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sábado, 27 de junho de 2009

Cap. 2 Herdeira

Tudo envolta era de um verde sem fim, não havia mais nada além do verde, não havia árvores, asfalto, casas, pessoas, nada, nem sequer havia um horizonte. Há alguns metros à minha frente vi uma mesa iluminada por muitas luzinhas, como as de natal, envolta de um objeto grande, coberto de velas. Corri até a mesa e a paisagem mudou. Agora a cor era azul. Havia muitas pessoas em volta da mesa, elas estavam batendo palmas e olhando em minha direção como se me chamassem, mas eu não as ouvia. Pareciam estar acompanhando alguma música, mas eu não conseguia entender o que era. Quando me dei conta do que estava acontecendo já era tarde demais e eu estava em frente à mesa com um bolo enorme lotado de velas azuis. Eu, agora, conseguia entender a música que as pessoas acompanhavam com palmas, era a Marcha Fúnebre de Chopin. Comecei a gritar para elas pararem, mas ninguém me obedeceu. Continuaram olhando-me com rostos sorridentes. sem parar de bater palmas.
- Parem! Eu não quero uma festa! – disse enquanto uma lágrima tocava minha bochecha.
– Eu odeio festas! Odeio todos vocês, saiam daqui agora! – muitas outras lágrimas rolaram de meus olhos.
- Eu não vou fazer festas para você! – uma voz conhecida.
- Me prometa então! – minha voz falhou em meio às lágrimas.
- Eu prometo por todos os sapatos que eu já fiz. – a voz estava calma e confiante. – Agora, por que você não experimenta acordar? Está um lindo dia de sol. – disse, logo em seguida não pude mais ouvir sua voz, ele já havia ido embora.
De uma coisa eu tinha certeza, eu estava sonhando. Mas algo estava muito estranho, o ser dos meus sonhos nunca me pede para que eu acorde, muito pelo contrário, sempre que eu digo que está na hora, ele me pede para ficar um pouco mais e faltar à aula. Dizia que era perda de tempo freqüentar uma faculdade enquanto tinha coisas muito mais importantes com o que me preocupar. Sempre que vinha com este tipo de conversa eu o cortava e dizia que preferia acordar a ficar presa para sempre em minha imaginação. E ele concordava.
Abri meus olhos. Eles estavam um pouco nublados. Vi uma estranha figura em cima da mesa do meu computador, encarando-me com olhar de curiosidade.
- Feliz Aniversário! – disse o pequeno homem.
Sentei-me à cama, rapidamente, arregalando olhos de susto, ao reconhecer a voz. Eu nunca havia visto aquele rosto antes, mas a voz me era muito familiar. Era a voz dos meus sonhos, a que conversava comigo todas as noites enquanto eu dormia. Era o meu companheiro de conversas e meu confidente mais fiel.
- Por que esta cara garota? Você sempre me disse que queria que eu fosse real, e agora que eu me revelo você não me diz sequer “obrigada Leprechaun?” Vamos diga algo, eu estou esperando. – encorajou-me, fazendo sinal com as mãos.
- Droga! Será que eu estou louca de vez? Agora é que eu não posso mais discutir com a Tayla, eu realmente estou louca! – bati duas vezes em minha testa com mais de força que o necessário, isto fez doer um pouco.
- Calma menina, assim você vai acabar desmaiando. – seu rosto agora estava preocupado.
- Mas por que eu não consigo acordar? Por quê?
- Você já está acordada Zarah, eu realmente estou aqui falando com você. Isto não é sonho. – ele agora estava em pé na mesa, levemente inclinado em minha direção.
Isto realmente é muito estranho. Todas as vezes que eu o imaginei, ele tinha cabelos brancos, uma barba enorme, usava roupas como as de um feiticeiro e tinha pelo menos um metro e vinte centímetros a mais. Muito diferente deste pequeno homem em minha frente, de barba ruiva um pouco mais clara que a cor do meu cabelo, calça verde, presa por um cinto de fivela, camisa branca sem botões num corte em V, um pequeno paletó, e uma espécie de chapéu de três pontas em sua cabeça.
O que mais me chamou atenção foram seus lindos e pequenos sapatos, eram num tom de marrom que eu jamais tinha visto, todo decorado com trevos de quatro folhas. Muitos deles, mais que uma pessoa seria capaz de encontrar mesmo que vivesse mil anos. Seus olhos eram num tom esmeralda que combinava perfeitamente com suas vestimentas. Pequenas rugas de expressão em sua testa e pequenas bolsas de água embaixo dos olhos faziam-no parecer ter por volta de sessenta anos de idade. Seu nariz é um pouco gordinho e logo abaixo havia um bigode ruivo, no mesmo tom da barba, que escondia seu lábio superior.
Quando terminei minhas observações, me foquei no problema que estava enfrentando e encarei o pequeno homem enquanto esperava meu cérebro processar toda aquela maluquice. Apenas uma pergunta veio em minha mente, então espirrou de minha boca antes mesmo de eu pensar em reformulá-la.
- Você pode me provar que é real? Por favor! – minha expressão era de medo, medo de realmente estar maluca.
- Essa é fácil! – agora ele sorria. Inclinou-se mais para perto de mim, esticou uma das mãos em minha direção e em seguida me deu um beliscão.
- Ai! – exclamei enquanto esfregava, levemente, a mão onde ele acabara de apertar.
- Pronto. Com certeza isto faz de mim real – sentou-se na ponta da mesa, com as pernas balançando em direção ao chão.
- Isto definitivamente não prova nada. – esfreguei meu braço. Será que ele precisava realmente apertar tão forte assim?
- Lógico que isto prova que eu sou real, como eu poderia te machucar? Não há como sentir dor quanto se está sonhando. – seus olhos estavam grudados nos meus.
- Mas se isto não é um sonho como pode você estar aqui no meu quarto? A porta está trancada, não há como entrar. – decidi pensar que já estava acordada e tentar entender o que estava acontecendo, se isto for mesmo real.
Depois que terminei minha frase ele desceu da mesa num pulo e foi em direção à porta.
- Não tive dificuldade alguma em lidar com esta porta, já enfrentei coisas muito melhor trancadas! – pegou minha cadeira e a colocou à frente da porta, sem esforço algum já estava em pé lá em cima com uma das mãos na maçaneta e abrindo-a logo em seguida.
- Como você fez isto? – Agora eu estava totalmente fora de controle, senti meu coração acelerar, as mãos molharem e a garganta secar. Levantei-me muito rapidamente e fui a sua direção a fim de verificar mais de perto que a chave realmente não estava ali.
Tudo nublou assim que me levantei e o chão do quarto já não estava mais sob meus pés. Tudo ficou preto. Senti, de repente, uma dor muito intensa na lateral direita de minha cabeça enquanto ouvia uma voz muito distante.
- Menina, será que algum dia você vai parar de cair tanto? Se continuar deste jeito não dará certo como Sidh.
- Sidh? – eu ainda não havia recobrado totalmente a consciência, o nome saiu apenas um sussurro.
- Levante do chão Zarah, nós precisamos ir logo, não há muito tempo! – ele, apenas com uma das mãos, me levantou do chão e em menos de um centésimo de segundo eu já estava sentada na cadeira com ele me observando numa expressão rabugenta. – Nós não temos mais tempo a perder menina, tente tomar mais cuidado ao andar, preciso de você viva. Você consegue fazer isto? – sua voz estava no mesmo tom que meu pai usa comigo quando me machuco. Paternalmente preocupada.
- Eu posso tentar – posso tentar? O que eu estava pensando quando respondi? É lógico que eu não posso tentar. Isto simplesmente acontece e pronto, não tem como eu evitar, não sei quando vou cair, não posso prever meus tombos.
Tentei pensar logo numa maneira de consertar minha resposta, mas nada parecia ter sentido. Então me lembrei da frase que minha mãe sempre diz quando tentamos impor algo a ela.
- Eu tenho uma condição! – soltei as palavras rapidamente.
- Isto não é moeda de troca menina, você simplesmente não pode se machucar e pronto, não estou aberto a negociações! – ele estava sim e eu podia ver em seus olhos, ele é o ser mais curioso que eu conheço.
- Tudo bem então, eu não queria dizer a minha idéia mesmo. É um pouco tosca sabe, tenho certeza que você riria dela depois que ouvisse. – pronto, a semente já estava plantada, agora era só uma questão de tempo até que me peça para contar.
Olhou-me fixamente enquanto pensava em minhas palavras. Sem tirar os olhos de mim, pegou um cachimbo de dentro do bolso esquerdo da calça e o segurou, enquanto tocava, com o dedo indicador da outra mão, o fornilho e o acendia. Observei a cena sem me mexer um milímetro sequer. Pasma ao perceber que não havia nada em sua mão, nada que pudesse provocar a faísca e o fogo.
- Como você faz isto? Não vi nada sair de seu dedo! Como você faz isto?- curiosidade é a palavra certa para o que eu estou sentindo.
- Qual é a sua condição? Eu troco com você, estou aberto a negociações.
- Apague isto agora, eu tenho alergia, a não ser que você queira que eu morra daqui a vinte minutos quando minha garganta se fechar completamente! – O cheiro do tabaco tomou conta do quarto em segundos e pude sentir uma leve dor de cabeça. Isto sempre acontece quando estão fumando perto de mim. Primeiro a dor de cabeça e depois a dificuldade na respiração.
- Tudo bem, eu apago se você prometer contar-me a condição.
- Eu conto. – a pressão em minha cabeça estava ainda maior.
Antes mesmo de apagar o cachimbo ele o guardou em no bolso, mas não havia sinal algum de que ele estava lá. O bolso continuou, aparentemente, vazio. Quando será que eu vou parar de me surpreender com este homenzinho?
- Conte logo menina, este suspense todo está me matando! – agora ele estava com os braços cruzados, me encarando, enquanto franzia as sobrancelhas, esperando que eu começasse a falar.
Respirei fundo, duas vezes.
– Tudo bem – dei uma pausa – Vamos fazer assim, você me conta tudo o que sabe e eu prometo fazer o possível para não me machucar.
- Mas isto não é nada menina, realmente você não é muito boa em negociar! Eu iria ter que te contar a história toda de um jeito ou de outro, antes de irmos.
- Então, porque você não me conta tudo logo? Você mesmo disse que não temos tempo a perder!
- Tudo bem, mas a história é um pouco pesada, então me prometa que não irá desmaiar. E me avise ao sentir-se mal.
- Eu prometo. – levantei a mão esquerda apenas com o dedo mínimo levantado
–Palavra de escoteira – não é assim que os escoteiros fazem, mas eu não era uma, então, não me preocupei no que ele acharia do meu ato de tentar ser sincera.
- A história que vou te contar agora se passou dois anos antes de você nascer – agora sentado em minha cama enquanto eu ainda estava na cadeira em frente à porta.
– Eu era o melhor amigo de sua... De... De uma linda menina, seu protetor, seu confidente. Nós éramos inseparáveis – fez uma pausa, seus olhos umedeceram rapidamente com alguma lembrança e, antes que uma pequena lágrima começasse a rolar, ele a secou com as costas de sua mão. Esta, com certeza é uma lembrança difícil para ele. – Você sabe o nome de sua mãe verdadeira? – agora ele estava levemente inclinado em minha direção.
Que pergunta mais idiota, lógico que eu sei o nome de minha mãe, a não ser que, que ele esteja falando de minha outra mãe. Mas.... Como ele poderia saber que eu fui adotada? Eu nunca disse isto a ele, pois nunca liguei. Minha mãe sempre diz que, para ela, sou a filha de sangue como a Tayla e o Cadu e não só a do coração, como Milla. Algumas vezes, quando era criança, tive curiosidades sobre minha verdadeira mãe, mas ela nunca soube responder nenhuma das minhas perguntas. De todas as perguntas que eu fiz a ela apenas duas tinham resposta, qual o nome de minha verdadeira mãe e se quando ela me encontrou eu já usava meu camafeu. A segunda resposta foi fácil de arrancar dela. Quando ela me encontrou, em cima de sua cama, embalada numa espécie de lenço feito de fibras naturais, este camafeu estava amarrado ao meu braço por um pedaço de couro. Já a primeira resposta, eu tive que implorar a ela para me falar. Ela respirou fundo e soltou as palavras com muita rapidez “Zarah, este é o nome de sua verdadeira mãe, eu o coloquei em você por que além de um nome lindo, quer dizer iluminada. Foi o que você fez em meu coração aquela noite, o iluminou de alegria. Graças à sua mãe eu ganhei o melhor presente de toda a minha vida.”.
Depois de ficar uns bons cinco minutos sem saber o que fazer e apenas olhando em seus olhos, finalmente consegui pensar em algo. Perguntei como ela sabia seu nome, e ela me disse que minha mãe havia deixado uma carta para eu ler quando fizesse dezoito anos. Estava escrito “Cuide bem do meu solzinho, Zarah.”.
Durante os últimos dez anos eu a incomodei, até encher sua paciência, para que me deixasse ler a tal carta antes dos dezoito anos, mas ela sempre disse que cumpriria sua palavra. Se estava escrito para eu ler apenas aos dezoito, assim seria. Ela não iria falhar com sua palavra. Isto para mim sempre pareceu um absurdo, elas nunca sequer se viram, como teria uma promessa a cumprir?
- Zarah? - eu disse confiante, apesar de sair mais como uma pergunta.
- Como você ficou sabendo?
- Minha mãe adotiva me contou quando eu tinha uns oito anos. – na verdade eu arranquei a resposta dela, mas não quero entrar em detalhes agora.
- Isto facilita muito as coisas para mim, sabe. – passou a palma da mão direita na testa como se fosse secar o suor. Parecia estar aliviado com minha resposta.
– Eu já estava preparado para te consolar assim que te contasse que é adotada, mas você saber, minha nossa! Isto facilita mesmo as coisas para o meu lado. – soltou um sorriso, bufado de alívio.
- Será que você pode, por favor, voltar à história? Nós não temos tempo a perder! – eu disse, usando sua frase.
