrei-me em ouvir.&lt;br /&gt;Primeiro senti dificuldades em entender o que todas as vozes diziam. Duas delas eu já conhecia, Tayla e o Leprechaun, mas há mais uma, lembro-me de tê-la escutado alguma vez há muito tempo. Não conse-gui lembrar-me de onde ou quando.&lt;br /&gt;- Ela não parece mais tão amarela – a voz de Tayla dizia, bem perto de mim.&lt;br /&gt;- Ela estará nova em folha daqui algum tempo – disse o Leprechaun. Não tão perto de mim como a voz de Tayla parecia estar. &lt;br /&gt;Nenhum deles parece tão preocupado como antes. Muito pelo contrá-rio. Suas vozes estão calmas.&lt;br /&gt;- Ela é uma Sidh muito forte. – exclamou a voz do meu passado. – Não me espantaria em nada se ela já pudesse nos ouvir. Na verdade eu creio que estará de volta antes do esperado. – seja lá que for esta ter-ceira pessoa tem a voz extremamente calma e maternal, como a de Valentina. &lt;br /&gt;Consegui acalmar-me um pouco mais ao ouvir que voltaria em pouco tempo. Seja lá o que aconteceu comigo é apenas provisório. O pânico ainda tocava minhas veias, fazendo com que eu sentisse meu sangue, extremamente gelado, correndo sem descanso.&lt;br /&gt;Esperei algum tempo até juntar forças suficientes e tentar dizer algo. &lt;br /&gt;- Tay... la – minha voz saiu falhada.&lt;br /&gt;- Zarah! Ah. Graças a Deus você acordou. – alívio aparente em sua voz.&lt;br /&gt;Minha voz não fora vetada novamente. Então decidi testar meus mo-vimentos. Movimentei a ponta de meus dedos primeiro. Eles obedece-ram, levantando toda a minha mão esquerda.&lt;br /&gt;Aos poucos minha visão voltou, embaçada pelos dois graus de miopia, e pude olhar em volta tentando me localizar.&lt;br /&gt;- Quem tirou minhas lentes? – cocei os olhos&lt;br /&gt;- Aqui seus óculos, Zah – disse Tayla, entregando-os.&lt;br /&gt; A primeira visão que tive foi do teto. Coberto com desenhos de ramos de flores em cores claras. O pé direito deveria ser, com certeza, de seis metros. &lt;br /&gt;Exatamente em cima da grande porta de entrada do quarto havia um mezanino, de madeira, de uma ponta à outra da parede, com duas pol-tronas em cada extremidade e uma enorme prateleira de livros organi-zados por tamanho. No quarto havia enormes janelas medievais orna-mentadas, na altura do mezanino. Todas as paredes estavam em três tons: vermelho, laranja e amarelo, de dar agonia a quem olhasse. La-baredas de fogo mexiam-se na parede, tentando se espalhar, em vão, impedidos de sair da parede e pulverizar os móveis e todos nós. &lt;br /&gt;Do ângulo em que estou deitada não consigo ver o resto do quarto, mas dá para notar que há muito mais a ser explorado. O quarto deve ser imenso, pois, de onde eu estou até a porta de entrada dá uns bons dez metros de distância. Há muito mais onde minha visão não alcança, como algumas paredes atrás de mim, o restante de uma escada que, de onde estou, só vi o começo, e a outra metade do quarto.&lt;br /&gt;- Como você está se sentindo? – disse a voz maternal&lt;br /&gt;- Me... Melhor – rolei meus olhos pelo quarto, tentando encontrar a mulher.&lt;br /&gt;- Que bom minha queria. Você consegue se levantar?&lt;br /&gt;Minha visão periférica finalmente voltou e pude encontrá-la, sentada numa linda poltrona vermelha ao meu dado esquerdo e Tayla do outro lado, sentada na cama.&lt;br /&gt;A mulher aparenta ter quarenta anos, mas pela sua voz pude ver que a ótima aparência mente a idade. Ela, aparentemente, é maior que eu, aproximadamente 1,70 metros de altura. Seus olhos são negros, da mesma cor dos meus, assim como os longos e levemente encaracola-dos, cabelos ruivos. Seu cabelo estava preso numa delicada coroa de ouro branco, de um grosso arco adornado por minúsculas flores. O cabelo estava arrumado solto em todas as direções, ordenadamente. De baixo de todo aquele cabelo saía uma longa trança caída sobre seu ombro esguio. Seu vestido branco de manga de sino não é de tecido algum que eu conheça. Parece feito com pequenos fios brilhantes, que o deixam imponente e magnífico. A combinação perfeita entre os tra-ços suaves e delicados do rosto de um anjo quarentão e a leveza da roupa.&lt;br /&gt;Isto foi tudo o que pude reparar da jovem senhora sentada ao meu lado. Seus pés estão cobertos pelo longo vestido, então não consegui ver o que calçava.  &lt;br /&gt;- Bom dia minha queria. Bem vinda, de volta, ao lar.   &lt;br /&gt;Bom dia? Quanto tempo eu fiquei desacordada? Dias, meses? Sinto como se estivesse dormido apenas horas, mas eu sempre me engano, então decidi perguntar. &lt;br /&gt;Pelo menos meu aniversário já passou.&lt;br /&gt;- Há quanto tempo eu estou aqui? – minha voz não saiu exatamente como planejei. Apenas um suspiro.&lt;br /&gt;- Vocês chegaram aqui ontem pela manhã. Então faz quase um dia. – passou a mão sobre minha testa.&lt;br /&gt;Um sentimento bom percorreu cada centímetro do meu corpo. Como a lembrança de algo perdido para sempre que acaba de ser resgatado. A sensação foi boa, queria que se repetisse, mas era insano pedi-la para tocar novamente. Nem sei quem é e, pelas roupas que usa, é uma pes-soa muito importante, como uma conselheira, uma rainha ou algo as-sim.&lt;br /&gt;Tentei sentar-me e deu certo. Minha cabeça girou um pouco, mas nada que afetasse minha persistência. &lt;br /&gt;Finalmente pude dar uma boa olhada em volta, ver o resto do quarto que, outrora, se escondera de mim. Ele parece o quarto de filmes anti-gos, onde uma princesa passa as tardes lendo e bordando enquanto espera o príncipe encantado vir resgatá-la das garras da madrasta má. &lt;br /&gt;Desconsiderando as paredes flamejantes, claro. &lt;br /&gt;O chão é todo revestido de pedra. A cama é enorme, feita de madeira. No pé da cama há um chaise long todo colorido, no mesmo tecido das poltronas do mezanino. Ao lado direito da cama, alguns metros de distância de onde Tayla está sentada há um outro patamar, alguns cen-tímetros abaixo do restante do quarto. Neste patamar estão distribuí-dos dois enormes guarda-roupas, mais uma poltrona, exatamente igual a que a mulher ocupa. Uma linda penteadeira na mesma coloração e um grande espelho pendurado à parede. &lt;br /&gt;Todos os móveis se encaixam perfeitamente aos respectivos lugares. A decoração parece feita pelo mais competente arquiteto de interiores. Ele reflete harmonia desde a estante repleta de livros até o pequeno criado-mudo ao lado direito da cama. &lt;br /&gt;O lado esquerdo do quarto não tem muitos móveis, diferente dos ou-tros espaços. É ocupado apenas por uma pequena lareira e um lindo sofá de três lugares, deixando uma significativa porcentagem do espa-ço vazia de móveis. Uma porta, enorme, exatamente ao meio da pare-de, faz ligação do quarto com a sacada, a qual eu não pude ver de on-de estou. No espaço vazio de móveis há um, organizado, aglomerado de enormes almofadas, em cores suaves.    &lt;br /&gt;Percebi, ao analisar cada pedaço do quarto, que as cores vivas e as labaredas de fogo haviam sumido das paredes, dando lugar a pequenos seres brincalhões. &lt;br /&gt;Estes pequeninos possuem pétalas na cabeça, como se pegassem um humano e o colocassem um chapéu de margarida muito bem elaborado. Seus rostos são finos até perto do nariz. A flor surge pouco acima dos olhos. Eles medem pouco mais de 15 centímetros de comprimento, são magros e delicados, com asas transparentes como as de uma libélula. Seus olhos são grandes, em relação à boca e o nariz, e brancos. O que mais me assustou foi isto, os olhos de todos eles são completamente brancos, inclusive a íris e a pupila. Mas, aparentemente, eles não são cegos, pelo contrário, pareciam me olhar fixamente, com extrema curiosidade.&lt;br /&gt;Não há muitos destes bichinhos, talvez trinta, mas não sei ao certo. Eles não param de voar, ficam para lá e para cá. Alguns cantarolavam uma linda melodia sem letra, e outros simplesmente voavam, sem sair das paredes. É como se algum encantamento os impedisse, mas eles não parecem importar-se com o fato de estarem presos. Todos estavam muito alegres, pareciam estar festejando algo novo.&lt;br /&gt;- Aqueles são os Gwers. – disse Tayla – Não são uns amorzinhos? Tão fofinhos.&lt;br /&gt;Ela deve ter percebido meu olhar curioso nos bichinhos.  &lt;br /&gt;- Eles são... Cegos? &lt;br /&gt;- Não, eles apenas não possuem poderes, por isto a ausência de colo-ração nos olhos. – Tayla parecia uma professora explicando coisas a seus aluninhos do maternal.&lt;br /&gt;- Coitados. – soltei entre dentes.&lt;br /&gt;- Na verdade eles têm sorte. – disse a mulher. – nunca tentam fazer mal a eles. Não vale a pena, por isso eles não vêem mal em não terem poder algum.&lt;br /&gt;- Eles são tão lindinhos! – disse Tayla num grande sorriso&lt;br /&gt;Virou-se em minha direção.&lt;br /&gt;- Zarah, será que você já consegue se levantar?&lt;br /&gt;- Acho que sim, não agüento mais ficar nesta cama. – dei um meio sorriso. – Mas eu preciso de um banho. – olhei para a mulher – O que vocês passaram em mim, Lodo? – passei a mão em meu braço direito que, assim como o outro, estava pegajoso de tanta gosma alaranjada.&lt;br /&gt;- Isto é excremento de Jinko do Pântano Fenuso, muito raro de encon-trar. – disse o Leprechaun, levantando-se da chaise long localizada ao pé da cama.  &lt;br /&gt;- Excremento? Mas excremento não é... ECA! – parei de tocar meu braço, imediatamente, incrédula.&lt;br /&gt;Tayla soltou uma gargalhada, a mulher passou uma de suas mão em minha testa, como fizera antes.&lt;br /&gt;Até onde eu sei, excremento é o mesmo que cocô. Cocô! Pelos Deuses, será que não havia uma pomadinha disponível na despensa? Ou água? Um chazinho para eu tomar? &lt;br /&gt;- Não há outra forma de curar as feridas dos alimentos humanos Gra-nia. Os alimentos não afetam apenas seus órgãos, mas também sua pele. As bolhas são comparáveis às de uma queimadura de segundo grau. – disse a mulher enquanto passava a mão, delicadamente, em minha bochecha.&lt;br /&gt;- Mas cocô de monstrengo do pântano? Não podia ser... Sei lá... o es-pirro dele? Seria muito melhor. Aliás, qualquer coisa seria melhor que cocô de monstrengo nojento do Pântano Penoso.&lt;br /&gt;-Fenuso – alertou Tayla.&lt;br /&gt;- Que seja. – ignorei.&lt;br /&gt;Todos me olharam como se eu cometesse o mais grave dos pecados ao ser contra o método, gosmento, de cura.&lt;br /&gt;- Cuidado com o que diz menina – disse o Leprechaun - não pode sair por aí falando mal de quem te curou. – apontou o, gordo, dedo indica-dor - Isto é falta de educação, você não sabe? É como sair da sala de operação e xingar o médico.&lt;br /&gt;Bem, olhando por este ângulo foi muita falta de educação de minha parte. Não tenho mesmo o direito de falar algo de quem acaba de sal-var minha vida. Mesmo que este alguém seja um bicho estranho. &lt;br /&gt;Pelo nome, deve ser um monstrinho muito feio e nojento. Apesar de o musgo exalar um leve aroma de ervas.&lt;br /&gt;A jovem idosa tirou a mão de minha bochecha.&lt;br /&gt;- Acalme-se Bleedey, ela não fez por mal. – olhou-me maternalmente - Não está acostumada com o peso e importância das palavras mal escolhidas. Acabou de vir de longas férias como humana. Lá as pala-vras não têm poder algum com outros seres. – levantou-se da poltrona, calmamente – Os humanos se importam apenas em ofender ou não, ao próximo, não crêem no simples fato de o que uma frase mal dita é capaz de fazer. – piscou para mim.&lt;br /&gt;Senti todo o sangue ser drenado para o meu rosto, minhas bochechas queimaram e, com toda a certeza do mundo, corei de vergonha. &lt;br /&gt;Não consegui pensar em mais nada a dizer. A mulher, agora em pé ao meu lado, juntou as mãos, abaixadas, me lançou um último olhar, indo à direção da porta de entrada do quarto.&lt;br /&gt;- Obrigada. Por... Cuidar de mim. – a única frase, falhada em vergo-nha, que meu cérebro foi capaz de formar.&lt;br /&gt;- Obrigada você por trazer a alegria de volta a meu coração depois de tantos anos de uma longa e angustiante espera. – suspirou - Bem vinda de volta a seu lar, minha neta. – saiu em passos lentos, fechando a porta atrás de si, sem tocá-la.&lt;br /&gt;Minha neta? O.K.! Com certeza eu estou naqueles estágios pós febrão em que a pessoa fica delirando por horas, ouvindo conversas aleatórias e sem sentido. Provavelmente meus ouvidos escutaram o que eu quis. Que aquela linda, iluminada e maternal jovem senhora, era minha avó. E que eu, possivelmente, estou no reino em que nasci.&lt;br /&gt;- Tayla. – chamei&lt;br /&gt;- Eu! – disse entre sorrisos&lt;br /&gt;Um pouco desconfiada, fiz a pergunta crucial.&lt;br /&gt;-Q... qual o nome daquela mulher? A que acabou de sair do quarto. – gaguejei, temendo que Tayla dissesse o mesmo nome em que eu estou pensando.&lt;br /&gt;- O nome dela é Aryana. &lt;br /&gt;Outch! Resposta errada.&lt;br /&gt;Duas sensações, opostas, tocaram meu coração, fazendo minha espinha gelar e a garganta secar. A primeira é medo, a segunda, felicidade. &lt;br /&gt;Eu quero muito estar em casa, e que esta seja minha casa. O meu ver-dadeiro “lar doce lar”. Quero aquela jovem senhora como avó. Sentir que pertenço a algum lugar. Não que Valentina me prive de sentimen-tos maternais ou me trate diferente de seus verdadeiros filhos, mas, estranhamente, sempre faltou algo. Uma pequena lasca de afeto, para completar minha felicidade. &lt;br /&gt;Senti muito medo quando a resposta de Tayla não foi “Aine”. Pois, até onde sei, este é o nome de minha verdadeira avó. &lt;br /&gt;Meus olhos inundaram em lágrimas, mas elas não rolaram. Ficaram ali, presas, esperando um momento maior de fraqueza.&lt;br /&gt;- Então por que ela me chamou de neta? – as lágrimas escorreram até queimar minhas bochechas.&lt;br /&gt;- Por que você está chorando? A dor voltou? – perguntou Tayla, fi-cando em pé ao lado da cama. &lt;br /&gt;- Não, Tah. Será que você pode, por favor, responder à minha pergun-ta?&lt;br /&gt;- Zarah, ela é sua avó. – parecia não entender minha reação&lt;br /&gt;- Não, ela não é! – senti minha voz alguns tons a cima do normal&lt;br /&gt;- Sim ela é! – desafiou-me&lt;br /&gt;- Mas... Mas o nome não bate Tah! – rolei meus olhos em direção à porta.&lt;br /&gt;- Você queria Aine? Bem, senhorita “Chora Fácil”, lamento muito, mas você está errada. Aine não é o nome da sua avó, e sim o título que recebeu ao se tornar rainha. O nome dela é Aryana, a Aine dos Sidh. Entendeu agora, pouco cérebro? – soltou uma risada. – Só você mesmo Zarah para não saber nada da história de seu povo. Uma Sidh leiga. Coitados dos Sidh, não sabem em que enrascada se meteram. &lt;br /&gt;Saiu de perto da cama, indo à direção da escada do mezanino.&lt;br /&gt;- O que você vai fazer? – sentei-me.&lt;br /&gt;- Vou lhe ensinar um pouco sobre seu povo, sua incompetente.&lt;br /&gt;Chegou ao fim da escada.&lt;br /&gt;- Meu Deus, Zarah, você não tem idéia de quantas histórias emocio-nantes têm escritas aqui. – apontou a estante lotada de livros antigos, em perfeito estado de conservação. – Sabe aquelas lendas que eu lia na internet? São todas reais. Isto é muito melhor que a Rota Boiadeira em dia de chuva. Muito melhor. – seus olhos brilhavam de entusiasmo.&lt;br /&gt;Não é a toa que está assim, ela é fascinada por lendas. Conhece todas, de trás para a frente, de tanto que leu.&lt;br /&gt;O Leprechaun deu um pigarro&lt;br /&gt;- Gania, eu preciso resolver algumas questões pendentes na cidade, você ficará em segurança aqui. Se precisar de algo é só chamar Kika. Volto logo.&lt;br /&gt;Assenti.&lt;br /&gt;- Tayla, por que as paredes não estão mais pegando fogo?&lt;br /&gt;Levantei-me da cama, fui à direção das paredes e passei a mão num dos Gwers. Ele pareceu sentir Em seguida, todos os outros bichinhos aglomeraram-se em volta de minha mão, pedindo carinho. &lt;br /&gt;- Elas têm um encantamento Zah. Você estava queimando de febre, isto explica o fogo. As paredes representam o que você está sentindo. Agora, por exemplo, você está feliz. Os Gwers só voltam às paredes quando você está feliz ou triste. Eles te ajudam a se acalmar. O canto deles é lindo, não é? – Tayla já estava ao pé da escada, com dois e-normes livros nas mãos. &lt;br /&gt;- Então este quarto é meu? – perguntei maravilhada.&lt;br /&gt;- Claro que sim, sua lerda. – respondeu, com indignação.&lt;br /&gt;- Nossa! – me virei para contemplá-lo – Ele é maior que o nosso apar-tamento! – sorri com a comparação.&lt;br /&gt;- É, com certeza.&lt;br /&gt;Tayla colocou os livros sobre uma mesa redonda, de quatro cadeiras, localizada pouco atrás do sofá da lareira. &lt;br /&gt;Senti cócegas nas mãos. &lt;br /&gt;Um dos Gwers roçava suas delicadas pétalas em mim, enquanto os outros riram da minha feição de espanto. Sorri e passei o dedo indica-dor, de leve, sobre seu tórax, tentando fazer-lhe cócegas. Ele soltou uma suave gargalhada e mudou de cor, para rosa-claro. &lt;br /&gt;- Oi lindinho. - falei&lt;br /&gt;Senti-me a garota mais louca do mundo, aqui parada, fazendo cócegas na parede. Que tosca! Só eu mesma para me divertir com o “papel de parede”.&lt;br /&gt;- Eles não podem sair da parede?&lt;br /&gt;- Sim, mas são uns diabinhos. Comem os móveis, rasgam as roupas, estragam tudo por onde passam. – sorriu.&lt;br /&gt;Voltei a olhá-los, incrédula. Como coisinhas tão fofas podem ser tão terríveis? O pensamento deles destruindo todos os móveis do meu quarto pareceu engraçado. Deve ser como nos desenhos onde os cu-pins destroem tudo em segundos.  &lt;br /&gt;- Você acha que eles estão assim, felizes, por que eu voltei?&lt;br /&gt;- Sim. Eles pensam que você é a mãe deles. Qualquer um ficaria feliz em ter a mãe de volta! – fez um tom de zombaria&lt;br /&gt;- Você não pode estar falando sério! – olhei para todos os delicados bichinhos.&lt;br /&gt;- Relaxa Zarah, você não precisa alimentá-los, trocar as fraldas e todas aquelas coisas chatas. Só precisa dar um pouco de atenção. Nem pre-cisa ser todos os dias. É só sentirem seu cheiro que se acalmam.&lt;br /&gt;- Ah. Que legal, aos dezoito anos, na flor da idade e com trinta filhos para criar. – sorri, pela brincadeira.&lt;br /&gt;- E solteira. – completou Tayla, do outro lado do quarto, numa doce gargalhada.&lt;br /&gt;Sorri, ficando séria em seguida. &lt;br /&gt;- Tah, você percebeu que a minha... Avó... Não me deu os parabéns? – atravessei o quarto. Sentei-me numa das cadeiras ao lado dela.&lt;br /&gt;- Está reclamando? – perguntou, sem tirar os olhos de um dos livros.&lt;br /&gt;- Não, mas é estranho você não acha?&lt;br /&gt;Coloquei os cotovelos sobre a mesa, corri os dedos de uma das mãos sobre o pequeno símbolo ao centro da capa do outro livro.&lt;br /&gt;- Zarah, você odeia receber felicitações. – lembrou-me – Ela não quer você magoada logo no primeiro dia de lar doce lar – fitou-me.&lt;br /&gt;Desviei o assunto.&lt;br /&gt;- Este livro é sobre o que? &lt;br /&gt;O livro tem algumas centenas de páginas. A capa é muito linda, num brilhante couro marrom escuro e, aparentemente, muito resistente. No couro há o desenho de um Grifo, movimentando-se. Alguns segundos depois ela estava empoleirada num imponente brasão, contendo a letra “g”, numa elegante caligrafia, ao centro da capa.&lt;br /&gt;- É o seu livro. – puxou-o em sua direção&lt;br /&gt;- Eu sei que é meu. Todos são meus. Estão no meu quarto, não estão? – olhei à estante lotada com livros de todos os tamanhos e espessuras.&lt;br /&gt;- Não, você não entendeu. – abriu o livro – está vendo? Ele ainda está em branco. É isto que eu queria lhe mostrar. – entregou-me o livro, aberto. &lt;br /&gt;- Mas não há nada escrito aqui! – exclamei perplexa &lt;br /&gt;Folheei o livro, rapidamente, virando-o em direção a ela. Ele está em branco, exceto pela numeração das páginas.     &lt;br /&gt;- Olhe isto! &lt;br /&gt;- Zarinha, amor. Este é o seu livro. Você é quem escreve nele. É assim que as histórias são passadas de geração em geração. O único modo de as palavras não se perderem nunca. Aqui... – bateu, levemente sobre o livro – você contará toda a sua história de vida, todas as aventuras, romances, perdas, lutas, amizades, enfim a sua vida inteira.  &lt;br /&gt;- Mas por que não pagam alguém para fazer isto? Não é mais fácil? Eu não levo jeito para escrever. – fiz uma voz manhosa.&lt;br /&gt;- Ah, você não precisa escrever nada, apenas dizer umas palavrinhas mágicas – fez um sinal de aspas com os dedos - e contar a ele, exata-mente, o que você escreveria. Conforme você fala as letras aparecem.&lt;br /&gt;- Uau! – soltei, em meio à respiração alterada.&lt;br /&gt;A cada minuto que eu passo neste quarto, coisas imprevisíveis aconte-cem. E o pior de tudo? É apenas o começo.&lt;br /&gt;- O que você está lendo? – perguntei&lt;br /&gt;-Adivinhe. – desafiou-me&lt;br /&gt;Levantou o livro, permitindo-me ver apenas a capa. Havia finos ramos de flores delicadas decorando as laterais. Tem o mesmo tamanho que o meu. A capa é toda branca, ao centro há um homem de cabelos cas-tanhos, a pele da cor da minha, muito bonito, segurando um bebê rui-vo, muito fofinho. Assim como o Grifo do meu livro, o homem e o bebê se mexem. É como uma gravação. O plano de fundo é um lindo campo florido. O homem brinca, alegremente, com o bebê; coloca-o deitado sobre o tapete de flores, joga-o para cima, anda em direção à “câmera”, sorridente e o bebê não pára um segundo de sorrir.&lt;br /&gt;Terminada a análise sobre livro, me virei à Tayla, entregando-o.&lt;br /&gt;- Não sei de quem é. &lt;br /&gt;Ela pegou-o de volta e olhou-me fixamente. Sem dizer uma palavra.&lt;br /&gt;- O que foi? Eu não sei de quem é! – disse, irritada.&lt;br /&gt;- É da sua mãe! – levantou o livro – Este homem aqui é o seu pai, e esta criança é você! – apontou o dedo – Você é burra assim mesmo ou está só tirando sarro da minha cara? &lt;br /&gt;Fiquei muito ofendida com suas palavras. Levantei-me, tomei o livro de sua mão e fui à direção da sacada. Tayla não se mexeu de onde estava, permaneceu calada e imóvel.&lt;br /&gt;Na sacada havia duas poltronas brancas e um enorme telescópio preto. Caminhei até a borda, abraçada ao livro da minha mãe, senti algumas lágrimas rolarem de meus olhos. Mas elas secaram, imediatamente, depois de focá-los à paisagem. Onde estou, aparentemente, é o lugar mais alto, pois consigo ver a cidade, quase, inteira. Ela é, estranha-mente, organizada em formato de meia-lua, deformada, virada para a casa da minha avó, ou melhor, para o Castelo da minha avó. É impos-sível olhar o tamanho desta construção e chamá-la de casa. Minha sacada é virada para a parte de fora do castelo, assim como algumas outras, como pude notar. Daqui é possível enxergar um enorme jardim, lotado de flores, àrvores frutíferas e pequenos animais e algumas pessoas vestidas como na época medieval.&lt;br /&gt;- Tah, olhe isto! - chamei&lt;br /&gt;Tayla chegou encostou-se à enorme porta.&lt;br /&gt;- Não está mais chateada comigo?&lt;br /&gt;- Não muito. - sorri&lt;br /&gt;Tayla retribuiu o sorriso, aproximando-se até encostar o corpo à ele-gante grade que circunda a sacada.&lt;br /&gt;- É bonito, não é? &lt;br /&gt;- Muito! – respondi sorrindo – Olhe o céu. É perfeito. - apontei&lt;br /&gt;Tayla ficou alguns segundos olhando longe, com cara de paisagem, sorrindo. De repente virou o rosto em minha direção, dando-me um susto. &lt;br /&gt;- Ai garota! – reclamei, sentindo o coração acelerar.&lt;br /&gt;Ela sorriu.&lt;br /&gt;- Zah, você se lembra uma vez que eu imprimi o desenho de um lindo castelo e te mostrei? &lt;br /&gt;- Lembro, mas não me lembro do castelo, me lembro de outra coisa. – dei um sorriso envergonhado. – Eu peguei o seu desenho, fiz um bo-neco-palitinho numa das sacadas do castelo, escrevi meu nome nele e te contei a história da “princesa Zarah e a Nerd do mal”. &lt;br /&gt;- Você é perversa, não é? &lt;br /&gt;Assenti, num breve sorriso.&lt;br /&gt;Tayla sorriu e disse:&lt;br /&gt; – Eu estou começando a pensar que você é uma vidente.&lt;br /&gt;- Por quê? – perguntei apreensiva.&lt;br /&gt;Eu tenho mais um poder? Prever todos os acontecimentos?&lt;br /&gt;Sorri, pela idéia.&lt;br /&gt;- Não, Zarah, estou apenas brincando. Você não é vidente. – respon-deu, rapidamente, ao ler minha expressão. – Você não se lembra de quem era aquele castelo?&lt;br /&gt;- Não? – saiu em tom de pergunta. &lt;br /&gt;Vasculhei meu cérebro, tentando lembrar-me de algo mais, nunca prestei atenção nas conversas de Tayla, provavelmente nem ouvi quando ela mencionou o nome do dono do castelo.  &lt;br /&gt;- Aine.&lt;br /&gt;- Em? - o nome familiar interrompeu meus pensamentos.&lt;br /&gt;- Aine. Este é o nome da dona do castelo. E a sacada do boneco-palitinho que você desenhou é esta. – bateu as duas mãos na grade. – Você se desenhou na sacada certa. Não é uma loucura tudo isto?&lt;br /&gt;- Muita loucura! – soltei o ar. - Eu sou uma vidente mesmo! – coloquei o dedo indicador na têmpora. – estou vendo o seu futuro! – fechei os olhos – e ele me diz que você... – abri os olhos – vai permanecer deste tamanho para sempre!&lt;br /&gt;Sacudi os dedos em sua direção.&lt;br /&gt;- Zarah, pára de amolar e vai tomar um banho! Está muito nojenta com toda esta meleca pelo corpo. – usou dois dedos para tampar o nariz.&lt;br /&gt;- Eca, havia me esquecido! – levantei os braços a fim de olhar a gosma mais de perto.&lt;br /&gt;- É. Vai lá, vai. – fez sinal com a mão livre.&lt;br /&gt;Entrei no quarto, procurando o banheiro.&lt;br /&gt;- Em baixo da escada! – gritou Tayla.&lt;br /&gt;Corri para lá, escorregando no carpete branco que envolvia a cama. Deixei uma marca alaranjada exatamente onde caí.  &lt;br /&gt;- Droga! &lt;br /&gt;Levantei-me, num pulo, e continuei, agora devagar, seguindo até a porta abaixo da escada. Respirei fundo antes de abri-la, pensando em como seria o outro lado.&lt;br /&gt;- É lindo! – gritou Tayla, novamente – Entre logo!&lt;br /&gt;Ela estava sentada à mesa, folheando o livro da minha mãe, como fi-zera antes.&lt;br /&gt;Respirei mais algumas vezes.&lt;br /&gt;- Tudo bem, não se assuste. – disse repetidas vezes.&lt;br /&gt;Abri a porta, devagar. Tayla tinha razão, o banheiro é lindo. E grande.&lt;br /&gt;- Caraca! – perdi o fôlego.&lt;br /&gt;O banheiro é enorme, tem uma linda banheira e armários, com muitas toalhas e acessórios íntimos, em volta de uma bancada. Tudo de ma-deira, exceto a pia do meio da bancada, esta, levemente prateada, mas sem chamar atenção. Havia também um lindo chuveiro, da cor da pia, e um vaso sanitário. Mas o que me chamou atenção mesmo foram as paredes. &lt;br /&gt;As paredes são repletas de pedras do tamanho da minha cabeça. Mas apesar disto não parece rústico, e sim leve. &lt;br /&gt;Lembrei-me da gosma colada em meu corpo e desviei os olhos das paredes, indo à direção do chuveiro. Demorei um pouco no banho, por que a gosma não saía de jeito algum.&lt;br /&gt;Saí do chuveiro, abri um dos armários e peguei uma toalha e roupas íntimas, sequei-me, passei os dedos em meu cabelo molhado, espa-lhando-o, coloquei as peças e saí de lá enrolada na toalha.&lt;br /&gt;Passei pela porta, fechando-a em seguida. &lt;br /&gt;Coloquei meus óculos de grau, para não tropeçar em nada.&lt;br /&gt;- Saiu tudo? – perguntou Tayla, agora esparramada às almofadas do chão, junto à Kika.