- Oh, claro, claro, como quiser. – deu uma pausa para se concentrar e tentar lembrar onde parou. – Como disse, esta história começa em 1989, era o dia do ano mais esperado pelos Sidh. Sua mãe estava embaixo de sua macieira, como fazia todos os anos. Era dia vinte e um de junho. O dia que o raio mais intenso do sol, no ano inteiro, toca as árvores. A partir do momento em que o primeiro raio penetra na floresta, se você estiver segurando o fruto de sua árvore com a mão esquerda e com a outra a tocando é possível, pro alguns segundos, ver quem está destinado a você, seu amor para a vida inteira, ou a alma gêmea, como os humanos dizem. A pessoa destinada a você pode ser de qualquer idade e pertencer a um mundo diferente do seu, ou não. Quando este tipo de coisa acontece, pertencer a outro mundo, o que é muito raro, tudo fica muito mais difícil, pois quando estamos em nosso mundo basta perguntar à sua macieira que ela indicará o lugar. Mas há restrições, ela pode indicar somente nos limites dos anéis de Aine. Não pode encontrar um humano. E você terá que encontrá-lo sozinha. Geralmente os Sidh destinados a humanos demoram muitos anos até encontrá-los. Com sua mãe aconteceu quase isto. Ela viu seu prometido e ficou muito feliz, segundo ela, era a pessoa mais bonita e iluminada que já vira em toda sua existência. Quando foi perguntar onde encontrá-lo a árvore não pôde mostrar, isto queria dizer que ele pertencia ao outro mundo. Ela ficou muito triste e inconsolável, por muito tempo, até que Aine, rainha e protetora dos Sidh, que era sua mãe, viu um dos desenhos que fez do prometido. – olhou-me com o sorriso de uma orelha à outra
- Sua mãe é uma ótima desenhista, sabe. Ela desenhava tudo o que via. Tudo! – voltou à concentração de antes, mas ainda com um sorriso dançando no canto da boca.
– Depois que o viu nunca mais conseguiu esquecer seu rosto e o desenhou muitas e muitas vezes. Quando Aine se deparou com um dos desenhos de Zarah contou a ela que aquele era o filho de Bel, um ser muito poderoso ligado aos druidas, um ser da ciência mágica, fogo, sucesso, purificação, colheitas, vegetação – fez uma cara divertida ao citar todas aquelas palavras. Enumerando cada uma com os dedos. – o garoto fora seqüestrado por um druida, ao nascer, e colocado no mundo dos humanos.
- Quem fez esta maldade com ele? – perguntei inquieta.
Ele fingiu não ouvir e continuou a história.
- Como ele era o sucessor de Bel, seu pai ofereceu recompensas a quem dissesse seu paradeiro. Quando seus guardas finalmente encontraram o druida, que já era muito velho, ele estava à beira da morte e havia empregado em si mesmo o feitiço do silêncio. Sendo assim não pode contar-lhes onde havia escondido o bebê, que já deveria ter uns dois anos de idade, mesmo que tivesse de morrer por isto.
- Nossa! Que história mais trágica esta. – pensei em voz alta.
- Ninguém jamais encontrou a criança e a linhagem estava prestes a se perder de vez, pois ele era o único filho de Bel e seus poderes ficariam perdidos para sempre se não voltasse ao reino antes de fazer vinte e um anos. – agora ele olhava para mim como se estivesse esperando que eu perguntasse algo, mas eu não tinha nada para perguntar. Eu queria saber mais, muito mais.
– Você está conseguindo acompanhar ou quer perguntar algo?
- Não, quer dizer, sim – eu estava realmente confusa sobre a história, não que eu não tenha entendido, mas é pelos nomes, são tão... Esquisitos. – Como minha mãe o encontrou?
- Eu já estava chegando nesta parte. – me deu uma olhada e continuou – Sua mãe já sabia o principal, que ele não era humano. A partir daí não seria tão difícil assim encontrá-lo, já que ele era um de nós. Ela foi até sua árvore, de novo, para tentar ao menos ver algo que a ajudasse. – inclinou-se um pouco mais em minha direção - A macieira muitas vezes dá pistas do lugar onde a pessoa está – a frase saiu como um sussurro - Zarah disse tudo o que havia descoberto e perguntou-a mais uma vez. A árvore lhe mostrou a imagem de uma gruta de água azul. Só o que Zarah viu foi isto, uma gruta de água azul. – fez um leve movimento com as mãos - No mesmo instante ela se levantou, agradeceu à macieira e voltou a sua mãe para contar o que tinha visto. Aine mandou um de seus guardas contarem a Bel o que sua filha havia descoberto. – um sorriso tocou seus finos lábios
- Zarah ficou muito contente. Eu nunca a vi tão feliz. Ela sabia que o encontrariam. – parou alguns segundos, fitando-me. - e foi o que aconteceu. – a voz calma.
Eu o encarei, agora com mil perguntas em minha cabeça e o interrompi, sem esperar que terminasse.
- Você está querendo me dizer que este tal de filho de Bel, prometido da minha mãe estava escondido o tempo todo dentro da Gruta do Lago Azul, em Bonito?
- Não, esperta pra caramba, ele estava na cidade de Bonito, que tem uma gruta, não dentro da gruta! – deu gargalhadas enquanto respondia minha pergunta.
Ah, não foi uma pergunta idiota. Ele foi seqüestrado por um druida. Eles são tão estranhos, pode muito bem ter pensado em escondê-lo lá.
- Posso continuar a história? – fitou-me.
- Pode! – disse num tom de entusiasmo.
- Quando Bel o encontrou foi difícil convencê-lo a sair daquela cidade, pois lá ele tinha amigos e uma família que o amava muito. Quando, finalmente o convenceu, ele saiu da cidade sem se despedir da família anterior. Disse que uma despedida só complicaria mais a situação. Ele voltou muito triste para o reino, mas sabendo que fez a escolha correta. Alguns dias depois de ter voltado encontrou sua mãe na floresta enquanto ela descansava sobre a sua macieira. Bernardo, o nome que recebeu de sua segunda família, se apaixonou perdidamente por ela, no momento em que a viu. Ela já estava loucamente apaixonada por ele, como o destino havia lhe avisado. A partir daí tudo aconteceu muito rápido. Casaram-se algumas semanas depois desde o primeiro encontro, unindo os dois reinos; céu e sol, que era de sua mãe e o reino das primaveras quentes, ciências mágicas e vegetação – fez uma cara parecida com a de antes, debochando da quantidade de reinos. - que era de Bernardo. Alguns meses após seu casamento, Zarah descobriu que estava grávida. – agora ele olhava pela janela. Olhando o céu.
– O que foi? – perguntei quando vi uma lágrima rolando de seus olhos.
- Não foi nada, só me dói muito lembrar deles, eu sinto muito a falta de Zarah, ela era a melhor amiga que alguém poderia ter. – não olhava mais pela janela, agora seus olhos estavam em mim.
– Você não tem nada a me perguntar? – secou os olhos.
- Sim, tenho uma pergunta. – disse rapidamente - Se ela estava grávida e eles tinham unido os dois reinos – olhei-o com um ponto de interrogação bem no meio da testa – então a criança teria os dois poderes? O das magias e o do céu? E seria dona, sozinha, dos dois reinos?
- Logicamente sim! – sua resposta foi calma demais para o meu gosto.
- U-AU – disse a palavra cheia de empolgação – nossa, esta criança deve ser muito poderosa! Quem é ela?
- Vou terminar minha história e você tira suas próprias conclusões já que ainda não tirou.
Esta resposta, definitivamente, eu não entendi.
- Quando filho mais novo de Bel, três anos mais jovem que Bernardo, ficou sabendo da gravidez de Zarah, fez de tudo para acabar com a vida do irmão, ele tinha muita inveja de Bernardo por ter dois reinos e o poder de seu pai junto ao poder que ele já carregava desde o nascimento. Além de temer o nascimento de sua filha, a herdeira. – deu ênfase à palavra - Ao saber que o irmão queria matá-lo, Bernardo foi obrigado a bani-lo do reino. Mesmo ele sendo parte da família. Ele se escondeu na Floresta Negra, a floresta intocada, do nosso mundo. Lá encontrou um druida e viveu com ele alguns meses. Este druida o ensinou várias poções, incluindo o feitiço secreto da realização dos desejos com os ramos de aveleira. Mas ele não aprendeu a fazê-lo. Apenas a usar. Este é um segredo compartilhado apenas a uma pessoa, o rei. Somente o rei tem o poder de todas as magias em mãos. Imediatamente ele voltou ao reino de Bernardo e Zarah a fim de matá-los. Quando chegou lá a criança já havia nascido. Uma linda menininha, com cabelos chamuscantes da cor dos raios do sol, como os da mãe, a pele num tom de dourado como a do pai e de olhos negros e penetrantes. – voltou a olhar através da janela, mas desta vez nenhuma lágrima rolou de seus olhos.
- O que foi Leprechaun? Não vai chorar de novo em, você já está bem grandinho para isso! – disse numa voz sorridente tentando alegrá-lo.
- Vo... Ela... Era o bebê mais lindo que eu já tinha visto, os olhos negros como a escuridão e a boca rosada como a das ninfas. – deu um suspiro e voltou a olhar em minha direção.
- Continue – o encorajei.
Encheu os pulmões de ar.
- Quando o irmão de Bernardo a viu, ficou sem reação, ele não esperava por isto, pensou ter ficado fora por menos tempo. Neste meio tempo, enquanto seu irmão estava em choque, Bernardo pegou a criança dos braços de Zarah e a protegeu. Esta foi a única coisa que deu tempo de alguém fazer, até o irmão mais novo perceber e desejar algo sobre Zarah e ela sumir. Foi tão rápido que nem sua voz foi capaz de ouvir. – a lembrança o deixou triste. Ele parou, encheu os pulmões de ar algumas vezes e continuou. - Bernardo conseguiu fugir para longe, com a criança, pois agora seus poderes eram inúteis contra os desejos do irmão. Nada que ele fizesse seria capaz de deter os pedidos enfurecidos do irmão, não seria capaz de salvar-se ou o bebê. Ele ficou sumido por muitos dias. Enquanto não voltava, nós tentamos, com tudo o que estava a nosso alcance, matar o irmão. Mas ele voltou à Floresta Negra, um território hostil para nós. Algum tempo se passou, não sei bem quanto. Sabe, nós não marcamos o tempo como os humanos fazem. - olhou-me - Bernardo voltou para enfrentá-lo, mas estava sem a criança, ele a escondera, evitando assim que seu irmão a matasse. O garoto demorou a reaparecer, e quando o fez, ninguém o viu entrar nos limites do reino. Ele havia usado um dos pedidos nele mesmo, impossibilitando-nos de vê-lo avançando para dentro do anel de Aine. Ele conseguiu chegar até Bernardo e, assim que teve a oportunidade, jogou a capa dos desejos sobre o irmão e fez seu pedido. Mas Bernardo, antes que a capa o tocasse, o enfeitiçou. – olhou-me novamente - Ele agora é uma escultura, sem vida, que decora uma das salas do castelo. – parou, me olhando durante alguns segundos, até eu perceber.
- Fim da história? – perguntei horrorizada
- Desta sim.
- Tem mais uma? Mas você não disse que eram duas! – franzi a testa. Apesar de serem muito interessantes, estas histórias são tão longas.
- Agora tem a minha história, que começa a partir de onde esta acaba.
- Então me conte rápido, quero muito saber a sua história, você já me ouviu contando da minha vida, mas nunca me disse nada da sua.
Eu realmente estava empolgada.
- Tudo bem, agora começa a minha história! – deu uma pausa, respirou fundo, duas vezes, e continuou. – Depois que eles sumiram os dois reinos continuaram unidos, mas agora sob os cuidados dos pais de Zarah e Bernardo. Nós nunca conseguimos encontrar a criança, apesar de passar dez anos tentando. Um dia, eu estava caminhando na floresta quando vi a árvore de Zarah, ela estava linda, com as folhas muito verdes. Isto era um sinal de que ela estava bem, seja lá onde estivesse, por que a árvore transmite todos os sentimentos de sua protetora. Caso a protetora venha a falecer, a árvore seca completamente. Sentei-me embaixo dela para admirá-la. Quando fazia algumas horas que eu estava lá, ouvi uma voz, uma voz muito conhecida. Era de Zarah. De algum jeito ela conseguia se comunicar comigo. Eu fiquei muito feliz em poder ouvir sua voz e aliviado por ela estar a salvo. Mas ao mesmo tempo triste, por que não podia tê-la por perto. Indaguei-a sobre esta capacidade de se comunicar comigo. Este tipo de conversa normalmente é feito por druidas. Ela me disse que Bernardo lhe passou todos os ensinamentos assim que o bebê nasceu. Ele temia que o irmão o destruísse antes que sua filha chegasse à idade de aprender as magias e feitiços. Caso ele fosse pego seus poderes estariam perdidos para sempre, assim como ocorreria com seu pai, se não o tivesse encontrado em Bonito um ano antes.
- Nossa! – encolhi-me na cadeira e abracei os joelhos, mordiscando-os.
O Leprechaun deu-me uma olhadela e levantou a sobrancelha direita.
- Além de conseguirmos conversar por pensamento eu era capaz de ver com seus olhos. Tudo o que ela estava vendo eu também conseguia ver. Ela tentou me mostrar onde estava aprisionada mas eu não conseguia distinguir o lugar, eu nunca estive lá e ela não tinha a menor idéia de como era por fora. Eles foram aprisionados juntos, Zarah e Bernardo, ela me contou que sabia onde sua filha estava escondida e me pediu para tomar conta dela. A menina estava escondida na mesma cidade que Bernardo havia sido levado quando bebê, ele a levou para a família que o tinha criado e a deixou com sua irmã adotiva. A irmã dele chama-se Valentina.
- Não! Não, não, não, não, não pode ser! Este é o nome da minha mãe! Então... Isso... Eu... Não! – sacudi a cabeça. Comecei a hiperventilar, tudo girou, nublou e, de repente, ficou preto.
- Vamos lá mocinha, temos muito a fazer agora que você já sabe que é a herdeira, temos que ir ao encontro de Valentina, você precisa pegar a primeira pista, que está com ela. – novamente me levantando do chão num só mexer de mãos.
- Pista? Pista para quê? – tudo estava embaçado diante de meus olhos.
- Seu pai é um homem muito esperto Zarah, ele viu na mente de seu tio para onde havia mandado sua mãe e, antes de voltar ao reino, deixou pistas para que você mesma pudesse salvá-la, caso ele morresse.
- Mas por que ele não diz a você onde estão? É bem mais fácil que eu ter que pirar meu cabeção procurando por pistas, eu sou péssima nisso! – depois eu que sou a lerda.
- Eu iria chegar aí – estava muito impaciente agora. – Há um feitiço que não permite que falem onde estão, mesmo que alguém possa conversar com eles. Todas as vezes que tentam dizer, sua voz some um pouco e as palavras saem retorcidas, como se estivessem falando dentro de uma garrafa.
- Então vamos! – eu estava decidida – mas, espere um pouco! Nós temos que ir para Bonito, pegar a pista, traduzi-la e pronto? Simples assim?
- Não exatamente, se eu conheço bem seu pai as pistas não serão muito fáceis de decifrar, já que ele não queria que você voltasse ao reino tão cedo, pelo menos enquanto ainda não estivesse ganho seus poderes. Além de ele estar proibido de dizer ou escrever o nome do lugar. Não poderia simplesmente pegar uma folha e deixar para que Valentina entregasse a você em seu décimo oitavo aniversário, quando ganharia os poderes e conseguiria atravessar o portal sem alertar todas as criaturas mágicas que vivem ao seu redor protegendo-o de humanos curiosos.
Levantei-me da cadeira num pulo e coloquei-me em pé.
Precisava reservar duas passagens no primeiro ônibus que fosse a Bonito agora de manhã. Abri a porta do quarto e lá estava ela, parada atrás da porta escutando a nossa conversa. Levei um susto tão grande que caí sentada na cadeira novamente. Seus olhos estavam arregalados como se estivesse vendo a própria morte, de tão aterrorizada, ela nem sequer se mexeu um milímetro do lugar onde estava, continuou a me olhar com aqueles olhos castanhos e arregalados como se eu estivesse indo para a forca.
- Tayla, você está bem? – perguntei ainda mantendo certa distância.
- Você... É... Ele... – ela estava tão apavorada que não conseguiu formar sequer uma frase.
- Tayla sente-se aqui – levantei-me da cadeira e a coloquei em meu lugar – você está pálida laranjinha, tente se decompor. - precisava passar um ar de calma para ela, apesar de estar gritando enfurecida, por dentro, ela precisava que eu estivesse calma, naquele momento.
– O que exatamente você escutou? Desde quando estava atrás da porta?
Respirou fundo, agora conseguindo se controlar e já um pouco corada.
– Eu levantei-me para tomar água e vi que você ainda não tinha acordado. Fui até sua porta e quando levantei a mão para bater e te avisar que estava atrasada ouvi uma voz estranha. Fiquei com medo e decidi te chamar, mas a voz lhe perguntou algo muito estranho, o nome de sua mãe, você demorou um pouco a responder e quando o fez disse seu próprio nome. Eu achei aquilo muito estranho, depois ele perguntou como você sabia de tudo então você contou-lhe da nossa mãe e que você é... adotada.
Tayla estava muito perdida em toda aquela história, afinal ninguém, além de mim e papai, sabia que eu sou adotada. Eu mesma fiquei sabendo por acaso quando ouvi uma discussão deles, onde meu pai dizia a ela que eu precisava saber de toda a verdade enquanto ainda era pequena.
Valentina nunca se acostumou à idéia e prefere não falar a ninguém sobre isto, portanto para todos os moradores da cidade eu sou sua filha legítima assim como Tayla e Cadu.
Não foi muito difícil para Valentina convencer as pessoas de sua gravidez,por que quando me encontrou havia acabado de chegar de Campo Grande, onde morou dez meses com meu pai, antes de convencê-lo a mudar-se para Bonito. Eles tinham acabado de chegar à pousada e ela estava no banho, quando saiu do banheiro eu já estava lá, em cima de sua cama. Eles decidiram que ficariam comigo depois dela ter lido a carta que meu pai deixou comigo, que ela pensa ser de minha mãe.
Agora, sabendo de toda a história, uma pergunta ficou martelando em minha cabeça.
- Por que ele assinou o nome de minha mãe no fim da carta endereçada a Valentina? – perguntei, tentando entender toda esta loucura que minha vida havia se tornado.
- Simples menina, você queria o que, que ele assinasse “Bernardo”? Não sei se você se lembra, mas ele é o irmão adotivo dela, o que sumiu! Decidiu colocar o nome de Zarah para não levantar suspeita alguma, nunca. – realmente meu pai era um gênio, é uma pena eu não ter puxado esta qualidade dele, com certeza facilitaria muito as coisas na hora de traduzir as pistas.
- Você ouviu a história inteira Tayla? – agora me virando para encará-la.
- Sim, toda, e se for mesmo verdade tudo isto eu quero ir junto com vocês! Não perco essa aventura por nada no mundo. – disse toda animada enquanto levantava-se da cadeira sem se conter de animação.
- Acho melhor não Tah, você só nos atrapalharia estando lá! – não mesmo, ela está pensando o que, que nós estamos indo para a Disney? Isto não é um passeio, eu nem sei se vou correr perigos enquanto estiver traduzindo as pistas, ela está louca quando pensou em ir conosco.
- Eu vou com vocês e ponto final! – respondeu nervosa, batendo os pés ao terminar a frase.
- Não, ela não pode entrar nos limites do reino sem ter sido convidada, vão fazê-la perder a consciência caso encontrem-na, nenhum humano é autorizado a por os pés lá. Todos os que passaram pelo anel mágico de Aine nunca mais voltaram a si ou recobraram a consciência.
- Viu? – perguntei desafiando-a desta vez, por esta ela não esperava e com certeza ela não discutiria com ele.
- Eu vou com vocês até Bonito, pelo menos. Não ficarei aqui sozinha enquanto você se aventura mundo afora. – ela é rápida nas respostas.
- Tudo bem então, fica aqui com ele que eu vou tomar banho, escovar os dentes e depois ligar para a rodoviária e reservar três passagens. Enquanto isto vai arrumando as malas. – abri a porta do meu guarda roupa. Peguei uma calça jeans e uma blusa de abotoar xadrez e corri para o banheiro. Tomei o banho mais rápido que pude. Saí de lá e fui para sala pegar o telefone. Voltei ao meu quarto e procurei minha agenda, onde estava marcado o número da rodoviária.
- Por que nós temos que desperdiçar tanto tempo dentro de um ônibus? Eles são muito lentos. – reclamou o pequeno homem.
- Por que, a não ser que você tenha um jatinho particular te esperando lá embaixo, este é o nosso único meio de chegar a Bonito. – será que ele ainda não percebeu que eu não tenho um carro? Que pergunta mais idiota esta que ele fez, ele sabe muito bem que eu ainda não tenho licença para dirigir mesmo que tivesse um.
- Eu não tenho um jatinho, mas eu tenho uma amiga que nos levaria até lá em menos de uma hora. – um sorriso imenso inundou seu rosto.
- Que amiga? Ela tem um jatinho? Com certeza isto muda tudo em! – empolgação, isto estava visível em meu rosto.
- Você! – seu sorriso tocou todos os músculos de sua face. – Você pode nos levar até lá em menos de uma hora, você acaba de fazer dezoito anos então seus poderes já estão totalmente formados e prontos, apenas esperando o momento em que você irá usá-los.
- Então eu posso fazer a gente aparecer lá como num passe de mágica? – estralei meus dedos como os mágicos fazem nos shows.
- Não é disto que eu estou falando. Você pode nos levar até lá voando!
- Não, definitivamente não posso! – só podia ser brincadeira.
- Por que não? Você agora tem poderes, é só concentrar-se. – ele estava me encorajando, mas em nada iria adiantar.
- Que ótimo! Era só o que me faltava. – Tayla soltou entre os dentes, enfurecida de raiva.
- O que foi? – ele perguntou se virando para olhá-la. – O que eu disse de errado?
- Zarah tem fobia de altura, é isso! Ela nem sequer chega à sacada do apartamento! –senti dois pares de olhos em minha direção enquanto mantinha a cabeça abaixada e me lembrava como respirar.
- Estamos fritos! – sentou-se em minha cama e deu uma bufada jogando os ombros à frente em sinal de derrota.
- Vamos ter que ir de ônibus, lá se vai cinqüenta reais. – seu olhar dançava entre dois sentimentos, desapontamento e pesar.
- Não temos tempo a perder indo de ônibus, ela precisa tentar! – ele estava irritado agora, com certeza não contava com esta minha covardia.
- Eu não quero tentar, não vou, por favor, não me obrigue a fazer isto! – eu estava implorando desesperadamente. Meus olhos umedeceram e algumas lágrimas tocaram minhas bochechas. Eu realmente estava desesperada e fora de controle.
- Você não é obrigada a tentar Zarah, você só vai quando achar que está pronta. – Tayla me abraçou enquanto falava, ela sabia que eu havia entrado em pânico.
- Tudo bem, eu já estava contando com isto, eu tenho outro plano.
– “Eu tenho outro plano?” Então porque você me deixou desesperar deste jeito se você tem outro plano? Por que não falou antes seu Leprechaun de uma figa? – eu realmente estava fora de controle agora. Tentando lembrar como respiram e falar ao mesmo tempo.
- Por que o plano B é consideravelmente maior que você, caso algum humano esteja olhando para o céu quando chegarmos a Bonito, com certeza estaremos encrencados.
- Não importa o quão encrencados ficaremos caso isto aconteça, o plano B é melhor que o A. – minha calma começando a voltar – A propósito, qual o plano B? – minha curiosidade saltando de tão grande.
- Antes eu preciso te contar uma história. Mas prometo que esta é bem curta. – disse enquanto arrumava-se na cama
Será que para todas as minhas perguntas as respostas são em forma de histórias? Eu, sinceramente, espero que não.
– Quando a filha ou filho primogênito de um rei nasce, é costume seu pai presenteá-lo com uma criatura mágica que a protegerá a qualquer custo e estará ligada a ela para sempre. Esta criatura desenvolve um sentimento afetivo pelo bebê maior até que o amor, ela fará de tudo para mantê-lo a salvo e estará onde a mandar em questão de minutos. Quando você nasceu, seu pai a presenteou com Kika, uma um Grifo, parte fênix, parte leão, já que você um dia será a rainha do sol e do fogo, e a parte fênix faz com que ele seja imune ao fogo. – deu-me uma olhada e continuou a falar. – deu-me uma olhada e continuou a falar. - Costumavam dormirem juntas, e você só pegava no sono quando se aninhava debaixo de suas asas. Nasceram no mesmo dia, hoje ela também completa dezoito anos, apesar de ser consideravelmente maior que você. Vocês não se separavam nenhum segundo sequer, apenas quando ela saía para caçar, mas voltava assim que ouvia seu choro.
- Eu tenho um Grifo? – eu realmente não acredito nisso. Como alguém pode ter um Grifo? A única pessoa que eu sei que te um é o Hagrid, do Harry Potter, e ele nem mesmo é real. Na verdade eu acho que era um hipogrifo, mas isto não muda nada, ainda parece uma grande loucura.
- Sim, e ela já não agüenta mais de saudades suas, me incomoda todos os dias, desde que descobriu que eu te visito durante as noites, querendo que eu a trouxesse junto. Ela é uma ave impossível de lidar, tem o mesmo gênio que você, quando enfia algo na cabeça não há nada que a faça mudar de idéia. – ele sorria enquanto olhava em direção à janela.
- O que foi? – saí de onde estava e fui à direção à janela, para ver o que ele estava olhando. Não havia nada ali, ele apenas olhava as nuvens, o sol, os pássaros, nada em especial.
- Então, você não vai chamá-la? Precisamos sair logo daqui. – senti seu olhar penetrar em meus olhos enquanto falava.
- Por que você não a chama? Você a conhece melhor, eu não saberia como fazer.
- Eu não posso chamá-la, ela é capaz de escutar apenas sua voz na distância em que está, e de mais ninguém.
- Mas como eu faço para ela me ouvir, dou um grito bem alto?
- Não, basta pensar em seu nome que ela ouvirá de onde quer que esteja.
- Tudo bem, isto parece fácil. – fechei meus olhos e menos de um segundo depois, ainda com eles fechados, perguntei – Como é mesmo o nome dela? – me concentrei esperando ele responder.
Sua voz estava perto do meu ouvido agora, ele havia ficado em pé na cama e calmamente se inclinou para sussurrar o nome. – Kika, sua mãe colocou este nome nela para que você conseguisse chamá-la desde pequena, quando precisasse, por ser um nome fácil de pronunciar.
Eles pensaram em tudo mesmo, não deixaram passar nada. Meu pai com as dicas e minha mãe com esta facilidade do nome do Grifo.
Apertei meus olhos o máximo possível e pensei bem alto seu nome, repetindo muitas e muitas vezes para ter certeza que ela me veria com clareza. Fiquei algum tempo de olhos fechados pensando em meu prédio, a rua, a cidade, para facilitar que ela me localizasse, não custa nada ajudá-la já que ela está tão longe. Quando abri meus olhos eles estavam um pouco embaçados pelo fato de eu tê-los forçado, olhei para Tayla, mas ela estava paralisada olhando em direção à janela, como uma estátua de pedra. Segui seu olhar tentando entender o que havia do lado de fora e quando encontrei todos os pêlos do meu corpo se arrepiaram. Era enorme, muito grande mesmo, e estava aqui na minha frente, linda e flamejante, Kika. Com certeza ela tem pelo menos três metros de altura e seis de comprimento. Seus olhos são tão suaves como os de uma criança, mas ameaçadores ao mesmo tempo. Seu bico que parecia estar num sorriso, é levemente mais escuro que o tom de suas penas. Em seu pescoço havia mais de dez tons que variavam entre o ouro e o laranja, como uma fogueira, porém mais brilhante viva. Seus pés são, aparentemente, delicados e mortais, pois apesar do tamanho são brilhantes como suas penas e da mesma cor do bico. É simplesmente impossível acreditar que exista um pássaro assim, é como estar dentro de um livro de magia onde as coisas mais impossíveis acontecem.
- Isto está errado, as lendas dizem que o Grifo é um pássaro negro mais parecido com um urubu, sujo e agoureiro e não esta linda ave flamejante! – Tayla ainda estava impressionada, seus olhos estavam inquietos, ora em Kika, ora no Leprechaun. Com certeza esperando alguma explicação.
- O Grifo que você ouviu falar realmente existe, mas há mais de um tipo diferente delas, a de fogo, como Kika, são protetoras e as negras agoureiras. – o pequeno homem fez gestos como quem explica algo a uma criança de dois anos de idade, todas as palavras saíram devagar e num tom médio, para que não houvesse mais questionamentos.
- Ah, é que as lendas nunca falam dela. A propósito, aonde ela vai “estacionar” para que possamos subir? – disse a palavra fazendo gestos de aspas com o indicador e o dedo médio das duas mãos.
- Para começar ela não “estaciona” – fez um sinal copiando-a ao dizer a mesma palavra. – não estamos falando de um carro e sim de um Grifo. E para terminar, vamos subir daqui mesmo. – apontou à janela.
- Não há como, ou você não percebeu que há uma tela aí na janela? – Tayla disse desafiando-o.
- Francamente, menina, você nunca leu sobre os poderes dos Leprechauns? Aparentemente não. Vou te dar uma breve explicação, sou capaz de fazer com que ela suma sem nem precisar mover meus dedos. – orgulhoso de si mesmo, olhando em minha direção com ar de superioridade enquanto movia-se em direção à janela.
- Ow, ow, ow, espera aí! – eu disse pegando em seu braço – Você sabe quanto custou para colocar esta tela aí? Eu não quero ter que pagar por uma nova quando voltar... De... Ah, sei lá, de onde formos. – até parece que eu o deixaria acabar com minha tela, já pensou se, ao voltarmos, eu tenho um ataque de sonambulismo e decido pular? Minha mãe mandou colocá-la justamente para evitar acidentes.