&lt;br /&gt;- É aí que você dorme? – perguntei à minha nova melhor amiga&lt;br /&gt;- Sim. – disse em sua doce voz de soprano&lt;br /&gt;- Que ótimo, acho que ficaria com medo de dormir sozinha aqui.&lt;br /&gt;- Ela é tão fofinha de apertar. – disse Tayla, em meio às penas de Kika.&lt;br /&gt;- Tah, onde você colocou as minhas roupas? – procurei a mala.&lt;br /&gt; - Elas guardaram tudo nos guarda-roupas. – respondeu, sentando-se. &lt;br /&gt;Andei até os guarda-roupas e abri o primeiro. Nele havia quatro portas, de rolar. Abri uma delas e tive uma surpresa. Todas as minhas roupas estavam lá, todas mesmo, as da mala e as do meu armário de Campo Grande. &lt;br /&gt;- O que foi? – perguntou Tayla, ainda nas almofadas.&lt;br /&gt;- Todas as minhas roupas estão aqui! – apontei &lt;br /&gt;- Eles trouxeram as minhas também. Legal né!&lt;br /&gt;- Estranho. – sorri.&lt;br /&gt;- O que tem no outro? – desviei os olhos para o segundo armário, sig-nificativamente, maior que o primeiro. &lt;br /&gt;- Roupas para você usar aqui. Algumas para o dia-a-dia e outras para ocasiões especiais. Pelo menos foi isto que ela me disse. – explicou-se. – Mas eu acho que você não vai gostar muito. Elas são meio... Me-dievais. – fez careta&lt;br /&gt;Desisti, imediatamente, das antigas roupas e abri o outro armário. Nele havia seis portas. As duas primeiras contêm uma sapateira, abarrotada com todos os tipos de calçados. Desde os meus Allstars até sapatos estranhos de contos de fada.&lt;br /&gt;- Tah, olhe isto! – abri totalmente as portas do armário.&lt;br /&gt;- Nossa! – levantou-se veio até mim.&lt;br /&gt;Tayla tirou todos os pares do armário e experimentou um por um. En-quanto ela se divertia, eu abri as portas do meio, procurando pelas roupas. Portas certas. Na parte de dentro há duas divisões, verticais, com blusas penduradas de um lado e vestidos do outro. O espaço das blusas, pouco maior que o dos vestidos, contém mais peças. Assim como os calçados, aqui a variedade é muita, desde camisetas desenha-das a blusas que faziam par com os sapatos da Cinderela. Com os ves-tidos não é diferente, há desde vestidos longos com corpete até soltos de renda. Quase todos no mesmo padrão de época &lt;br /&gt;Foi difícil escolher, mas acabei optando por uma camiseta preta e um casaco vermelho com zíper e capuz, já que estava um pouco frio. &lt;br /&gt;Abri as duas últimas portas, prevendo o que encontraria. Diferente das portas do meio, a parte de dentro, deste lado do armário, não possui divisão. Há uma enorme arara lotada de calças e shorts de todos os tipos e modelos. Desta vez não foi difícil escolher, optei por uma calça jeans skinning, escura. Olhei os sapatos jogados no chão. Demorei a decidir qual usar, guardei os de salto, a fim de ter uma visão melhor dos tênis. Escolhi um allstar cinza.&lt;br /&gt;- Ficou bom? &lt;br /&gt;- Eu gostei. – respondeu Tayla, ainda no chão.&lt;br /&gt;- O que achou Kika? – subi na cama.&lt;br /&gt;- Gostei. – disse, levantando a enorme cabeça.&lt;br /&gt;- Então será esta. – pulei da cama de volta ao chão. Sem cair.&lt;br /&gt;- Você sentirá calor com este casaco. – disse Tayla, em pé, analisando um scarpin, bordo, de bico redondo, em seu pé. &lt;br /&gt;- Não vou, não. Está esfriando. – respondi segura do que havia dito.&lt;br /&gt;- Lógico que não está. – desceu do salto, guardando-o em seguida.&lt;br /&gt;- Lógico que está!&lt;br /&gt;- Ela não pode sentir, Grania. Os humanos não são tão sensíveis, como nós às mudanças de temperatura. Eles sentem se ela muda dois ou três graus, já nós, podemos sentir as mudanças antes que elas aconteçam. &lt;br /&gt;- Unf. Vai esfriar, mesmo? – bufou Tayla.&lt;br /&gt;Kika assentiu. &lt;br /&gt;- Eu disse! – desafiei.&lt;br /&gt;- Mas que droga em! E vai esfriar mais?&lt;br /&gt;- Com certeza. – disse kika, acomodando-se às almofadas.&lt;br /&gt;- Pelo menos isso né. - observei&lt;br /&gt;- Por que você gosta tanto de friu? – perguntei &lt;br /&gt;Fiz careta, pela explicação, impossível, de Tayla. Não acredito que existam tantos seres mágicos assim.&lt;br /&gt;Ela fingiu não ver minha expressão.&lt;br /&gt;Terminou de guardar os tênis, fechou a porta do armário e dirigiu-se até as almofadas. Sentando-se ao lado de Kika, perto de sua cabeça, e começou a fazer carinho na enorme ave.  &lt;br /&gt;- Termine logo de se arrumar, seus avós estão nos esperando lá em baixo.&lt;br /&gt;Senti todos os meus músculos se contraírem. A palavra “avós” e não “avó” interrompeu minha linha de raciocínio e fez minhas pernas bambearem. A vida inteira eu só conheci um avô, que faleceu ano passado. Tomei um choque tremendo ao saber da existência de Aine, e agora, do nada, a palavra muda para o plural. Várias emoções estranhas brotaram ao mesmo tempo. Permaneci estática, forçando meus olhos focarem algo e pararem de sambar ao redor do quarto. Concentrei-me em não ter outro ataque igual ao de quando conheci Kika. Foi difícil, mas eu consegui não pirar e pensar em algo mais importante. &lt;br /&gt;Tentei não pensar no depois. Apenas focar-me no agora, e agora eu precisava de olhos. &lt;br /&gt;Dei alguns passos à frente.&lt;br /&gt;Kika e Tayla me olharam apreensivas.&lt;br /&gt;- Cadê minhas lentes?&lt;br /&gt;Abri a primeira gaveta da penteadeira.&lt;br /&gt;- Ela não sabia que você usava lentes. Não deu para comprar, mas me disse que você pode ir à cidade pegar algumas, depois do almoço.&lt;br /&gt;Fechei a gaveta com força. &lt;br /&gt;- Ah, que ótimo! – bufei.&lt;br /&gt;Odeio usar óculos, apesar de este ser bonito; pequeno de armação pre-ta. Eles sempre parecem pesar uma tonelada. Todos me incomodam, um pouco. Eu sei que é apenas por que eu os odeio, pois o mesmo não acontece aos de sol. &lt;br /&gt; - Terei de usar esta coisa até depois do almoço? Mas que sorte em. &lt;br /&gt; Levantei-me da cadeira.&lt;br /&gt;- Relaxa Zah. Nós já vamos almoçar.&lt;br /&gt;- Que horas são? – perguntei espantada&lt;br /&gt;Pensei que não fosse nem nove da manhã.&lt;br /&gt;- 11h30min. – disse Tayla, olhando em seu relógio.&lt;br /&gt;- Que horas eles costumam almoçar? – perguntei à Kika&lt;br /&gt;- Fique tranqüila, Grania, você não os está atrasando. Eles não costu-mam almoçar muito cedo.&lt;br /&gt;Relaxei um pouco mais. Pelo menos a rotina deles eu não baguncei, totalmente.&lt;br /&gt;- Estou pronta.&lt;br /&gt;- Eu acho que não. – disse Tayla, apontando para meu cabelo. &lt;br /&gt;- Ah, havia me esquecido! – coloquei a mão sobre a cabeça.&lt;br /&gt;Corri até o banheiro. &lt;br /&gt;Lembrei-me de ter visto um secador dentro de um dos armários. Esta-va certa. Sequei meu cabelo, com pressa. Suas pontas voltaram a ficar espetadas, dei uma arrumada na franja e saí.&lt;br /&gt; - Agora sim! – disseram em coro.&lt;br /&gt;- Vamos? – desloquei-me até a porta. &lt;br /&gt;- Agora sim. – exclamou Tayla.&lt;br /&gt;- Não esqueça de pegar seu casaco, Tah. Já está começando a esfriar e nós não voltaremos aqui, vamos direto para a cidade, preciso pegar as lentes o quanto antes. – lembrei-a&lt;br /&gt;- Me espere, então! – apontou o dedo.&lt;br /&gt;Ah, como se eu tivesse coragem de descer lá sozinha para conhecer meus avós. Até parece. &lt;br /&gt;- Eu espero, mas vá logo! – estralei os dedos.&lt;br /&gt;Ela, rapidamente, pegou um casaco, branco, do meu armário e o amar-rou à cintura. Correu até perto da porta e fez sinal para q eu abrisse.&lt;br /&gt;Puxei os dois lados, da grossa porta, sem esforço algum, para meu espanto. Olhei para dentro do quarto uma última vez, Kika já havia saído pela enorme porta da sacada e Tayla estava impaciente, atrás de mim.&lt;br /&gt;- A hora é agora! – sorriu.&lt;br /&gt;Respirei fundo, dando um passo para fora do quarto. &lt;br /&gt;Coração acelerado, mãos gélidas. &lt;br /&gt;Já fora do quarto, meu coração acelerou, impossivelmente, ainda mais. Em frente há um largo corredor com paredes de alabastro, da cor de peixe cozido, esculpido, mas não foi somente isto que me impressio-nou. Antes de chegarmos ao fim do corredor passamos pro várias salas de portas abertas. Eram tantas que foi impossível lembrar o que há em todas elas, mas três me chamaram atenção. A primeira é uma enorme biblioteca; muitos quadros antigos, alguns sofás e dois andares de pra-teleiras lotadas de livros. Já a segunda contém instrumentos musicais; violino, violoncelo, harpa, piano, clarinete, corne inglês e flauta foram os que consegui enxergar. Todos os instrumentos do mundo deveriam estar lá. Nas paredes havia quadros de compositores dos quais reco-nheci meus favoritos; Beethoven, Brahms, Chopin, Debussy, Schu-mann e Bach. Eu não consegui identificar uma porção de outros com-positores, e parei de olhar ao notar que num dos quadros havia uma mulher de um olho só. E ela não era a única “estranha” dentre as ima-gens, pois havia mais dois homens de diferentes tons de pele. Os tons não variavam entre o albino e o negro e sim entre azul claro, lilás e amarelo. A sala número três, consideravelmente menor que as outras, me chamou atenção de uma maneira diferente. Ela não possuía nada além de uma poltrona bordo, antiga e puída, de costas para a porta, grandiosas janelas medievais cobertas por cortinas negras, chamusca-das, e um majestoso espelho prateado. A pequena sala era iluminada apenas pelo feixe luz vindo do corredor. Mas o que me chamou mais atenção foi que em todas elas há Gwers, uma espécie diferente em cada sala. Eles se comportavam como guardiões delas, reprimiam meu olhar curioso com protestos delicados. &lt;br /&gt;Logo chegamos ao fim do enorme corredor que termina numa escada no mesmo tom de mármore claro das paredes. A escada se junta ao lado oposto de onde estávamos e desce majestosamente larga até o hall de entrada. Havia muitos quadros com lindas paisagens e diferentes rostos.&lt;br /&gt;Descemos a escada numa rapidez absurda. Tayla parecia achar graça de minha ansiedade, mas acompanhou-me sem reclamações.&lt;br /&gt;- Esquerda. – apontou ao ver o ponto de interrogação no meio do meu rosto. &lt;br /&gt;- Como você sabe para onde devemos ir?&lt;br /&gt;- Zah, você tem idéia de quantas horas eu fiquei esperando você acor-dar? Não havia nada a fazer aqui, então decidi explorar o castelo. - olhou envolta – Me pergunte onde fica qualquer coisa, eu saberei! – respondeu orgulhosa.&lt;br /&gt;- Menos Tah, bem menos! &lt;br /&gt;Deixei que ela me orientasse, passando à frente. &lt;br /&gt;O restante do castelo continuava na mesma cor de paredes e piso. Muitos lustres gigantescos, cadeiras com acolchoado vermelho, dese-nhos no teto e tapetes, muitos tapetes. Vários portais ligavam corredo-res intermináveis e espaços ocupados, ora por tochas nas paredes, ora por quadros.&lt;br /&gt;Chegamos à sala onde estavam meus avós.&lt;br /&gt;Foquei-me em não tropeçar e conseguir dar um passo de cada vez, mas não estava com cabeça para isto. Só o que consegui foi olhar cada um dos rostos enrugados e sorridentes da grande sala retangular e sentir vergonha quando meu olhar foi retribuído por cada um deles. Meus pés não me obedeceram, fazendo-me permanecer onde estava. Tayla me deu um leve empurrão tentando melhorar a aproximação. &lt;br /&gt;- Bem vinda de volta Grania! – disse o Jovem idoso sentado ao lado de Aine. &lt;br /&gt;Todos levantaram, vieram em minha direção, a passos lentos, depois de perceber a dificuldade de Tayla em me mover para dentro da sala.&lt;br /&gt;Meus olhos dançaram entre Tayla e os quatro idosos.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1989948983729069475-6558217772598554326?l=www.zarahluna.com.br' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://www.zarahluna.com.br/2009/08/cap-4-aine.html</link><author>iarafp_soares@yahoo.com.br (Iara Fepasiso)</author><thr:total>4</thr:total></item><item><guid isPermaLink='false'>tag:blogger.com,1999:blog-1989948983729069475.post-5347953109786896409</guid><pubDate>Thu, 16 Jul 2009 23:49:00 +0000</pubDate><atom:updated>2010-08-31T22:33:09.491-07:00</atom:updated><title>Cap. 3  Bonito</title><description>Kika inclinou-se o máximo possível, esticando o pescoço a fim de parecer menor e facilitar nossa descida. Eu fui à primeira. Coloquei uma perna de cada vez do lado esquerdo de seu corpo, como se esti-vesse sentada numa cadeira. O mesmo que fazemos ao descer de cava-los, dei um pequeno impulso sem tirar os olhos do chão e, como já era de se esperar, caí sentada ao tocá-lo, senti uma dor muito intensa nos calcanhares, mas nada que durasse muito tempo. Levantei-me com a ajuda de Kika, que me empurrou com uma das asas, e esperei os ou-tros, em pé, em baixo de uma grande mangueira localizada atrás da pousada. &lt;br /&gt;– Obrigada – disse numa voz tímida. &lt;br /&gt;Não gosto quando caio na frente das pessoas, isto sempre me deixa muito sem jeito. &lt;br /&gt;Mesmo que a pessoa seja uma ave falante. &lt;br /&gt;Depois de mim foi a vez de Tayla, ela não teve dificuldade alguma na descida, muito pelo contrário, se divertiu bastante enquanto escorre-gava as costas nas penas de Kika antes de pular. &lt;br /&gt;Ao tocar o chão esticou um dos braços, alisou as penas da ave, depois correu em minha direção. &lt;br /&gt;- Obrigada pela carona Kika. Espero que nos encontremos de novo para mais aventuras aéreas como esta. – disse numa voz divertida en-quanto sentava-se ao meu lado.&lt;br /&gt;O Leprechaun ficou por último. Mas, antes de descer, permaneceu alguns segundos em cima de Kika, olhando-a fixamente e dizendo num tom baixo em outra língua, como se fosse algo que não podíamos saber. Aquilo foi muito estranho. Depois que ele desviou o olhar ela sacudiu a cabeça levemente como quem diz ter concordado com o que ele tenha dito. &lt;br /&gt;Depois disto olhou em nossa direção e desceu. Foi tudo tão rápido que nem pudemos ver, quando percebemos, ele já estava vindo em nossa direção enquanto resmungava algo na mesma língua estranha de antes, impossível de se entender. &lt;br /&gt;- O que nós faremos agora? – perguntou Tayla, ainda sentada, levan-tando a cabeça, a fim de olhar em minha direção.&lt;br /&gt;- Não sei Tah, vamos falar com a mamãe, ela precisa me entregar a carta o quanto antes, ele acha que não temos mais tempo a perder. – disse apontando na direção do Leprechaun.&lt;br /&gt;- Não temos tempo mesmo, seus pais já esperaram por muito mais tempo que o possível, eles não conseguirão agüentar nem mais um mês dentro daquela coisa, seja lá o que for aquilo, está se desfazendo e desmoronando, não tem muito tempo até serem soterrados. – disse andando em direção à pousada e desviando de onde estávamos Tayla e eu.&lt;br /&gt;- Espere aí! – exclamei indo em sua direção enquanto fazia sinal com uma das mãos. &lt;br /&gt;– Eu acho melhor Tayla e eu entrarmos primeiro e conversar com ela, contar tudo o que está acontecendo. Depois que terminarmos toda a história você entra. Se eu conheço bem a mamãe ela irá ter um “treco” e desmaiar assim que o ver entrar em casa, do nada, sem explicação alguma.&lt;br /&gt;Ele pensou por alguns minutos e fez expressões engraçadas enquanto, em minha opinião, seu subconsciente debatia as idéias consideradas. &lt;br /&gt;– Darei a vocês dez minutos e nada mais! – apontou o dedo em nossa direção – ela não precisa de muitas explicações, apenas o essencial que não a deixe louca com seu sumiço pelos próximos dias. – ele defi-nitivamente estava mal humorado, não contava em ser excluído da conversa com minha mãe.&lt;br /&gt;- Dez minutos? Você está de brincadeira né? – Agora eu tenho somen-te dez minutos para contar a mesma história que ele levou a manhã quase inteira contando? Só nos pensamentos dele!&lt;br /&gt;– Não mesmo! – olhei fixamente, tentando persuadi-lo - eu preciso de um pouco mais de tempo, e se ela reagir mal e não me deixar ir? Pre-cisarei de mais tempo para convencê-la. – fuzilei-o, tentando ser o mais convincente possível. &lt;br /&gt;Deu certo.&lt;br /&gt;- Tudo bem, nós vamos fazer assim então... – virou-se em direção à pousada, apontando o dedo enquanto dizia - eu vou com vocês até ali perto da casa e fico escondido, quando ela estiver pronta você me manda um sinal para que eu saiba a hora de entrar. – estava confiante de sua decisão. Sem precisar olhar para mim, continuou andando em linha reta. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mas...&lt;br /&gt;– É isto ou nada feito, você escolhe. – me interrompeu - Ou eu mesmo vou e conto tudo a ela e vemos o que acontece ou fico o mais perto possível e você tem dez minutos para explicar a situação toda. É pegar ou largar! &lt;br /&gt;- Eu pego! – disse, desviando meus olhos do pequeno homem e me virando em direção à Tayla. Ela me olhava com uma expressão engra-çada e um enorme ponto de interrogação no meio da testa. Levantei-me sacudindo os ombros em resposta. &lt;br /&gt;– Eu não tenho escolha Tah, não queria que fosse assim, mas não há outro jeito de resolver as coisas. Não tenho tempo para discutir, ele é muito cabeça-dura, não mudará de idéia facilmente. &lt;br /&gt;- O que? – deu uma pausa, provavelmente estava organizando seus pensamentos. - Zarah, você nunca trocou uma discussão por nada neste mundo! – estava com a expressão muito confusa. – O que está acon-tecendo com você? Ser paciente e compreensiva nunca foi seu forte!&lt;br /&gt;- Não sei o que está acontecendo, Tah. Estou um pouco confusa com tudo o que está acontecendo. Minha vida deu um giro de trezentos e sessenta graus desde a hora em que acordei. Não é nada fácil para eu lidar com todas estas novidades repentinas.&lt;br /&gt;Puxei-a pelo braço andando em direção à parte da pousada onde se localizava a sala de massagens de Valentina.&lt;br /&gt;- Zah! &lt;br /&gt;Virei para encará-la, não queria discutir mais, mas ela estava forçando um pouco a barra.&lt;br /&gt;- O que foi agora Tayla? – eu já estava zangada.&lt;br /&gt;- Feliz Aniversário! – um sorriso largo tocava seus olhos brilhantes.&lt;br /&gt;-Obrigada Tah, eu já tinha me esquecido. – disse sem graça enquanto a abraçava. &lt;br /&gt;- Tenho um presente, mas te darei quando voltar! – libertou-se de meu aperto e correu em direção à sala onde Valentina, possivelmente, está. &lt;br /&gt;- Ela tem uma áurea muito iluminada! – disse o pequeno homem&lt;br /&gt;- Eu sei, ela tem o coração mais puro e amoroso que eu conheço. – olhava-a enquanto corria até entrar na sala e sumir.&lt;br /&gt;- Você acha mesmo necessário contar toda a história? – pegou em minha mão direita, me fazendo parar.&lt;br /&gt;- Eu preciso! – disse numa voz triste – nunca escondemos nada uns dos outros... – parei a frase olhando o céu - exceto a minha procedên-cia. – disse num sorriso leve.&lt;br /&gt;- Vá! – soltou minha mão – ficarei aqui nesta árvore – apontou um dos pés de manga.&lt;br /&gt;- Assoviarei quando ela estiver pronta! &lt;br /&gt;Corri em direção a sala onde Valentina fica durante a manhã.&lt;br /&gt;- Você tem dez minutos! Não se esqueça. – sua voz era apenas um sussurro.&lt;br /&gt;Tentei me controlar o máximo para não dar bandeira. Entrei na sala de massagem o mais rápido que pude, tropeçando no tapete da porta. &lt;br /&gt;- Mãe! &lt;br /&gt;- Zarah? – perguntou uma voz do outro lado da sala.&lt;br /&gt;- Mãe, onde você está? Na sala de massagem? – entrei e fiquei parada no meio da recepção.&lt;br /&gt;- Oi filha! O que você está fazendo aqui? – perguntou, com os braços abertos, me esperando.&lt;br /&gt;Valentina, alguns centímetros maior que eu, tem a pele naturalmente bronzeada, os cabelos negros, sem tintura alguma, lisos até o meio das costas e presos numa trança embutida. Ela é uma, diferente, mistura de português, por parte de pai, com índio, por parte de mãe. Tem um rosto de traços delicados, contrariando sua natureza indígena. Aparenta ser, aproximadamente, dez anos mais velha que eu. Apesar disto não faz questão alguma de mentir a idade real, trinta e oito anos. Ela tem um nariz pequeno e levemente empinado, os lábios um pouco finos numa boca pequena e olhos cor de mel. Magra, pela ausência de carne em sua dieta de grãos, verduras e legumes, quadris largos e barriga modelada, pelas aulas de pilates, de dar inveja a qualquer garota da minha idade.   &lt;br /&gt;- Eu estava com saudades de vocês! – menti. &lt;br /&gt;Fui à direção de seus braços abertos e ficamos assim durante alguns segundos, que pareceram horas. Eu sempre me sinto mal em ter que mentir a um deles, mas precisava. Até estar pronta para contar a ver-dade, apesar de não ter tempo suficiente.&lt;br /&gt;- Feliz Aniversário, Feia! – disse baixinho, a voz abafada pelo meu “abraço de urso”.&lt;br /&gt;Minha família inteira me chama assim, desde que me lembro de ser gente. Nunca perguntei o porquê, basta dar uma olhada no espelho e lá estará a resposta. Apesar de a resposta que todos dão ser: “quando você era pequena costumava chamar todos assim, feia, então o apelido pegou em você!”. Mas eu nunca liguei para este apelido estranho, sempre fui realista a ponto de não ficar chateada. Ficar brava com to-dos não vai mudar meu rosto! Sempre pensei deste modo.&lt;br /&gt;- Obrigada mãe! – soltei-a de meu aperto intenso.&lt;br /&gt;- Tayla me disse que você tem uma história para me contar. – disse arrumando minha franja, que estava um emaranhado e cobrindo toda a minha visão esquerda tocando levemente a ponta do meu nariz.&lt;br /&gt;- Disse, é? Onde ela está? – rolei meus olhos em volta da recepção, procurando a laranjinha traidora. &lt;br /&gt;- Sim, me disse. Ela está na cozinha tomando café da manhã. Você não está com fome? A Dona Maria fez uma deliciosa salada de frutas para você.&lt;br /&gt;- Na verdade eu preciso te contar tudo, antes, tenho apenas dez minu-tos. – apesar de ser ciente de ter um pouco menos de oito minutos ago-ra.&lt;br /&gt;- Pode me contar então, já que você tem apenas dez minutos. – sorriu ao dar ênfase no número.&lt;br /&gt;- Mãe, é sobre a minha carta. – disse calmamente – eu preciso que você me entregue.&lt;br /&gt;- Primeiro conte-me a história e depois eu lhe entrego a carta. – irrita-ção aparente em seus olhos cor de mel.&lt;br /&gt;Concordei sem reclamar. &lt;br /&gt;- Eu não quero falar aqui na frente de todos. – mostrei, com os olhos, todos os hóspedes e funcionários que olhavam em nossa direção com ar de curiosidade.&lt;br /&gt;- Vamos para a sala de massagem, lá ninguém nos ouvirá. – olhou-me preocupada enquanto me conduzia.&lt;br /&gt;Ao chegarmos à sala, sentei-me numa cadeira e Valentina puxou outra até ficar de frente a mim. Contei toda a história, observando todos os seus movimentos e temendo um ataque cardíaco a qualquer hora. Ela ouviu tranquilamente, fazendo caras estranhas e ficando um pouco triste quando eu mencionava minha mãe verdadeira. Ficou estranha-mente feliz quando na parte da história em que meu pai aparece e disse sentir muitas saudades dele. No mesmo momento lembrei-me do irmão mais novo dela, que havia desaparecido misteriosamente, deixando apenas uma carta que dizia “voltarei para visitá-los. Algum dia.”, e nunca mais voltou. Senti um aperto no coração ao lembrar dos meus avós, que foram as pessoas que mais sofreram com seu sumiço. &lt;br /&gt;Por incrível que pareça, Valentina compreendeu a história toda sem desmaiar, como eu fiz, ou reclamar quando contei iria procurá-los.&lt;br /&gt;- Eu sei que não é o que você espera que eu diga – deu uma pausa, pegou minhas mãos, e continuou acariciando-as – mas eu não vou impedi-la de procurá-los, são seus pais de sangue, apesar de nunca estarem presentes. Eu tenho certeza que Ryan não deixará que nada de ruim aconteça a você, minha filha, se estas tais pistas são para você, com certeza elas não te levarão a lugares perigosos.&lt;br /&gt;- Obrigada mãe! – uma lágrima rolou e secou antes de tocar meu ma-xilar.&lt;br /&gt;- Agora, Feia, diga-me, onde está o seu amigo Leprechaun? Preciso trocar algumas palavrinhas com ele antes de te entregar a carta.&lt;br /&gt;Antes que eu respirasse para chamá-lo ele estava em pé em frente à porta, muito sério, olhando na direção de Valentina, com olhos caute-losos. &lt;br /&gt;- Madame. – acenou com a cabeça, como os bons cavalheiros de filmes da década de vinte.&lt;br /&gt;- Você não nos estava espionando. Estava? – indagou Valentina, le-vantando-se lentamente.&lt;br /&gt;- Não senhora! – disse ainda sério, fitando-a – Nós havíamos estipula-do dez minutos para a conversa. O tempo encerrou-se e eu apenas es-tou cumprindo o combinado, vindo até aqui apressá-la.&lt;br /&gt;- Muito bem. – há centímetros do pequeno homem – Preciso conversar com você antes dela ler a carta. – virou-se a mim.&lt;br /&gt;- Mãe, pegue leve com ele, está bem? Ele não tem culpa de nada. – disse pacientemente.&lt;br /&gt;- Vá para a cozinha comer algo, deve estar faminta. Eu prometo não demorar muito aqui. – seus olhos borbulharam toda a tensão existente em seu corpo.&lt;br /&gt;Valentina pediu que o Leprechaun se sentasse na mesma cadeira que eu ocupara antes. Fiquei parada em frente á porta, pensando qual seria a melhor opção, sair ou ficar? &lt;br /&gt; Valentina não me deu alternativas.&lt;br /&gt;- Vá tomar um pouco de ar se não estiver com fome, você está muito pálida, minha filha. – empurrou-me, delicadamente, para fora da sala. Trancou a porta e a última coisa que eu consegui ouvi foi “Agora po-demos conversar em paz”.&lt;br /&gt;Saí da sala lentamente, tentando ouvir e absorver mais algumas pala-vras da conversa deles, mas não ouvi mais nada. Valentina tinha razão, eu estava me sentindo um pouco tonta com toda a conversa. Respirei fundo e fui à cozinha contar à Tayla que Valentina já estava por dentro de toda a história.&lt;br /&gt;Não tenho certeza se é por eu estar faminta ou pelo cheiro delicioso que vinha da cozinha, algum destes fatores me fez andar mais depressa que o possível. &lt;br /&gt;Parei na porta e vi Dona Maria, uma senhora com mais de sessenta anos, baixa, cabelos esbranquiçados, pele branca e bem gordinha, pro-vavelmente, uns vinte quilos à cima do peso. Ela trabalha com minha família desde quando minha mãe era pequena. &lt;br /&gt;- Minha filha! – largou a vasilha, que continha uma cobertura de cho-colate, na mesa e veio em minha direção. – Feliz Aniversário, minha lindinha! – disse alegremente ao me abraçar. Ela é a única pessoa que não me chama pelo apelido. Sempre fica brava quando ouve alguém me chamando assim.&lt;br /&gt;- Obrigada Táta! – disse dando um beijo em sua bochecha. &lt;br /&gt;Eu sempre a chamei por este apelido, desde pequena. Minha mãe diz que todas as vezes que Dona Maria tentava me ensinar a falar seu no-me, a única palavra que saía era Táta. Desde então eu só a chamo as-sim.&lt;br /&gt;- A Táta fez uma saladinha de frutas para você! – disse, em terceira pessoa, sorridente, me guiando pela cozinha, com uma das mãos em minha cintura. – Sente-se aqui que eu vou pegá-la. &lt;br /&gt;Tayla estava sentada do outro lado da mesa, de frente para mim, se lambuzando na panela da cobertura de chocolate que Táta havia aca-bado de preparar.&lt;br /&gt;- Isto vai te dar dor de barriga Tah! – disse, torcendo o nariz, repug-nando o cheiro do chocolate quente que havia tomado conta da cozi-nha. – Olhe isto, – toquei um dos dedos na parte de fora da panela – ainda está quente!