Ele fingiu nem escutar o que eu disse livrando seu braço, com muita facilidade, do aperto de minhas mãos e virou-se novamente à janela. Na hora em que se virou em minha direção para de me encarar depois da tela desaparecer. Aconteceu tudo tão rápido e ao mesmo tempo que fiquei impressionada, permaneci imóvel e boquiaberta. Por alguns segundos fui incapaz de lembrar-me de como fechar a boca. Tentei me lembrar de ter visto, mesmo que por menos de um segundo, a tela sumindo, mas eu realmente não consegui enxergar.
- Agora que não há nada nos impedindo que tal se vocês se apressarem e pegarem logo mala para sairmos daqui o mais rápido possível, antes que alguém veja Kika? – estava um pouco mais irritado que o normal enquanto apontava à mala em cima do meu armário e falava.
- Você não acha melhor nós esperarmos ela estar no chão para subirmos? Não estamos acostumadas a este tipo de aventura, sabe. E com a sorte que tenho é provável que eu caia daqui de cima ao tentar subir nela. – eu estava com muito medo, muito mesmo, será que ninguém aqui neste quarto se lembra mais do meu pânico de altura?
- Você não vai cair Zarah, ela nunca deixaria que isto acontecesse. Tente ficar calma e não pensar na altura ou olhar para baixo enquanto estivermos voando, e lembre-se que seus sentimentos estão diretamente ligados aos dela. Se você entrar em pânico, automaticamente ela também entrará, e te garanto que não é nem um pouco agradável vê-la fora de controle em pleno vôo. – sua voz estava calma e paternal, com certeza ele estava tentando evitar que eu perdesse o controle e me recusasse a subir em Kika. Mas ele está completamente errado se pensou que eu sou capaz de deixar que um medo idiota me impeça de salvar meus pais.
- Tudo bem, mas você sobe primeiro, quero ver como faz, afinal não estamos acostumadas a este tipo de meio de transporte. – tentei imitar o tom de meu pai quando nos manda fazer algo. Deu certo.
- Eu vou primeiro então, mas não demorem a subir, por favor. – num pequeno salto ficou em pé na janela e se curvou até encostar a mão esquerda na asa de Kika, ela a esticou o máximo que pôde, então poucos segundos depois ele já estava sentado, próximo ao seu pescoço, nos esperando.
Olhei para Tayla com receio de que seu rosto me mostrasse algo que eu não queria ver. Medo. Ou que ela me olhasse pedindo para não subir em Kika.
Para minha surpresa, havia um sorriso enorme em seu rosto, ela estava olhando para o enorme pássaro do lado de fora de minha janela como se fosse um prêmio de loteria, seus olhos brilhavam de entusiasmo enquanto seus olhos percorriam cara centímetro do enorme pássaro. Senti um alívio imediato, todos os meus músculos relaxaram então pude perceber o quão tensa estava. Logo em seguida senti um gelo percorrendo minha espinha e todos os meus pêlos arrepiaram, afinal, o maldito pânico de altura não estaria curado assim que eu subisse na ave e sim pioraria, eu tenho certeza absoluta disto, sem contar que não me alegra em nada a idéia de estar sobrevoando várias cidades a sabem-se lá quantos metros de altura.
- Eu vou primeiro! – Tayla realmente estava animada com a idéia. Subiu em minha cama e foi em direção à janela com uma mala em mãos, jogou-a em direção à Kika para que o Leprechaum pegasse e passou uma perna de cada vez até que se encontrasse sentada à beira da janela.
- Você não precisa fazer isto Tayla, nós ainda podemos ir de ônibus, não precisa bancar a corajosa! – disse enquanto puxava sua camiseta com a mão esquerda enquanto a outra segurava um de seus braços. Eu estava literalmente tremendo de medo enquanto a impedia de se jogar a esta aventura louca e inconseqüente.
- Zarah, dá pra me soltar? Assim eu vou acabar caindo daqui. – segurando minha mão que estava apertando levemente seu braço, tentando se livrar de mim.
– Depois que eu estiver lá conte até três, sem olhar para baixo e faça o mesmo que fiz. – agora totalmente livre de minhas mãos ela ficou em pé na janela e se jogou em direção ao enorme pássaro.
Quando já estava seguramente sentada, um pouco atrás do Leprechaum, deu uma boa olhada ao redor seguida de um sorriso enorme e estonteante mostrando todos os dentes.
– Agora é sua vez, concentre-se e não olhe para baixo. – esticou uma das mãos e fez um sinal para que eu a acompanhasse.
Subi em minha cama muito devagar, tomando muito cuidado para não olhar para baixo, sentei-me à janela imitando seus movimentos. Segurei-me à lateral da janela até conseguir ficar em pé enquanto tentava me equilibrar. Impossível manter minhas pernas firmes ali, eu tremia mais que uma vara verde e meus pés não me obedeciam, por mais que eu dissesse repetidas vezes em minha cabeça: “você não está com medo, você não está com medo!”. Mas não adiantou em nada.
Ainda sem olhar para baixo, foquei-me apenas em não cair e inclinei-me poucos graus à frente até conseguir tocar a ponta de meus dedos trêmulos na asa de Kika.
Minhas pernas, agora, estavam tremendo muito mais que antes e não podia senti-las direito. Mas mesmo sem poder controlá-las fechei meus olhos e saltei em direção à ave enquanto sentia meu coração disparar, o sangue gelar e meus pés e mãos formigarem.
Por alguns segundos permaneci sem abrir meus olhos apenas esperando sentir o calor de Kika sob mim. Suas penas são tão delicadas e macias que a sensação é de estar sentada em milhares de plumas.
Apesar da sensação de conforto, ainda não estava preparada para abrir meus olhos e permaneci imóvel por o que me pareceu alguns minutos, temendo entrar em pânico e estragar tudo.
Senti um vento gelado tocar meu rosto bagunçando meu cabelo, deixando um pedaço de minha franja fazer cócegas nas maçãs de meu rosto, me fazendo dar um sorriso trêmulo e tremer de frio ao mesmo tempo. Quando finalmente tomei coragem para abrir os olhos não pude acreditar no que vi. Todos os prédios eram como pequenos quadrados e retângulos aglomerados em alguns pontos da cidade e escassos em outros, as ruas pareciam como as que eu desenhava na terra quando criança, apenas uma linha.
Eu estava inacreditavelmente maravilhada com a vista, sem conseguir tirar os olhos da cidade que ia, aos poucos, sumindo do meu campo de visão e dando espaço às fazendas de gado e às plantações. As cores são tão vivas e intensas que se tornam impossivelmente admiráveis, vários tons de verde se mesclam a alguns pontinhos brancos nas fazendas.
Vesti o casaco que havia amarado à cintura enquanto lembrava-me de um detalhe muito importante desta viagem, algo essencial para mim.
- Você lembrou-se de pegar minha câmera fotográfica? – perguntei à Tayla sem mover meus olhos da paisagem. – Eu queria tirar algumas fotos, este é o lugar perfeito, com certeza, olha este céu! – eu estava maravilhada com tudo aquilo. Fiquei até um pouco perdida sem saber para onde olhar. Tudo é tão lindo e impossivelmente perfeito. Nem em meus melhores sonhos havia um lugar assim.
- O que seria da você sem mim em Zah? – disse numa voz divertida enquanto abria minha bolsa e tirava minha máquina de lá. – Eu sabia que você ficaria louca em ver esta paisagem sem poder tirar fotos!
- Realmente Tah, o que seria de mim sem você? – peguei minha máquina de suas mãos, a liguei e comecei a tirar fotos sem parar. Quem sabe quando terei outra oportunidade dessas, melhor não desperdiçar.
- Que bom você estar aproveitando o passeio Grania, eu ficaria magoada se você continuasse em pânico, isto quer dizer que confia em mim. – uma voz graciosa e conhecida, como um soar de sinos, uma voz que eu não escuto há muito tempo, disse baixinho.
- Grania? Quem disse isso? – eu estava olhando para Tayla e o Leprechaum alternadas vezes esperando uma resposta.
Os dois olharam um para o outro e logo em seguida para Kika, Tayla apontou o dedo na direção da ave e apenas com um mexer de lábios sem som disse “ela”.
- Você não deve se lembrar do som de minha voz, eu já esperava por isto. – sua voz de sinos estava triste agora.
- Na verdade eu me lembro vagamente de sua voz Kika. É que demorou algum tempo para me lembrar de onde a conhecia. Desculpe-me, eu não pretendia te magoar. – eu realmente sinto muito. Inclinei-me, enquanto falava, até que minha bochecha esquerda estivesse totalmente coberta por suas penas. Eu não tenho culpa de não tê-la reconhecido, afinal a última vez que a ouvi deveria ter apenas um mês de vida.
Esta é a melhor sensação que eu já tive, a de estar protegida e saber que nada de mal me acontecerá. Continuei aninhada em suas penas enquanto passava meus dedos levemente na linda plumagem de seda e admirava o céu.
Alguns flashes de uma memória embaçada e escura apareceram diante de meus olhos. Na memória uma pequena e desajeitada ave vinha em minha direção e empurrava levemente meus braços para cima enquanto esfregava seu bico em minha barriga tentando fazer cócegas.
- Quem é Grania? – perguntei com a voz abafada pelas plumas douradas.
- Você! Este é o nome que sua mãe escolheu, quer dizer amada. Mas se você preferir eu posso te chamar pelo nome humano. – disse calmamente com a voz feito soar de sinos.
- Pode me chamar como quiser! – dei uma pausa, levantei minha cabeça e olhei em sua direção. – Mas Grania é um nome tão feio, parece gralha, não parece? Não gostei muito dele. Acho melhor você me chamar de Zarah mesmo. – ela olhou em minha direção e pareceu que por um momento um sorriso tocou seu bico, um sorriso divertido.
- Como você quiser Zarah! – disse numa voz divertida e calma.
Permaneci na mesma posição durante alguns segundos olhando apenas as nuvens que mudavam de forma constantemente. De repente vi algo se mexer entre uma delas.
- O que é aquilo? – apontei o dedo em direção a uma enorme nuvem.
- O que? – perguntou Tayla segundo meu olhar.
- “Aquilo”- disse o Leprechaun numa voz irritada com o meu descaso - são seres protetores do céu, eles têm o poder de controlar o tempo, assim como você, mas também protegem as aves.
- O que? – perguntou Tayla novamente.
- Aqueles seres de pele azulada e atrás daquela nuvem maior. – disse apontando o dedo novamente.
- Ela não pode vê-los Zarah, é uma humana, a não ser que eles deixem que isto aconteça, ela não conseguirá vê-los.
- Nossa, eles são... Lindos! – faltava-me fôlego. A frase saiu tremida no final, apenas um suspiro.
- Diga a eles para me deixarem ver! – exclamou numa voz melodiosa.
Fixei meus olhos no Leprechaun esperando uma resposta à exclamação de Tayla.
- Eu não posso, eles precisam saber sobre você para que os veja. – disse calmamente olhando-a nos olhos.
- Mas por que Zarah pode vê-los? Eles também não a conhecem.
- Lógico eles que a conhecem, todos os Sidh sabem quem ela é. E estes aqui cuidam dela para mim durante o dia, quando estou do outro lado do anel.
Virei meu rosto para olhá-los novamente. Eles são tão delicados que apenas um grito, aparentemente, seria capaz de parti-los ao meio. Seus rostos têm traços delicados e finos, como o resto do corpo. Era dois, um homem, num tom de pele muito claro. A musculatura do corpo aparente em seus braços nus, vestido como as estátuas de Deuses Gregos, os cabelos loiro-claros quase brancos, os olhos negros da cor dos meus e magro, mas musculoso ao mesmo tempo, com enormes asas brancas começando pouco abaixo dos ombros e só acabando ao tocar de seus pés. O outro era uma mulher, no mesmo tom de pele dele, mais baixa e esguia, um corpo perfeitamente moldado como de uma modelo. Cabelos também loiros, ligeiramente mais escuros que do homem, levemente enrolados até a altura de seu quadril. Lembra muito a beleza da Deusa Afrodite.
Ambos, irritantemente perfeitos, estavam parados, praticamente imóveis há alguns metros de distância de nós.
- Eles ficam ali parados o dia inteiro? – perguntei sem desviar meus olhos.
- Não Gran... Zarah, eles precisam ficar de olho em tudo o que acontece aqui em cima, movimentando-se para todo o lado, como fazem os pássaros. – disse Kika calmamente tentando me fazer entender.
- Podemos chegar mais perto? Eu posso falar com eles? – perguntei sem mudar o foco de meus olhos.
- Pode, mas... – pensou durante alguns segundos – o que você pretende dizer a eles? – perguntou curiosa.
- Na verdade não sei, dizer olá talvez?
- Podemos? – virou o pescoço em direção ao Leprechaun.
- Claro, não vejo problema algum. Estamos quase chegando mesmo.
Kika inclinou-se à esquerda, em direção à nuvem e pousou em cima da mesma.
- Como pode fazer isto? É impossível! – Tayla arregalava os olhos olhando para baixo.
- Nada é impossível para nós! - disse o Leprechaun levantando uma das sobrancelhas e tocando num pedaço da nuvem.
- Olá Grania! – as personificações de Deuses Gregos disseram em coro, abaixando-se como os plebeus fazer às rainhas em filmes antigos.
Fiquei envergonhada pela saudação e por ficar assim tão perto deles. Como poderia existir seres tão perfeitos como estes? São ainda mais lindos e intimidadores, de perto.
- Não precisam fazer isto! – disse corando de vergonha.
- Oi! – disse Tayla, olhando na mesma direção que meus olhos estavam, mas parecendo uma cega, passando-os por cima da cabeça deles. – Eu sou Tayla, irmã da Zarah Grania! – sorriu com a piadinha, estendeu uma das mãos, cumprimentando-os.
- O que você está fazendo? – perguntei irritada.
- Me apresentando. – numa voz tranqüila – Não é assim que poderei vê-los?
Os dois se olharam e sorriram de sua expressão divertida.
- Olá! Meu nome é Fingal - disse o homem, estendendo a mão até tocar a de Tayla.
- Meu Deus do Céu! – exclamou perplexa – Você parece um Deus Grego! Só que azulado, ao invés do tom de mármore, e na versão Cupido. – disse piscando sem parar e encarando-o e sacudindo a mão que os unia, sem parar.
- Você é tão espontânea! – divertiu-se com o entusiasmo exagerado dela.
- Eu sou Bridget! – disse a mulher, libertando a mão do homem, colocando-se à frente, entre ele e Tayla.
- Oi! – disse Tayla – Minha nossa, você se parece às mulheres das revistas de moda que eu compro.
- Mas você, você ganha de qualquer homem que eu já vi na internet, naqueles sites de top 10 das pessoas mais bonitas do mundo. – disse virando-se para olhar o Deus Grego.
Como pode ser tão ingênua e boca grande ao mesmo tempo? Será que ela não percebeu o ciúme da mulher azulada ali?