&lt;br /&gt;- Ah. Dê-me um tempo Zarah! A alérgica a chocolate aqui é você e não eu! – disse, afundando o dedo indicador na lateral da panela, en-chendo-o de chocolate.&lt;br /&gt;- Eca! – fiz cara de nojo. Um arrepio tocou meus braços e fez doer os dois lados do meu maxilar, o mesmo que ocorre quando chupo tama-rindo. - Você vai virar uma obesa se continuar comendo deste jeito. Nem vai passar na porta, mais! – sorri em provocação.&lt;br /&gt;- Vire esta boca para lá! – disse, colocando o dedo novamente na pa-nela. – Eu preciso aproveitar a oportunidade, eu nunca acordo a tempo de comer o resto da calda que fica na panela. – encheu o dedo, desta vez e o enfiou inteiro na boca, lambuzando os lábios e o queixo.&lt;br /&gt;- Tayla!&lt;br /&gt;- O que foi desta vez Zah? – levantou a cabeça em minha direção&lt;br /&gt;- Tem chocolate na sua cara! – apontei o dedo, de longe.&lt;br /&gt;- Onde? – balançou levemente a cabeça, mandando seu cabelo todo para trás dos ombros e deixando o rosto livre para minha observação.&lt;br /&gt;- Aqui, olha! – ainda apontando o dedo longe&lt;br /&gt;- Onde? – começou a ficar irritada&lt;br /&gt;- Aqui, olha! – fiz o mesmo movimento&lt;br /&gt;- Onde garota? Fala logo onde é! – estava no ponto que eu esperava. Muito irritada.&lt;br /&gt;Espalmei minha mão e levei-a em direção a seu rosto. Ela se inclinou levemente em minha direção então eu desviei o foco, enfiei minha mão na panela e a esfreguei duas vezes seguidas no rosto de Tayla. &lt;br /&gt;- Aqui, olha! – fiz movimentos circulares com a mão esquerda, sem tocar seu rosto novamente.&lt;br /&gt;- SUA VACA! – disse entre a calda de chocolate que inundava seu rosto – você me paga! – lambuzou as duas mãos na panela empurrando a cadeira logo em seguida.&lt;br /&gt;- AHHHHHHHH! – soltei um grito estridente&lt;br /&gt;Levantei-me, num pulo, da cadeira e corri para fora da cozinha, em direção à parte de fora da pousada. Mas, como já era de se esperar, tropecei na grama e caí feito uma jaca, de costas para o chão. Tayla, que estava logo atrás, montou em cima de mim, me deixando parcial-mente imobilizada. Passou a cobertura em meu rosto e, como não pa-rava de me mexer, acabou inundando todo o meu cabelo com aquela a calda horrível de tão doce. &lt;br /&gt;Quando acabou todo o chocolate de suas mãos, e não havendo mais espaço em meu rosto, ela deitou-se na grama, ao meu lado. Olhamos uma para a outra e começamos a rir, de nós mesmas e daquela situação estranhamente engraçada. As duas com o rosto coberto de chocolate e deitadas no chão.  &lt;br /&gt;Seu rosto estava completamente coberto de chocolate, fazendo com que o cabelo ficasse num tom ainda mais alaranjado que o normal. Havia também alguns pedaços da grama colados em meio à cobertura marrom.&lt;br /&gt;- Mas o que está acontecendo aqui? Vocês enlouqueceram? – Táta gritou da porta da cozinha.&lt;br /&gt;Levantei-me rapidamente, meu estômago doendo de fome. Ajudei Tayla a se levantar e nos viramos em direção a ela.&lt;br /&gt;- Meu Deus! – levou a mão à boca, num susto – Mas será que vocês duas não irão tomar jeito, nunca? – disse ainda parada à porta.&lt;br /&gt;- Tomara que não Táta! – locomovi-me em sua direção&lt;br /&gt;- Tomar jeito é para os fracos! – Tayla estava logo atrás de mim, sor-rindo da expressão de Táta.&lt;br /&gt;- Opa, opa, opa, opa! Onde vocês pensam que vão? – fez sinal com uma das mãos, impedindo-nos de entrar.&lt;br /&gt;- Ah, Táta! Eu estou faminta, deixe-nos passar, vai! – fiz beicinho.&lt;br /&gt;- E eu preciso acabar aquela panela antes que o Cadu acorde. – retru-cou Tayla.&lt;br /&gt;- Nada disso, vocês vão comer aqui fora! Até parece que vou deixar dois animaizinhos sujos entrarem em minha cozinha. – sorriu e virou-se de costas, indo à direção da mesa onde estávamos sentadas antes da mega guerra de chocolate. &lt;br /&gt;Pegou a panela onde Tayla se esbaldava e uma pequena tigela com minha salada de frutas e voltou onde estávamos.&lt;br /&gt;- Aqui! E depois que terminarem me chamem que eu venho pegar estas coisas. – fez movimentos para os dois objetos - E não se atrevam entrar aqui em! – alertou-nos. &lt;br /&gt;- Onde nós vamos sentar? – perguntei, olhando ao redor.&lt;br /&gt;- Vocês não tiveram preocupação alguma em se jogar no chão anteri-ormente. – lembrou-nos.&lt;br /&gt;- Afe, Táta, você está má hoje em!  Seu João dormiu de calça jeans ontem? – Tayla disse enfiando dois dedos, encharcados de chocolate, de uma só vez na boca enquanto sentava-se na grama.&lt;br /&gt;- Onde a senhorita anda aprendendo este tipo de coisas em, Tayla Ma-ria? – aproximou-se de Tayla.&lt;br /&gt;- Eu aprendi com a vida, Táta, com a vida! – as palavras saíram en-charcadas pela grande quantidade de chocolate de sua boca. – e tem mais, senhorita Táta. Eu não tenho Maria no nome, lembra? – desafi-ando Táta.&lt;br /&gt;- Olhe como fala comigo menina, eu troquei suas fraldas! – cutucou as costelas de Tayla com uma das mãos.&lt;br /&gt;- Ahhh, pare Táta! Zah me ajude! – gritou &lt;br /&gt;- Não, menininha topetuda! – aumentou a freqüência de seus dedos.&lt;br /&gt;-Ah, eu não Tah, estou ocupada comendo minha salada de frutas. De-pois eu te ajudo! – prometi&lt;br /&gt;- Depois? – disse indignada&lt;br /&gt;-É! Depois! – sorri, com a bola lotada.&lt;br /&gt;- Ahhh, pára, por favor, Tatinha lindinha do meu coração! Ahhh, pára, pára, pára! Ahhh... – fez beicinho, entre gritos e tentativas, frustradas, de livrar-se dos dedos rápidos de Táta.&lt;br /&gt;- Eu vou passar meu rosto cheio de cobertura em você, se não parar! – testou a sorte.&lt;br /&gt;- Já parei, já parei, não precisa fazer isto! – alertou Táta soltando seus braços e se afastando&lt;br /&gt;- Grrrr! – rugiu Tayla – Eu venci a luta! – levantou os braços com os punhos fechados - Yeah! Eu sou fera! Táta não é de nada! – apontou o dedo em sua direção.&lt;br /&gt;- Espere só até você tomar banho! – disse afastando-se e entrou na cozinha.&lt;br /&gt;- Grrrr! Eu venci! – repetiu olhando para mim.&lt;br /&gt;- Cale esta boca! – passei a colher suja de salada de frutas em seu nariz&lt;br /&gt;- Ah. Zarah, agora eu terei que tomar um banho! – divertiu-se, olhando a ponta do nariz, ficando vesga ao tentar.&lt;br /&gt;Terminamos de comer, gritamos para Táta pegar as coisas e fomos para casa tomar banho.&lt;br /&gt;Nossa casa fica na parte de trás da pousada, em cima de um pequeno morro. Ela é bem espaçosa, tem quatro quartos com banheiro. Um meu, um da Tayla e outro do Cadu, uma suíte dos meus pais com uma enorme porta que dá para uma pérgula, de madeira, em volta de um enorme pé de manga, onde eles lêem seus livros e conversam. Na pér-gula há duas espreguiçadeiras em fibra sintética com entrelaçado natu-ral na cor castanho-claro e três puffs brancos. Não há calçada em volta e sim grama, pois têm medo que prejudique a árvore, localizada ao centro.&lt;br /&gt;Na parte da frente da casa há uma enorme sala com três portais de madeira que dão acesso à varanda, toda de madeira em balanço com vista para a pousada. A sala contém um sofá com chaise long e puff, na cor branca, decorado com quatro almofadas na cor magenta, bem gordinhas, feitas por Valentina. Há duas poltronas, também brancas, uma em cada lado do sofá. Atrás há uma enorme charmosa mesa de sinuca, um “chupequinho de caramelo”, como diz meu pai, ao elogiar algo. Ele a trata como se fosse membro da família, limpando diaria-mente e cuidando para que Cadu não a suje ou estrague. &lt;br /&gt;Atrás da mesa há duas portas. Uma dá para a sala de estudos, a quase biblioteca como diz meu pai, onde fica o computador dele, o grande armário de livros e um sofá preto de couro, de três lugares. Na outra porta é a cozinha, pequena, mas completa. Da porta dá para ver apenas uma mesa e a ilha onde, na parte de dentro, está o fogão, a pia e o for-no, e atrás os armários de madeira e vidro e na parte de fora serve co-mo um balcão, com quatro bancos de madeira, altos, na mesma cor dos armários. A mesa de jantar, de madeira, tem seis lugares e combina com os armários e os bancos.&lt;br /&gt;Toda a casa é cercada por um imenso jardim contendo várias árvores frutíferas. A piscina fica à frente da casa, é um projeto do meu pai. Ela possui duas partes, a primeira é um semicírculo com bancos dentro da água e um bar na parte de fora, concluindo-o. A outra é um retângulo, para jogarmos biribol, com um espaço lateral um pouco mais raso para o Cadu.&lt;br /&gt;Chegando à casa, fui direto para o meu quarto, tomar banho. Demorei mais do que deveria embaixo do chuveiro, passando xampu mais de duas vezes para ter certeza de que ainda não havia vestígio algum da maldita calda. Repeti o mesmo ritual ao passar condicionador.&lt;br /&gt;Saí do banheiro enrolada na toalha e fui à direção do armário pegar uma muda de roupas. Esquecendo-me completamente que havia esva-ziado-o feriado passado e levado todas as minhas roupas para Campo Grande. Abri o guarda-roupa e lá só havia roupas de frio.&lt;br /&gt;- Tayla, onde está a mala? – gritei da porta do meu quarto&lt;br /&gt;- Aqui! – abriu a porta, já vestida decentemente, e rolou a mala até mim.&lt;br /&gt;- Obrigada! – disse, puxando a mala para dentro.&lt;br /&gt;Meu quarto não é muito grande, mas conseguimos ocupar todos os espaços disponíveis da melhor forma possível. Há um armário de ma-deira com três portas deslizantes. Minha cama, de casal, também de madeira, é cercada de prateleiras presas à parede, fica no centro do quarto. Ao lado esquerdo há uma mesa para computador e uma pol-trona lilás, de frente para a janela. Todas as paredes são brancas, exce-to a de atrás da cama, que é num tom lilás da mesma cor de uma das portas do guarda-roupa.&lt;br /&gt;Vasculhei durante alguns segundos, rezando por um par de roupas decente, próprios para minha “futura aventura”, dentre minhas opções. Mas a sorte, definitivamente, não está a meu lado, nada parece se en-caixar à necessidade. O que Tayla estava pensando quando colocou dois vestidos, duas blusas e um short jeans? Pensou que eu fosse à praia? Definitivamente isto não chega nem perto do que eu procuro.&lt;br /&gt;Tirei todas as roupas da mala, impaciente, a fim de encontrar uma calça jeans, pelo menos. Depois de quatro blusas e três shorts jeans, vi o que estava procurando. Puxei ainda mais rápido o resto das roupas e finalmente cheguei a ela. Uma das minhas calças jeans preferidas. Eu a comprei por acaso um dia, no shopping, quando procurava um presente de aniversário para Milla, estava em promoção, R$39,90. Ela é num tom mais claro que os jeans comuns, num corte reto. O que me favorece bastante, por ser baixa.&lt;br /&gt;Decidi colorar a blusa da minha banda favorita, depois de McFly, Cu-eio Limão, a melhor banda brasileira, em minha opinião. A camiseta, branca, contém o desenho de um coelho se enforcando com a parte do aparelho de DVD onde se coloca o CD, com um limão apertando o botão “open/close” no controle remoto. Coloquei meu tênis Allstar branco, o mesmo que usei ontem para ir à aula, com cadarços trança-dos, prendi meu cabelo, ou pelo menos o que consegui pegar dele, num rabo de cavalo e saí porta fora. &lt;br /&gt;Fui à cozinha beber água antes de voltar à pousada.  Enchi um copo, bebi rapidamente e tornei a enchê-lo. &lt;br /&gt;Sentei-me à mesa, ao lado de Tayla.&lt;br /&gt;- Será que mamãe ainda está conversando com ele? – murmurei.&lt;br /&gt;- Provavelmente sim. – respondeu Tayla – Você sabe muito bem como ela é. É só ter a oportunidade de falar e tudo vira um discurso do Fidel Castro – olhou-me.&lt;br /&gt;Dei de ombros, virando o copo e tomando toda a água de uma só vez.&lt;br /&gt;- Bom dia, bom dia, bom dia, bom dia! – uma voz gritou da porta da cozinha.&lt;br /&gt;Eu conheço muito bem aquela voz. Ela pertence à criança mais linda e doce do mundo. Cadu. Ele sempre diz isto, várias e várias vezes, ao acordar.&lt;br /&gt;- Bom dia, bom dia, bom dia, bom dia! – respondemos sorridentes, em coro.&lt;br /&gt;Correu para dentro da cozinha e deu um beijo, todo sorridente, primei-ro em Tayla e depois em mim. &lt;br /&gt;- Eu quero comer! – disse, empurrando seu cadeirão e escalando-o em seguida.&lt;br /&gt;- O que você quer comer? – perguntei, levantando-me, enquanto Tayla o acomodava à mesa.&lt;br /&gt;- Eu quero comer esquilos coloridos! – disse, pegando um giz de cera e desenhando à parte da mesa, feita especialmente para ele, onde havia papéis, descartáveis, no formato A3, para que pudesse brincar.&lt;br /&gt;- Meu amor, aqui não tem esquilos coloridos! – eu disse, rindo da ex-pressão.&lt;br /&gt;- Tem no armário! – apontou o dedo.&lt;br /&gt;- Olhe como não tem. – abri uma das portas e deixei que ele visse.&lt;br /&gt;- Eba! Esquilos! – bateu palmas e apontou com o dedo novamente.&lt;br /&gt;- Zarah, tenho uma leve impressão que ele quis dizer sucrilhos! – Tayla disse divertindo-se com a troca de palavras de Cadu e apontou à caixa de sucrilhos.&lt;br /&gt;Nós duas rimos e ele não parou de bater palmas até eu terminar de arrumar os esquilos de chocolate e colocar em sua frente.&lt;br /&gt;Cadu é a criança mais linda que eu já vi. Tem o mesmo tom de pele que Tayla, os cabelos um pouco mais alaranjados que os dela e cheio de cachinhos. Tem olhos verdes hipnotizantes, é dono de um par de bochechas sardentas e rosadas, irresistíveis de morder e pouco mais de 105 cm de altura e 17 kg. E fica mais lindo ainda naquela fashion composição de fralda noturna carregada de xixi e uma enorme pantufa de dinossauro.&lt;br /&gt;- Oi crianças! – disse papai ao entrar na cozinha, pela porta lateral que dá acesso à área de serviço.&lt;br /&gt;- Oi pai! – respondemos Tayla e eu, sorridentes.&lt;br /&gt;- Olha, olha os meus esquilos, Nolan! – disse Cadu, enfiou a mão na tigela e pegou alguns dos sucrilhos que estavam boiando no leite. &lt;br /&gt;Ele chama nosso pai de Nolan desde que percebeu que minha mãe só o chama assim. &lt;br /&gt;O nome dele é de origem irlandesa. Sua família inteira é de lá, mais especificamente de Armagh, uma cidade na Irlanda do Norte, sede do Condado de Armagh. É a cidade menos populosa da Irlanda do Norte, e a segunda menos populosa da ilha da Irlanda. Possui uma população de 14. 590 pessoas. Apesar disto, ela é muito importante, pois lá eles trabalham com plantação de macieiras e existe também um lugar onde as pessoas pagam para plantarem um carvalho em memória de outra. Todo o dinheiro da venda dos carvalhos é usado para ajudar pessoas com câncer. Meu pai sempre diz que a terra de lá tem grande fertilidade para este tipo de cultivo e que há muito tempo sua família vive da comercialização das maçãs.&lt;br /&gt;- Esquilos? – papai perguntou, chegando mais perto dele.&lt;br /&gt;- Coloridos! – disse Cadu. Depois enfiou a mão inteira na boca e co-meçou a fazer graça para meu pai.&lt;br /&gt;- Não faça isto Cadu. Coma direitinho! – ordenou.&lt;br /&gt;Cadu parou, na mesma hora, pegou a colher, e voltou a comer corre-tamente, como fazia antes dele chegar. &lt;br /&gt;Sempre que faz algo errado e lhe é chamada atenção ele pára, na mesma hora, e fica todo envergonhado. Vira o pescoço levemente à direita e faz um beicinho irresistível, “o charminho” como diz Valen-tina. Ele não costuma desobedecer aos adultos e fazer aquele tipo de chatice que toda criança faz como dar tapas, gritar na hora errada, xin-gar, e sapatear. Por incrível que pareça, ele sempre está de bom humor. Minha mãe diz que sua calma é pelas massagens que faz nele antes de dormir e os chás de ervas que toma o dia inteiro, com intervalo de três horas de um para o outro. Eu sei que os chás ajudam um pouco, mas o comportamento diferente das outras crianças deve-se ao seu gênio. Ele é, naturalmente, calmo e fácil de lidar.&lt;br /&gt;- O que estão fazendo aqui, no meio da semana? – disse colocando seu chapéu de palha sobre uma das cadeiras.&lt;br /&gt;Meu pai é a pessoa mais sem noção de moda que eu conheço. Ele, depois que mudou para Bonito, nunca mais usou paletó, gravata ou calças sociais. A não ser em casamentos, formaturas e outras festas formais. Agora só usa bermudas cáqui com camisetas lisas ou com o nome da cidade, normais, ou de gola pólo, todas em cores leves. &lt;br /&gt;Mudou, obviamente, seus calçados, trocou os sapatos sociais por tênis New Balance brancos e todos iguais. Na verdade eu nem sei se ainda vendem o estilo que ele gosta. Ele os usa com meias branca e curtas. O chapéu é um adereço à parte que eu nem comento mais. Já cansei de incomodá-lo e nem ligo mais. Todas as vezes que eu reclamo, ele diz precisar dele para se proteger do sol intenso. Isto é verdade, pois ele é muito branco e se não se cuidar pode vir a ter câncer de pele ou adqui-rir mais sardas do que já tem, se isto é possível. Meu pai tem os cabelos cacheados, mas nunca dá tempo de eles se formarem, ele é compulsivo por cortar o cabelo. Seus olhos são verdes, da mesma cor dos de Cadu, bochechas lotadas de sardas, assim como o resto do corpo. Mede 1, 80m, 45 anos e um corpo esguio, mas atlético. É muito preocupado com a saúde. Corre todos os dias às 05h30min da manhã e nada na piscina durante a noite e não come qualquer tipo de carne, assim como minha mãe. Papai é uma pessoa muito bem humorada e de bem com a vida, sempre está com um sorriso estampado no rosto e com olhos brilhantes. Uma criança grande. &lt;br /&gt;Aqui em casa quem dá as ordens e diz sim ou não é Valentina. Sempre que pedimos algo a meu pai ele diz para perguntarmos a ela antes, para “analisar” as duas opções de resposta. Mas sempre suas opiniões são iguais as dela e nós, na grande maioria das vezes, não voltamos a perguntá-lo. Já que a resposta final já fora dada por mamãe.&lt;br /&gt;- Pai, você sabe que dia é hoje? – Tayla perguntou um pouco receosa.&lt;br /&gt;- Dia dez? – perguntou ele se encolhendo ao prever a adivinhação er-rada.&lt;br /&gt;- Pai! – ela estava alarmada – hoje é dia treze! – apontou a cabeça em minha direção&lt;br /&gt;- Pelos Deuses! – virou-se a mim – Como pude me esquecer? Aniver-sário da minha princesinha! – deu-me um abraço apertado&lt;br /&gt;- Acho que você me puxou! – sorri, aceitando seu abraço.&lt;br /&gt;- Desculpe-me Zarinha. – deu-me dois beijos, um em cada bochecha, espalhou meu cabelo todo para trás e segurando meu rosto com as duas mãos. – Você me desculpa? – perguntou sério colando sua testa na minha.&lt;br /&gt;- Pai, eu sempre me esqueço dos aniversários de todos. O mínimo que eu faço por você é não ficar brava. – agora eu segurava seu rosto com as duas mãos.&lt;br /&gt;Ele sorriu dando-me três beijinhos de esquimó.&lt;br /&gt;- Aaai, pai! – sorri pelas cócegas. – Eu não sou mais criança!&lt;br /&gt;- Os filhos nunca crescem. – alertou, sem tirar os olhos de mim.&lt;br /&gt;Levei meu rosto em sua direção.&lt;br /&gt;- Quatro para dar sorte!&lt;br /&gt;- Zarah, Zarah, Zarah, Zarah, você e esta cisma com números ímpares! – passou seu nariz levemente no meu, mais três vezes.&lt;br /&gt;- Você sempre faz de propósito né! – não foi uma pergunta.&lt;br /&gt;- Sim. Mas não sempre. – deu um sorriso largo que fez seus olhos cor esmeralda brilharem.&lt;br /&gt;Cadu soltou uma forte gargalhada.&lt;br /&gt;- Eu também quero um beijo de esquiló! – gritou da mesa.&lt;br /&gt;Por que ele insiste tanto nestes esquilos malditos? Será que tudo agora envolverá a palavra esquilo?&lt;br /&gt;- É... ES QUI MÓ – dividi as sílabas para melhor compreensão de Cadu.&lt;br /&gt;- ES QUI MÓ – repetiu pausadamente, exatamente como eu fiz. Não parou um segundo sequer de mexer em seu café da manhã.&lt;br /&gt;- Isto mesmo! Viu, não é difícil. – batemos palmas, encorajando-o.&lt;br /&gt;- Fale de novo – disse Tayla. – Esquimó!&lt;br /&gt;- Esquiló, esquiló, esquiló! – deu um largo sorriso, batendo palmas, todo contente.&lt;br /&gt;- Ah! Eu desisto! – Tayla olhou para nosso pai.&lt;br /&gt;- Vocês precisam ter um pouco mais de paciência com ele, meninas. – disse papai, sentando-se na cadeira ao lado de Cadu e passando a mão em seus pequenos cachinhos. – Quantos beijinhos de “esquimó” você quer Cadu? – olhou em minha direção ao dar ênfase à palavra.&lt;br /&gt;- Um milhão quatrocentos e vinte e sete mil! – levantou as mãos, es-palmadas, acima da cabeça e jogou-as à mesa, fazendo um barulho baixo.&lt;br /&gt;- Isto você sabe falar né! Espertinho. – olhei em sua direção. &lt;br /&gt;Como ele pode saber falar quatrocentos e não conseguir dizer esqui-mó? Pelo amor dos deuses! Ele está testando até onde vai nossa paci-ência, com toda a certeza. &lt;br /&gt;Nolan se inclinou à direção de Cadu até que narizes se tocassem e fez vários movimentos seguidos, sorrindo, enquanto Cadu ficava paralisa-do, apenas olhando-o fixamente. Concentrado, pelo que parece. Ele não agüentou muito tempo, até sentir cócegas e soltar uma gostosa gargalhada que inundou a casa inteira. &lt;br /&gt;- Você já terminou seu papá? – perguntou Nolan &lt;br /&gt;- Eu não quero mais. – empurrou a tigela, da Turma da Mônica, para o centro da mesa.&lt;br /&gt;- Vamos encontrar a Tereza então, para ela te dar um banho. – disse meu pai, retirando-o do cadeirão.&lt;br /&gt;Ainda com Cadu no colo, deu um abraço, de boas vindas, em Tayla e virou-se a mim.&lt;br /&gt;- A propósito. Por que vocês vieram para cá no meio da semana? Hoje é feriado? – lançou os olhos, desconfiados, no calendário pregado na geladeira. Apesar de ser impossível enxergar os números na distância em que está. &lt;br /&gt;- Não, pai. Nós viemos pegar a carta de dezoito anos da Zarah. – Tayla disse, sem pensar - A que o pai dela deixou com a mamãe. – com-pletou, tentando ajudá-lo a se lembrar.&lt;br /&gt;Meu pai arregalou os olhos em minha direção, mudando o foco algu-mas vezes. Muitas emoções agrupadas e confusas passaram em seu rosto. &lt;br /&gt;- Você já... Leu... A carta? – perguntou receoso.&lt;br /&gt;- Ainda não. – Tayla respondeu à pergunta. Eu continuei olhando-o, sem saber o que dizer ou como reagir à conversa que se seguiria.&lt;br /&gt;- Minha filha, você tem certeza que precisa ler isto? – disse trocando Cadu de braço – Isto não faz parte de você. Nunca fez. Só te deixará mais triste e não resolverá em nada sua vida. – a voz melancólica e calma.&lt;br /&gt;- Pai, eu preciso ler aquela carta! – disse confiante, no mesmo tom calmo. – Eu descobri tudo. Eu sei quem são meus pais. Eu sei onde nasci, por que vim parar aqui e mais um monte de coisas loucas e sem sentido algum, mas que são verdades. – corri meus olhos para o chão, temendo não ter feito a escolha certa de palavras. &lt;br /&gt;O clima ficou tenso.&lt;br /&gt;- Olá crianças! – disse uma voz de dentro da sala de televisão.&lt;br /&gt;Era Tereza, a babá de Cadu.&lt;br /&gt;Ela é irmã mais nova de Táta e muito parecida fisicamente, apesar de ser magra. Tem quarenta e poucos anos e é muito simpática. Tereza cuida de Cadu desde que ele nasceu. Não tem filhos, apesar de ser casada há muitos anos, e por isto o trata como se fosse um príncipe, não desgruda um minuto sequer. Cadu é tão grudado com ela que ano passado, em dezembro, ela tirou férias e ele ficou doente. Só melhorou quando minha mãe a trouxe para visitá-lo. Mesmo assim ainda havia alguns dias de recaída e a febre voltava.  &lt;br /&gt;- Tureza! – Cadu olhou para todos nós e tentou descer o mais rápido possível do colo de meu pai.&lt;br /&gt;- Hei ,hei, hei, espere um pouco garotinho. – meu pai ria – Assim você cai, espere um pouco, a Tereza não vai fugir. – exclamou enquanto o deixava em pé no chão.&lt;br /&gt;Tereza chegou à porta da cozinha e disse:&lt;br /&gt;- Bom dia meu homenzinho. Como passou a noite? – olhou em volta, em nossa direção. – Olá meninas! – exclamou sorridente.&lt;br /&gt;- Oi Tereza. – dissemos em coro&lt;br /&gt;-Tureza! Bom dia, bom dia, bom dia, bom dia! – correu em sua dire-ção.&lt;br /&gt;Esta é outra palavra que ele teima dizer errado, “Tureza”.&lt;br /&gt;- Olá meu príncipe. Como passou a noite? Dormiu bem? – agachada próxima à porta da cozinha, com Cadu agarrado ao pescoço.&lt;br /&gt;- Olha Tureza, o dinossauro! – ergueu um dos pés lutando para equili-brar-se ao seu pescoço.&lt;br /&gt;- Ai que pantufas mais lindas Cadu. – disse num sorriso imenso dei-xando aparecer suas duas covinhas da bochecha.&lt;br /&gt;Eu observava atenta à animada conversa dos dois, mas percebi que o mesmo não ocorria com Tayla e meu pai. Eles me olhavam sem mover-se, esperando que eu retomasse a conversa anterior, interrompida pela chagada de Tereza. O que não aconteceu tão cedo. Continuei olhando Cadu e Tereza à porta da cozinha, ele mostrava as duas pantufas todo animado enquanto ela o incentivada com adjetivos positivos.&lt;br /&gt;Nolan percebeu que eu não voltaria a tocar no assunto enquanto Tereza ainda estivesse lá. &lt;br /&gt;Claro, ninguém da cidade poderia saber da minha adoção e muito me-nos que eu era a herdeira de um reino cuja existência, para os humanos, limita-se às folhas dos livros. &lt;br /&gt;- Tereza. – chamou Nolan – O Cadu está com a fralda cheia, é bom dar um banho nele, agora. – Ela levantou-se, com meu anjinho ruivo no colo.&lt;br /&gt;- Sim senhor Seu Nolan. – avançou em direção aos quartos.&lt;br /&gt;Nolan virou-se em minha direção, esperando, novamente, que eu con-tinuasse a conversa.&lt;br /&gt;Eu não sabia como retomar o assunto. Fiquei estática, por alguns se-gundos, buscando a melhor maneira de contar-lhe a história toda. Mas não conseguia pensar em nada.&lt;br /&gt;- Tudo bem – puxou a cadeira e sentou-se – se você não vai me contar nada então eu vou fazer as perguntas e você as responde. - Tirou os óculos de grau, colocando-os à mesa. Sua expressão me assustou, por alguns segundos. Ele estava muito preocupado e irritado com toda esta situação constrangedora em que nos metemos. Afinal nunca imagina-mos que este dia chegaria. O dia em que eu descobriria tudo sobre meus verdadeiros pais e consequentemente conto à Nolan.&lt;br /&gt;Ele nunca se preocupou em pensar na possibilidade de um dia tudo vir à tona. Pois eu não fazia questão alguma de descobrir minha verdadei-ra identidade ou ficava perguntando sobre as conversas dele, sobre mim, com Valentina. &lt;br /&gt;Permaneci estática, apenas esperando a chuva de palavras com pontos de interrogação chegar a mim.&lt;br /&gt;Meu pai olhou em direção à Tayla por alguns instantes e voltou-se a mim.&lt;br /&gt;- Você ainda não leu a carta, certo? – as palavras saíram num tom ponderado&lt;br /&gt;Respirei fundo uma vez &lt;br /&gt;– Certo.&lt;br /&gt;- O.K.! – exclamou, parecendo reorganizar as próximas perguntas. – Mas se você ainda não a leu como descobriu toda a verdade? – a paci-ência transbordando em cada palavra.&lt;br /&gt;Puxei a cadeira, sentando-me à ponta da mesa, lugar reservado à Cadu e seus desenhos, com Nolan à minha esquerda.&lt;br /&gt;- Pai – entrelacei os dedos, em meu colo, muito nervosa. – Sabe o Le-prechaun? – meus dedos não pararam um segundo de se entrelaçarem enquanto esperava sua resposta.&lt;br /&gt;Nolan assentiu.&lt;br /&gt;Meu pai já havia presenciado várias ocasiões em que eu reclamava de algo desaparecido e metia o nome Leprechaun no meio. Ele sempre dizia algo sobre minha imaginação fértil e coisas do tipo, mas nunca ligou para as minhas loucuras.&lt;br /&gt;Olhei por baixo da mesa, minhas mãos tremiam e meus dedos não pararam momento algum. Esperei meu coração se acalmar e as borbo-letas pararem de bater asas em meu estômago.&lt;br /&gt;Enfim tomei coragem e contei-lhe toda a história, sem privá-lo de de-talhes. Ele fazia caretas nas partes razoavelmente tristes e expressões de espanto quando cheguei à parte do sumiço de meu pai e à conversa de Valentina com o Leprechaun. Nolan ficou muito espantado ao saber da existência de Kika e quis saber mais algumas coisas a respeito do reino, mas eu não tinha a mínima idéia de como era então estas respostas ele não teve. &lt;br /&gt;Quando cheguei à parte das pistas ele ficou muito nervoso e disse que meu pai não deveria me expor deste jeito atrás de pistas envolvendo seres mágicos. Disse também que eu acabaria me deparando com seres ruins e que meu pai era um inconseqüente ao pensar em mim como a única pessoa capaz de encontrá-los.&lt;br /&gt;Terminei a história com um “e agora eu preciso que Valentina me entregue a carta. Lá está a primeira pista”. Consegui convencê-lo de que era o único modo de impedir que meus pais morressem e descobrir quem eu realmente sou. Isto é a mais pura verdade.&lt;br /&gt;- Eu não estou pedindo sua permissão pai – desafiei – eu apenas estou informando-o de que farei de tudo para salvá-los. Eles não merecem ficar lá presos por mais tempo. – disse num tom melancólico, nada desafiador - É a única forma de agradecê-los por arriscarem suas vidas para me salvar. – estiquei minhas mãos até tocar a as pontas dos dedos em seu braço sardento - Sem contar que é dos meus pais que eu estou falando. Não é de um amigo, um vizinho ou de pessoas aleatórias, é dos meus verdadeiros pais.   &lt;br /&gt;Meus olhos umedeceram.&lt;br /&gt;Ele deu um suspiro. &lt;br /&gt;- Então você está mesmo a fim de se meter nesta encrenca? – deu um meio sorriso.&lt;br /&gt;- Sim pai, eu espero que você entenda. – passei meus dedos em seu braço novamente.&lt;br /&gt;Estendeu as mãos à mesa, como sempre faz quando não temos mais nada a falar. Coloquei as minhas em cima. Nolan apertou levemente minhas duas mãos, fazendo carinho. Ficamos assim durante um bom tempo. Até Tayla se encher e dizer:&lt;br /&gt;- Ai que meigo isto. – sorriu. – Fiquei até comovida. – jogou o resto da água, do copo, que acabara de tomar, na pia, e veio em nossa direção. Atravessando o balcão, que formava uma ilha na cozinha e sentou-se no colo de nosso pai.&lt;br /&gt;Ele sorriu e soltou uma de minhas mãos para afagar os cabelos dela. &lt;br /&gt;- Zarah, é melhor você procurar logo aquele Leprechaun. Ele mesmo disse que não havia tempo a perder.&lt;br /&gt;- Mas tenho certeza que mamãe ainda não terminou a conversa com ele. Senão já teria mandado alguém vir aqui nos chamar. &lt;br /&gt;Na mesma hora Valentina entrou na cozinha. Nós três olhamos em sua direção.&lt;br /&gt; - Onde ele está? – referi-me ao pequeno homem.&lt;br /&gt;- Ele disse para você pegar as coisas que precisa para alguns dias longe de casa e depois encontrá-lo no mesmo lugar em que a ave os deixou. &lt;br /&gt;- Mãe, eu preciso da carta. – pedi.&lt;br /&gt;- Eu vou pegá-la para você – dirigiu-se aos quartos, mas voltou antes mesmo de chegar ao hall. – vai arrumar sua mala enquanto eu pego a carta. &lt;br /&gt;- Tudo bem!&lt;br /&gt; Levantei-me da cadeira num pulo. Tive uma pequena tontura, minhas pernas e braços pareciam pesar uma tonelada. Meu estômago ferveu e minha cabeça rodou sem parar. A pior sensação que já tive.&lt;br /&gt;Sentei-me à cadeira novamente. Uma dor insuportável subia do meu estômago até minha garganta. A queimação agora havia desaparecido, dando lugar à outra sensação, muito mais insuportável. Contorci-me na cadeira, sem saber o que fazer. Tayla e Nolan desesperaram-se. Ele pegou minha mão enquanto Tayla correu em direção aos quartos para chamar Valentina. &lt;br /&gt;- O que foi Zarah? – meu pai perguntou, ainda segurando minha mão. &lt;br /&gt;Eu tentei responder, mas a dor é tão forte que não me deixava falar e respirar ao mesmo tempo. Também, eu não conseguiria explicar o que estou sentindo, é algo que nunca tive antes. &lt;br /&gt;A dor aumentava gradativamente. Como as labaredas de uma fogueira conforme o fogo toma conta da madeira. Apesar de o que eu estar sen-tindo não parecer em nada com fogo, e sim uma pressão de algo áspero movimentando-se em meu sistema digestivo. Fiquei contorcendo-me na cadeira, com Nolan agora segurando minhas costas com uma das mãos enquanto a outra permanecia refém de meu aperto forte.&lt;br /&gt;Eu não gritei ou chorei. Não havia fôlego para isto. Apenas travei meus dentes e lembrei-me de respirar o mais homogeneamente possível, caso isto demore muito a passar.&lt;br /&gt;- Zarah, por favor, me fale o que você está sentindo. – Nolan estava desesperado, como qualquer pai ficaria ao ver um filho sentindo dores absurdas e não podendo fazer nada para cessar. &lt;br /&gt;Novamente eu não consegui dizer nada. A dor é tanta que nem me importei em tentar lhe responder. &lt;br /&gt;- Zarah, você está ficando amarela! – meu pai gritou – Valentina! Va-lentina!&lt;br /&gt;- O que... Meu Deus, o que foi com ela? – Valentina apareceu à porta sem saber o que acontecera.&lt;br /&gt;- Eu não sei.&lt;br /&gt;- Zarah, fale comigo! O que você está sentindo?&lt;br /&gt;Será que eles só sabem perguntar isto? Eu estou aqui morrendo de dor e eles esperam que eu consiga dizer algo? Se eu estivesse em condições de conversar já teria falado há muito tempo.&lt;br /&gt;- Ela não responde. – disse Nolan desesperado&lt;br /&gt;- Ela deve estar com muita dor, mas precisa conseguir nos dizer o que está sentindo. – minha mãe é a única pessoa capaz de manter a calma, mesmo nos momentos mais turbulentos. – Ela está suando frio. Ajude-me a levá-la até o sofá para ela deitar um pouco.&lt;br /&gt;Meu pai me levantou, com jeito, da cadeira. Isto fez a dor intensificar-se ainda mais. Sentei-me de volta, desesperada de dor. &lt;br /&gt;- Você não consegue ficar em pé? – perguntou Nolan&lt;br /&gt;Respondi apenas sacudindo a cabeça duas vezes.  &lt;br /&gt;-Tudo bem, agachou-se até ficar na altura de meus olhos. – Eu vou contar até três e te pegar no colo. – alertou – Tente não se mexer mui-to.&lt;br /&gt;Assenti.&lt;br /&gt;- Um... Dois... Três.&lt;br /&gt;Levantou-me da cadeira, a dor aumentou mais. Tentei não me mexer, apesar de parecer que vários peixes espinhentos decidiram se locomo-ver sem rumo, dentro de mim. A dor, agora, não subia pela minha garganta, ela se espalhava por todas as partes do meu corpo, menos em meus membros. Apesar de eles ainda pesarem uma tonelada.&lt;br /&gt;Nolan acomodou-me no sofá. Valentina colocou um travesseiro sob minha cabeça. Fiquei deitada com as pernas encolhidas e os braços em volta da barriga. &lt;br /&gt;- Será que é alergia de algo que ela comeu? – ouvi minha mãe pergun-tar a Nolan.&lt;br /&gt;- Mais uma alergia? – perguntou ele, alarmado.&lt;br /&gt;Impossível ser mais uma. Eu me recuso ser alérgica a mais um ali-mento. Já não posso comer carne, tomar leite e derivados, molhos, remédios, o que mais poderia estar faltando? Só falta eu ser alérgica a H2O. &lt;br /&gt;- O que aconteceu com ela? – perguntou o Leprechaun, da porta de entrada. &lt;br /&gt;- Nós ainda não sabemos – minha mãe respondeu.&lt;br /&gt;- Talvez seja alergia a outro alimento, mas ainda não temos certeza. Ela só comeu salada de frutas hoje, mais nada. – disse meu pai, sem tirar os olhos de mim.&lt;br /&gt;- Oh! Pelos Deuses. – exclamou preocupado. – Ela ingeriu comida humana? – atravessou a sala até chegar à minha frente. - Nós precisa-mos ir embora daqui, logo, somente os Sidh podem te curar agora. - desviou os olhos de mim – Ela não vai agüentar por muito tempo. Comida humana não faz nada bem para nós. É o mesmo que ingerir o mais puro dos venenos. Eu preciso levá-la até Aine, ela saberá o que fazer. &lt;br /&gt;- Ela não está em condições de ir a lugar algum agora. – disse Valen-tina, agora alterada. – Vamos esperar que a dor melhore um pouco. Ela não consegue nem levantar-se.&lt;br /&gt;- A dor não diminuirá Valentina. Ela continuará aumentando minuto após minuto. Ela já está amarelada, não sei se chegaremos a tempo nos limites do portal, se a senhora esperar mais alguns minutos. – disse, mostrando todo seu poder de persuasão.  &lt;br /&gt;- Mãe... – tentei dizer algo, mas a voz falhou.&lt;br /&gt;- Zarah, eu não vou deixar que ele a leve daqui! – explicou-me&lt;br /&gt;- Por... Favor – supliquei, em meio às dores, insuportáveis, que au-mentavam cada vez mais.&lt;br /&gt;- Não há mais tempo, senhora. – disse, levantando-me do sofá. Igno-rando totalmente o olhar repreensivo de Valentina. &lt;br /&gt;- Ele sabe o que está fazendo, Valentina. – disse meu pai – Não a co-locaria em risco. É o único modo de salvá-la. – segurou-a em seus braços.&lt;br /&gt;O Leprechaun guiou-me até a porta da frente, onde Kika já nos espe-rava. Tayla lhe entregou minha mala e nos acompanhou até perto da ave.&lt;br /&gt;- Você não pode ir conosco menina. – disse o pequeno homem&lt;br /&gt;- Mas ela precisa de mim. E outra, não me venha com a desculpa de que eu serei reprimida pelos Sidh, pois esta já não cola mais! – disse apontando-lhe o dedo – Eu estarei com a futura rainha deles. Com certeza não poderão nem mesmo chegar perto de mim.&lt;br /&gt;Ai. Esta foi duro de engolir em.&lt;br /&gt;Com certeza o Leprechaun ficou com medo dela, pois não disse mais nada até subirmos em Kika.&lt;br /&gt;- A sua mãe não vai gostar nada disso. – alertou-a&lt;br /&gt;- Ela me deixou ir com vocês. – disse passando-lhe sua mala.&lt;br /&gt;- Como conseguiu isto? Ela nem ao menos deixou Zarah ir comigo.&lt;br /&gt;- Digamos que eu... Tenha... Mentido um pouquinho. – abaixou o tom de sua voz.&lt;br /&gt;- O que você disse? Mas você não tem jeito mesmo em menina. – cu-riosidade saltando de seus olhos cor de esmeralda.&lt;br /&gt;- Eu disse a ela que Zarah precisava de mim, já que entendo tudo de lendas antigas. Disse também que a própria avó me chamou para esta missão. – Tayla disse vitoriosa.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1989948983729069475-5347953109786896409?l=www.zarahluna.com.br' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://www.zarahluna.com.br/2009/07/cap-3-bonito.html</link><author>iarafp_soares@yahoo.com.br (Iara Fepasiso)</author><thr:total>2</thr:total></item><item><guid isPermaLink='false'>tag:blogger.com,1999:blog-1989948983729069475.post-6078606397980218018</guid><pubDate>Sun, 28 Jun 2009 01:21:00 +0000</pubDate><atom:updated>2010-08-31T22:32:12.078-07:00</atom:updated><title>Cap. 2 Herdeira</title><description>Tudo envolta era de um verde sem fim, não havia mais nada além do verde, não havia árvores, asfalto, casas, pessoas, nada, nem sequer havia um horizonte. Há alguns metros à minha frente vi uma mesa iluminada por muitas luzinhas, como as de natal, envolta de um objeto grande, coberto de velas. Corri até a mesa e a paisagem mudou. Agora a cor era azul. Havia muitas pessoas em volta da mesa, elas estavam batendo palmas e olhando em minha direção como se me chamassem, mas eu não as ouvia. Pareciam estar acompanhando alguma música, mas eu não conseguia entender o que era. Quando me dei conta do que estava acontecendo já era tarde demais e eu estava em frente à mesa com um bolo enorme lotado de velas azuis. Eu, agora, conseguia en-tender a música que as pessoas acompanhavam com palmas, era a Marcha Fúnebre de Chopin. Comecei a gritar para elas pararem, mas ninguém me obedeceu. Continuaram olhando-me com rostos sorriden-tes. Sem parar de bater palmas. - Parem! Eu não quero uma festa! – disse enquanto uma lágrima tocava minha bochecha. – Eu odeio festas! Odeio todos vocês, saiam daqui agora! – muitas outras lágrimas rolaram de meus olhos. - Eu não vou fazer festas para você! – uma voz conhecida. - Me prometa então! – minha voz falhou em meio às lágrimas. - Eu prometo por todos os sapatos que eu já fiz. – a voz es-tava calma e confiante. – Agora, por que você não experimenta acor-dar? Está um lindo dia de sol. – disse, logo em seguida não pude mais ouvir sua voz, ele já havia ido embora. &lt;br /&gt;De uma coisa eu tinha certeza, eu estava sonhando. Mas algo estava muito estranho, o ser dos meus sonhos nunca me pede para que eu acorde, muito pelo contrário, sempre que eu digo que está na hora, ele me pede para ficar um pouco mais e faltar à aula. Dizia que era perda de tempo freqüentar uma faculdade enquanto tinha coisas muito mais importantes com o que me preocupar. Sempre que vinha com este tipo de conversa eu o cortava e dizia que preferia acordar a ficar presa para sempre em minha imaginação. E ele concordava. Abri meus olhos. Eles estavam um pouco nublados. Vi uma estranha figura em cima da mesa do meu computador, encarando-me com olhar de curiosidade. &lt;br /&gt;- Feliz Aniversário! – disse o pequeno homem. &lt;br /&gt;Sentei-me à cama, rapidamente, arregalando olhos de susto, ao reco-nhecer a voz. Eu nunca havia visto aquele rosto antes, mas a voz me era muito familiar. Era a voz dos meus sonhos, a que conversava co-migo todas as noites enquanto eu dormia. Era o meu companheiro de conversas e meu confidente mais fiel. &lt;br /&gt;- Por que esta cara garota? Você sempre me disse que queria que eu fosse real, e agora que eu me revelo você não me diz sequer “obrigada Leprechaun?” Vamos diga algo, eu estou esperando. – encorajou-me, fazendo sinal com as mãos. &lt;br /&gt;- Droga! Será que eu estou louca de vez? Agora é que eu não posso mais discutir com a Tayla, eu realmente estou louca! – bati duas vezes em minha testa com mais de força que o necessário, isto fez doer um pouco. &lt;br /&gt;- Calma menina, assim você vai acabar desmaiando. – seu rosto agora estava preocupado. &lt;br /&gt;- Mas por que eu não consigo acordar? Por quê? &lt;br /&gt;- Você já está acordada Zarah, eu realmente estou aqui falando com você. Isto não é sonho. – estava em pé na mesa, levemente inclinado em minha direção. &lt;br /&gt;Isto realmente é muito estranho. Todas as vezes que eu o imaginei, ele tinha cabelos brancos, uma barba enorme, usava roupas como as de um feiticeiro e tinha pelo menos um metro e vinte centímetros a mais. Muito diferente deste pequeno homem em minha frente, de barba rui-va um pouco mais clara que a cor do meu cabelo, calça verde, presa por um cinto de fivela, camisa branca sem botões num corte em V, um pequeno paletó, e uma espécie de chapéu de três pontas em sua cabeça. O que mais me chamou atenção foram seus lindos e pequenos sapatos, eram num tom de marrom que eu jamais tinha visto, todo decorado com trevos de quatro folhas. Muitos deles, mais que uma pessoa seria capaz de encontrar mesmo que vivesse mil anos. Seus olhos eram num tom esmeralda que combinava perfeitamente com suas vestimentas. Pequenas rugas de expressão em sua testa e pequenas bolsas de água embaixo dos olhos faziam-no parecer ter por volta de sessenta anos de idade. Seu nariz é um pouco gordinho e logo abaixo havia um bigode ruivo, no mesmo tom da barba, que escondia seu lábio superior. &lt;br /&gt;Quando terminei minhas observações, me foquei no problema que estava enfrentando e encarei o pequeno homem enquanto esperava meu cérebro processar toda aquela maluquice. Apenas uma pergunta veio em minha mente, então espirrou de minha boca antes mesmo de eu pensar em reformulá-la. &lt;br /&gt;- Você pode me provar que é real? Por favor! – minha expressão era de medo, medo de realmente estar maluca. &lt;br /&gt;- Essa é fácil! – agora ele sorria. Inclinou-se mais para perto de mim, esticou uma das mãos em minha direção e em seguida me deu um beliscão. &lt;br /&gt;- Ai! – exclamei enquanto esfregava, levemente, a mão onde ele aca-bara de apertar. &lt;br /&gt;- Pronto. Com certeza isto faz de mim real – sentou-se na ponta da mesa, com as pernas balançando em direção ao chão. &lt;br /&gt;- Isto definitivamente não prova nada. – esfreguei meu braço. Será que ele precisava realmente apertar tão forte assim? &lt;br /&gt;- Lógico que isto prova que eu sou real, como eu poderia te machucar? Não há como sentir dor quanto se está sonhando. – seus olhos estavam grudados nos meus. &lt;br /&gt;- Mas se isto não é um sonho como pode você estar aqui no meu quar-to? A porta está trancada, não há como entrar. – decidi pensar que já estava acordada e tentar entender o que estava acontecendo, se isto for mesmo real. Depois que terminei minha frase ele desceu da mesa num pulo e foi em direção à porta. &lt;br /&gt;- Não tive dificuldade alguma em lidar com esta porta, já vi coisas muito melhor trancadas! – colocou-se à frente da porta, sem precisar tocar a maçaneta, abriu-a num leve movimento de mãos. &lt;br /&gt;- Como você fez isto? – Agora eu estava totalmente fora de controle, senti meu coração acelerar, as mãos molharem e a garganta secar. &lt;br /&gt;Levantei-me muito rapidamente e fui a sua direção a fim de verificar mais de perto que a chave realmente não estava ali. Tudo nublou assim que me levantei e o chão do quarto já não estava mais sob meus pés. Tudo ficou preto. Senti, de repente, uma dor muito intensa na lateral direita de minha cabeça enquanto ouvia uma voz muito distante. &lt;br /&gt;- Menina, será que algum dia você vai parar de cair tanto? Se continuar deste jeito não dará certo como Sidh. &lt;br /&gt;- Sidh? – eu ainda não havia recobrado totalmente a consciência, o nome saiu apenas um sussurro. &lt;br /&gt;- Levante do chão Zarah, nós precisamos ir logo, não há muito tempo! – ele, apenas com uma das mãos, me levantou do chão e em menos de um centésimo de segundo eu já estava sentada na cadeira com ele me observando numa expressão rabugenta. – Nós não temos mais tempo a perder menina, tente tomar mais cuidado ao andar, preciso de você viva. Você consegue fazer isto? – sua voz estava no mesmo tom que meu pai usa comigo quando me machuco. Paternalmente preocupada. &lt;br /&gt;- Eu posso tentar – posso tentar? O que eu estava pensando quando respondi? É lógico que eu não posso tentar. Isto simplesmente aconte-ce e pronto, não tem como eu evitar, não sei quando vou cair, não pos-so prever meus tombos. &lt;br /&gt;Tentei pensar logo numa maneira de consertar minha resposta, mas nada parecia ter sentido. Então me lembrei da frase que minha mãe sempre diz quando tentamos impor algo a ela. &lt;br /&gt;- Eu tenho uma condição – soltei rapidamente. &lt;br /&gt;- Isto não é moeda de troca menina, você simplesmente não pode se machucar e pronto, não estou aberto a negociações. – ele estava sim e eu podia ver em seus olhos, ele é o ser mais curioso que eu conheço. &lt;br /&gt;- Tudo bem então, eu não queria dizer a minha idéia mesmo. É um pouco tosca sabe, tenho certeza que você riria dela depois que ouvisse. – pronto, a semente já estava plantada, agora era só uma questão de tempo até que me peça para contar. &lt;br /&gt;Olhou-me fixamente enquanto pensava em minhas palavras. Sem tirar os olhos de mim, pegou um cachimbo de dentro do bolso esquerdo da calça e o segurou, enquanto tocava, com o dedo indicador da outra mão, o fornilho e o acendia. Observei a cena sem me mexer um milí-metro sequer. Pasma ao perceber que não havia nada em sua mão, nada que pudesse provocar a faísca e o fogo. &lt;br /&gt;- Como você faz isto? Não vi nada sair de seu dedo! Como você faz isto?&lt;br /&gt;- Qual é a sua condição? Eu troco com você, estou aberto a negocia-ções. &lt;br /&gt;- Apague isto agora, eu tenho alergia, a não ser que você queira que eu morra daqui a vinte minutos quando minha garganta se fechar comple-tamente! &lt;br /&gt;O cheiro do tabaco tomou conta do quarto em segundos e pude sentir uma leve dor de cabeça. Isto sempre acontece quando estão fumando perto de mim. Primeiro a dor de cabeça e depois a dificuldade na res-piração. &lt;br /&gt;- Tudo bem, eu apago se você prometer contar-me a condição. &lt;br /&gt;- Eu conto. – a pressão em minha cabeça estava ainda maior. Antes mesmo de apagar o cachimbo ele o guardou em no bolso, mas não havia sinal algum de que ele estava lá. O bolso continuou, aparente-mente, vazio. Quando será que eu vou parar de me surpreender com este homenzinho? &lt;br /&gt;- Conte logo menina, este suspense todo está me matando! – agora ele estava com os braços cruzados, me encarando, enquanto franzia as sobrancelhas, esperando que eu começasse a falar. Respirei fundo, duas vezes. &lt;br /&gt;– Tudo bem – dei uma pausa – Vamos fazer assim, você me conta tudo o que sabe e eu prometo fazer o possível para não me machucar. &lt;br /&gt;- Mas isto não é nada menina, realmente você não é muito boa em negociar! Eu iria ter que te contar a história toda de um jeito ou de outro, antes de irmos. &lt;br /&gt;- Então, porque você não me conta tudo logo? Você mesmo disse que não temos tempo a perder! &lt;br /&gt;- Tudo bem, mas a história é um pouco pesada, então me prometa que não irá desmaiar. E me avise ao sentir-se mal. &lt;br /&gt;- Eu prometo. – levantei a mão esquerda apenas com o dedo mínimo levantado –Palavra de escoteira – não é assim que os escoteiros fazem, mas eu não era uma, então, não me preocupei no que ele acharia do meu ato de tentar ser sincera. &lt;br /&gt;- A história que vou te contar agora se passou dois anos antes de você nascer – agora sentado em minha cama enquanto eu ainda estava na cadeira em frente à porta. – Eu era o melhor amigo de sua... De... De uma linda menina, seu protetor, seu confidente. Nós éramos insepará-veis – fez uma pausa, seus olhos umedeceram rapidamente com alguma lembrança e, antes que uma pequena lágrima começasse a rolar, ele a secou com as costas de sua mão. Esta, com certeza é uma lembrança difícil para ele. – Você sabe o nome de sua mãe verdadeira? – agora ele estava levemente inclinado em minha direção. &lt;br /&gt;Que pergunta mais idiota, lógico que eu sei o nome de minha mãe, a não ser que, que ele esteja falando de minha outra mãe. Mas.... Como ele poderia saber que eu fui adotada? Eu nunca disse isto a ele, pois nunca liguei. Minha mãe sempre diz que, para ela, sou a filha de san-gue como a Tayla e o Cadu e não só a do coração, como Milla. &lt;br /&gt;Algumas vezes, quando era criança, tive curiosidades sobre minha verdadeira mãe, mas ela nunca soube responder nenhuma das minhas perguntas. De todas as perguntas que eu fiz a ela apenas duas tinham resposta, qual o nome de minha verdadeira mãe e se quando ela me encontrou eu já usava meu camafeu. A segunda resposta foi fácil de arrancar dela. Quando ela me encontrou, em cima de sua cama, emba-lada numa espécie de lenço feito de fibras naturais, este camafeu esta-va amarrado ao meu braço por um pedaço de couro. Já a primeira res-posta, eu tive que implorar a ela para me falar. Ela respirou fundo e soltou as palavras com muita rapidez “Zarah, este é o nome de sua verdadeira mãe, eu o coloquei em você por que além de um nome lin-do, quer dizer iluminada. Foi o que você fez em meu coração aquela noite, o iluminou de alegria. Graças à sua mãe eu ganhei o melhor presente de toda a minha vida.”. &lt;br /&gt;Depois de ficar uns bons cinco minutos sem saber o que fazer e apenas olhando em seus olhos, finalmente consegui pensar em algo. Perguntei como ela sabia seu nome, e ela me disse que minha mãe havia deixado uma carta para eu ler quando fizesse dezoito anos. Estava escrito “Cuide bem do meu solzinho. Zarah.”. Durante os últimos dez anos eu a incomodei, até encher sua paciência, para que me deixasse ler a tal carta antes dos dezoito anos, mas ela sempre disse que cumpriria sua palavra. Se estava escrito para eu ler apenas aos dezoito, assim seria. Ela não iria falhar com a palavra. Isto para mim sempre pareceu um absurdo, elas nunca sequer se viram, como teria uma promessa a cumprir? &lt;br /&gt;- Zarah? - eu disse confiante, apesar de sair mais como uma pergunta.&lt;br /&gt;- Como você ficou sabendo? &lt;br /&gt;- Minha mãe adotiva me contou quando eu tinha uns oito anos. – na verdade eu arranquei a resposta dela, mas não quero entrar em detalhes agora. &lt;br /&gt;- Isto facilita muito as coisas para mim, sabe. – passou a palma da mão direita na testa como se fosse secar o suor. Parecia estar aliviado com minha resposta. – Eu já estava preparado para te consolar assim que te contasse que é adotada, mas você saber, minha nossa! Isto facilita mesmo as coisas para o meu lado. – soltou um sorriso, bufado de alí-vio. &lt;br /&gt;- Será que você pode, por favor, voltar à história? Nós não temos tem-po a perder! – eu disse, usando sua frase. &lt;br /&gt;- Oh, claro, claro, como quiser. – deu uma pausa para se concentrar e tentar lembrar onde parou. – Como disse, esta história começa em 1989, era o dia do ano mais esperado pelos Sidh. Sua mãe estava em-baixo de sua macieira, como fazia todos os anos. Era dia vinte e um de junho. O dia que o raio mais intenso do sol, no ano inteiro, toca as árvores. A partir do momento em que o primeiro raio penetra na flo-resta, se você estiver segurando o fruto de sua árvore com a mão es-querda e com a outra a tocando é possível, pro alguns segundos, ver quem está destinado a você, seu amor para a vida inteira, ou a alma gêmea, como os humanos dizem. A pessoa destinada a você pode ser de qualquer idade e pertencer a um mundo diferente do seu, ou não. Quando este tipo de coisa acontece, pertencer a outro mundo, o que é muito raro, tudo fica muito mais difícil, pois quando estamos em nosso mundo basta perguntar à sua macieira que ela indicará o lugar. Mas há restrições, ela pode indicar somente nos limites dos anéis de Aine. Não pode encontrar um humano. E você terá que encontrá-lo sozinha. Geralmente os Sidh destinados a humanos demoram muitos anos até encontrá-los. Com sua mãe aconteceu quase isto. Ela viu seu prometi-do e ficou muito feliz, segundo ela, era a pessoa mais bonita e ilumi-nada que já vira em toda sua existência. Quando foi perguntar onde encontrá-lo a árvore não pôde mostrar, isto queria dizer que ele per-tencia ao outro mundo. Ela ficou muito triste e inconsolável, por muito tempo, até que Aine, rainha e protetora dos Sidh, que era sua mãe, viu um dos desenhos que fez do prometido. – olhou-me com o sorriso de uma orelha à outra - Sua mãe é uma ótima desenhista, sabe. Ela desenhava tudo o que via. Tudo! – voltou à concentração de antes, mas ainda com um sorriso dançando no canto da boca. – Depois que o viu nunca mais conseguiu esquecer seu rosto e o desenhou muitas e muitas vezes. Quando Aine se deparou com um dos desenhos de Za-rah contou a ela que aquele era o filho de Malvino, um ser muito po-deroso ligado aos druidas – fez uma cara divertida ao citar todas aque-las palavras. Enumerando cada uma com os dedos. – o garoto fora seqüestrado por um druida, ao nascer, e colocado no mundo dos hu-manos. &lt;br /&gt;- Quem fez esta maldade com ele? – perguntei inquieta. &lt;br /&gt;Ele fingiu não ouvir e continuou a história. &lt;br /&gt;- Como ele era o sucessor de Malvino, seu pai ofereceu recompensas a quem dissesse seu paradeiro. Quando seus guardas finalmente encon-traram o druida, que já era muito velho, ele estava à beira da morte e havia empregado em si mesmo o feitiço do silêncio. Sendo assim não pode contar-lhes onde havia escondido o bebê, que já deveria ter uns dois anos de idade, mesmo que tivesse de morrer por isto. &lt;br /&gt;- Trágico! – pensei em voz alta. &lt;br /&gt;- Ninguém jamais encontrou a criança e a linhagem estava prestes a se perder de vez, pois ele era o filho primogênito e seus poderes ficariam perdidos para sempre, caso não voltasse ao reino antes de fazer vinte e um anos. – agora ele olhava para mim como se estivesse esperando que eu perguntasse algo, mas eu não tinha nada para perguntar. &lt;br /&gt;Eu queria saber mais, muito mais. &lt;br /&gt;– Você está conseguindo acompanhar ou quer perguntar algo? &lt;br /&gt;- Não, quer dizer, sim – eu estava realmente confusa sobre a história, não que eu não tenha entendido, mas é pelos nomes, são tão... Esquisi-tos. – Como minha mãe o encontrou? &lt;br /&gt;- Eu já estava chegando nesta parte. – me deu uma olhada e continuou – Sua mãe já sabia o principal, que ele não era humano. A partir daí não seria tão difícil assim encontrá-lo, já que ele era um de nós. Ela foi até sua árvore, de novo, para tentar ao menos ver algo que a ajudasse. – inclinou-se um pouco mais em minha direção - A macieira muitas vezes dá pistas do lugar onde a pessoa está – a frase saiu como um sussurro - Zarah disse tudo o que havia descoberto e perguntou-a mais uma vez. A árvore lhe mostrou a imagem de uma gruta de água azul. Só o que Zarah viu foi isto, uma gruta de água azul. – fez um leve movimento com as mãos - No mesmo instante ela voltou a sua mãe para contar o que tinha visto. Aine mandou um de seus guardas contarem a Malvino o que havia descoberto. – um sorriso tocou seus finos lábios - Zarah ficou muito contente. Eu nunca a vi tão feliz. Ela sabia que o encontrariam. – parou alguns segundos, fitando-me. - E foi o que aconteceu. – a voz calma. &lt;br /&gt;Eu o encarei, agora com mil perguntas em minha cabeça. &lt;br /&gt;- Você está querendo me dizer que este tal de filho de Malvino, pro-metido da minha mãe estava escondido o tempo todo dentro da Gruta do Lago Azul, em Bonito? &lt;br /&gt;- Não! Ele estava na cidade de Bonito, que tem uma gruta, não dentro da gruta! – deu gargalhada enquanto respondia minha pergunta. &lt;br /&gt;Ah, não foi uma pergunta idiota. Ele foi seqüestrado por um druida. Eles são tão estranhos, pode muito bem ter pensado em escondê-lo lá.