- Tayla, menos ta? Muito menos! – alertei-a
- O que eu fiz? – agora seus olhos estavam na mulher.
- Você não está com ciúme. Está? Por que se estiver pode ficar tranqüila, eu sou muito jovem para ele!
- Acho melhor irmos embora antes que você se complique ainda mais. – disse olhando-a fixamente.
- Am... Obrigada por cuidarem de mim todos estes anos, obrigada mesmo. – disse envergonhada. É praticamente impossível não sentir desconforto ao dirigir a palavra aos dois. – Nem sei como agradecer. – disse olhando à mulher.
- Não fizemos nada além do nosso dever. – disse a mulher num sorriso impossivelmente brilhante e intimidador.
- Desculpem pelo comportamento de minha irmã, ela não está acostumada a segurar a língua, nem a pessoas bonitas – disse num sorriso amarelo de vergonha, olhando em direção à Tayla. Ela me mostrou a língua e desviou o olhar para Kika.
Os dois riram e concordaram. Não sei se riram do meu desconforto ou de Tayla e sua boca grande.
- Você pode nos agradecer encontrando seus pais o mais rápido que puder. – disse o homem.
- Prometo tentar. – disse apertando meu camafeu com a mão esquerda, como faço sempre que estou preocupada.
- Podemos ir agora? – disse o Leprechaun quando desviei meu olhar dos dois seres perfeitos.
- Sim.
- Tudo bem. Segurem-se! – disse Kika
- Até mais! – acenei sem olhar, ainda envergonhada.
Tayla ficou emburrada, o resto da “viagem”, pelo que eu falei a ela na nuvem. Falava somente com Kika, perguntando sobre sua dieta, se comia insetos, amimais grandes, pequenos, folhas e flores, como é o reino e tudo o que lhe vinha à cabeça.
Kika respondeu todas as perguntas com calma e interesse. Ela estava se dando melhor com Tayla que comigo. Mas é só questão de tempo, até eu me acostumar com ela e começar a conversar. Eu geralmente demoro algum tempo para puxar assunto com pessoas que acabei de conhecer.
– Todos se segurem agora, não quero perder nenhum de vocês, vamos aterrissar!
Senti um frio tocar todos os meus músculos e enrijecê-los, apertei minhas mãos segurando ainda mais forte nas penas de Kika e fechei os olhos evitando entrar em pânico com a descida brusca e o aumento da velocidade em que os ventos gelados tocavam meu rosto.
Kika fez uma ótima aterrissagem levando em consideração sua carga extra, duas garotas de cinqüenta quilos, e um leprechaum de pouco mais de quarenta centímetros um pouco acima do peso. Mas pelo seu tamanho e a impecável aterrissagem, com certeza era como uma pessoa carregando uma mochila escolar com materiais dentro, nada consideravelmente pesado.

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Cap. 1 Inferno Astral

12 de Março de 2009, quinta feira, um dia antes do dia menos esperado do ano, pra mim. Meu décimo oitavo aniversário.
Isso é bom, pensando no fato de que eu poderei finalmente dirigir, não precisarei de autorizações ou assinaturas dos meus pais caso queira viajar ou algo assim, mas me preocupa um pouco a idéia de ser presa. Não que eu pense em fazer coisas erradas, e sim por ser um ímã para desastres. Eu estou sempre na hora e no lugar errado. Não me admira em nada que amanhã seja sexta feira treze. O meu azar pessoal.
Eu sempre pensei em aniversário como uma data inventada por uma pessoa que precisava ter toda a atenção pra si durante um dia inteiro. Para mim é a pior data do ano. É o dia em que, não importa o quanto eu tenha dito para meus pais que não queria uma festa, e para meus amigos a data errada, eles sempre descobrem e a festa acaba acontecendo. E, para minha perfeita derrota, eu sou o centro das atenções durante toda a noite.
Meu dia começou anormal, pra variar.
-Zarah acorda! Eu não vou te chamar de novo!- ouvi uma voz muito baixa e irritada, longe, no fundo da minha cabeça. – Acorda logo sua sonâmbula loca! Zarah! Eu sei que você está me escutando. Pode abrir logo esses olhos.
Reconheci a voz.
Abri meus olhos e vi aquela coisinha laranja e sardenta com um copo de água gelada na mão prestes a jogá-lo em mim. – Vai Zarah, acorda!- fez soar em tom melancólico.
- Só mais cinco minutos, Tayla. – pedi, numa voz rouca de sono.
- Zarah, você já está atrasada. Acorda aí que eu vou tomar meu café da manhã. Se quando eu terminar você ainda estiver aí... – respirou fundo - Ah, você verá uma coisa! - se afastou - Eu venho, não com um copo, e sim com uma jarra de água pra tacar em você! – a voz muito irritada, mas sempre com aquela pontada de maternidade.
Isto é engraçado, eu sou a mais velha, era para eu estar acordando-a e não o contrário.
– Já acordei sua tampinha maldita! – falei tentando limpar minha voz, mas com os olhos ainda fechados.
- Então porque seus olhos estão grudados ainda?- usou o polegar e o indicador, tentando abri-los.
- Por que eu não quero ver essa sua cara branca e enferrujada, mané! – respondi já de saco cheio.
- Até parece que só a minha cara tem sarda aqui. - deu uma pausa e continuou com uma voz de zombaria - E pelo menos eu não acordo parecendo um leão escabelado. Olha isso! – senti seus dedos passando no meio da minha cabeça esparramando ainda mais meu cabelo.
- Sai do meu quarto, garota mané. Vai achar o que fazer! Pular de um poço ou qualquer coisa do tipo.
Tayla se afastou, sacudiu mais uma vez meus ombros, só para não perder a oportunidade de me irritar e saiu resmungando por entre os dentes.
– Isso está errado. Eu sou a mais nova! – entrou na cozinha e disse em voz alta – eu que sou a mané?Com certeza não! Acho melhor você dar uma olhada de onde você está dormindo! – disse no mesmo tom de voz que usa quando me conta que venceu no Guitar Hero.
Era o tom de vitória. Ela sabia que tinha ganhado essa.
- Ai não! – eu, certamente, sei onde estou.
Esse sonambulismo ainda vai afetar seriamente o meu psicológico.
Eu morro de medo de um dia sonhar que sou a Mulher Maravilha e decidir pular da sacada. Mas estou um pouco mais despreocupada por que de uns anos pra cá eu tenho conseguido controlá-lo e acordar um pouco antes de fazer alguma burrice.
Hoje, assim como nos últimos 29 dias, acordei na sacada, deitada no chão, abraçada a meu travesseiro e segurando o meu camafeu na mão esquerda.
Quando dei conta de me localizar saí correndo para o meu quarto para ver as horas.
Já prevendo o óbvio ao me ouvir, da cozinha, saindo em disparada para o meu quarto, ela gritou.
– Cuidado com a....
Tarde demais.
Nem deu tempo dela terminar a frase. Trombei meu braço na maçaneta da porta que dividia os quartos do resto do apartamento.
Não sei por que, mas sempre mirei errado o espaço que existe entre meu corpo e os setenta centímetros desta porta estúpida.
Depois de ficar uns dois minutos xingando até a última descendente dessa porta retardada e me perguntar se ela tinha se movimentado de propósito só por que achava divertido me ver com o braço roxo, cortei o monólogo no meio e me foquei no maior dos problemas, estar realmente atrasada.
Do corredor eu ouvi uma risada escandalosa que só podia ter saído dela. Depois que parou de rir e apontar pra mim, disse:
– Ow deixa eu te contar uma coisa! – exclamou
Eu já sabia o que ela iria dizer. Sempre diz isso.
– Tem uma porta aí! - então pegou seu material da mesa da sala, dois cookies e saiu do apartamento.
Um segundo depois de fechar a porta ela a abriu e gritou de lá mesmo – Zah, eu me esqueci de uma coisa! Faz assim – levantou a mão e eu fiz o mesmo –, agora repete comigo: EEEU SOOU...
Já conhecia essa frase.
Abaixei minha mão na mesma hora que ela disse a segunda palavra, peguei a primeira coisa que vi. O controle remoto. Taquei na porta em sua direção, mas ela nem se preocupou em mexer sequer um milímetro de onde estava.
Nos quinze anos de convivência aprendeu que eu, mesmo estando há um metro de distância e posicionada exatamente em sua frente, mesmo assim, seria incapaz de acertá-la.
Tenho uma péssima mira. Sem contar que não tenho coragem suficiente para machucá-la, afinal se trata de minha irmãzinha caçula. Por mais que brigamos o dia inteiro, eu a amo.
É! Eu sou muito mais lerda que imaginava. Sempre caio nessa frase da mão.
Quando entrei no meu quarto tudo estava fora do lugar, minha cadeira branca que não combinava nem um pouco com a escrivaninha preta, estava na frente do armário e de lado para a janela. Tentei lembrar alguma coisa sobre meu “sonho” da noite passada, mas lembrei somente de estar me arrumando pra viajar. Olhei para cima do armário e a minha mala não estava lá. Passei rapidamente meus olhos para todos os lados e a vi aberta, em cima da poltrona, com todas as minhas roupas lá. Meus olhos correram rapidamente para a escrivaninha, com medo de estar vazia, mas para meu alívio ele estava lá, intacto, meu note book, a coisa mais importante na minha vida.
Meu medo não tem nada a ver com eu ser viciada em internet, mas sim porque esse foi o último presente que meu avô me deu, essa coisa pequena, pra mim, tem um valor inestimável. Uma lembrança repentina fez meus pêlos arrepiarem e eu abri a porta do meu armário com muito receio, mas elas estavam lá. Todas as fotos que eu tiro do céu, dentro do portifólio com capa transparente. Minha segunda fraqueza.
Depois de verificar se não faltava nada fui procurar meu relógio para ver se ainda havia tempo.
Já é seis e vinte e isso quer dizer que eu tenho exatamente vinte minutos para estar fora de casa, ou perderei meu ônibus, e o próximo só passa as sete e quinze, ou seja, chegarei à faculdade por volta das sete e cinqüenta, no mínimo vinte minutos atrasada.
Corri até o banheiro para tomar banho e escovar os dentes. Dei uma olhada no espelho ao entrar e vi que Tayla realmente tinha razão. Meu cabelo, que agora estava cortado um pouco acima dos ombros e todo repicado, parece um ninho de pássaro. Um ninho ruivo e armado. Está horrível.
Isto só baixará depois que eu lavar minha cabeça, e já que eu estou atrasada, não fará diferença alguma perder tempo secando-o.
Tomei banho correndo.
Saí do banheiro e antes de colocar minhas roupas olhei no relógio e já era seis e trinta e dois.
- Como posso ter demorado tanto no banheiro? – perguntei em voz alta.
Vesti-me, correndo, coloquei uma calça jeans, blusa branca com desenhos personalizados feitos por mim. Coloquei meu Allstar branco com cadarços rosa e lilás trançados em Checkerboard Lacing.
Quando finalmente terminei de me arrumar, peguei minhas lentes de contato para os ridículos dois graus de miopia e segui ao banheiro para colocá-las.
Depois de tudo pronto peguei meus materiais, abri uma gaveta do meu armário onde ficavam os óculos de sol, outra fraqueza. Peguei um dos meus favoritos, de lentes pretas e armação frontal preta de laterais azuis, estilo Wayfarer e fui correndo para a cozinha, sem bater na porta do corredor desta vez.
Tomei meu café da manhã o mais rápido possível, duas torradas e dois copos de suco de laranja, apesar de não agüentar, mas eu tenho algumas dificuldades em lidar com números ímpares. Se forem duas torradas, têm que ser dois copos de suco. Uma torrada, um suco, tudo exatamente equilibrado em termo de proporções. Mas não é só na comida, que eu aplico essa regra maluca, tem volumes, horários, contagens, enfim, tudo que envolve números, se der ímpar me deixa fora de foco.
Algumas coisas são mais complicadas de consertar, e o tempo que eu levo para encontrar uma solução sempre parece uma eternidade. Mas eu sempre dou meu jeito.
Nas últimas semanas essa é minha rotina. Acordar em lugares estranhos da casa, ter sonhos de viagens, sonhar com o Leprechaun. Ela se repete todo ano, desde meus dez anos de idade. Um mês antes do meu aniversário algo ruim me acontece e tudo vira de cabeça para baixo.
Isso me lembrou uma vez que eu fui tomar um milk shake com uma amiga chamada Natália. Ela me disse que era culpa do meu inferno astral e que era para eu relaxar, pois todo mundo tinha. Mas o meu é mais acentuado, digamos assim, pois eu me meto em roubadas mais frequentemente que as pessoas normais e, esse “inferno” acabaria à meia noite do dia 13, ou seja, meu inferno astral acabaria à meia noite de uma sexta feira treze. Isso definitivamente não mandou meu nervosismo embora. Agora, se foi um truque dela para me acalmar ou se realmente esse “período” existe, eu não sei.
Consegui, finalmente, sair do apartamento as 06h54min. Quatorze minutos atrasada, apesar de já estar pronta para ir para a faculdade desde as 06h50min, tive que ficar esperando na porta, pois só saio de casa em número par e já era cinqüenta e um, comecei a ficar nervosa. Todas as vezes que eu olhava o relógio era ímpar, então tentei me concentrar em não entrar em pânico e deu certo, três minutos depois.
Tentei não pensar nisso.
Andei o mais rápido que pude, não sei para quê, se meu ônibus só passaria no ponto pelo menos quatorze minutos depois de eu estar lá. Deve ser para testar meus pés, já que eles nunca se deram bem correndo ou andando rápido demais. Mas, desta vez, nada aconteceu, eu não caí ou tropecei, uma coisa rara na minha vida. Eu nunca fui capaz de andar mais de duas quadras, razoavelmente rápido, sem cair ou tropeçar. Tudo bem que não são todos os dias que eu me machuco, mas cair, pra mim, sempre foi uma rotina, eu tenho certeza que minhas pernas sentem muita falta dos machucados quando os intervalos dos tombos passam de uma semana. Fato raro.
Quando finalmente cheguei ao ponto de ônibus, ele estava lotado e não havia lugar para sentar. Fui obrigada a ficar em pé pelo menos dez minutos ao lado de um homem que, pelas minhas contas e levando em consideração o odor que exalava de todas as partes de seu corpo, ele não tomava banho desde a infância, no mínimo. Tinha uma aparência de mendigo, seu cabelo, que começava em uma meio careca e seguia levemente armado até um pouco para baixo dos ombros, tinha uma cor castanha escura, queimado de sol nas pontas e totalmente sem corte. Seu rosto era todo marcado de rugas de expressões e só de olhar para as bolsas embaixo de seus olhos notava-se que a noite passada dele não foi menos turbulenta que a minha. Ele usava uma camiseta com as escritas quase apagadas, com cinco números quase sumindo e a foto de um candidato a vereador. Uma bermuda que era, com certeza, dois números maiores do que ele normalmente vestiria, toda rasgada e cheia de terra, como se ele tivesse brincado com um bando de cachorros de rua.
Mas de repente eu parei e pensei que a sujeira provavelmente vinha de uma noite mal dormida numa das calçadas dessa cidade. Esse pensamento trouxe uma pontada de remorso por eu estar julgando a aparência de uma pessoa que, provavelmente, não teve um centésimo das oportunidades que eu tive na vida.
Quando parei de analisá-lo e voltei para seu rosto, ele estava me olhando com uma cara engraçada, com um meio sorriso que mostrava uma seqüência de falhas dentárias.
Pouco tempo depois o ônibus finalmente chegou e, para minha surpresa, não estava lotado.
Subi rápido para aproveitar e pegar um lugar longe do sol, pois estava muito quente, fazia trinta e três graus lá fora, odiei essa parte, porque não trinta e dois? Ou trinta e quatro?
Com certeza se eu sentar num dos bancos que pegaria sol durante o caminho todo eu entraria em ebulição.
Encontrei um lugar vazio no fundo do ônibus antes mesmo de passar pela catraca. Tive um pouco de dificuldades com a minha régua, mas a cobradora, muito prestativa, me ajudou, empurrando-a.
- Obrigada. – disse a ela sem fazer som com a boca, apenas mexendo meus lábios. Ela entendeu e disse, num tom um pouco alegre. – De nada.
Isso, definitivamente é um fato raro, ela nunca sorri para nenhum passageiro. Não sei se é por isso, mas, para mim, parece que não vê a hora de ir embora para casa. Não conversa com ninguém, vive com a cara fechada e presta atenção somente nas portas, para não machucar alguém.
A única vez e que a vi sorrindo foi quando eu levava uma maquete para a aula e, ao sair do ônibus, caí no primeiro degrau e escorreguei sentada até o segundo. Ela gargalhou como as bruxas fazem nos filmes, debochando de minha cara. Mas eu nem liguei, pois se ficasse irritada todas as vezes que alguém ri de mim, seja eu caindo ou me enroscando nas coisas eu viveria infeliz. Sem sorrir um minuto sequer.
Quando, finalmente consegui sentar-me peguei o celular e liguei para a Milla, para avisá-la do meu atraso, assim se o professor decidisse passar a lista de chamada no início da aula, ela assinaria para mim. Ela já está tão acostumada a imitar minha assinatura que ninguém nota a diferença. Eu sempre chego alguns minutos atrasada, pois tudo sempre dá errado na minha vida. Sempre.
Eu bem que tento não pensar negativamente, mas não é sempre que dá. Eu já pensei muito sobre isso, até já li alguns livros que falavam que quanto mais negativa a pessoa é, mais negatividade ela atrai. Mas isso não mudou em nada a freqüência dos meus tombos.
Enquanto eu estava pensando uma mulher falou comigo numa voz muito estranha, como se estivesse sendo estrangulada. Ela me perguntou se podia se sentar ao meu lado. Eu ainda não havia tirado meus olhos da janela. Distraí-me com o fato dela ter me perguntado se poderia sentar comigo. Ninguém pergunta isso, todos simplesmente chegam e sentam no assento vago.
Virei-me, a fim de responder sua pergunta e tomei um susto tão grande que tenho absoluta certeza de ela ter percebido, pois o olhar que me deu em troca não foi nada amistoso.
Também, não havia como ela não perceber. Nunca soube conter minhas expressões faciais.
Quando eu não respondi nada, e fiquei olhando, a mulher, que deveria ter, pelo menos, duzentos quilos, simplesmente tentou caber na poltrona ao lado da minha. Como não havia divisórias, ao sentar-se, a elefanta preencheu todo o espaço que tinha ela direito e mais um pedaço significativo da minha poltrona, sua nádega direita ficou em cima da minha coxa. Senti como se mil quilos fossem jogados em cima da minha perna, que começou a adormecer rapidamente enquanto eu encarava a mulher ao mesmo tempo em que tentava empurrá-la.
Depois de algumas tentativas frustradas, o ônibus virou a esquina e a mulher deslizou para cima de mim. E o que jurava ser impossível, aconteceu. Ela ficou ainda mais em cima de mim.
Eu olhei muito brava para a enorme perna em cima da minha.
- Será que dá pra você sair de cima de mim?Ou ta difícil? – sua gorda maldita que não tem noção de espaço, eu pensei o resto da frase. Se eu falasse, com certeza essa seria a última frase da minha vida.
Mesmo assim ela não saiu, eu tenho certeza que ela não escutou, ou ela não estava sentindo que aquilo não era a poltrona e sim uma pessoa.
A mulher só saiu de cima de mim porque um homem que estava na poltrona à nossa frente deu um cutucão nela repetiu a minha frase, na terceira pessoa.
Quando ela finalmente saiu, eu me levantei num pulo, desequilibrando-me um pouco pelo formigamento a cima do joelho e segurei em seu ombro, sem querer, para me equilibrar. Ela retirou a minha mão na mesma hora e virou-se para frente com um olhar de paisagem, como se não tivesse acontecido nada.
Finalmente estava a duas quadras da minha faculdade e um ponto antes do meu. Quando as portas do ônibus fecharam, eu puxei cordinha fazendo aquele barulho irritante. Pouco tempo depois, ele parou e as portas se abriram, apesar de estar muito quente do lado de fora, o vento que bateu em meu rosto ao sair do ônibus fez meu humor melhorar um pouco. Saí correndo do ônibus, passei pela catraca e vi o horário, era sete e quarenta e sete. Passei rapidamente pelas cantinas indo à direção do meu bloco, que era um dos últimos do campus.
Parei no caminho para carregar meu passe que já estava vazio, mas ele não carregou e eu não tinha tempo para esperar reiniciar o processo. Deixei para carregar mais tarde quando saísse da aula. Fui para a sala mais apressada que o normal, sem tropeçar desta vez. Cheguei à sala e o professor estava passando a matéria no slide show, isso facilitou a minha entrada discreta. Passei por um aglomerado de carteiras amontoadas no único espaço possível de se passar na sala.
Meu lugar é o último, no fundo da sala, perto de onde os meus amigos sentavam. Todos eles já estavam lá, Letícia uma garota morena, com traços indianos, olhos negros da mesma cor dos meus, cabelos lisos e tão compridos que tocavam sua cintura, ela é alta e tão magra que às vezes parece que apenas um grito seria capaz de trincá-la ao meio. Estava sentada na carteira ao lado da minha. Miyuki, uma japonesa de cabelos negros na altura dos ombros, que não é alta como Letícia, pelo contrário, ela conseguia ser menor que os meus 1,60 m, tem um corpo atlético, em forma. É jogadora de futebol de salão. E Everlyn uma menina com rosto de boneca, fino, bochechas rosadas e olhos azuis, cabelos num tom loiro-amanteigado. Razoavelmente magra. Estavam sentadas uma atrás da outra.
Antes mesmo de chegar à minha carteira vi um ser cabeludo todo esparramado numa das carteiras. Era o Rafael. Ele estava dormindo com a cabeça encostada na parede, uma cadeira à frente da minha, atrás de Milla. Milla é minha meio irmã por parte de pai. Tem o cabelo castanho escuro, pele bronzeada e um corpo de dar inveja a muitas atrizes, olhos de um caramelo amarelado brilhante e líquido que sempre me dava nos nervos de tão lindos. Milla estava estrategicamente sentada uma carteira depois da dele, tapando a visão do professor, para que ele pudesse dormir sem ser incomodado.
Ela sempre fazia isto, aliás, faria tudo o que ele pedisse. Sorte a dela que além de um namorado muito prestativo e apaixonado, ele tem um coração enorme e é muito engraçado. Não pára de me incomodar um segundo, fazendo piadinhas inúteis sobre o meu tamanho ou a cor do meu cabelo.
Mas eu nunca ligo para o que ele fala.
Eles são tão apaixonados que eu duvido muito que isto não acabe em casamento. Já há uma espécie de data ou algo assim, eles sempre dizem que vão se casar um ano depois de terminar a faculdade.
Definitivamente foram feitos um para o outro.
Todos eles estavam conversando quando cheguei. Menos Rafa, claro. Sentei-me em meu lugar no canto da parede e dei oi para todos. Milla se virou e me perguntou com um tom de animação enquanto passava seus dedos para cima e para baixo no cabelo de Rafa.
– O que a gente tem para a amanhã? Eu falei com papai e ele liberou o apartamento para fazermos uma “festinha”. Ah, ele disse que sente muito por não poder vir, mas a pousada está lotada e não tem como deixar alguém tomando conta. – todos olharam em minha direção, ao mesmo tempo, esperando que eu respondesse, com toda certeza, algo do tipo “ah, vamos fazer um churrasco ou coisa do tipo, depois sair para beber em algum barzinho!”.
Mas definitivamente não chega nem perto do que eu realmente quero responder. Achei bom que meus pais não possam vir isso me poupa de assoprar velas, fazer cara de feliz, ganhar presentes e tudo mais que todos os aniversariantes têm direito. Coisas que eles não deixam passar em branco de forma alguma.
Todos em casa amam festas, tudo o que acontece é motivo para comemorações.
Ajuda muito o fato de que nossa família é um pouco grande e todos moram na mesma cidade, Bonito, localizado no interior do estado e tem aproximadamente 25 mil habitantes. Quando alguém não tem mais nada para fazer liga para todos os outros e combina de fazer um churrasco, eles nunca conseguem passar um final de semana cada um em suas casas. Chega ser irritante para alguém como eu, que odeia aglomeração de gente.
Eu me livrei de muitas coisas que me incomodavam em Bonito quando escolhi mudar de cidade e estudar em Campo Grande, a capital do estado, Mato Grosso do Sul, à cerca de 330,00 quilômetros de casa, como as festas, as intromissões em assuntos pessoais, as fofocas que toda cidade pequena tem. Mas por outro lado foi ruim toda esta mudança, eu amava morar lá por motivos mais que óbvios. Lá é o paraíso, águas cristalinas, cachoeiras, muitas espécies de peixes, natureza abundante, corredeiras, trilhas, tudo o que faria qualquer pessoa trocar o stress da cidade grande por uma vida mais calma, sem pensar duas vezes.
Quando eu era menor, todos os fins de tarde eu, meus pais e meus irmãos íamos de bicicleta ao balneário depois das cinco horas da tarde, quando saíamos da escola e voltávamos somente depois que fechasse. Mesmo quando chovia nós ficávamos sentados na grama olhando o céu e esperando que as gotas tocassem nossa pele ou entrávamos na água, permanecíamos quietos e tentávamos ouvir os barulhos que os pingos faziam ao tocar a superfície do rio.
É a melhor sensação do mundo, dava para sentir a energia que irradiava do céu, era inexplicavelmente bom ficar ali apenas sentada olhando a chuva toca o rio fazendo vários círculos pequenos. Bons tempos aqueles. Tempos em que eu não me preocupava com nada. O dia do meu aniversário, por exemplo.
Isso me fez lembrar que Milla ainda estava esperando uma resposta.
Respirei fundo e procurei fazer a melhor cara de cínica. A mais verdadeira possível.
- Am... - dei uma pausa, sentando e abrindo o meu caderno desviando de seu olhar.
- Nada? – respondi ainda pegando meu material. Sei que, em se tratando da Milla, qualquer coisa que eu disser poderá ser usada contra mim mais tarde.
- é né, sua bandida! Eu sei que você não está se agüentando de tanta vontade de que amanhã chegue logo. Bolo, presentes, ser o centro das atenções, tudo o que você mais ama no mundo! – ela me conhecia o suficiente para debochar tirando sarro da situação.
Com certeza estava me testando para ver até onde iria.
É o esporte preferido dela, fazer perguntas sobre como foi o resto do meu dia depois da faculdade só para rir um pouco quando eu conto que caí ou me cortei, com algum objeto não cortante, da maneira mais retardada possível, me ouvir reclamando alguma algo sobre os Leprechaum ou coisas do tipo.
Fiz cara de desinteresse.
- Ah, é sobre... Isso? – tentei enfatizar o máximo que pude a última palavra
– Você sabe que eu nunca me lembro do dia do meu aniversário. – ainda sem tirar os olhos da carteira.
Ela sabia que parte era mentira e parte era verdade, eu realmente esqueço as datas, inclusive a do meu aniversário, mas desta vez eu estava bem informada, pois Tayla tinha gritado isso no meu ouvido ontem à noite inteira no mínimo cem mil vezes, seguidas.
Ela também, por outro motivo, me conhece bem o suficiente para saber ler a minhas expressões com tamanha perfeição. Nada passa despercebido por seus olhos críticos.
Ela é apenas um ano mais velha que eu e, por sermos como unha e carne desde pequenas, com ela minhas técnicas teatrais de mentira nunca deram certo quando tento esconder algo. Às vezes parece saber o que eu estou pensando.
Quando me pergunta algo, e eu demoro a responder, tira suas próprias conclusões e se vira para mim perguntando se era isso que eu estava pensando. Normalmente ela acerta, ou melhor, todas às vezes ela acerta. Minhas respostas sempre são óbvias demais.
O melhor que eu faço quando quero mentir é falar o mais depressa possível, antes de sua conclusão ou apenas sacudir a cabeça respondendo sim ou não.
- Acho que você está faltando muito as suas aulas de teatro, você já não é tão boa em mentir como era antigamente. Só de faltar este mês você já não consegue mais passar pelo detector de mentiras. – disse apontando para si mesma e sorrindo.
- Ha.ha. Muito engraçado! – eu fiz o melhor que pude para parecer que estava tirando sarro. Mas uma pontinha de preocupação apareceu no fim da frase e pôs tudo a perder.
– Você sabe muito bem que eu não fui este mês, pois não tive tempo e, para começar, não se perde a técnica apenas com um mês de ausência. – disse enquanto arrastava minha carteira um pouco para frente e virava-a para que minhas costas ficassem encostadas à parede lateral da sala.
- Eu falei com a Tayla hoje – levantei a minha cabeça e ela continuou mais empolgada. – Ela estava muito brava com você e disse algo como “é aquele maldito inferno astral que essa loca tem. Como se não bastassem os Leprechaun!” eu acho que era isso. O que quer dizer?
- É um ho...
- Zarah, eu sei o que é um Leprechaun, você fala dele o tempo todo desde os dez anos. Eu quero saber o que é inferno astral! Disto você nunca me falou. – ela falou atacando um pequeno pedaço da borracha que estava em sua mesa. Incomodada com a minha lerdeza e falta de atenção na conversa.
Eu fiz uma cara de quem não estava a fim de conversar e respondi o essencial.