&lt;br /&gt;- Posso continuar a história? – fitou-me. &lt;br /&gt;- Pode! – disse num tom de entusiasmo. &lt;br /&gt;- Quando Malvino o encontrou foi difícil convencê-lo a sair daquela cidade, pois lá ele tinha amigos e uma família que o amava muito. Quando, finalmente o convenceu, ele saiu da cidade sem se despedir da família anterior. Disse que uma despedida só complicaria mais a situação. Ele voltou muito triste para o reino, mas sabendo que fez a escolha correta. Alguns dias depois de ter voltado encontrou sua mãe na floresta enquanto ela descansava sobre a sua macieira. Bernardo, o nome que recebeu de sua segunda família, se apaixonou perdidamente por ela, no momento em que a viu. Ela já estava loucamente apaixo-nada por ele, como o destino havia lhe avisado. A partir daí tudo acon-teceu muito rápido. Casaram-se algumas semanas depois desde o pri-meiro encontro, unindo os dois reinos; céu e sol, que era de sua mãe e o reino das primaveras quentes, ciências mágicas e vegetação – fez uma cara parecida com a de antes, debochando da quantidade de rei-nos. - que era de Bernardo. Alguns meses após seu casamento, Zarah descobriu que estava grávida. – agora ele olhava pela janela. Olhando o céu. &lt;br /&gt;– O que foi? – perguntei quando vi uma lágrima rolando de seus olhos. &lt;br /&gt;- Não foi nada, só me dói muito lembrar deles, eu sinto muito a falta de Zarah, ela era a melhor amiga que alguém poderia ter. – não olhava mais pela janela, agora seus olhos estavam em mim. – Você não tem nada a me perguntar? – secou os olhos. &lt;br /&gt;- Sim, tenho uma pergunta. – disse rapidamente - Se ela estava grávida e eles tinham unido os dois reinos – olhei-o com um ponto de interro-gação bem no meio da testa – então a criança teria os dois poderes? O das magias e o do céu? E seria dona, sozinha, dos dois reinos? &lt;br /&gt;- Não é assim do jeito que você está pensando. Há muitas outras coisas envolvidas nisto – sua resposta foi calma demais para o meu gosto.&lt;br /&gt;– Esta criança deve ser muito poderosa. Quem é ela? &lt;br /&gt;- Vou terminar minha história e você tira suas próprias conclusões, já que ainda não tirou. &lt;br /&gt;Esta resposta, definitivamente, eu não entendi. &lt;br /&gt;- Quando filho mais novo de Malvino, três anos mais jovem que Ryan, ficou sabendo da gravidez de Zarah, fez de tudo para acabar com a vida do irmão, ele tinha muita inveja de Ryan por ter dois reinos e o poder de seu pai junto ao poder que ele já carregava desde o nasci-mento. Além de temer o nascimento de sua filha, a herdeira. – deu ênfase à palavra - Ao saber que o irmão queria matá-lo, Ryan foi obri-gado a bani-lo do reino. Mesmo ele sendo parte da família. Ele se es-condeu na Floresta Negra, a floresta intocada, do nosso mundo. Lá encontrou um druida e viveu com ele alguns meses. Este druida o en-sinou várias poções, incluindo o feitiço secreto da realização dos dese-jos com os ramos de aveleira. Mas ele não aprendeu a fazê-lo. Apenas a usar. Este é um segredo compartilhado apenas a uma pessoa, o rei. Somente o rei tem o poder de todas as magias em mãos. Imediatamen-te ele voltou ao reino de Ryan e Zarah a fim de matá-los. Quando che-gou lá a criança já havia nascido. Uma linda menininha, com cabelos chamuscantes da cor dos raios do sol, como os da mãe, a pele num tom de dourado como a do pai e de olhos negros e penetrantes. – voltou a olhar através da janela, mas desta vez nenhuma lágrima rolou de seus olhos. &lt;br /&gt;- O que foi Leprechaun? Não vai chorar de novo em, você já está bem grandinho para isso! – disse numa voz sorridente tentando alegrá-lo. &lt;br /&gt;- Vo... Ela... Era o bebê mais lindo que eu já tinha visto, os olhos ne-gros como a escuridão e a boca rosada como a das ninfas. – deu um suspiro e voltou a olhar em minha direção. &lt;br /&gt;- Continue – o encorajei. &lt;br /&gt;Encheu os pulmões de ar. &lt;br /&gt;- Quando o irmão de Ryan a viu, ficou sem reação, ele não esperava por isto, pensou ter ficado fora por menos tempo. Neste meio tempo, enquanto seu irmão estava em choque, Ryan pegou a criança dos bra-ços de Zarah e a protegeu. Esta foi a única coisa que deu tempo de alguém fazer, até o irmão mais novo perceber e desejar algo sobre Zarah e ela sumir. Foi tão rápido que nem sua voz foi capaz de ouvir. – a lembrança o deixou triste. Ele parou, encheu os pulmões de ar al-gumas vezes e continuou. - Ryan conseguiu fugir para longe, com a criança, pois agora seus poderes eram inúteis contra os desejos do irmão. Nada que ele fizesse seria capaz de deter os pedidos enfureci-dos do irmão, não seria capaz de salvar-se ou o bebê. Ele ficou sumido por muitos dias. Enquanto não voltava, nós tentamos, com tudo o que estava a nosso alcance, matar o irmão. Mas ele voltou à Floresta Negra, um território hostil para nós. Algum tempo se passou, não sei bem quanto. Sabe, nós não marcamos o tempo como os humanos fazem. - olhou-me - Ryan voltou para enfrentá-lo, mas estava sem a criança, ele a escondera, evitando assim que seu irmão a matasse. O garoto demorou a reaparecer, e quando o fez, ninguém o viu entrar nos limites do reino. Ele havia usado um dos pedidos nele mesmo, impossibi-litando-nos de vê-lo avançando para dentro do anel de Aine. Ele con-seguiu chegar até Ryan e, assim que teve a oportunidade, jogou a capa dos desejos sobre o irmão e fez seu pedido. Mas Ryan, antes que a capa o tocasse, o enfeitiçou. – olhou-me novamente - Ele agora é uma escultura, sem vida, que decora uma das salas do castelo. – parou, me olhando durante alguns segundos, até eu perceber. &lt;br /&gt;- Fim da história? – perguntei horrorizada &lt;br /&gt;- Desta sim. &lt;br /&gt;- Tem mais uma? Mas você não disse que eram duas! – franzi a testa. Apesar de serem muito interessantes, estas histórias são tão longas. &lt;br /&gt;- Agora tem a minha história, que começa a partir de onde esta acaba. - Então me conte rápido, quero muito saber a sua história, você já me ouviu contando da minha vida, mas nunca me disse nada da sua. Eu realmente estava empolgada. &lt;br /&gt;- Tudo bem, agora começa a minha história! – deu uma pausa, respirou fundo, duas vezes, e continuou. – Depois que eles sumiram os dois reinos continuaram unidos, mas agora sob os cuidados dos pais de Zarah e Ryan. Nós nunca conseguimos encontrar a criança, apesar de passar dez anos tentando. Um dia, eu estava caminhando na floresta quando vi a árvore de Zarah, ela estava linda, com as folhas muito verdes. Isto era um sinal de que ela estava bem, seja lá onde estivesse, por que a árvore transmite todos os sentimentos de sua protetora. Caso a protetora venha a falecer, a árvore seca completamente. Sentei-me embaixo dela para admirá-la. Quando fazia algumas horas que eu es-tava lá, ouvi uma voz, uma voz muito conhecida. Era de Zarah. De algum jeito ela conseguia se comunicar comigo. Eu fiquei muito feliz em poder ouvir sua voz e aliviado por ela estar a salvo. Mas ao mesmo tempo triste, por que não podia tê-la por perto. Indaguei-a sobre esta capacidade de se comunicar comigo. Este tipo de conversa normal-mente é feito por druidas. Ela me disse que Ryan lhe passou todos os ensinamentos assim que o bebê nasceu. Ele temia que o irmão o des-truísse antes que sua filha chegasse à idade de aprender as magias e feitiços. Caso ele fosse pego seus poderes estariam perdidos para sempre, assim como ocorreria com seu pai, se não o tivesse encontrado em Bonito um ano antes. &lt;br /&gt;- Nossa! – encolhi-me na cadeira e abracei os joelhos, mordiscando-os. O Leprechaun deu-me uma olhadela e levantou a sobrancelha direita. &lt;br /&gt;- Além de conseguirmos conversar por pensamento eu era capaz de ver com seus olhos. Tudo o que ela estava vendo eu também conseguia ver. Ela tentou me mostrar onde estava aprisionada mas eu não conseguia distinguir o lugar, eu nunca estive lá e ela não tinha a menor idéia de como era por fora. Eles foram aprisionados juntos, Zarah e Ryan, ela me contou que sabia onde sua filha estava escondida e me pediu para tomar conta dela. A menina estava escondida na mesma cidade que Ryan havia sido levado quando bebê, ele a levou para a família que o tinha criado e a deixou com sua irmã adotiva. A irmã dele chama-se Valentina. &lt;br /&gt;- Não! Não, não, não, não, não pode ser! Este é o nome da minha mãe! Então... Isso... Eu... Não! – sacudi a cabeça. Comecei a hiperventilar, tudo girou, nublou e, de repente, ficou preto. &lt;br /&gt;- Vamos lá mocinha, temos muito a fazer agora que você já sabe que é a herdeira, temos que ir ao encontro de Valentina, você precisa pegar a primeira pista, que está com ela. – novamente me levantando do chão num só mexer de mãos. &lt;br /&gt;- Pista? Pista para quê? – tudo estava embaçado diante de meus olhos. - Seu pai é um homem muito esperto Zarah, ele viu na mente de seu tio para onde havia mandado sua mãe e, antes de voltar ao reino, deixou pistas para que você mesma pudesse salvá-la, caso ele morresse. &lt;br /&gt;- Mas por que ele não diz a você onde estão? É bem mais fácil que eu ter que pirar meu cabeção procurando por pistas, eu sou péssima nisso! – depois eu que sou a lerda. &lt;br /&gt;- Eu iria chegar aí – estava muito impaciente agora. – Há um feitiço que não permite que falem onde estão, mesmo que alguém possa con-versar com eles. Todas as vezes que tentam dizer, sua voz some um pouco e as palavras saem retorcidas, como se estivessem falando den-tro de uma garrafa. &lt;br /&gt;- Então vamos! – eu estava decidida – mas, espere um pouco! Nós temos que ir para Bonito, pegar a pista, traduzi-la e pronto? Simples assim? &lt;br /&gt;- Não exatamente, se eu conheço bem seu pai as pistas não serão muito fáceis de decifrar, já que ele não queria que você voltasse ao reino tão cedo, pelo menos enquanto ainda não estivesse ganho seus poderes. Além de ele estar proibido de dizer ou escrever o nome do lugar. Não poderia simplesmente pegar uma folha e deixar para que Valentina entregasse a você em seu décimo oitavo aniversário, quando ganharia os poderes e conseguiria atravessar o portal sem alertar todas as criaturas mágicas que vivem ao seu redor protegendo-o de humanos curiosos. &lt;br /&gt;Levantei-me da cadeira num pulo e coloquei-me em pé. Precisava reservar duas passagens no primeiro ônibus que fosse a Bonito agora de manhã. Abri a porta do quarto e lá estava ela, parada atrás da porta escutando a nossa conversa. Levei um susto tão grande que caí sentada na cadeira novamente. Seus olhos estavam arregalados como se estivesse vendo a própria morte, de tão aterrorizada, ela nem sequer se mexeu um milímetro do lugar onde estava, continuou a me olhar com aqueles olhos castanhos e arregalados como se eu estivesse indo para a forca. &lt;br /&gt;- Tayla, você está bem? – perguntei ainda mantendo certa distância. &lt;br /&gt;- Você... É... Ele... – ela estava tão apavorada que não conseguiu for-mar sequer uma frase. &lt;br /&gt;- Tayla sente-se aqui – levantei-me da cadeira e a coloquei em meu lugar – você está pálida laranjinha, tente se decompor. - precisava pas-sar um ar de calma para ela, apesar de estar gritando enfurecida, por dentro, ela precisava que eu estivesse calma, naquele momento. – O que exatamente você escutou? Desde quando estava atrás da porta?&lt;br /&gt; Tayla respirou fundo, agora conseguindo se controlar e já um pouco corada. &lt;br /&gt;– Eu levantei-me para tomar água e vi que você ainda não tinha acor-dado. Fui até sua porta e quando levantei a mão para bater e te avisar que estava atrasada ouvi uma voz estranha. Fiquei com medo e decidi te chamar, mas a voz lhe perguntou algo muito estranho, o nome de sua mãe, você demorou um pouco a responder e quando o fez disse seu próprio nome. Eu achei aquilo muito estranho, depois ele pergun-tou como você sabia de tudo então você contou-lhe da nossa mãe e que você é... Adotada. &lt;br /&gt;Tayla estava muito perdida em toda aquela história, afinal ninguém, além de mim e papai, sabiam que eu sou adotada. Eu mesma fiquei sabendo por acaso quando ouvi uma discussão deles, onde meu pai dizia a ela que eu precisava saber de toda a verdade enquanto ainda era pequena. Valentina nunca se acostumou à idéia e prefere não falar a ninguém sobre isto, portanto para todos os moradores da cidade eu sou sua filha legítima assim como Tayla e Cadu. Não foi muito difícil para Valentina convencer as pessoas de sua gravidez, por que quando me encontrou havia acabado de chegar de Campo Grande, onde mo-rou dez meses com meu pai, antes de convencê-lo a mudar-se para Bonito. Eles tinham acabado de chegar à pousada e ela estava no ba-nho, quando saiu do banheiro eu já estava lá, em cima de sua cama. Eles decidiram que ficariam comigo depois dela ter lido a carta que meu pai deixou comigo, que ela pensa ser de minha mãe. Agora, sa-bendo de toda a história, uma pergunta ficou martelando em minha cabeça. &lt;br /&gt;- Por que ele assinou o nome de minha mãe no fim da carta endereçada a Valentina? – perguntei, tentando entender toda esta loucura que minha vida havia se tornado. &lt;br /&gt;- Simples menina, você queria o que, que ele assinasse “Ryan”? Não sei se você se lembra, mas ele é o irmão adotivo dela, o que sumiu! Decidiu colocar o nome de Zarah para não levantar suspeita alguma, nunca. – realmente meu pai era um gênio, é uma pena eu não ter pu-xado esta qualidade dele, com certeza facilitaria muito as coisas na hora de traduzir as pistas. &lt;br /&gt;- Você ouviu a história inteira Tayla? – agora me virando para encará-la. &lt;br /&gt;- Sim, toda, e se for mesmo verdade tudo isto eu quero ir junto com vocês! Não perco essa aventura por nada no mundo. – disse toda ani-mada enquanto levantava-se da cadeira sem se conter de animação.&lt;br /&gt;- Acho melhor não Tah, você só nos atrapalharia estando lá! – não mesmo, ela está pensando o que, que nós estamos indo para a Disney? Isto não é um passeio, eu nem sei se vou correr perigos enquanto esti-ver traduzindo as pistas, ela está louca quando pensou em ir conosco. &lt;br /&gt;- Eu vou com vocês e ponto final! – respondeu nervosa, batendo os pés ao terminar a frase. &lt;br /&gt;- Não, ela não pode entrar nos limites do reino sem ter sido convidada, vão fazê-la perder a consciência caso encontrem-na, nenhum humano é autorizado a por os pés lá. Todos os que passaram pelo anel mágico de Aine nunca mais voltaram a si ou recobraram a consciência. &lt;br /&gt;- Viu? – perguntei desafiando-a desta vez, por esta ela não esperava e com certeza ela não discutiria com ele. &lt;br /&gt;- Eu vou com vocês até Bonito, pelo menos. Não ficarei aqui sozinha enquanto você se aventura mundo afora. – ela é rápida nas respostas. &lt;br /&gt;- Tudo bem então, fica aqui com ele que eu vou tomar banho, escovar os dentes e depois ligar para a rodoviária e reservar três passagens. Enquanto isto vai arrumando as malas. – abri a porta do meu guarda roupa. Peguei uma calça jeans e uma blusa de abotoar xadrez e corri para o banheiro. Tomei o banho mais rápido que pude. Saí de lá e fui para sala pegar o telefone. Voltei ao meu quarto e procurei minha a-genda, onde estava marcado o número da rodoviária. &lt;br /&gt;- Por que nós temos que desperdiçar tanto tempo dentro de um ôni-bus? Eles são muito lentos. – reclamou o pequeno homem. &lt;br /&gt;- Por que, a não ser que você tenha um jatinho particular te esperando lá embaixo, este é o nosso único meio de chegar a Bonito. – será que ele ainda não percebeu que eu não tenho um carro? Que pergunta mais idiota esta que ele fez, ele sabe muito bem que eu ainda não tenho licença para dirigir mesmo que tivesse um. &lt;br /&gt;- Eu não tenho um jatinho, mas eu tenho uma amiga que nos levaria até lá em menos de uma hora. – um sorriso imenso inundou seu rosto. - Que amiga? Ela tem um jatinho? Com certeza isto muda tudo em! – empolgação, isto estava visível em meu rosto. &lt;br /&gt;- Você! – seu sorriso tocou todos os músculos de sua face. &lt;br /&gt;– Você pode nos levar até lá em menos de uma hora, você acaba de fazer dezoito anos então seus poderes já estão totalmente formados e prontos, apenas esperando o momento em que você irá usá-los. &lt;br /&gt;- Então eu posso fazer a gente aparecer lá como num passe de mágica? – estralei meus dedos como os mágicos fazem nos shows. &lt;br /&gt;- Não é disto que eu estou falando. Você pode nos levar até lá voando! - Não, definitivamente não posso! – só podia ser brincadeira. &lt;br /&gt;- Por que não? Você agora tem poderes, é só concentrar-se. – ele esta-va me encorajando, mas em nada iria adiantar. &lt;br /&gt;- Que ótimo! Era só o que me faltava. – Tayla soltou entre os dentes, enfurecida de raiva. &lt;br /&gt;- O que foi? – ele perguntou se virando para olhá-la. – O que eu disse de errado? &lt;br /&gt;- Zarah tem fobia de altura, é isso! Ela nem sequer chega à sacada do apartamento! –senti dois pares de olhos em minha direção enquanto mantinha a cabeça abaixada e me lembrava como respirar. &lt;br /&gt;- Estamos fritos! – sentou-se em minha cama e deu uma bufada jogan-do os ombros à frente em sinal de derrota. &lt;br /&gt;- Vamos ter que ir de ônibus, lá se vai cinqüenta reais. – seu olhar dançava entre dois sentimentos, desapontamento e pesar. &lt;br /&gt;- Não temos tempo a perder indo de ônibus, ela precisa tentar! – ele estava irritado agora, com certeza não contava com esta minha covar-dia. &lt;br /&gt;- Eu não quero tentar, não vou, por favor, não me obrigue a fazer isto! – eu estava implorando desesperadamente. Meus olhos umedeceram e algumas lágrimas tocaram minhas bochechas. Eu realmente estava desesperada e fora de controle. &lt;br /&gt;- Você não é obrigada a tentar Zarah, você só vai quando achar que está pronta. – Tayla me abraçou enquanto falava, ela sabia que eu havia entrado em pânico. &lt;br /&gt;- Tudo bem, eu já estava contando com isto, eu tenho outro plano. &lt;br /&gt;- “Eu tenho outro plano?” Então porque você me deixou desesperar deste jeito se você tem outro plano? Por que não falou antes seu Le-prechaun de uma figa? – eu realmente estava fora de controle agora. &lt;br /&gt;Tentando lembrar como respiram e falar ao mesmo tempo. &lt;br /&gt;- Por que o plano B é consideravelmente maior que você, caso algum humano esteja olhando para o céu quando chegarmos a Bonito, com certeza estaremos encrencados. &lt;br /&gt;- Não importa o quão encrencados ficaremos caso isto aconteça, o plano B é melhor que o A. – minha calma começando a voltar – A propósito, qual o plano B? – minha curiosidade saltando de tão gran-de. &lt;br /&gt;- Antes eu preciso te contar uma história. Mas prometo que esta é bem curta. – disse enquanto arrumava-se na cama Será que para todas as minhas perguntas as respostas são em forma de histórias? Eu, since-ramente, espero que não. &lt;br /&gt;– Quando a filha ou filho primogênito de um rei nasce, é costume seu pai presenteá-lo com uma criatura mágica que a protegerá a qualquer custo e estará ligada a ela para sempre. Esta criatura desenvolve um sentimento afetivo pelo bebê maior até que o amor, ela fará de tudo para mantê-lo a salvo e estará onde a mandar em questão de minutos. Quando você nasceu, seu pai a presenteou com Kika, um Grifo, parte fênix, parte leão, já que você um dia será a rainha do sol e do fogo, e a parte fênix faz com que ele seja imune ao fogo. – deu-me uma olhada e continuou a falar. - Costumavam dormirem juntas, e você só pegava no sono quando se aninhava debaixo de suas asas. Nasceram no mesmo dia, hoje ela também completa dezoito anos, apesar de ser consi-deravelmente maior que você. Vocês não se separavam nenhum se-gundo sequer, apenas quando ela saía para caçar, mas voltava assim que ouvia seu choro. &lt;br /&gt;- Eu tenho um Grifo? – eu realmente não acredito nisso. Como alguém pode ter um Grifo? A única pessoa que eu sei que te um é o Hagrid, do Harry Potter, e ele nem mesmo é real. Na verdade eu acho que era um hipogrifo, mas isto não muda nada, ainda parece uma grande loucura.&lt;br /&gt;- Sim, e ela já não agüenta mais de saudades suas, me incomoda todos os dias, desde que descobriu que eu te visito durante as noites, que-rendo que eu a trouxesse junto. Ela é uma ave impossível de lidar, tem o mesmo gênio que você, quando enfia algo na cabeça não há nada que a faça mudar de idéia. – ele sorria enquanto olhava em direção à janela. &lt;br /&gt;- O que foi? – saí de onde estava e fui à direção à janela, para ver o que ele estava olhando. Não havia nada ali, ele apenas olhava as nu-vens, o sol, os pássaros, nada em especial. &lt;br /&gt;- Então, você não vai chamá-la? Precisamos sair logo daqui. – senti seu olhar penetrar em meus olhos enquanto falava. &lt;br /&gt;- Por que você não a chama? Você a conhece melhor, eu não saberia como fazer. &lt;br /&gt;- Eu não posso chamá-la, ela é capaz de escutar apenas sua voz na distância em que está, e de mais ninguém. &lt;br /&gt;- Mas como eu faço para ela me ouvir, dou um grito bem alto? &lt;br /&gt;- Não, basta pensar em seu nome que ela ouvirá de onde quer que es-teja. &lt;br /&gt;- Tudo bem, isto parece fácil. – fechei meus olhos e menos de um se-gundo depois, ainda com eles fechados, perguntei – Como é mesmo o nome dela? – me concentrei esperando ele responder. Sua voz estava perto do meu ouvido agora, ele havia ficado em pé na cama e calma-mente se inclinou para sussurrar o nome. &lt;br /&gt;– Kika, sua mãe colocou este nome nela para que você conseguisse chamá-la desde pequena, quando precisasse, por ser um nome fácil de pronunciar. &lt;br /&gt;Eles pensaram em tudo mesmo, não deixaram passar nada. Meu pai com as dicas e minha mãe com esta facilidade do nome do Grifo.&lt;br /&gt;Apertei meus olhos o máximo possível e pensei bem alto seu nome, repetindo muitas e muitas vezes para ter certeza que ela me veria com clareza. Fiquei algum tempo de olhos fechados pensando em meu pré-dio, a rua, a cidade, para facilitar que ela me localizasse, não custa nada ajudá-la já que ela está tão longe. &lt;br /&gt;Quando abri meus olhos eles estavam um pouco embaçados pelo fato de eu tê-los forçado, olhei para Tayla, mas ela estava paralisada o-lhando em direção à janela, como uma estátua de pedra. Segui seu olhar tentando entender o que havia do lado de fora e quando encon-trei todos os pêlos do meu corpo se arrepiaram. Era enorme, muito grande mesmo, e estava aqui na minha frente, linda e flamejante, Kika. Com certeza ela tem pelo menos três metros de altura e seis de comprimento. Seus olhos são tão suaves como os de uma criança, mas ameaçadores ao mesmo tempo. Seu bico que parecia estar num sorriso, é levemente mais escuro que o tom de suas penas. Em seu pescoço havia mais de dez tons que variavam entre o ouro e o laranja, como uma fogueira, porém mais brilhante viva. Suas patas, duas de ave e duas de leão, são delicados e mortais, pois apesar do tamanho são bri-lhantes como suas penas e da mesma cor do bico. É simplesmente impossível acreditar que exista algo assim, é como estar dentro de um livro de magia onde as coisas mais impossíveis acontecem. &lt;br /&gt;- Isto está errado, as lendas dizem que o Grifo não é um bicho muito amistoso. Elas dizem que eles são maus, sujos e agoureiros, e não esta ave flamejante! – Tayla ainda estava impressionada, seus olhos esta-vam inquietos, ora em Kika, ora no Leprechaun. Com certeza espe-rando alguma explicação. &lt;br /&gt;- O Grifo que você ouviu falar realmente existe, mas há mais de um tipo diferente delas, a de fogo, metade fênix, como Kika, são proteto-ras. As águias, brancas e mansas, são aves que trazem paz e sabedoria. Já as negras, as quais você já ouviu falar, são agoureiras e trazem muito poder, por um lado, mas em troca desse poder lhe é levado embora toda a felicidade. – o pequeno homem fez gestos como quem explica algo a uma criança de dois anos de idade, todas as palavras saíram devagar e num tom médio, para que não houvesse mais questionamen-tos. &lt;br /&gt;- Ah, é que as lendas nunca falam dela. A propósito, aonde ela vai “estacionar” para que possamos subir? – disse a palavra fazendo gestos de aspas com o indicador e o dedo médio das duas mãos. &lt;br /&gt;- Para começar ela não “estaciona” – fez um sinal copiando-a ao dizer a mesma palavra. – não estamos falando de um carro e sim de uma ave. E para terminar, vamos subir daqui mesmo. – apontou à janela. &lt;br /&gt;- Não há como, ou você não percebeu que há uma tela aí na janela? – Tayla disse desafiando-o. &lt;br /&gt;- Francamente, menina, você nunca leu sobre os poderes dos Lepre-chauns? Aparentemente não. Vou te dar uma breve explicação, sou capaz de fazer com que ela suma sem nem precisar mover meus dedos. – orgulhoso de si mesmo, olhando em minha direção com ar de superioridade enquanto movia-se em direção à janela. &lt;br /&gt;- Ow, ow, ow, espera aí! – eu disse pegando em seu braço – Você sabe quanto custou para colocar esta tela aí? Eu não quero ter que pagar por uma nova quando voltar... De... Ah, sei lá, de onde formos. – até pare-ce que eu o deixaria acabar com minha tela, já pensou se, ao voltarmos, eu tenho um ataque de sonambulismo e decido pular? Minha mãe mandou colocá-la justamente para evitar acidentes. &lt;br /&gt;Ele fingiu nem escutar o que eu disse livrando seu braço, com muita facilidade, do aperto de minhas mãos e virou-se novamente à janela.