- É um período de mais ou menos trinta dias antes do dia do aniversário, que todo mundo tem. Nada dá certo e nos sentimos fora do eixo. –
- Será que você não tem mais nada pra fazer da vida? Eu tenho certeza que você fica à tarde inteira na internet procurando por coisas estranhas. Certeza! – disse a última palavra arqueando a sobrancelha esquerda e virando-se para frente da sala.
Quando percebi que ela não voltaria mais a tocar no assunto, olhei para frente e tentei me concentrar em prestar atenção na aula. Era a aula que eu mais odiava. Sistemas Estruturais. Eu sempre ficava uma tarde inteira tentando fazer os exercícios, mas nunca conseguia terminar todos antes de desistir e pegar minha máquina para tirar umas fotos do céu, ou apenas ficava olhando através da janela do meu quarto. De lá eu tinha, sem dúvida, a melhor vista do pôr-do-sol. O tipo de coisa que me acalma.
Pouco depois ouvi uma voz muito baixa falando meu nome e uma mão me sacudindo. Era Everlyn, ela falava alguma coisa sobre alguém ter pegado um anel, mas eu estava com muito sono para entender.
Sono? Como assim sono?
Acordei rapidamente, levando um susto. Eu nunca dormia durante as aulas, por mais chata que fosse a matéria. Eu me sinto mal só de pensar em sair mais cedo quando precisava, imagina dormir uma aula inteira, ou sei lá quanto tempo eu dormi.
Enquanto eu pensava no assunto percebi que Everlyn parou de falar e agora estava me olhando, esperando, certamente, que eu respondesse sua pergunta.
-Quanto tempo eu dormi? – perguntei ainda um pouco grogue.
- Relaxa Leprechaun, você só cochilou. – Everlyn disse, esperando minha resposta.
Por que ela insiste em me chamar deste apelido?
- É... Você ia dizendo? – parei no meio da frase, com uma entonação de pergunta, balancei a mão como num sinal para ela repetir.
- Eu perdi meu anel, sabe. Aquele que tem uma flor. E eu pensei os seus Leprechaun pudessem ter pegado e que você poderia pedir para devolverem ele. Você sempre diz que eles pegam para nos ver procurar como loucas. Mas depois devolvem. – eu a olhei fixamente, tentando encontrar um lugar em seu rosto que me fizesse ver que ela estava tirando sarro da minha cara, mas lá eu só encontrei uma expressão. Um grande ponto de interrogação bem no meio do seu rosto.
- Mas porque você acha que foram eles?
- Ah. Você sempre diz isso “malditos Leprechaun, pegaram de novo” quando você perde algo, e depois de alguns dias você diz que eles devolveram.
- mas eu não falo sério Lins, é só uma maneira que eu encontrei de colocar a culpa da minha desatenção em outra pessoa. Eu as acho alguns dias depois por que eu arrumo o meu quarto enquanto procuro.
- Mas será que não dá para você pedir mesmo assim? Eu fiquei pensando tanto nesta possibilidade que agora não vou sossegar enquanto você não pedir a eles que devolvam meu anel.
- Está bem, então quando eu voltar para casa eu peço. Ok? – eu disse rindo da cara dela.
- Tudo bem então. – ela disse com uma voz alegre. Nenhuma de nós tinha levado esta conversa a sério.
- Não engana a menina sim sua má!- ouvi uma voz caçoando de mim - Coitadinha dela, tão ingênua. – Milla disse apertando as bochechas de Everlyn tirando sarro enquanto sentava-se em minha carteira, me empurrando um pouco para que pudéssemos dividir o mesmo espaço.
- Eu não menti para ela. – meu tom estava normal agora. Disse dando de ombros como se não fizesse importância para mim o assunto.
- Pode até ser! Não mentiu para ela, mas para si mesma, porque você sabe que no fundo, no fundo, cria uma expectativa de que eles realmente existam. – eu abri minha boca para contestar, mas ela me cortou. – Hey, não pira não, ta? Não adianta em nada enlouquecer tentando colocar na cabeça esta idéia contrária a que você tem. É muito mais engraçado quando você bóia na batata falando neles. Se você parar, de quem eu vou encher o saco? – levantou as duas mãos, rodando apenas os dedos indicadores na lateral da cabeça, como se estivesse me chamando de louca, enquanto fazia várias caretas.
Eu me virei e empurrei sua cabeça enquanto dava um tapinha.
– Idiota! Vai falando mal, vai. Eu sei que você até gosta das minhas “histórias” e que você também não consegue ficar longe de mim. – fiz um movimento as minhas pernas até conseguir empurrar parte do seu corpo para fora do assento da cadeira. – Você me ama, não vive sem mim! – dei uma piscadela.
Milla se virou em minha direção, de novo e, num sorriso que ia de uma orelha à outra, fez a pergunta que faz todos os dias, já sabendo a resposta. Já é rotina para eu vê-la fazendo isso, quando ela dava aquele sorriso de criança em parque de diversões, pegava minha mochila e vasculhava em todos os bolsos até encontrar o lugar onde eu deixei minhas balas.
Eu sempre tenho algumas balas ou chicletes para emergências. Sempre me acalma quando eu saio do controle, não que isso aconteça frequentemente, mas nas últimas semanas eu estou mais vulnerável que nunca e todo cuidado é pouco. Este tipo de coisa acontece frequentemente quando está chegando a pior data do ano. A culpa é toda do maldito inferno astral, ele deixa meus nervos à flor da pele e totalmente fora de controle.
- Nossa Zah, você gastou toda a sua mesada em balas desta vez? – Milla apontou para o bolso lateral da minha mochila que estava abarrotado de balas. – Eu tenho certeza que dá pra ficar um ano chupando estas aqui e ainda sobrará para o próximo. – sempre exagerada.
- Não, eu não gastei minha mesada inteira em balas, não sou idiota! – sorri e completei. – Também comprei chicletes, olha o outro bolso. – apontei para o outro lado da mochila.
- Nossa! Definitivamente isto altera um pouco as coisas. Isto faz de você uma pessoa muito esperta. Quando eu crescer quero ser igual. – disse apertando minha bochecha enquanto usava a outra mão para abrir o bolso que continha os chicletes.
- Mas falando sério agora. Como você comprou tanto chiclete assim? – Milla realmente parecia impressionada.
- Eu fui ao Olímpia ontem com a Tayla, nossa geladeira já estava vazia, então fomos lá para repor o estoque de comida. Comprei uma caixa fechada de balas e ela uma de chicletes, depois dividimos igualmente entre nós duas.
- Por que vocês não me avisaram? Eu precisava comprar xampu, minha mãe esqueceu de comprar, como sempre, será que ela nunca vai crescer? E eu também poderia dar uma carona a vocês. - abriu um chiclete e o colocou na boca
- Francamente em, vocês sempre esquecem de me chamar para estes programas família. – ela realmente é exagerada!
A mãe de Milla era uma pessoa um pouco difícil de lidar. Não é de se espantar que meu pai agüentasse somente até Milla nascer para dar o fora.
Ele sempre diz que era impossível conviver vinte e quatro horas com ela sem sequer pensar em deixá-la, pois ela é muito mandona, reclama de tudo e tem a mentalidade de uma garota de dezesseis anos. Ela nem deixa Tayla chamá-la de mãe, só pode chamá-la se for pelo primeiro nome, Glenda, caso contrário nem olha e finge que não ouviu.
É muito difícil lidar com ela, mas Milla já se acostumou. Como tem um coração de manteiga e toda a calma do mundo, sempre faz as vontades de sua mãe e nunca seria capaz de contrariá-la. Exceto quando a mãe a deixa nervosa demais.
Glenda, diferente da filha, não conversa com ninguém da minha família, ela tem verdadeira aversão por mim e meus irmãos e vive dizendo que minha mãe roubou meu pai dela e, se não fosse por minha mãe, eles ainda estariam juntos.
Mas diz isto somente para tentar irritá-la, sabe muito bem que meu pai se divorciou dela antes mesmo de conhecer minha mãe e decidir trocar a vida agitada e estressante da capital por uma mais calma e sossegada no interior.
Minha mãe nunca ligou para os comentários maldosos de Glenda, ela é totalmente zen e diz sempre a mesma coisa “ela é assim por culpa do asfalto, precisa tirar alguns dias de folga e vir para cá fazer uma limpeza espiritual.” Minha mãe às vezes me assusta com estas conversas de equilíbrio emocional e com suas terapias florais, cristais, arometerapia e várias outras coisas que usa, segundo ela, para equilibrar, corrigir ao realinhar e remover todo o negativismo que ocorre no mau funcionamento dos chakras. Algumas vezes já conseguiu me convencer a deixá-la fazer suas massagens relaxantes e usar acupuntura para tentar espantar a minha má sorte e meu desequilíbrio. Mas eu sempre digo que não quero saber de me furar à toa e só a massagem já será suficiente para alinhar minha vida toda.
Para ela é exatamente isto o que está acontecendo com Glenda, seus chakras estão totalmente desalinhados. Mas isto refletiu de modos diferentes em mim e nela, eu sou desequilibrada física e ela emocionalmente.
Eu sempre tive uma opinião formada sobre o fato de Glenda não gostar de minha mãe. Para mim isto não passa de uma birra boba de adolescente. Ela não está acostumada a perder, e minha mãe foi a única pessoa que proporcionou a ela este sentimento ao se casar com meu pai e fazê-lo mudar de cidade.
- Milla! – observei que havia pegado quase todas as minhas balas da mochila.
- Zah, estas balas não fazem mal para você?
- Fazem né, mas são tão boas que vale a pena correr o risco. – sorri
- Nossa! Essas são boas em.
- Sua gorda, as balas não vão sair correndo daí, ou você quer que eu as amarre? Pegue uma de cada vez!
- Não vão? Nossa, eu podia jurar que vi estas aqui tentando escapar. – Milla disse estendendo a mão para que eu pudesse ver as balas às quais se referia.
- Pode ficar com elas então, não quero ter que ficar por aí correndo atrás de balas fujonas.
- Essa eu pagava pra ver! Até consigo imaginar você correndo para pegar as balas e quando chega perto de uma, tropeça e cai! – fez um movimento como o de uma pessoa caindo, mas apenas com o tronco e braços.
O professor terminou de passar a matéria no quadro e depois de explicá-la nos liberou para o intervalo. Peguei minha mochila e as balas das mãos de Milla, guardei meus materiais e me levantei da carteira rapidamente, esperando pelos outros.
Ela seguiu para sua carteira para guardar os seus materiais e acordar Rafa, passando o dedo indicador levemente desde a testa até a ponta de seu nariz. Ela o acordava da maneira mais calma possível, pois ele sempre se assustava e dava um pulo da carteira.
Eu prefiro quando ela está sem paciência e apenas põe a mão em sua cabeça, eu adoro ter motivos para fazer piadas dele e isto definitivamente era uma oportunidade, apesar de ser impossível competir com a freqüência das que ele fazia de mim.
Depois que todos já haviam guardado os materiais nós saímos da sala e fomos à direção do bloco sete à frente do de onde estávamos saindo. A próxima aula, de PAUP será no atelier, então fomos para lá deixar os materiais para não precisarmos ficar carregando-os à toa.
Ao sairmos de lá fomos à direção da cantina, que já estava lotada, procuramos por uma mesa e hoje tivemos sorte ao encontrar uma vazia. Sentamos lá e conversamos um pouco.
Depois de alguns minutos Letícia virou-se a mim e perguntou se eu poderia acompanhá-la à cantina do bloco quatro. Segundo ela, não se agüentava mais de vontade de comer um croissant de chocolate. Afirmei com a cabeça.
- Tudo bem, eu estou precisando andar um pouco. – disse enquanto me levantava.
Fomos à direção do bloco quatro, o qual ficava do outro lado da faculdade.
- Você realmente não gosta de festas? – senti seu olhar me fuzilando.
- Não muito. – porque as pessoas ficam tão indignadas com este fato? Eu apenas não gosto e ponto final. Não sou só eu, conheço muitas pessoas que compartilham da mesma opinião. Tem até uma comunidade no orkut, com mais de sete mil membros, falando sobre isto.
- Mas você nunca vai a festas, nem com a Milla ou a sua outra irmã? Elas saem juntas não saem? – ela é muito insistente. Demais de insistente. Insistente pra caramba!
A conversa começou a me irritar.
- Não, eu prefiro ficar em casa assistindo filmes, lendo ou na internet. Sabe, não tenho pique para acompanhá-las. Geralmente eu vou a churrascos na casa de algum amigo, nada além disto, não curto muito essa agitação toda.
- Churrascos são legais mesmo, mas eu não troco uma balada por nada. Eu amo dançar e fazer novos amigos e uma festa é o lugar perfeito para isto.
- Eu não tenho esta necessidade toda de fazer amigos – fiz um movimento com as mãos ao dar ênfase na palavra.
– Estou contente com os meus poucos e bons, prefiro qualidade à quantidade.
- Você é muito estranha, Ruiva, mas prometo que um dia eu ainda tento te entender. – disse dando um leve jogo de corpo em minha direção e sorrindo. – Hoje não, mas quem sabe um dia.
Ela é tão alta que esta “leve” jogada de corpo me fez trançar as pernas e desequilibrar, mas sem cair.
- Ops, da próxima vez te empurrarei apenas com meus dedos. – espalmou as mãos e mexeu seus longos dedos dando uma prévia.
- Da próxima vez? – encarei-a enquanto ria do tom que saiu minha voz, um tom de divertimento.
- Da próxima vez sim. Lógico que haverá uma próxima, ou você não se lembra que quase todos os dias você dá um jeito de se machucar? Não vai demorar muito para chegar minha vez de novo. E eu estarei preparada. – sacudiu as mãos novamente.
– Mas eu prometo que não vai doer. – agora nós estávamos sorrindo uma para a outra.
- Mal posso esperar por este dia. – disse imitando seus movimentos.
Enfim chegamos ao bloco, ela me guiou até a cantina que vendia os benditos croissants e fez um escândalo ao vê-los.
Depois eu era a louca, pelo menos eu não vejo comida e começo a sorrir, balançar as mãos e apertar os braços de quem está do meu lado, de tanta felicidade. Mas era Letícia, ela ama comer e come de tudo, não havia como me espantar com toda aquela felicidade que brilhava em seus olhos.
Letícia comprou dois croissants e deu um deles para mim.
- Eu não estou com fome – disse cruzando os braços ao recusá-lo.
- Não é para você. Eu só quero que segure este para mim, eu preciso colocar mostarda no outro.
- Mostarda? – Fiz uma careta.
– Mostarda com chocolate? Você está louca? Deve ter pouco mais de dez tipos de vermes no seu corpo, certeza! Sua vermenta!
Nem eu que sou louca por mostarda seria capaz de fazer uma coisa destas.
- Nossa você precisa experimentar, é muito, muito, muito bom – deveria ser mesmo, pelo tanto de vezes que ela disse a palavra e a cara que fez.