&lt;br /&gt;Na hora em que se virou em minha direção para de me encarar depois da tela desaparecer. Aconteceu tudo tão rápido e ao mesmo tempo em que fiquei impressionada, permaneci imóvel e boquiaberta. &lt;br /&gt;Por alguns segundos fui incapaz de lembrar-me de como fechar a boca. Tentei me lembrar de ter visto, mesmo que por menos de um segundo, a tela sumindo, mas eu realmente não consegui enxergar. &lt;br /&gt;- Agora que não há nada nos impedindo que tal se vocês se apressarem e pegarem logo mala para sairmos daqui o mais rápido possível, antes que alguém veja Kika? – estava um pouco mais irritado que o normal enquanto apontava à mala em cima do meu armário e falava. &lt;br /&gt;- Você não acha melhor nós esperarmos ela estar no chão para subir-mos? Não estamos acostumadas a este tipo de aventura, sabe. E com a sorte que tenho é provável que eu caia daqui de cima ao tentar subir. – eu estava com muito medo, muito mesmo, será que ninguém aqui neste quarto se lembra mais do meu pânico de altura? &lt;br /&gt;- Você não vai cair Zarah, ela nunca deixaria que isto acontecesse. Tente ficar calma e não pensar na altura ou olhar para baixo enquanto estivermos voando, e lembre-se que seus sentimentos estão diretamen-te ligados aos dela. Se você entrar em pânico, automaticamente ela também entrará, e te garanto que não é nem um pouco agradável vê-la fora de controle em pleno vôo.  &lt;br /&gt;Sua voz estava calma e paternal, com certeza ele estava tentando evitar que eu perdesse o controle e me recusasse a subir em Kika. Mas ele está completamente errado se pensou que eu sou capaz de deixar que um medo idiota me impeça de salvar meus pais. &lt;br /&gt;- Tudo bem, mas você sobe primeiro, quero ver como faz, afinal não estamos acostumadas a este tipo de meio de transporte. – tentei imitar o tom de meu pai quando nos manda fazer algo. Deu certo. &lt;br /&gt;- Eu vou primeiro então, mas não demorem a subir, por favor. – num pequeno salto ficou em pé na janela e se curvou até encostar a mão esquerda na asa de Kika, ela a esticou o máximo que pôde, então, poucos segundos depois ele já estava sentado, próximo ao seu pescoço, nos esperando. &lt;br /&gt;Olhei para Tayla com receio de que seu rosto me mostrasse algo que eu não queria ver. Medo. Ou que ela me olhasse pedindo para não subir em Kika. Para minha surpresa, havia um sorriso enorme em seu rosto, ela estava olhando para o enorme pássaro do lado de fora de minha janela como se fosse um prêmio de loteria, seus olhos brilhavam de entusiasmo enquanto seus olhos percorriam cara centímetro do enorme pássaro. Senti um alívio imediato, todos os meus músculos relaxaram então pude perceber o quão tensa estava. Logo em seguida senti um gelo percorrendo minha espinha e todos os meus pêlos arrepiaram, afinal, o maldito pânico de altura não estaria curado assim que eu subisse na ave e sim pioraria, eu tenho certeza absoluta disto, sem contar que não me alegra em nada a idéia de estar sobrevoando várias cidades a sabem-se lá quantos metros de altura. &lt;br /&gt;- Eu vou primeiro! – Tayla realmente estava animada com a idéia. Subiu em minha cama e foi em direção à janela com uma mala em mãos, jogou-a em direção à Kika para que o Leprechaum pegasse e passou uma perna de cada vez até que se encontrasse sentada à beira da janela. &lt;br /&gt;- Você não precisa fazer isto Tayla, nós ainda podemos ir de ônibus, não precisa bancar a corajosa! – disse enquanto puxava sua camiseta com a mão esquerda enquanto a outra segurava um de seus braços. Eu estava literalmente tremendo de medo enquanto a impedia de se jogar a esta aventura louca e inconseqüente. &lt;br /&gt;- Zarah, dá pra me soltar? Assim eu vou acabar caindo daqui. – segu-rando minha mão que estava apertando levemente seu braço, tentando se livrar de mim. – Depois que eu estiver lá conte até três, sem olhar para baixo e faça o mesmo que fiz. – agora totalmente livre de minhas mãos ela ficou em pé na janela e se jogou em direção ao enorme pás-saro. &lt;br /&gt;Quando já estava seguramente sentada, um pouco atrás do Lepre-chaum, deu uma boa olhada ao redor seguida de um sorriso enorme e estonteante mostrando todos os dentes. &lt;br /&gt;– Agora é sua vez, concentre-se e não olhe para baixo. – esticou uma das mãos e fez um sinal para que eu a acompanhasse. &lt;br /&gt;Subi em minha cama muito devagar, tomando muito cuidado para não olhar para baixo, sentei-me à janela imitando seus movimentos. Segu-rei-me à lateral da janela até conseguir ficar em pé enquanto tentava me equilibrar. Impossível manter minhas pernas firmes ali, eu tremia mais que uma vara verde e meus pés não me obedeciam, por mais que eu dissesse repetidas vezes em minha cabeça: “você não está com me-do, você não está com medo!”. Mas não adiantou em nada. Ainda sem olhar para baixo, foquei-me apenas em não cair e inclinei-me poucos graus à frente até conseguir tocar a ponta de meus dedos trêmulos na asa de Kika. Minhas pernas, agora, estavam tremendo muito mais que antes e não podia senti-las direito. Mas mesmo sem poder controlá-las fechei meus olhos e saltei em direção à ave enquanto sentia meu cora-ção disparar, o sangue gelar e meus pés e mãos formigarem. Por alguns segundos permaneci sem abrir meus olhos apenas esperando sentir o calor de Kika sob mim. Suas penas são tão delicadas e macias que a sensação é de estar sentada em milhares de plumas. Apesar da sensação de conforto, ainda não estava preparada para abrir meus o-lhos e permaneci imóvel por o que me pareceu alguns minutos, te-mendo entrar em pânico e estragar tudo. Senti um vento gelado tocar meu rosto bagunçando meu cabelo, deixando um pedaço de minha franja fazer cócegas nas maçãs de meu rosto, me fazendo dar um sor-riso trêmulo e tremer de frio ao mesmo tempo. Quando finalmente tomei coragem para abrir os olhos não pude acreditar no que vi. Todos os prédios eram como pequenos quadrados e retângulos aglomerados em alguns pontos da cidade e escassos em outros, as ruas pareciam como as que eu desenhava na terra quando criança, apenas uma linha. Eu estava inacreditavelmente maravilhada com a vista, sem conseguir tirar os olhos da cidade que ia, aos poucos, sumindo do meu campo de visão e dando espaço às fazendas de gado e às plantações. As cores são tão vivas e intensas que se tornam impossivelmente admiráveis, vários tons de verde se mesclam a alguns pontinhos brancos nas fa-zendas. Vesti o casaco que havia amarado à cintura enquanto lembra-va-me de um detalhe muito importante desta viagem, algo essencial para mim. &lt;br /&gt;- Você lembrou-se de pegar minha câmera fotográfica? – perguntei à Tayla sem mover meus olhos da paisagem. – Eu queria tirar algumas fotos, este é o lugar perfeito, com certeza, olha este céu! – eu estava maravilhada com tudo aquilo. Fiquei até um pouco perdida sem saber para onde olhar. Tudo é tão lindo e impossivelmente perfeito. Nem em meus melhores sonhos havia um lugar assim. &lt;br /&gt;- O que seria da você sem mim em Zah? – disse numa voz divertida enquanto abria minha bolsa e tirava minha máquina de lá. – Eu sabia que você ficaria louca em ver esta paisagem sem poder tirar fotos! &lt;br /&gt;- Realmente Tah, o que seria de mim sem você? – peguei minha má-quina de suas mãos, a liguei e comecei a tirar fotos sem parar. Quem sabe quando terei outra oportunidade dessas, melhor não desperdiçar. &lt;br /&gt;- Que bom você estar aproveitando o passeio Grania, eu ficaria mago-ada se você continuasse em pânico, isto quer dizer que confia em mim. – uma voz graciosa e conhecida, como um soar de sinos, uma voz que eu não escuto há muito tempo, disse baixinho. &lt;br /&gt;- Grania? Quem disse isso? – eu estava olhando para Tayla e o Lepre-chaum alternadas vezes esperando uma resposta. Os dois olharam um para o outro e logo em seguida para Kika, Tayla apontou o dedo na direção da ave e apenas com um mexer de lábios sem som disse “ela”. &lt;br /&gt;- Você não deve se lembrar do som de minha voz, eu já esperava por isto. – sua voz de sinos estava triste agora. &lt;br /&gt;- Na verdade eu me lembro vagamente de sua voz Kika. É que demo-rou algum tempo para me lembrar de onde a conhecia. Desculpe-me, eu não pretendia te magoar. – eu realmente sinto muito. &lt;br /&gt;Inclinei-me, enquanto falava, até que minha bochecha esquerda esti-vesse totalmente coberta por suas penas. Eu não tenho culpa de não tê-la reconhecido, afinal a última vez que a ouvi deveria ter apenas um mês de vida. Esta é a melhor sensação que eu já tive, a de estar prote-gida e saber que nada de mal me acontecerá. Continuei aninhada em suas penas enquanto passava meus dedos levemente na linda pluma-gem de seda e admirava o céu. Alguns flashes de uma memória emba-çada e escura apareceram diante de meus olhos. Na memória uma pe-quena e desajeitada ave vinha em minha direção e empurrava leve-mente meus braços para cima enquanto esfregava seu bico em minha barriga tentando fazer cócegas. &lt;br /&gt;- Quem é Grania? – perguntei com a voz abafada pelas plumas doura-das. &lt;br /&gt;- Você! Este é o nome que sua mãe escolheu, quer dizer amada. Mas se você preferir eu posso te chamar pelo nome humano. – disse cal-mamente com a voz feito soar de sinos. &lt;br /&gt;- Pode me chamar como quiser! – dei uma pausa, levantei minha ca-beça e olhei em sua direção. – Mas Grania é um nome tão feio, parece gralha, não parece? Não gostei muito dele. Acho melhor você me chamar de Zarah mesmo. – ela olhou em minha direção e pareceu que por um momento um sorriso tocou seu bico, um sorriso divertido.&lt;br /&gt;- Como você quiser Zarah! – disse numa voz divertida e calma.&lt;br /&gt;Permaneci na mesma posição durante alguns segundos olhando apenas as nuvens que mudavam de forma constantemente. De repente vi algo se mexer entre uma delas. &lt;br /&gt;- O que é aquilo? – apontei o dedo em direção a uma enorme nuvem. &lt;br /&gt;- O que? – perguntou Tayla segundo meu olhar. &lt;br /&gt;- “Aquilo”- disse o Leprechaun numa voz irritada com o meu descaso - são seres protetores do céu, eles têm o poder de controlar o tempo, assim como você, mas também protegem as aves. &lt;br /&gt;- O que? – perguntou Tayla novamente. &lt;br /&gt;- Aqueles seres atrás daquela nuvem maior. – disse apontando o dedo novamente. &lt;br /&gt;- Ela não pode vê-los Zarah, é uma humana, a não ser que eles deixem que isto aconteça, ela não conseguirá vê-los. &lt;br /&gt;- Nossa, eles são... Lindos! – a frase saiu tremida no final, apenas um suspiro. &lt;br /&gt;- Diga a eles para me deixarem ver! – exclamou numa voz melodiosa. Fixei meus olhos no Leprechaun esperando uma resposta à exclamação de Tayla. &lt;br /&gt;- Eu não posso, eles precisam saber sobre você para que os veja. – disse calmamente olhando-a nos olhos. &lt;br /&gt;- Mas por que Zarah pode vê-los? Eles também não a conhecem. &lt;br /&gt;- Lógico eles que a conhecem, todos os Sidh sabem quem ela é. E estes aqui cuidam dela durante o dia, quando estou do outro lado do anel. &lt;br /&gt;Virei meu rosto para olhá-los novamente. &lt;br /&gt;Eles são tão delicados que apenas um grito, aparentemente, seria capaz de parti-los ao meio. Seus rostos têm traços delicados e finos, como o resto do corpo. &lt;br /&gt;Era dois, um homem, num tom de pele muito claro. A musculatura do corpo aparente em seus braços nus, vestido como as estátuas de Deu-ses Gregos, os cabelos loiro-claros quase brancos, os olhos castanhos. Magro, mas musculoso, com enormes asas brancas que acabavam perto de seus calcanhares. O outro era uma mulher, no mesmo tom de pele dele, mais baixa e esguia, um corpo perfeitamente moldado como de uma modelo. Cabelos também loiros, ligeiramente mais escuros que do homem, levemente enrolados até a altura de seu quadril. Lembra muito a beleza da Deusa Afrodite. Ambos, irritantemente perfeitos, estavam parados, praticamente imóveis há alguns metros de distância de nós. &lt;br /&gt;- Eles ficam ali parados o dia inteiro? – perguntei sem desviar meus olhos. &lt;br /&gt;- Não Gran... Zarah, eles precisam ficar de olho em tudo o que aconte-ce aqui em cima, movimentando-se para todo o lado, como fazem os pássaros. – disse Kika calmamente tentando me fazer entender. &lt;br /&gt;- Podemos chegar mais perto? Eu posso falar com eles? – perguntei sem mudar o foco de meus olhos. &lt;br /&gt;- Pode, mas... – pensou durante alguns segundos – o que você preten-de dizer a eles? – perguntou curiosa. &lt;br /&gt;- Na verdade não sei, dizer olá talvez? &lt;br /&gt;- Podemos? – virou o pescoço em direção ao Leprechaun. &lt;br /&gt;- Claro, não vejo problema algum. Estamos quase chegando mesmo.&lt;br /&gt;Kika inclinou-se à esquerda, em direção à nuvem e pousou em cima da mesma. &lt;br /&gt;- Como pode fazer isto? É impossível! – Tayla arregalava os olhos olhando para baixo. &lt;br /&gt;- Nada é impossível para nós! - disse o Leprechaun levantando uma das sobrancelhas e tocando num pedaço da nuvem. &lt;br /&gt;- Olá Grania! – as personificações de Deuses Gregos disseram em coro, abaixando-se como os plebeus fazer às rainhas em filmes antigos. Fiquei envergonhada pela saudação e por ficar assim tão perto deles. Como poderia existir seres tão perfeitos como estes? São ainda mais lindos e intimidadores, de perto. &lt;br /&gt;- Não precisam fazer isto! – disse corando de vergonha. &lt;br /&gt;- Oi! – disse Tayla, olhando na mesma direção que meus olhos esta-vam, mas parecendo uma cega, passando os olhos por cima da cabeça deles. – Eu sou Tayla, irmã da Zarah Grania! – sorriu com a piadinha, estendeu uma das mãos, cumprimentando-os. &lt;br /&gt;- O que você está fazendo? – perguntei irritada. &lt;br /&gt;- Me apresentando. – numa voz tranqüila – Não é assim que poderei vê-los? &lt;br /&gt;Os dois se olharam e sorriram de sua expressão divertida. &lt;br /&gt;- Olá! Meu nome é Fingal - disse o homem, estendendo a mão até tocar a de Tayla. &lt;br /&gt;- Meu Deus! – exclamou perplexa – Você parece um Deus Grego! Só que não no tom de mármore, e na versão Cupido. – disse piscando sem parar e encarando-o e sacudindo a mão que os unia, sem parar. &lt;br /&gt;- Você é tão espontânea! – divertiu-se com o entusiasmo exagerado dela. &lt;br /&gt;- Eu sou Bridget! – disse a mulher, libertando a mão do homem, colo-cando-se à frente, entre ele e Tayla. &lt;br /&gt;- Oi! – disse Tayla – Minha nossa, você se parece às mulheres das revistas de moda que eu compro. - Mas você, você ganha de qualquer homem que eu já vi na internet, naqueles sites de top 10 das pessoas mais bonitas do mundo. – disse virando-se para olhar o Deus Grego.&lt;br /&gt;Como pode ser tão ingênua e boca grande ao mesmo tempo? Será que ela não percebeu o ciúme da mulher ali? &lt;br /&gt;- Tayla, menos ta? Muito menos! – alertei-a &lt;br /&gt;– O que eu fiz? – agora seus olhos estavam na mulher. &lt;br /&gt;- Você não está com ciúme. Está? Por que se estiver pode ficar tran-qüila, eu sou muito jovem para ele! &lt;br /&gt;- Acho melhor irmos embora antes que você se complique ainda mais. – disse olhando-a fixamente. - Am... Obrigada por cuidarem de mim todos estes anos, obrigada mesmo. – disse envergonhada. &lt;br /&gt;É praticamente impossível não sentir desconforto ao dirigir a palavra aos dois. &lt;br /&gt;– Nem sei como agradecer. – disse olhando para a mulher. &lt;br /&gt;- Não fizemos nada além do nosso dever. – disse, num sorriso impos-sivelmente brilhante e intimidador. &lt;br /&gt;- Desculpem pelo comportamento de minha irmã, ela não está acos-tumada a segurar a língua, nem a pessoas bonitas – disse num sorriso amarelo de vergonha, olhando em direção à Tayla. &lt;br /&gt;Ela levantou a sobrancelha e desviou o olhar para Kika. &lt;br /&gt;Os dois riram e concordaram. Não sei se riram do meu desconforto ou de Tayla e sua boca grande. &lt;br /&gt;- Você pode nos agradecer encontrando seus pais. – disse o homem. &lt;br /&gt;- Prometo tentar. – disse apertando meu camafeu com a mão esquerda, como faço sempre que estou preocupada. &lt;br /&gt;- Podemos ir agora? – disse o Leprechaun quando desviei meu olhar dos dois seres perfeitos. &lt;br /&gt;- Sim. &lt;br /&gt;- Tudo bem. Segurem-se! – disse Kika &lt;br /&gt;- Até mais! – acenei sem olhar, ainda envergonhada. &lt;br /&gt;Tayla ficou emburrada, o resto da “viagem”, pelo que eu falei a ela. Falava somente com Kika, perguntando sobre sua dieta, se comia inse-tos, amimais grandes, pequenos, folhas e flores, como é o reino e tudo o que lhe vinha à cabeça. Kika respondeu todas as perguntas com calma e interesse. Ela estava se dando melhor com Tayla que comigo. Mas é só questão de tempo, até eu me acostumar com ela e começar a conversar. Eu geralmente demoro algum tempo para puxar assunto com pessoas que acabei de conhecer. &lt;br /&gt;– Todos se segurem agora, não quero perder nenhum de vocês, vamos aterrissar! Senti um frio tocar todos os meus músculos e enrijecê-los, apertei minhas mãos segurando ainda mais forte nas penas de Kika e fechei os olhos evitando entrar em pânico com a descida brusca e o aumento da velocidade em que os ventos gelados tocavam meu rosto. Kika fez uma ótima aterrissagem levando em consideração sua carga extra, duas garotas de cinqüenta quilos, e um leprechaum de pouco mais de quarenta centímetros e acima do peso. Mas pelo seu tamanho e a impecável aterrissagem, com certeza era como uma pessoa carre-gando uma mochila escolar, nada consideravelmente pesado.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1989948983729069475-6078606397980218018?l=www.zarahluna.com.br' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://www.zarahluna.com.br/2009/06/cap-2-herdeira.html</link><author>iarafp_soares@yahoo.com.br (Iara Fepasiso)</author><thr:total>2</thr:total></item><item><guid isPermaLink='false'>tag:blogger.com,1999:blog-1989948983729069475.post-6932617494446167769</guid><pubDate>Thu, 25 Jun 2009 01:45:00 +0000</pubDate><atom:updated>2010-08-31T22:30:11.792-07:00</atom:updated><title>Cap. 1  Inferno Astral</title><description>12 de Março de 2009, quinta feira, um dia antes do dia menos espera-do do ano, pra mim. Meu décimo oitavo aniversário. Isso é bom, pen-sando no fato de que eu poderei finalmente dirigir, não precisarei de autorizações ou assinaturas dos meus pais caso queira viajar ou algo assim, mas me preocupa um pouco a idéia de ser presa. Não que eu pense em fazer coisas erradas, e sim por ser um ímã para desastres. Eu estou sempre na hora e no lugar errado. Não me admira em nada que amanhã seja sexta feira treze. O meu azar pessoal. Eu sempre pensei em aniversário como uma data inventada por uma pessoa que precisava ter toda a atenção pra si durante um dia inteiro. Para mim é a pior data do ano. É o dia em que, não importa o quanto eu tenha dito para meus pais que não queria uma festa, e para meus amigos a data errada, eles sempre descobrem e a festa acaba acontecendo. E, para minha perfeita derrota, eu sou o centro das atenções durante toda a noite. &lt;br /&gt;Meu dia começou anormal, pra variar. &lt;br /&gt;- Zarah acorda! Eu não vou te chamar de novo!- ouvi uma voz muito baixa e irritada, longe, no fundo da minha cabeça. – Acorda logo sua sonâmbula loca! Zarah! Eu sei que você está me escutando. Pode abrir logo esses olhos. &lt;br /&gt;Reconheci a voz. Abri meus olhos e vi aquela coisinha laranja e sar-denta com um copo de água gelada na mão prestes a jogá-lo em mim. &lt;br /&gt;– Vai Zarah, acorda! - fez soar em tom melancólico. &lt;br /&gt;- Só mais cinco minutos, Tayla. – pedi, numa voz rouca de sono. &lt;br /&gt;- Zarah, você já está atrasada. Acorda aí que eu vou tomar meu café da manhã. Se quando eu terminar você ainda estiver aí... – respirou fundo - Ah, você verá uma coisa! - se afastou - Eu venho, não com um copo, e sim com uma jarra de água pra tacar em você! – a voz muito irritada, mas sempre com aquela pontada de maternidade.&lt;br /&gt;Isto é engraçado, eu sou a mais velha, era para eu estar acordando-a e não o contrário. &lt;br /&gt;– Já acordei sua tampinha maldita! – falei tentando limpar minha voz, mas com os olhos ainda fechados. &lt;br /&gt;- Então porque seus olhos estão grudados ainda?- usou o polegar e o indicador, tentando abri-los. &lt;br /&gt;- Por que eu não quero ver essa sua cara branca e enferrujada, mané! – respondi já de saco cheio. &lt;br /&gt;- Até parece que só a minha cara tem sarda aqui. - deu uma pausa e continuou com uma voz de zombaria - E pelo menos eu não acordo parecendo um leão escabelado. Olha isso! – senti seus dedos passando no meio da minha cabeça esparramando ainda mais meu cabelo. &lt;br /&gt;- Sai do meu quarto, garota mané. Vai achar o que fazer! Pular de um poço ou qualquer coisa do tipo. Tayla se afastou, sacudiu mais uma vez meus ombros, só para não perder a oportunidade de me irritar e saiu resmungando por entre os dentes. &lt;br /&gt;– Isso está errado. Eu sou a mais nova! – entrou na cozinha e disse em voz alta – eu que sou a mané?Com certeza não! Acho melhor você dar uma olhada de onde você está dormindo! – disse no mesmo tom de voz que usa quando me conta que venceu no Guitar Hero. Era o tom de vitória. Ela sabia que tinha ganhado essa. &lt;br /&gt;- Ai não! – eu, certamente, sei onde estou. &lt;br /&gt;Esse sonambulismo ainda vai afetar seriamente o meu psicológico. Eu morro de medo de um dia sonhar que sou a Mulher Maravilha e decidir pular da sacada. Mas estou um pouco mais despreocupada por que de uns anos pra cá eu tenho conseguido controlar ele e acordar um pouco antes de fazer alguma burrice. Hoje, assim como nos últimos 29 dias, acordei na sacada, deitada no chão, abraçada a meu travesseiro e segurando o meu camafeu na mão esquerda. Quando dei conta de me localizar saí correndo para o meu quarto para ver as horas. Já prevendo o óbvio ao me ouvir, da cozinha, saindo em disparada para o meu quarto, ela gritou. &lt;br /&gt;– Cuidado com a.... &lt;br /&gt;Tarde demais. Nem deu tempo dela terminar a frase. Trombei meu braço na maçaneta da porta que dividia os quartos do resto do aparta-mento. Não sei por que, mas sempre mirei errado o espaço que existe entre meu corpo e os setenta centímetros desta porta estúpida. Depois de ficar uns dois minutos xingando até a última descendente dessa porta retardada e me perguntar se ela tinha se movimentado de propó-sito só por que achava divertido me ver com o braço roxo, cortei o monólogo no meio e me foquei no maior dos problemas, estar real-mente atrasada. Do corredor eu ouvi uma risada escandalosa que só podia ter saído dela. Depois que parou de rir e apontar pra mim, disse: &lt;br /&gt;– Ow deixa eu te contar uma coisa! – exclamou &lt;br /&gt;Eu já sabia o que ela iria dizer. Sempre diz isso. &lt;br /&gt;– Tem uma porta aí! - então pegou seu material da mesa da sala, dois cookies e saiu do apartamento. Um segundo depois de fechar a porta ela a abriu e gritou de lá mesmo &lt;br /&gt;– Zah, eu me esqueci de uma coisa! Faz assim – levantou a mão e eu fiz o mesmo –, agora repete comigo: EEEU SOOU... Já conhecia essa frase. &lt;br /&gt;Abaixei minha mão na mesma hora que ela disse a segunda palavra, peguei a primeira coisa que vi. O controle remoto. Taquei na porta em sua direção, mas ela nem se preocupou em mexer sequer um milímetro de onde estava. Nos quinze anos de convivência aprendeu que eu, mesmo estando há um metro de distância e posicionada exatamente em sua frente, mesmo assim, seria incapaz de acertá-la. Tenho uma péssima mira. Sem contar que não tenho coragem suficiente para ma-chucá-la, afinal se trata de minha irmãzinha caçula. Por mais que bri-gamos o dia inteiro, eu a amo. É! Eu sou muito mais lerda que imagi-nava. Sempre caio nessa frase da mão. Quando entrei no meu quarto tudo estava fora do lugar, minha cadeira branca que não combinava nem um pouco com a escrivaninha preta, estava na frente do armário e de lado para a janela. Tentei lembrar alguma coisa sobre meu “sonho” da noite passada, mas lembrei somente de estar me arrumando pra viajar. Olhei para cima do armário e a minha mala não estava lá. &lt;br /&gt;Passei rapidamente meus olhos para todos os lados e a vi aberta, em cima da poltrona, com todas as minhas roupas lá. Meus olhos correram rapidamente para a escrivaninha, com medo de estar vazia, mas para meu alívio ele estava lá, intacto, meu note book, a coisa mais importante na minha vida. Meu medo não tem nada a ver com eu ser viciada em internet, mas sim porque esse foi o último presente que meu avô me deu, essa coisa pequena, pra mim, tem um valor inestimável. Uma lembrança repentina fez meus pêlos arrepiarem e eu abri a porta do meu armário com muito receio, mas elas estavam lá. Todas as fotos que eu tiro do céu, dentro do portifólio com capa transparente. Minha segunda fraqueza. Depois de verificar se não faltava nada fui procurar meu relógio para ver se ainda havia tempo. Já são seis e vinte e isso quer dizer que eu tenho exatamente vinte minutos para estar fora de casa, ou perderei meu ônibus, e o próximo só passa as sete e quinze, ou seja, chegarei à faculdade por volta das sete e cinqüenta, no mínimo vinte minutos atrasada. Corri até o banheiro para tomar banho e escovar os dentes. Dei uma olhada no espelho ao entrar e vi que Tayla realmente tinha razão. Meu cabelo, que agora estava cortado um pouco acima dos ombros e todo repicado, parece um ninho de pássaro. Um ninho ruivo e armado. Está horrível. Isto só baixará depois que eu lavar minha cabeça, e já que eu estou atrasada, não fará diferença alguma perder tempo secando-o. Tomei banho correndo. Saí do banheiro e antes de colocar minhas roupas olhei no relógio e já era seis e trinta e dois. &lt;br /&gt;- Como posso ter demorado tanto no banheiro? – perguntei em voz alta. Vesti-me, correndo, coloquei uma calça jeans, blusa branca com desenhos feitos por mim e coloquei meu Keds vermelho. Quando fi-nalmente terminei de me arrumar, peguei minhas lentes de contato para os ridículos dois graus de miopia e segui ao banheiro para colocá-las.&lt;br /&gt;- Senti o grau um pouco forte, mas acho que é só impressão. &lt;br /&gt;Depois de tudo pronto peguei meus materiais, abri uma gaveta do meu armário onde ficavam os óculos de sol. Peguei um dos meus favoritos, um Wayfarer preto, e fui correndo para a cozinha, sem bater na porta do corredor desta vez. Tomei meu café da manhã o mais rápido possí-vel, duas torradas e dois copos de suco de laranja, apesar de não a-güentar, mas eu tenho algumas dificuldades em lidar com números ímpares. Se forem duas torradas, têm que ser dois copos de suco. Uma torrada, um suco, tudo exatamente equilibrado em termo de propor-ções. Mas não é só na comida, que eu aplico essa regra maluca, tem volumes, horários, contagens, enfim, tudo que envolve números, se der ímpar me deixa fora de foco. Algumas coisas são mais complicadas de consertar, e o tempo que eu levo para encontrar uma solução sempre parece uma eternidade. Mas eu sempre dou meu jeito. Nas últimas semanas essa é minha rotina. Acordar em lugares estranhos da casa, ter sonhos de viagens, sonhar com o Leprechaun. Ela se repete todo ano, desde meus dez anos de idade. Um mês antes do meu aniversário algo ruim me acontece e tudo vira de cabeça para baixo. Isso me lembrou uma vez que eu fui tomar um milk shake com uma amiga chamada Natália. Ela me disse que era culpa do meu inferno astral e que era para eu relaxar, pois todo mundo tinha. Mas o meu é mais acentuado, digamos assim, pois eu me meto em roubadas mais frequentemente que as pessoas normais e, esse “inferno” acabaria à meia noite do dia 13, ou seja, meu inferno astral acabaria à meia noite de uma sexta feira treze. Isso definitivamente não mandou meu nervosismo. Agora, se foi um truque dela para me acalmar ou se realmente esse “período” existe, eu não sei. Consegui, finalmente, sair do apartamento as 06h54min. Quatorze minutos atrasada, apesar de já estar pronta para ir para a faculdade desde as 06h50min, tive que ficar esperando na porta, pois só saio de casa em número par e já era cinqüenta e um, comecei a ficar nervosa. Todas as vezes que eu olhava o relógio era ímpar, então tentei me concentrar em não entrar em pânico e deu certo, três minutos depois. Tentei não pensar nisso. Andei o mais rápido que pude, não sei para quê, se meu ônibus só passaria no ponto pelo menos quatorze minutos depois de eu estar lá. Deve ser para testar meus pés, já que eles nunca se deram bem correndo ou andando rápido demais. Mas, desta vez, nada aconteceu, eu não caí ou tropecei, uma coisa rara na minha vida. Eu nunca fui capaz de andar mais de duas quadras, razoavelmente rápido, sem cair ou tropeçar. Tudo bem que não são todos os dias que eu me machuco, mas cair, pra mim, sempre foi uma rotina, eu tenho certeza que minhas pernas sentem muita falta dos machucados quando os intervalos dos tombos passam de uma semana. Fato raro. Quando finalmente cheguei ao ponto de ônibus, ele estava lotado e não havia lugar para sentar. Fui obrigada a ficar em pé pelo menos dez minutos ao lado de um homem que, pelas minhas contas e levando em consideração o odor que exalava de todas as partes de seu corpo, ele não tomava banho desde a infância, no mínimo. Tinha uma aparência de mendigo, seu cabelo, que começava em uma meio careca e seguia levemente armado até um pouco para baixo dos ombros, tinha uma cor castanha escura, queimado de sol nas pontas e totalmente sem corte. Seu rosto era todo marcado de rugas de expressões e só de olhar para as bolsas embaixo de seus olhos notava-se que a noite passada dele não foi menos turbulenta que a minha. Ele usava uma camiseta com as escritas quase apagadas, com cinco números quase sumindo e a foto de um candidato a vereador. Uma bermuda que era, com certeza, dois números maiores do que ele normalmente vestiria, toda rasgada e cheia de terra, como se ele tivesse brincado com um bando de cachorros de rua. Mas de repente eu parei e pensei que a sujeira provavelmente vinha de uma noite mal dormida numa das calçadas dessa cidade. Esse pensamento trouxe uma pontada de remorso por eu estar julgando a aparência de uma pessoa que, provavelmente, não teve um centésimo das oportunidades que eu tive na vida. Quando parei de analisá-lo e voltei para seu rosto, ele estava me olhando com uma cara engraçada, com um meio sorriso que mostrava uma seqüência de falhas dentárias. Pouco tempo depois o ônibus finalmente chegou e, para minha surpresa, não estava lotado. Subi rápido para aproveitar e pegar um lugar longe do sol, pois estava muito quente, fazia trinta e três graus lá fora, odiei essa parte, porque não trinta e dois? Ou trinta e quatro? Com certeza se eu sentar num dos bancos que pegaria sol durante o caminho todo eu entraria em ebulição. Encontrei um lugar vazio no fundo do ônibus antes mesmo de passar pela catraca. Tive um pouco de dificuldades com a minha régua, mas a cobradora, muito prestativa, me ajudou, empurrando-a. &lt;br /&gt;- Obrigada. – disse a ela sem fazer som com a boca, apenas mexendo meus lábios. Ela entendeu e disse, num tom um pouco alegre. &lt;br /&gt;– De nada. &lt;br /&gt;Isso, definitivamente é um fato raro, ela nunca sorri para nenhum pas-sageiro. Não sei se é por isso, mas, para mim, parece que não vê a hora de ir embora para casa. Não conversa com ninguém, vive com a cara fechada e presta atenção somente nas portas, para não machucar alguém. A única vez e que a vi sorrindo foi quando eu levava uma maquete para a aula e, ao sair do ônibus, caí no primeiro degrau e es-correguei sentada até o segundo. Ela gargalhou como as bruxas fazem nos filmes, debochando de minha cara. Mas eu nem liguei, pois se ficasse irritada todas as vezes que alguém ri de mim, seja eu caindo ou me enroscando nas coisas eu viveria infeliz. Sem sorrir um minuto sequer. Quando, finalmente consegui sentar-me peguei o celular e liguei para a Milla, para avisá-la do meu atraso, assim se o professor decidisse passar a lista de chamada no início da aula, ela assinaria para mim. Ela já está tão acostumada a imitar minha assinatura que ninguém nota a diferença. Eu sempre chego alguns minutos atrasada, pois tudo sempre dá errado na minha vida. Sempre. Eu bem que tento não pensar negativamente, mas não é sempre que dá. Eu já pensei muito sobre isso, até já li alguns livros que falavam que quanto mais negativa a pessoa é, mais negatividade ela atrai. Mas isso não mudou em nada a freqüência dos meus tombos. Enquanto eu estava pensando uma mulher falou comigo numa voz muito estranha, como se estivesse sendo estrangulada. Ela me perguntou se podia se sentar ao meu lado. Eu ainda não havia tirado meus olhos da janela. Distraí-me com o fato dela ter me perguntado se poderia sentar comigo. Ninguém pergunta isso, todos simplesmente chegam e sentam no assento vago. Virei-me, a fim de responder sua pergunta e tomei um susto tão grande que te-nho absoluta certeza de ela ter percebido, pois o olhar que me deu em troca não foi nada amistoso. Também, não havia como ela não perce-ber. &lt;br /&gt;Nunca soube conter minhas expressões faciais. Quando eu não res-pondi nada, e fiquei olhando, a mulher, que deveria ter, pelo menos, duzentos quilos, simplesmente tentou caber na poltrona ao lado da minha. Como não havia divisórias, ao sentar-se, a elefanta preencheu todo o espaço que tinha ela direito e mais um pedaço significativo da minha poltrona, sua nádega direita ficou em cima da minha coxa. Senti como se mil quilos fossem jogados em cima da minha perna, que começou a adormecer rapidamente enquanto eu encarava a mulher ao mesmo tempo em que tentava empurrá-la. Depois de algumas tentati-vas frustradas, o ônibus virou a esquina e a mulher deslizou para cima de mim. E o que jurava ser impossível, aconteceu. Ela ficou ainda mais em cima de mim. Eu olhei muito brava para a enorme perna em cima da minha. &lt;br /&gt;- Será que dá pra você sair de cima de mim?Ou ta difícil? – sua gorda maldita que não tem noção de espaço, eu pensei o resto da frase. Se eu falasse, com certeza essa seria a última frase da minha vida. Mesmo assim ela não saiu, eu tenho certeza que ela não escutou, ou ela não estava sentindo que aquilo não era a poltrona e sim uma pessoa. A mulher só saiu de cima de mim porque um homem que estava na pol-trona à nossa frente deu um cutucão nela repetiu a minha frase, na terceira pessoa. Quando ela finalmente saiu, eu me levantei num pulo, desequilibrando-me um pouco pelo formigamento a cima do joelho e segurei em seu ombro, sem querer, para me equilibrar. Ela retirou a minha mão na mesma hora e virou-se para frente com um olhar de paisagem, como se não tivesse acontecido nada. Finalmente estava a duas quadras da minha faculdade e um ponto antes do meu. Quando as portas do ônibus fecharam, eu puxei cordinha fazendo aquele barulho irritante. Pouco tempo depois, ele parou e as portas se abriram, apesar de estar muito quente do lado de fora, o vento que bateu em meu rosto ao sair do ônibus fez meu humor melhorar um pouco. Saí correndo do ônibus, passei pela catraca e vi o horário, era sete e quarenta e sete. Passei rapidamente pelas cantinas indo à direção do meu bloco, que era um dos últimos do campus. Parei no caminho para carregar meu passe que já estava vazio, mas ele não carregou e eu não tinha tempo para esperar reiniciar o processo. Deixei para carregar mais tarde quando saísse da aula. Fui para a sala mais apressada que o normal, sem tropeçar desta vez. Cheguei à sala e o professor estava passando a matéria no slide show, isso facilitou a minha entrada discreta. Passei por um aglomerado de carteiras amontoadas no único espaço possível de se passar na sala. &lt;br /&gt;Meu lugar é o último, no fundo da sala, perto de onde os meus amigos sentavam. Todos eles já estavam lá, Letícia uma garota morena, com traços indianos, olhos negros da mesma cor dos meus, cabelos lisos e tão compridos que tocavam sua cintura, ela é alta e tão magra que às vezes parece que apenas um grito seria capaz de trincá-la ao meio. Estava sentada na carteira ao lado da minha. Miyuki, uma japonesa de cabelos negros na altura dos ombros, que não é alta como Letícia, pelo contrário, ela conseguia ser menor que os meus 1,60 m, tem um corpo atlético, em forma. É jogadora de futebol de salão. E Everlyn uma menina com rosto de boneca, fino, bochechas rosadas e olhos azuis, cabelos num tom loiro-amanteigado. Razoavelmente magra. &lt;br /&gt;Estavam sentadas uma atrás da outra. &lt;br /&gt;Antes mesmo de chegar à minha carteira vi um ser cabeludo todo es-parramado numa das carteiras. Era o Rafael. Ele estava dormindo com a cabeça encostada na parede, uma cadeira à frente da minha, atrás de Milla. &lt;br /&gt;Milla é minha meio irmã por parte de pai. Tem o cabelo castanho es-curo, pele bronzeada e um corpo de dar inveja a muitas atrizes. Olhos caramelos brilhantes e líquidos que sempre me dava nos nervos de tão lindos. Milla estava estrategicamente sentada uma carteira depois da dele, tapando a visão do professor, para que ele pudesse dormir sem ser incomodado. Ela sempre fazia isto, aliás, faria tudo o que ele pe-disse. Sorte a dela que além de um namorado muito prestativo e apai-xonado.&lt;br /&gt;Rafael é um doce de pessoa e muito engraçado. Não pára de me inco-modar um segundo, fazendo piadinhas inúteis sobre o meu tamanho ou a cor do meu cabelo. Mas eu nunca ligo para o que ele fala. Eles são tão apaixonados que eu duvido muito que isto não acabe em ca-samento. Já há uma espécie de data ou algo assim, eles sempre dizem que vão se casar um ano depois de terminar a faculdade. Definitiva-mente foram feitos um para o outro. &lt;br /&gt;Todos eles estavam conversando quando cheguei. Menos Rafa, claro. Sentei-me em meu lugar no canto da parede, em silêncio. Milla se virou e me perguntou com um tom de animação enquanto passava seus dedos para cima e para baixo no cabelo de Rafa. &lt;br /&gt;– O que a gente tem para a amanhã? Eu falei com papai e ele liberou o apartamento para fazermos uma “festinha”. Ah, ele disse que sente em não poder vir, mas a pousada está lotada e não tem como deixar al-guém tomando conta. &lt;br /&gt;Todos olharam em minha direção, ao mesmo tempo, esperando que eu respondesse, com toda certeza, algo do tipo “ah, vamos fazer um chur-rasco ou coisa do tipo, depois sair para beber em algum barzinho!”. &lt;br /&gt;Definitivamente, isto não chega perto do que eu realmente quero res-ponder. &lt;br /&gt;Achei bom que meus pais não possam vir. Isso me poupa de assoprar velas, fazer cara de feliz, ganhar presentes e tudo mais que todos os aniversariantes têm direito. Coisas que eles não deixam passar de for-ma alguma. &lt;br /&gt;Todos em casa amam festas, tudo o que acontece é motivo para co-memorações. Ajuda muito o fato de que nossa família é um pouco grande e todos moram na mesma cidade, Bonito, localizado no interior do estado e tem aproximadamente 25 mil habitantes. Quando alguém não tem mais nada para fazer liga para todos os outros e combina de fazer um churrasco, eles nunca conseguem passar um final de semana cada um em suas casas. Chega ser irritante para alguém como eu, que odeia aglomeração de gente. Eu me livrei de muitas coisas que me incomodavam em Bonito quando escolhi mudar de cidade e estudar em Campo Grande, a capital do estado, Mato Grosso do Sul, à cerca de 330,00 quilômetros de casa. Livrei-me das festas, intromissões em assuntos pessoais e as fofocas que toda cidade pequena tem. Mas por outro lado foi ruim toda esta mudança, eu amava morar lá por motivos mais que óbvios. &lt;br /&gt;Bonito é o paraíso. Águas cristalinas, cachoeiras, muitas espécies de peixes, natureza abundante, corredeiras, trilhas, tudo o que faria qual-quer pessoa trocar o stress da cidade grande por uma vida mais calma, sem pensar duas vezes. Quando eu era menor, todos os fins de tarde eu, meus pais e meus irmãos íamos de bicicleta ao balneário depois das cinco horas da tarde e voltávamos somente depois que fechasse. Mesmo quando chovia nós ficávamos sentados na grama olhando o céu e esperando que as gotas tocassem nossa pele ou entrávamos na água, permanecíamos quietos e tentávamos ouvir os barulhos que os pingos faziam ao tocar a superfície do rio. É a melhor sensação do mundo, dava para sentir a energia que irradiava do céu, era inexplica-velmente bom ficar ali apenas sentada olhando a chuva toca o rio fa-zendo vários círculos pequenos. Bons tempos aqueles. Tempos em que eu não me preocupava com nada. O dia do meu aniversário, por exemplo. Isso me fez lembrar que Milla ainda estava esperando uma resposta. Respirei fundo e procurei fazer a melhor cara de cínica. A mais verdadeira possível. &lt;br /&gt;- Am... - dei uma pausa, sentando e abrindo o meu caderno desviando de seu olhar. - Nada? – respondi ainda pegando meu material. &lt;br /&gt;Sei que, em se tratando da Milla, qualquer coisa que eu disser poderá ser usada contra mim mais tarde. &lt;br /&gt;- É né, sua bandida! Eu sei que você não está se agüentando de tanta vontade de que amanhã chegue logo. Bolo, presentes, ser o centro das atenções, tudo o que você mais ama no mundo.&lt;br /&gt;Ela me conhecia o suficiente para debochar. Com certeza estava me testando para ver até onde iria. É o esporte preferido dela, fazer per-guntas sobre como foi o resto do meu dia depois da faculdade só para rir um pouco quando eu conto que caí ou me cortei com algum objeto não cortante da maneira mais retardada possível, me ouvir reclamando alguma algo sobre os Leprechaum ou coisas do tipo. &lt;br /&gt;Fiz cara de desinteresse. &lt;br /&gt;- Ah, é sobre... Isso? – tentei enfatizar o máximo que pude a última palavra – Você sabe que eu nunca me lembro do dia do meu aniversá-rio.&lt;br /&gt;Ela sabia que parte era mentira e parte era verdade. Eu realmente es-queço as datas, inclusive a do meu aniversário, mas desta vez eu estava bem informada, pois Tayla tinha gritado isso no meu ouvido ontem a noite inteira, no mínimo cem mil vezes seguidas. Ela também, por outro motivo, me conhece bem o suficiente para saber ler a minhas expressões com perfeição. Nada passa despercebido por seus olhos críticos. Ela é apenas um ano mais velha que eu e, por sermos como unha e carne desde pequenas, com ela minhas técnicas de mentira nunca deram certo. Às vezes parece saber o que eu estou pensando. &lt;br /&gt;Quando me pergunta algo, e eu demoro a responder, tira suas próprias conclusões e se vira para mim perguntando se era isso que eu estava pensando. Normalmente ela acerta, ou melhor, todas às vezes ela acer-ta. Minhas respostas sempre são óbvias demais. O melhor que eu faço quando quero mentir é falar o mais depressa possível, antes de sua conclusão ou apenas sacudir a cabeça respondendo sim ou não. &lt;br /&gt;- Você já não é tão boa em mentir como era antigamente. Já nem con-segue mais passar pelo detector de mentiras. – disse apontando para si mesma e sorrindo. &lt;br /&gt;- Ha.ha. Muito engraçado! – eu fiz o melhor que pude para parecer que estava tirando sarro. Mas uma pontinha de preocupação apareceu no fim da frase e pôs tudo a perder. &lt;br /&gt;- Eu falei com a Tayla hoje – levantei a minha cabeça e ela continuou mais empolgada. – Ela estava muito brava com você e disse algo como “é aquele maldito inferno astral que essa loca tem. Como se não bastassem os Leprechaun!” eu acho que era isso. O que quer dizer? &lt;br /&gt;- É um ho... &lt;br /&gt;- Zarah, eu sei o que é um Leprechaun, você fala dele o tempo todo desde os dez anos. Eu quero saber o que é inferno astral. Disto você nunca me falou. – atacou um pequeno pedaço da borracha que estava em sua mesa, incomodada com a minha lerdeza e falta de atenção. &lt;br /&gt;Eu fiz uma cara de quem não estava a fim de conversar e respondi o essencial. &lt;br /&gt;- É um período de mais ou menos trinta dias antes do dia do aniversá-rio. Todo mundo tem. Nada dá certo e nos sentimos fora do eixo. &lt;br /&gt;Milla sorriu.&lt;br /&gt;- Será que você não tem mais nada pra fazer da vida? Eu tenho certeza que fica a tarde inteira na internet procurando coisas estranhas. Certe-za! – disse a última palavra arqueando a sobrancelha esquerda e vi-rando-se para frente da sala. &lt;br /&gt;Quando percebi que ela não voltaria mais a tocar no assunto, olhei para frente e tentei me concentrar em prestar atenção na aula. Era a aula que mais me dava sono. Eu sempre ficava uma tarde inteira tentando fazer os exercícios, mas nunca conseguia terminar todos antes de desistir. &lt;br /&gt;Pouco depois ouvi uma voz muito baixa falando meu nome e uma mão me sacudindo. Era Everlyn, ela falava alguma coisa sobre alguém ter pegado um anel, mas eu estava com muito sono para entender.&lt;br /&gt;Sono? Como assim sono? &lt;br /&gt;Acordei rapidamente, levando um susto. &lt;br /&gt;Eu nunca dormia durante as aulas, por mais chata que fosse a matéria. Eu me sinto mal só de pensar em sair mais cedo quando precisava, imagina dormir uma aula inteira, ou sei lá quanto tempo eu dormi. Enquanto eu pensava no assunto percebi que Everlyn parou de falar e agora estava me olhando, esperando, certamente, que eu respondesse sua pergunta. &lt;br /&gt;-Quanto tempo eu dormi? – perguntei ainda um pouco grogue. &lt;br /&gt;- Relaxa Leprechaun, você só cochilou. – Everlyn disse, esperando minha resposta. Por que ela insiste em me chamar deste apelido? &lt;br /&gt;- É... Você ia dizendo? – parei no meio da frase, com uma entonação de pergunta, balancei a mão como num sinal para ela repetir. &lt;br /&gt;- Eu perdi meu anel, sabe. Aquele que tem uma flor. E eu pensei os seus Leprechaun pudessem ter pegado e que você poderia pedir para devolverem ele. Você sempre diz que eles pegam para nos ver procurar como loucas. Mas depois devolvem. – eu a olhei fixamente, tentando encontrar um lugar em seu rosto que me fizesse ver que ela estava tirando sarro da minha cara, mas lá eu só encontrei uma expressão. Um grande ponto de interrogação bem no meio do seu rosto. &lt;br /&gt;- Mas porque você acha que foram eles? &lt;br /&gt;- Ah. Você sempre diz isso “malditos Leprechaun, pegaram de novo” quando você perde algo, e depois de alguns dias você diz que eles devolveram. &lt;br /&gt;- Mas eu não falo sério Lins, é só uma maneira que eu encontrei de colocar a culpa da minha desatenção em outra pessoa. Eu as acho al-guns dias depois por que eu arrumo o meu quarto enquanto procuro. - Mas será que não dá para você pedir mesmo assim? Eu fiquei pensan-do tanto nesta possibilidade que agora não vou sossegar enquanto você não pedir a eles que devolvam meu anel. &lt;br /&gt;- Está bem, então quando eu voltar para casa eu peço. Ok? – eu disse rindo da cara dela. &lt;br /&gt;- Tudo bem então. – ela disse com uma voz alegre. &lt;br /&gt;Nenhuma de nós tinha levado esta conversa a sério. &lt;br /&gt;- Não engana a menina sim sua má! - ouvi uma voz caçoando de mim - Coitadinha dela, tão ingênua. – Milla disse apertando as bochechas de Everlyn tirando sarro enquanto sentava-se em minha carteira, me empurrando um pouco para que pudéssemos dividir o mesmo espaço.&lt;br /&gt;- Eu não menti para ela. – meu tom estava normal agora. Disse dando de ombros como se não fizesse importância para mim o assunto. &lt;br /&gt;- Pode até ser! Não mentiu para ela, mas para si mesma, porque você sabe que no fundo, no fundo, cria uma expectativa de que eles real-mente existam. – eu abri minha boca para contestar, mas ela me cortou. – Hey, não pira não, ta? Não adianta em nada enlouquecer tentando colocar na cabeça esta idéia contrária a que você tem. É muito mais engraçado quando você bóia na batata falando neles. Se você parar, de quem eu vou encher o saco? – levantou as duas mãos, rodando apenas os dedos indicadores na lateral da cabeça, como se estivesse me cha-mando de louca, enquanto fazia várias caretas. &lt;br /&gt;Eu me virei e empurrei sua cabeça enquanto dava um tapinha. &lt;br /&gt;– Idiota! Vai falando mal, vai. Eu sei que você até gosta das minhas “histórias” e que você também não consegue ficar longe de mim. – fiz um movimento as minhas pernas até conseguir empurrar parte do seu corpo para fora do assento da cadeira. – Você me ama, mão vive sem mim! – dei uma piscadela. &lt;br /&gt;Milla se virou em minha direção, de novo e, num sorriso que ia de uma orelha à outra, fez a pergunta que faz todos os dias, já sabendo a resposta. &lt;br /&gt;Já é rotina para eu vê-la fazendo isso, quando ela dava aquele sorriso de criança em parque de diversões, pegava minha mochila e vasculhava em todos os bolsos até encontrar o lugar onde eu deixei minhas balas. Eu sempre tenho algumas balas ou chicletes para emergências. Sempre me acalma quando eu saio do controle, não que isso aconteça frequentemente, mas nas últimas semanas eu estou mais vulnerável que nunca e todo cuidado é pouco. Este tipo de coisa acontece fre-quentemente quando está chegando a pior data do ano. A culpa é toda do maldito inferno astral, ele deixa meus nervos à flor da pele e total-mente fora de controle. &lt;br /&gt;- Nossa Zah, você gastou toda a sua mesada em balas desta vez? – Milla apontou para o bolso lateral da minha mochila que estava abar-rotado de balas. – Eu tenho certeza que dá pra ficar um ano chupando estas aqui e ainda sobrará para o próximo. – sempre exagerada. &lt;br /&gt;- Não, eu não gastei minha mesada inteira em balas, não sou idiota! – sorri e completei. – Também comprei chicletes, olha o outro bolso. – apontei para o outro lado da mochila. &lt;br /&gt;- Nossa! Definitivamente isto altera um pouco as coisas. Isto faz de você uma pessoa muito esperta. Quando eu crescer quero ser igual. – disse apertando minha bochecha enquanto usava a outra mão para abrir o bolso que continha os chicletes. - Mas falando sério agora. Como você comprou tanto chiclete assim? – Milla realmente parecia impressionada. &lt;br /&gt;- Eu fui ao Olímpia ontem com a Tayla, nossa geladeira já estava vazia, então fomos lá para repor o estoque de comida. Comprei uma caixa fechada de balas e ela uma de chicletes, depois dividimos igualmente entre nós duas. &lt;br /&gt;- Por que vocês não me avisaram? Eu precisava comprar xampu, minha mãe esqueceu de comprar, como sempre, será que ela nunca vai crescer? E eu também poderia dar uma carona a vocês. - abriu um chiclete e o colocou na boca - Francamente em, vocês sempre esque-cem de me chamar para estes programas família. – ela realmente é exagerada! &lt;br /&gt;A mãe de Milla era uma pessoa um pouco difícil de lidar. Não é de se espantar que meu pai agüentasse somente até Milla nascer para dar o fora. Ele sempre diz que era impossível conviver vinte e quatro horas com ela sem sequer pensar em deixá-la, pois ela é muito mandona, reclama de tudo e tem a mentalidade de uma garota de dezesseis anos. Ela nem deixa Tayla chamá-la de mãe, só pode chamá-la se for pelo primeiro nome, Glenda, caso contrário nem olha e finge que não ouviu. É muito difícil lidar com ela, mas Milla já se acostumou. Como tem um coração de manteiga e toda a calma do mundo, sempre faz as vontades de sua mãe e nunca seria capaz de contrariá-la. Exceto quando a mãe a deixa nervosa demais. &lt;br /&gt;Glenda, diferente da filha, não conversa com ninguém da minha famí-lia, ela tem verdadeira aversão por mim e meus irmãos e vive dizendo que minha mãe roubou meu pai dela e, se não fosse por minha mãe, eles ainda estariam juntos. Mas diz isto somente para tentar irritá-la, sabe muito bem que meu pai se divorciou dela antes mesmo de conhe-cer minha mãe e decidir trocar a vida agitada e estressante da capital por uma mais calma e sossegada no interior. Minha mãe nunca ligou para os comentários maldosos de Glenda, ela é totalmente zen e diz sempre a mesma coisa “ela é assim por culpa do asfalto, precisa tirar alguns dias de folga e vir para cá fazer uma limpeza espiritual.” Minha mãe às vezes me assusta com estas conversas de equilíbrio emocional e com suas terapias florais, cristais, arometerapia e várias outras coisas que usa, segundo ela, para equilibrar, corrigir ao realinhar e remover todo o negativismo que ocorre no mau funcionamento dos chakras. Algumas vezes já conseguiu me convencer a deixá-la fazer suas mas-sagens relaxantes e usar acupuntura para tentar espantar a minha má sorte e meu desequilíbrio. Mas eu sempre digo que não quero saber de me furar à toa e só a massagem já será suficiente para alinhar minha vida toda. Para ela é exatamente isto o que está acontecendo com Glenda, seus chakras estão totalmente desalinhados. Mas isto refletiu de modos diferentes em mim e nela, eu sou desequilibrada física e ela emocionalmente. Eu sempre tive uma opinião formada sobre o fato de Glenda não gostar de minha mãe. Para mim isto não passa de uma birra boba de adolescente. Ela não está acostumada a perder, e minha mãe foi a única pessoa que proporcionou a ela este sentimento ao se casar com meu pai e fazê-lo mudar de cidade. &lt;br /&gt;- Milla! – observei que havia pegado quase todas as minhas balas da mochila. &lt;br /&gt;- Zah, estas balas não fazem mal para você? &lt;br /&gt;- Fazem né, mas são tão boas que vale a pena correr o risco. – sorri &lt;br /&gt;- Nossa! Essas são boas em. &lt;br /&gt;- Sua gorda, as balas não vão sair correndo daí, ou você quer que eu as amarre? Pegue uma de cada vez! &lt;br /&gt;- Não vão? Nossa, eu podia jurar que vi estas aqui tentando escapar. – Milla disse estendendo a mão para que eu pudesse ver as balas às quais se referia. &lt;br /&gt;- Pode ficar com elas então, não quero ter que ficar por aí correndo atrás de balas fujonas. &lt;br /&gt;- Essa eu pagava pra ver! Até consigo imaginar você correndo para pegar as balas e quando chega perto de uma, tropeça e cai! – fez um movimento como o de uma pessoa caindo, mas apenas com o tronco e braços. &lt;br /&gt;O professor terminou de passar a matéria no quadro e depois de expli-cá-la nos liberou para o intervalo. &lt;br /&gt;Peguei minha mochila e as balas das mãos de Milla, guardei meus materiais e me levantei da carteira rapidamente, esperando pelos ou-tros. &lt;br /&gt;Ela seguiu para sua carteira para guardar os seus materiais e acordar Rafa, passando o dedo indicador levemente desde a testa até a ponta de seu nariz. Ela o acordava da maneira mais calma possível, pois ele sempre se assustava e dava um pulo da carteira. Eu prefiro quando ela está sem paciência e apenas põe a mão em sua cabeça, eu adoro ter motivos para fazer piadas dele e isto definitivamente era uma oportu-nidade, apesar de ser impossível competir com a freqüência das que ele fazia de mim. &lt;br /&gt;Depois que todos já haviam guardado os materiais nós saímos da sala e fomos à direção do bloco sete à frente do de onde estávamos saindo. A próxima aula, de PAUP será no atelier, então fomos para lá deixar os materiais para não precisarmos ficar carregando-os à toa. Ao sairmos de lá fomos à direção da cantina, que já estava lotada, procuramos por uma mesa e hoje tivemos sorte ao encontrar uma vazia. Sentamos lá e conversamos um pouco. Depois de alguns minutos Letícia virou-se a mim e perguntou se eu poderia acompanhá-la à cantina do bloco quatro. Segundo ela, não se agüentava mais de vontade de comer um croissant de chocolate. &lt;br /&gt;Afirmei com a cabeça. &lt;br /&gt;- Tudo bem, eu estou precisando andar um pouco. – disse enquanto me levantava. &lt;br /&gt;Fomos à direção do bloco quatro, o qual ficava do outro lado da facul-dade. &lt;br /&gt;- Você realmente não gosta de festas? – senti seu olhar me fuzilando. &lt;br /&gt;- Não muito. – porque as pessoas ficam tão indignadas com este fato? Eu apenas não gosto e ponto final. Não sou só eu, conheço muitas pessoas que compartilham da mesma opinião. Tem até uma comuni-dade no orkut, com mais de sete mil membros, falando sobre isto. &lt;br /&gt;- Mas você nunca vai a festas, nem com a Milla ou a sua outra irmã? Elas saem juntas não saem? – ela é muito insistente. Demais de insis-tente. Insistente pra caramba! &lt;br /&gt;A conversa começou a me irritar. &lt;br /&gt;- Não, eu prefiro ficar em casa assistindo filmes, lendo ou na internet. Sabe, não tenho pique para acompanhá-las. Geralmente eu vou a chur-rascos na casa de algum amigo, nada além disto, não curto muito essa agitação toda. &lt;br /&gt;- Churrascos são legais mesmo, mas eu não troco uma balada por nada. Eu amo dançar e fazer novos amigos e uma festa é o lugar perfeito para isto. &lt;br /&gt;- Eu não tenho esta necessidade toda de fazer amigos – fiz um movi-mento com as mãos ao dar ênfase na palavra. – Estou contente com os meus poucos e bons, prefiro qualidade à quantidade. &lt;br /&gt;- Você é muito estranha, Ruiva, mas prometo que um dia eu ainda tento te entender. – disse dando um leve jogo de corpo em minha dire-ção e sorrindo. – Hoje não, mas quem sabe um dia. &lt;br /&gt;Ela é tão alta que esta “leve” jogada de corpo me fez trançar as pernas e desequilibrar, mas sem cair. &lt;br /&gt;- Ops, da próxima vez te empurrarei apenas com meus dedos. – es-palmou as mãos e mexeu seus longos dedos dando uma prévia. &lt;br /&gt;- Da próxima vez? – encarei-a enquanto ria do tom que saiu minha voz, um tom de divertimento. &lt;br /&gt;- Da próxima vez sim. Lógico que haverá uma próxima, ou você não se lembra que quase todos os dias você dá um jeito de se machucar? Não vai demorar muito para chegar minha vez de novo. E eu estarei preparada. – sacudiu as mãos novamente. – Mas eu prometo que não vai doer. – agora nós estávamos sorrindo uma para a outra. &lt;br /&gt;- Mal posso esperar por este dia. – disse imitando seus movimentos.&lt;br /&gt;Enfim chegamos ao bloco, ela me guiou até a cantina que vendia os benditos croissants e fez um escândalo ao vê-los. &lt;br /&gt;Depois eu era a louca, pelo menos eu não vejo comida e começo a sorrir, balançar as mãos e apertar os braços de quem está do meu lado, de tanta felicidade. Mas era Letícia, ela ama comer e come de tudo, não havia como me espantar com toda aquela felicidade que brilhava em seus olhos. Letícia comprou dois croissants e deu um deles para mim. &lt;br /&gt;- Eu não estou com fome – disse cruzando os braços ao recusá-lo. &lt;br /&gt;- Não é para você. Eu só quero que segure este para mim, eu preciso colocar mostarda no outro. &lt;br /&gt;- Mostarda? – Fiz uma careta. – Mostarda com chocolate? Você está louca? Deve ter pouco mais de dez tipos de vermes no seu corpo, cer-teza! Sua vermenta! Nem eu que sou louca por mostarda seria capaz de fazer uma coisa destas. &lt;br /&gt;- Nossa você precisa experimentar, é muito, muito, muito bom.&lt;br /&gt;Deveria ser mesmo, pelo tanto de vezes que ela disse a palavra e a cara que fez. &lt;br /&gt;- Não obrigada! – disse enquanto meu estômago embrulhava ao vê-la segurando o sache. &lt;br /&gt;- Segura este para mim pelo menos e pára de fazer esta cara! &lt;br /&gt;Peguei o croissant de sua mão e observei-a abrindo o sache e despe-jando toda a mostarda. Antes que ela desse a primeira mordida virei meu rosto para evitar o constrangimento de vomitar na frente de todas aquelas pessoas. &lt;br /&gt;- Vamos? Já deve ter começado a aula. –disse, dando um passo à fren-te. &lt;br /&gt;Caminhei quieta ao seu lado enquanto ela devorava rapidamente o primeiro e estendia a mão para pegar o segundo. Letícia comia tanto que era impossível ela ser normal, era muito magra para a quantidade de comida que ingeria por dia. Às vezes fazíamos piadas sobre para onde ia tudo aquilo. As piadas, perguntas e suposições iam desde a teoria do buraco negro no estômago, à bulimia. Mas ela não se impor-tava com as piadas e fingia não ouvir. Voltamos ao nosso bloco e to-dos já estavam na sala. &lt;br /&gt;O atelier já estava lotado quando entramos, mas o professor ainda não havia chego, então fomos para os nossos lugares perto de Milla, Rafa, Miyuki e Everlyn, para conversar, enquanto a aula não começava. Esta é uma das minhas aulas preferidas, eu amo fazer projetos e é exa-tamente o que fazemos nesta aula. O único problema é que as horas sempre passam rápido demais em dias como este, eu nunca tenho tempo de tirar todas as minhas dúvidas e isto não é bom. Eu tenho uma memória péssima, “de galinha velha”, como diz meu pai, e preciso anotar tudo em minha agenda, caso contrário, na próxima aula, não me lembrarei mais o que pretendia perguntar. Antes Mesmo de tirar metade de minhas dúvidas dei uma olhada em meu relógio e já estava no fim da aula. Peguei minha agenda e anotei todas as perguntas que pretendia fazer hoje, guardei meus materiais, desmontei minha régua paralela e percebi que a sala já estava quase vazia. Milla estava em pé ao meu lado, esperando, enquanto os outros já estavam do lado de fora da sala indo à direção das escadas. &lt;br /&gt;- Cadê o Rafa? – perguntei enquanto analisava a sala inteira. &lt;br /&gt;- O pai dele veio buscá-lo. Chegou hoje de viagem e queria poder pas-sar um tempo junto dele antes de voltar a Bonito. &lt;br /&gt;- Você vai almoçar com a gente hoje ou na sua casa? &lt;br /&gt;- Se você faz tanta questão assim, Zah – disse sorrindo -, eu almoço com vocês. Já faz alguns dias que eu não dou alguns apertões naquela ruivinha sardenta. – disse toda divertida. &lt;br /&gt;- Não faço muita questão, não! – usei meu melhor tom de ironia. &lt;br /&gt;Com certeza ela tinha um plano antes mesmo de eu sequer perguntar ou me dar conta. Se divertir um pouco almoçando em casa e livrar-se daquela "mãe projeto de bruxa". Ela sempre fazia isto. Eu adoro quan-do ela vai almoçar em casa comigo e com a Tayla. Milla é uma exce-lente cozinheira, não que Tayla não seja, mas sua comida é extraordi-nariamente boa. Não existe outra melhor no mundo, com certeza. Eu sempre digo a ela para fazer gastronomia e montar um restaurante, mas ela nunca me ouve. Com certeza se daria bem neste ramo, tem tudo o que precisa. Amor. Milla ama cozinhar e passa todo este sentimento para a comida. Por isso fica tão saborosa. &lt;br /&gt;- Termine logo de guardar este material menina! – disse enquanto batia os pés no chão insistentemente e roia as unhas. &lt;br /&gt;- Isto não vai ajudar em nada. – disse apontando para seus pés. &lt;br /&gt;- Vai logo Zarah, eu estou famintéperrima! – começou a pegar meus materiais e colocá-los dentro da mochila. &lt;br /&gt;- Calma Milla você não vai morrer só de esperar dois minutinhos! – empurrei suas mãos, que estavam atrapalhando mais do que ajudando.&lt;br /&gt;Terminei de juntar tudo e quando olhei para frente ela já estava na porta, me esperando. &lt;br /&gt;Andei mais apressadamente para que ela não decidisse me matar, ao entrarmos no carro, por fazê-la esperar. Quando chegamos a casa Tayla ainda não havia chegado da escola. Milla foi direto para meu quarto, depois de pendurar sua régua num dos ganchos da parede ao lado da porta de entrada. Pendurei minha régua no mesmo lugar depois entrei na cozinha para pegar um copo de água. &lt;br /&gt;- Milla, está com sede? – gritei da cozinha. &lt;br /&gt;- Pega o maior copo que tiver aí. Eu estou morta de sede! – sempre exagerada. &lt;br /&gt;Entrei em meu quarto, Milla já havia ligado meu note book e estava abrindo a página para ler seus e-mails. Quando me sentei na cama ela virou-se em minha direção pegando o copo de água, virando-o de uma só vez. &lt;br /&gt;- Você anda fazendo festas no seu quarto durante a noite? Isto aqui está uma bagunça. Até um galinheiro é mais arrumado. Como você conseguiu encontrar a porta e sair daqui hoje de manhã? – olhou en-volta, com cara de divertimento. &lt;br /&gt;- Eu tinha uma bússola. –levantei-me da cama, a fim de reorganizar tudo. &lt;br /&gt;- Ah! Lógico que você tinha uma. Afinal, quem hoje em dia não tem uma bússola guardada em casa para casos de extrema emergência, como este? – ela realmente estava achando a situação divertira. &lt;br /&gt;Tudo bem, não tem como não achar. &lt;br /&gt;- Eu vou tomar banho e depois termino de arrumar isto tudo. – com certeza eu perderia a tarde toda arrumando esta bagunça. &lt;br /&gt;Peguei uma muda de roupa das que estavam dentro da mala, uma blu-sa regata, azul, um short jeans curto, frouxo e fui para o banheiro. Quando saí, Milla já não estava mais em meu quarto. Com certeza ela já estava na cozinha, preparando o almoço antes de Tayla chegar, só para vê-la irritada. Ela adora ajudar Milla a cozinhar, aliás, não há nada na lista de coisas a fazer dela que o nome de Milla não esteja envolvido. Elas são como unha e carne, uma não vive sem a outra. É divertido ver como se dão bem e nunca brigaram. Na verdade é muito impossível não se dar bem com Milla, sempre atenciosa e calma, pronta para ajudar a todos, ela também é a "carne da minha unha", assim como a de Rafa. Definitivamente ela é a pessoa mais amável que eu conheço. &lt;br /&gt;Entrei no meu quarto para pegar os copos e levar à cozinha e dei mais uma arrumada na bagunça. Quando entrei na cozinha Milla já estava lavando o arroz enquanto esperava algumas coxas de frango, que esta-vam dentro de um tapeware, descongelarem no microondas. &lt;br /&gt;- Qual é o prato do dia? – perguntei entusiasmada. &lt;br /&gt;- Capeletti de frango ao molho branco. Sua mãe comprou muitos e já estão vencendo. E para você uma mega salada de todos os vegetais possíveis e imagináveis. &lt;br /&gt;- Mas e aquilo, você vai fazer frango frito também? – perguntei apon-tando na direção do microondas. &lt;br /&gt;- Não, eu vou desfiar para colocar junto ao molho.&lt;br /&gt;- Ah! – caminhei em direção ao fogão, onde Milla agora colocava óleo numa panela pequena onde faria o arroz. &lt;br /&gt;- Você quer ajuda? Eu posso desfiar o frango. – perguntei, apenas por educação, eu odeio colocar as mãos na comida enquanto ainda está crua. &lt;br /&gt;- Sabe como você poderia me ajudar? Dando o fora daqui! Eu não quero ter outra experiência como a das férias passadas. – pegou-me pelo braço e me levou até o sofá. &lt;br /&gt;- Fique quieta aí e vê se não atrai a bomba atômica pra cá, ok? – apon-tou para a cicatriz do meu braço que já não parecia mais tão forte como era antes. &lt;br /&gt;Ela estava se referindo ao meu acidente do ano passado, quando, no primeiro dia das férias, fizemos um churrasco aqui no apartamento e cada uma estava responsável por uma tarefa. A minha, não sei o por-quê, era a de pegar as mandiocas da panela, assim que estivessem prontas. Quando deu o tempo delas ficarem prontas Milla me avisou e eu fui pegá-las. Cheguei à cozinha e vi uma panela grande com um pino em cima da tampa, tirei o pino com um pano, segurei-a pelo cabo com uma das mãos e com a outra apertei a parte da tampa que se en-caixava nele. Ele se desprendeu e eu soltei, mas não aconteceu nada, ela não soltou e a tampa não abriu. &lt;br /&gt;- Milla, não quer abrir! – gritei da cozinha. &lt;br /&gt;- Pára de ser fraca Zah, traga logo a mandioca, nós estamos com fome! – exclamou da varanda. Peguei o cabo com uma mão enquanto a outra segurava a tampa e puxei com muita força. A panela se mexeu para o lado esquerdo, quase caindo do fogão, eu a trouxe de volta e tentei mais uma vez. Puxei com a maior força possível e a tampa finalmente abriu. Mas eu coloquei tanta força que, ao abrir, ela bateu na água fervendo que pulou para fora, queimando toda a parte de cima do meu antebraço direito. Eu dei um grito tão alto que Tayla e Milla estavam dentro da cozinha em menos de um segundo, antes mesmo de eu chegar a pia para me lavar. Como eu iria saber que antes abrir uma panela de pressão eu precisava colocá-la em baixo da torneira ligá-la? Para começo de história eu nem sabia que aquilo era uma panela de pressão, pois nunca entrei na cozinha de casa enquanto minha mãe cozinhava, ela nunca me deixou passar da porta, eu sempre fui um ímã de desastres, desde pequena. Também tinha o fato de eu odiar cozi-nhar. Nunca quis nem aprender. Entro na cozinha de casa apenas quando estou com sede ou vou fazer um lanche, nada de chegar perto do fogão. O mais perto que eu chego de preparar uma comida é colo-cá-la, já pronta, no microondas. &lt;br /&gt;Enquanto mudava de canal sem parar, procurando por algo interessan-te, ouvi a porta se abrir e Tayla entrar em casa sorrindo. &lt;br /&gt;- Adivinhe quanto eu tirei em física? – será que ela pode fazer uma pergunta menos óbvia? &lt;br /&gt;- Deixe-me ver... Am... – fingi estar pensando enquanto passava a mão no queixo. - Está entre dez e dez? – sorri desviando os olhos da televi-são e focando-os nela. &lt;br /&gt;- Como você adivinhou? Eu nunca tiro dez em física. – ainda parada na porta. &lt;br /&gt;- Pelo fato de você ter entrado em casa com uma cara de quem ganhou na mega sena acumulada, e que você iria saber o resultado desta prova hoje. – apontei para a folha que estava em suas mãos. - E outra coisa... – levantei-me do sofá indo à direção da cozinha. – Milla, adivinhe quanto a cenourinha nerd tirou em física! – disse, encostando-me à porta da cozinha. &lt;br /&gt;- DEZ! – disse alto, olhando para mim e dando um sorriso que ia de uma orelha à outra. &lt;br /&gt;- Nossa você acertou! - olhei para Tayla com um ar de deboche. – E como prêmio, você levará para casa uma cenoura de um metro e cin-qüenta e cinco centímetros. – fiz um movimento com as mãos igual ao que as mulheres de programas de auditório fazem ao mostrar os prê-mios. &lt;br /&gt;- Cala a boca Zarah, nerd é a – antes que terminasse a frase Milla a chamou de dentro da cozinha, apontando para a panela de arroz. &lt;br /&gt;- Porque você não me ajuda a fazer o almoço enquanto me conta como foi seu dia? &lt;br /&gt;Milla sempre sabia acabar com nossas brigas na hora certa. &lt;br /&gt;– Não ligue para Zarah, ela só está com inveja de você! Ela sempre usa esta desculpa por que sabe que eu não ligo para este tipo de coisa. Abri um sorriso. &lt;br /&gt;- Vocês querem tereré? Eu sirvo enquanto vocês trabalham. Antes mesmo de elas responderem, entrei na cozinha e comecei a prepará-lo.&lt;br /&gt;Esta era a minha função, a única dentro da cozinha, servir tereré en-quanto elas cozinhavam. Eu gosto de ajudá-las de alguma forma, mesmo que indiretamente. Quando estava tudo pronto peguei os talhe-res, os pratos, a toalha e fui colocar tudo sobre a mesa de jantar, ao lado da sala. &lt;br /&gt;Esta é a rotina de todos os almoços e jantares de nós três, elas cozi-nham, enquanto eu arrumo a mesa e lavo a louça. &lt;br /&gt;Depois de colocar tudo no lugar sentei-me de novo no sofá da sala e continuei a mudar os canais, parando de vez em quando para ver cli-pes. &lt;br /&gt;- Um, dois, três e já... MONTINHOOO! – as duas falaram juntas, cor-rendo em minha direção. &lt;br /&gt;- N – não deu nem tempo de me mexer ou terminar a palavra. Elas já estavam em cima de mim. Primeiro Tayla, depois Milla, pularam em minha direção, uma por cima da outra. Não contentes em me amassar feito panqueca, me derrubaram no chão e começaram a fazer cócegas. Fiquei lá, parada, sem me mexer enquanto elas ficavam me apertando, fazendo caretas e rindo ao mesmo tempo. Elas sempre esquecem que eu não sinto cócegas. &lt;br /&gt;- Pronto? – perguntei quando elas pararam. &lt;br /&gt;- Nossa! Sua insensível. Você parece um ser de outro planeta. – Milla voltou a fazer cócegas, ainda com esperanças. &lt;br /&gt;- Agora é minha vez! – elas olharam uma para a outra, depois para mim e deram um grito tão alto que faria qualquer vidro espatifar-se em mil pedaços. &lt;br /&gt;Segurei as duas pela blusa e comecei a mexer meus dedos enquanto minhas mãos passavam por suas costelas. Mas por pouco tempo, Tayla conseguiu se livrar de minhas mãos e puxou Milla, ao levantar. &lt;br /&gt;- Vamos comer logo, eu já estou verde de tanta fome. – Tayla disse enquanto me ajudava a levantar. &lt;br /&gt;O almoço, como sempre, não foi nem um pouco quieto. Milla pergun-tava a nós o que tínhamos feito semana passada, quando estava em São Paulo com a mãe. &lt;br /&gt;- Eae, Zah, conseguiu arrumar algum namorado este fim de semana? &lt;br /&gt;- Não! E você sabe muito bem que eu odeio namoros! – irritação apa-receu em minha voz. &lt;br /&gt;Qual a necessidade que as pessoas da minha família sentem em fazer este tipo de pergunta a mim? A resposta sempre será a mesma. &lt;br /&gt;- Você sabe muito bem por que não quer namorar mais. Precisa superar isto Zah. – um tom maternal tocou as palavras. &lt;br /&gt;- Não, não sei o porquê, aliás, não existe um por que. Eu apenas não quero namorar e ponto final. &lt;br /&gt;- Zah, você precisa superar a perda do Benício. Eu sei que não é fácil, mas precisa tentar, tenho certeza que ele gostaria de te ver feliz com outra pessoa e não assim neste estado deprimente. Atingiu meu ponto fraco. &lt;br /&gt;- Eu não quero superar. Não é justo isto! Eu não quero Milla! – meus olhos nublaram, uma lágrima rolou. &lt;br /&gt;- Relaxa Zarah, ninguém aqui está te pressionando. – Tayla disse afa-gando minhas costas. &lt;br /&gt;- Me desculpe Zah, não fiz por mal, só pensei que ajudaria se você falasse mais frequentemente nele. &lt;br /&gt;- Não ajuda nem um pouco Milla! – disse entre os soluços e as lágrimas que tocavam minhas bochechas. Levantei-me da mesa indo à direção do meu quarto, batendo a porta com força ao entrar. &lt;br /&gt;-Não vá lá falar com ela Milla, deixe-a pensar um pouco, quando esti-ver pronta ela vai sair de lá! – ouvi Tayla dizer, calmamente. &lt;br /&gt;Este é o tipo de conversa que eu tento evitar no último ano, desde que Benício morreu. &lt;br /&gt;Nós namorávamos desde meus treze anos, éramos da mesma cidade e nos conhecíamos desde bebês. Nossas mães são amigas, por isso, fo-mos criados juntos. Ele sempre me dizia ter certeza que me amava antes mesmo de nascer. Eu nunca me envolvi com outra pessoa, nem pensava na hipótese, pois não conseguiria viver um segundo sequer longe dele, e sabia disso. Nós vivíamos grudados vinte e quatro horas por dia, e um nunca se cansava da companhia do outro. Ele, ao contrá-rio de mim era muito ativo, não parava um minuto sequer, amava ir a festas com nossos amigos e reuniões de família, principalmente as da minha, que, segundo ele, eram as mais divertidas. Todas as pessoas que nos conheciam diziam a mesma coisa, “eu não consigo ver vocês separados!” e todos o adoravam, principalmente meu pai. Para ele Benício era como um filho, andava grudado nele o tempo todo, até eu me estressar e reivindicar a atenção para mim. Meu pai dava mais a-tenção a ele que a mim e minhas irmãs. Isto era muito engraçado, pois os pais geralmente têm um pouco de ciúmes das filhas com os namo-rados e implicam um pouco, e em casa era totalmente ao contrário, qualquer briga tola que tínhamos, ele me dava um sermão e dizia para eu falar com Benício. Quando tínhamos dezesseis anos de idade, ele descobriu que tinha Leucemia. &lt;br /&gt;Tudo aconteceu tão de repente que a ficha só caiu depois que ele mor-reu. Alguns dias antes do meu aniversário, exatamente um mês antes do dele. Foi o dia mais triste de minha vida, parecia que mil facas ha-viam sido enfiadas em meu coração, eu não conseguia respirar, fiquei pálida e às vezes hiperventilava sem parar. Fiquei fora de mim por alguns dias até digerir tudo. Não falava com ninguém, não comia e sentia como se isso nunca fosse passar. A pior sensação do mundo. Perguntava-me várias vezes durante o dia: “por que ele e não eu?” ele amava tanto viver, aproveitava ao máximo, ao contrário de mim que não dava a mínima em aproveitar. Tinha tantos planos futuros e tantas pessoas que o amavam. Eu nem sabia o que faria no dia seguinte, meu único plano era casar-me com ele depois de formada e ter muitos fi-lhos. &lt;br /&gt;Hoje em dia tenho aversão a relacionamentos, minha mãe diz que é uma espécie de trauma causado pela perda e que eu não preciso me apressar, pois me recuperarei quando estiver pronta. A única pessoa que me entende. Mas eu duvido muito que consiga namorar alguém depois de tudo o que aconteceu. Todos os meninos que conheci e ten-tei me relacionar depois de sua morte, eram muito insignificantes perto dele, é como se eu estivesse formando uma barreira sentimental que me impede de tentar ter outra pessoa como namorado. Eu bem que tentei, mas tudo era motivo para me machucar ainda mais, eu fazia comparações o tempo todo, o beijo não era o mesmo, o toque, o cheiro, o jeito como falava comigo, tudo me lembrava ele. Só dificultava ainda mais a situação, pois ao mesmo tempo em que eu sabia que não poderia esquecê-lo eu sabia que um dia iria me envolver com outra pessoa e o sentimento iria desaparecer com o passar dos anos. Fiquei parada em frente ao meu note book esperando as musicas começarem a tocar. Abri a pasta das minhas favoritas e dei play na primeira, Smile - McFly, os meninos mais fofos e engraçados que já vi. A música diz tudo o que Benício vivia me dizendo enquanto namorávamos. Deitei em minha cama fechando os olhos, apenas sentindo a música. Mil memórias passavam em minha mente agora, eu sorri das lembranças boas enquanto lágrimas tristes tocam minhas bochechas. Não demorou mais que alguns segundos até as duas baterem à porta. Levantei-me e fui ver o que queriam. &lt;br /&gt;- Abra esta porta Zah, não pode tê-los só para você! – disseram em coro &lt;br /&gt;-Não! Deixem-me em paz! &lt;br /&gt;- Por favor, Zah, nós também queremos ouvir a música. - Milla gritou do outro lado da porta. &lt;br /&gt;- Tudo bem. Vou abri-la! Mas esperem alguns segundos. Sequei al-gumas lágrimas, aumentei ainda mais a música e me dirigi à porta novamente. Ao abri-la, fui puxada para fora do quarto, Tayla e Milla estavam dançando e cantando, desafinadamente, bagunçando meu cabelo e tocando os dedos em meus lábios, forçando o sorriso nas par-tes “Smile, smile, smile...”. &lt;br /&gt;Quando dei por mim, já estávamos no meio da sala de televisão dan-çando e cantando em voz alta. A música acabou e nos sentamos no sofá dando gargalhadas. &lt;br /&gt;- Vocês não prestam mesmo! – disse entre risos. &lt;br /&gt;- Nunca dissemos a você que prestamos! – disse Milla. &lt;br /&gt;- Na verdade, eu sou a única aqui que presta. Vocês são as loucas e eu a normal! – Tayla disse, num rosto sério, que a traiu no último instante, dando lugar a um sorriso enorme movimentando todos os músculos de sua face. &lt;br /&gt;Ficamos assim, sentadas no sofá sem fazer nada, durante muito tempo. Conversamos algumas vezes e outras apenas nos olhamos. Não preci-samos de palavras para nos comunicar, apenas um olhar já diz tudo. O dia passou num piscar de olhos. &lt;br /&gt;Senti-me enjoada pouco depois do almoço. Estava sentindo náusea e o meu almoço decidiu sair do meu estômago. Apesar de durar somente algumas horas, foi o suficiente par deixar Milla preocupada, mas ela teve de ir embora para casa, por volta das 15h30min, quando Glenda ligou lembrando-a que estava na hora de irem ao shopping, como ha-viam combinado ontem à noite. &lt;br /&gt;Milla disse que ligaria quando voltasse do passeio, para saber como eu estava.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Precisei de apenas alguns minutos com a louça suja. Depois de secar e guardá-la limpei a cozinha e fui ao meu quarto encarar aquela enorme bagunça. Gastei toda a minha tarde reorganizando e limpando-o em seguida. Já era à noite quando, finalmente, terminei de limpá-lo e es-tava cansada demais para fazer outra coisa que não fosse dormir. Tayla estava na sala vendo televisão quando eu passei em direção à cozinha, para tomar água. &lt;br /&gt;- Você já vai dormir? – perguntou, sem tirar os olhos da televisão. &lt;br /&gt;- Já! Eu estou morta de cansada e tenho aula no laboratório amanhã, preciso estar cem por cento recuperada do sono. – sentei-me no encos-to do sofá enquanto falava. &lt;br /&gt;- Eu vou enrolar um pouco, minha aula amanhã só começa às nove e meia. Terá reunião de pais e mestres. – disse fazendo movimentos com os ombros. &lt;br /&gt;- A Milla ainda não ligou? – perguntei&lt;br /&gt;- Ela acabou de ligar, mas eu disse que você estava melhor, ela disse que se você se sentisse mal novamente era para ligar para ela.&lt;br /&gt;- Tempestade! – sorri&lt;br /&gt;- Sempre. – disse Tayla – Se não fizer tempestade em copo d’água, não é ela.&lt;br /&gt;A minha irmã mais velha é a garota mais desconfiada, com doença, que eu conheço. &lt;br /&gt;Levantei-me e fui para a cozinha, em passos lentos e preguiçosos, to-mei um copo de água e aproveitei para olhar no relógio do microondas que marcava oito e trinta e um. Fiquei lá parada até mudar o horário e saí da cozinha. &lt;br /&gt;- Boa noite Laranjinha, até amanhã! – disse a última palavra em meio a um bocejo. &lt;br /&gt;- Boa noite, Zah! - disse sorrindo.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1989948983729069475-6932617494446167769?l=www.zarahluna.com.br' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://www.zarahluna.com.br/2009/06/cap-1-inferno-astral.html</link><author>iarafp_soares@yahoo.com.br (Iara Fepasiso)</author><thr:total>11</thr:total></item></channel></rss>