- Não obrigada! – disse enquanto meu estômago embrulhava ao vê-la segurando o sache.
- Segura este para mim pelo menos e pára de fazer esta cara! –
Peguei o croissant de sua mão e observei-a abrindo o sache e despejando toda a mostarda. Antes que ela desse a primeira mordida virei meu rosto para evitar o constrangimento de vomitar na frente de todas aquelas pessoas.
- Vamos? Já deve ter começado a aula. –disse, dando um passo à frente.
Caminhei quieta ao seu lado enquanto ela devorava rapidamente o primeiro e estendia a mão para pegar o segundo.
Letícia comia tanto que era impossível ela ser normal, era muito magra para a quantidade de comida que ingeria por dia.
Às vezes fazíamos piadas sobre para onde ia tudo aquilo. As piadas, perguntas e suposições iam desde a teoria do buraco negro no estômago, à bulimia. Mas ela não se importava com as piadas e fingia não ouvir.
Voltamos ao nosso bloco e todos já estavam na sala. O atelier já estava lotado quando entramos, mas o professor ainda não havia chego, então fomos para os nossos lugares perto de Milla, Rafa, Miyuki e Everlyn, para conversar, enquanto a aula não começava.
Esta é uma das minhas aulas preferidas, eu amo fazer projetos e é exatamente o que fazemos nesta aula. O único problema é que as horas sempre passam rápido demais em dias como este, eu nunca tenho tempo de tirar todas as minhas dúvidas e isto não é bom. Eu tenho uma memória péssima, “de galinha velha”, como diz meu pai, e preciso anotar tudo em minha agenda, caso contrário, na próxima aula, não me lembrarei mais o que pretendia perguntar.
Antes Mesmo de tirar metade de minhas dúvidas dei uma olhada em meu relógio e já estava no fim da aula. Peguei minha agenda e anotei todas as perguntas que pretendia fazer hoje, guardei meus materiais, desmontei minha régua paralela e percebi que a sala já estava quase vazia.
Milla estava em pé ao meu lado, esperando, enquanto os outros já estavam do lado de fora da sala indo à direção das escadas.
- Cadê o Rafa? – perguntei enquanto analisava a sala inteira.
- O pai dele veio buscá-lo. Chegou hoje de viagem e queria poder passar um tempo junto dele antes de voltar a Bonito.
- Você vai almoçar com a gente hoje ou na sua casa?
- Se você faz tanta questão assim, Zah – disse sorrindo -, eu almoço com vocês. Já faz alguns dias que eu não dou alguns apertões naquela ruivinha sardenta. – disse toda divertida.
- Não faço muita questão, não! – usei meu melhor tom de ironia.
Com certeza ela tinha um plano antes mesmo de eu sequer perguntar ou me dar conta. Se divertir um pouco almoçando em casa e livrar-se daquela "mãe projeto de bruxa". Ela sempre fazia isto.
Eu adoro quando ela vai almoçar em casa comigo e com a Tayla. Milla é uma excelente cozinheira, não que Tayla não seja, mas sua comida é extraordinariamente boa. Não existe outra melhor no mundo, com certeza. Eu sempre digo a ela para fazer gastronomia e montar um restaurante, mas ela nunca me ouve. Com certeza se daria bem neste ramo, tem tudo o que precisa. Amor.
Milla ama cozinhar e passa todo este sentimento para a comida. Por isso fica tão saborosa.
- Termine logo de guardar este material menina! – disse enquanto batia os pés no chão insistentemente e roia as unhas.
- Isto não vai ajudar em nada. – disse apontando para seus pés.
- Vai logo Zarah, eu estou famintéperrima! – começou a pegar meus materiais e colocá-los dentro da mochila.
- Calma Milla você não vai morrer só de esperar dois minutinhos! – empurrei suas mãos, que estavam atrapalhando mais do que ajudando.
Terminei de juntar tudo e quando olhei para frente ela já estava na porta, me esperando. Andei mais apressadamente para que ela não decidisse me matar, ao entrarmos no carro, por fazê-la esperar.
Quando chegamos a casa Tayla ainda não havia chegado da escola.
Milla foi direto para meu quarto, depois de pendurar sua régua num dos ganchos da parede ao lado da porta de entrada. Pendurei minha régua no mesmo lugar depois entrei na cozinha para pegar um copo de água.
- Milla, está com sede? – gritei da cozinha.
- Pega o maior copo que tiver aí. Eu estou morta de sede! – sempre exagerada.
Entrei em meu quarto, Milla já havia ligado meu note book e estava abrindo a página para ler seus e-mails.
Quando me sentei na cama ela virou-se em minha direção pegando o copo de água, virando-o de uma só vez.
- Você anda fazendo festas no seu quarto durante a noite? Isto aqui está uma bagunça. Até um galinheiro é mais arrumado. Como você conseguiu encontrar a porta e sair daqui hoje de manhã? – olhou envolta, com cara de divertimento.
- Eu tinha uma bússola. –levantei-me da cama, a fim de reorganizar tudo.
- Ah! Lógico que você tinha uma. Afinal, quem hoje em dia não tem uma bússola guardada em casa para casos de extrema emergência, como este? – ela realmente estava achando a situação divertira.
Tudo bem, não tem como não achar.
- Eu vou tomar banho e depois termino de arrumar isto tudo. – com certeza eu perderia a tarde toda arrumando esta bagunça.
Peguei uma muda de roupa das que estavam dentro da mala, uma blusa regata, azul, um short jeans curto, frouxo e fui para o banheiro.
Quando saí, Milla já não estava mais em meu quarto. Com certeza ela já estava na cozinha, preparando o almoço antes de Tayla chegar, só para vê-la irritada. Ela adora ajudar Milla a cozinhar, aliás, não há nada na lista de coisas a fazer dela que o nome de Milla não esteja envolvido. Elas são como unha e carne, uma não vive sem a outra. É divertido ver como se dão bem e nunca brigaram.
Na verdade é muito impossível não se dar bem com Milla, sempre atenciosa e calma, pronta para ajudar a todos, ela também é a "carne da minha unha", assim como a de Rafa. Definitivamente ela é a pessoa mais amável que eu conheço.
Entrei no meu quarto para pegar os copos e levar à cozinha e dei mais uma arrumada na bagunça. Quando entrei na cozinha Milla já estava lavando o arroz enquanto esperava algumas coxas de frango, que estavam dentro de um tapeware, descongelarem no microondas.
- Qual é o prato do dia? – perguntei entusiasmada.
- Capeletti de frango ao molho branco. Sua mãe comprou muitos e já estão vencendo. E para você uma mega salada de todos os vegetais possíveis e imagináveis.
- Mas e aquilo, você vai fazer frango frito também? – perguntei apontando na direção do microondas.
- Não, eu vou desfiar para colocar junto ao molho.
- Ah! – caminhei em direção ao fogão, onde Milla agora colocava óleo numa panela pequena onde faria o arroz.
- Você quer ajuda? Eu posso desfiar o frango. – perguntei, apenas por educação, eu odeio colocar as mãos na comida enquanto ainda está crua.
- Sabe como você poderia me ajudar? Dando o fora daqui! Eu não quero ter outra experiência como a das férias passadas. – pegou-me pelo braço e me levou até o sofá.
- Fique quieta aí e vê se não atrai a bomba atômica pra cá, ok? – apontou para a cicatriz do meu braço que já não parecia mais tão forte como era antes.
Ela estava se referindo ao meu acidente do ano passado, quando, no primeiro dia das férias, fizemos um churrasco aqui no apartamento e cada uma estava responsável por uma tarefa.
A minha, não sei o porquê, era a de pegar as mandiocas da panela, assim que estivessem prontas. Quando deu o tempo delas ficarem prontas Milla me avisou e eu fui pegá-las. Cheguei à cozinha e vi uma panela grande com um pino em cima da tampa, tirei o pino com um pano, segurei-a pelo cabo com uma das mãos e com a outra apertei a parte da tampa que se encaixava nele. Ele se desprendeu e eu soltei, mas não aconteceu nada, ela não soltou e a tampa não abriu.
- Milla, não quer abrir! – gritei da cozinha.
- Pára de ser fraca Zah, traga logo a mandioca, nós estamos com fome! – exclamou da varanda.
Peguei o cabo com uma mão enquanto a outra segurava a tampa e puxei com muita força. A panela se mexeu para o lado esquerdo, quase caindo do fogão, eu a trouxe de volta e tentei mais uma vez. Puxei com a maior força possível e a tampa finalmente abriu. Mas eu coloquei tanta força que, ao abrir, ela bateu na água fervendo que pulou para fora, queimando toda a parte de cima do meu antebraço direito.
Eu dei um grito tão alto que Tayla e Milla estavam dentro da cozinha em menos de um segundo, antes mesmo de eu chegar a pia para me lavar.
Como eu iria saber que antes abrir uma panela de pressão eu precisava colocá-la em baixo da torneira ligá-la? Para começo de história eu nem sabia que aquilo era uma panela de pressão, pois nunca entrei na cozinha de casa enquanto minha mãe cozinhava, ela nunca me deixou passar da porta, eu sempre fui um ímã de desastres, desde pequena. Também tinha o fato de eu odiar cozinhar. Nunca quis nem aprender. Entro na cozinha de casa apenas quando estou com sede ou vou fazer um lanche, nada de chegar perto do fogão. O mais perto que eu chego de preparar uma comida é colocá-la, já pronta, no microondas.
Enquanto mudava de canal sem parar, procurando por algo interessante, ouvi a porta se abrir e Tayla entrar em casa sorrindo.
- Adivinhe quanto eu tirei em física? – será que ela pode fazer uma pergunta menos óbvia?
- deixe-me ver... Am... – fingi estar pensando enquanto passava a mão no queixo.
- Está entre dez e dez? – sorri desviando os olhos da televisão e focando-os nela.
- Como você adivinhou? Eu nunca tiro dez em física. – ainda parada na porta.
- Pelo fato de você ter entrado em casa com uma cara de quem ganhou na mega sena acumulada, e que você iria saber o resultado desta prova hoje. – apontei para a folha que estava em suas mãos.
- E outra coisa... – levantei-me do sofá indo à direção da cozinha.
– Milla, adivinhe quanto a cenourinha nerd tirou em física! – disse, encostando-me à porta da cozinha.
- DEZ! – disse alto, olhando para mim e dando um sorriso que ia de uma orelha à outra.
- Nossa você acertou! - olhei para Tayla com um ar de deboche. – E como prêmio, você levará para casa uma cenoura de um metro e cinqüenta e cinco centímetros. – fiz um movimento com as mãos igual ao que as mulheres de programas de auditório fazem ao mostrar os prêmios.
- Cala a boca Zarah, nerd é a – antes que terminasse a frase Milla a chamou de dentro da cozinha, apontando para a panela de arroz.
- Porque você não me ajuda a fazer o almoço enquanto me conta como foi seu dia? – Milla sempre sabia acabar com nossas brigas na hora certa. – Não ligue para Zarah, ela só está com inveja de você!
Ela sempre usa esta desculpa por que sabe que eu não ligo para este tipo de coisa.
Abri um sorriso.
- Vocês querem tereré? Eu sirvo enquanto vocês trabalham.
Antes mesmo de elas responderem, entrei na cozinha e comecei a prepará-lo. Esta era a minha função, a única dentro da cozinha, servir tereré enquanto elas cozinhavam. Eu gosto de ajudá-las de alguma forma, mesmo que indiretamente.
Quando estava tudo pronto peguei os talheres, os pratos, a toalha e fui colocar tudo sobre a mesa de jantar, ao lado da sala. Esta é a rotina de todos os almoços e jantares de nós três, elas cozinham, enquanto eu arrumo a mesa e lavo a louça.
Depois de colocar tudo no lugar sentei-me de novo no sofá da sala e continuei a mudar os canais, parando de vez em quando para ver clipes.
- Um, dois, três e já... MONTINHOOO! – as duas falaram juntas, correndo em minha direção.
- N – não deu nem tempo de me mexer ou terminar a palavra. Elas já estavam em cima de mim.
Primeiro Tayla, depois Milla, pularam em minha direção, uma por cima da outra.
Não contentes em me amassar feito panqueca, me derrubaram no chão e começaram a fazer cócegas.
Fiquei lá, parada, sem me mexer enquanto elas ficavam me apertando, fazendo caretas e rindo ao mesmo tempo. Elas sempre esquecem que eu não sinto cócegas.
- Pronto? – perguntei quando elas pararam.
- Nossa! Sua insensível. Você parece um ser de outro planeta. – Milla voltou a fazer cócegas, ainda com esperanças.
- Agora é minha vez! – elas olharam uma para a outra, depois para mim e deram um grito tão alto que faria qualquer vidro espatifar-se em mil pedaços.
Segurei as duas pela blusa e comecei a mexer meus dedos enquanto minhas mãos passavam por suas costelas. Mas por pouco tempo, Tayla conseguiu se livrar de minhas mãos e puxou Milla, ao levantar.
- Vamos comer logo, eu já estou verde de tanta fome. – Tayla disse enquanto me ajudava a levantar.
O almoço, como sempre, não foi nem um pouco quieto. Milla perguntava a nós o que tínhamos feito semana passada, quando estava em São Paulo com a mãe.
- Eae, Zah, conseguiu arrumar algum namorado este fim de semana?
- Não! E você sabe muito bem que eu odeio namoros! – irritação apareceu em em minha voz. Qual a necessidade que as pessoas da minha família sentem em fazer este tipo de pergunta a mim? A resposta sempre será a mesma.
- Você sabe muito bem por que não quer namorar mais. Precisa superar isto Zah. – um tom maternal tocou as palavras.
- Não, não sei o porquê, aliás, não existe um por que. Eu apenas não quero namorar e ponto final.
- Zah, você precisa superar a perda do Benício. Eu sei que não é fácil, mas precisa tentar, tenho certeza que ele gostaria de te ver feliz com outra pessoa e não assim neste estado deprimente.
Atingiu meu ponto fraco.
- Eu não quero superar. Não é justo isto! Eu não quero Milla! – meus olhos nublaram, uma lágrima rolou.
- Relaxa Zarah, ninguém aqui está te pressionando. – Tayla disse afagando minhas costas.
- Me desculpe Zah, não fiz por mal, só pensei que ajudaria se você falasse mais frequentemente nele.
- Não ajuda nem um pouco Milla! – disse entre os soluços e as lágrimas que tocavam minhas bochechas.
Levantei-me da mesa indo à direção do meu quarto, batendo a porta com força ao entrar.
-Não vá lá falar com ela Milla, deixe-a pensar um pouco, quando estiver pronta ela vai sair de lá! – ouvi Tayla dizer, calmamente.
Este é o tipo de conversa que eu tento evitar no último ano, desde que Benício morreu.
Nós namorávamos desde meus treze anos, éramos da mesma cidade e nos conhecíamos desde bebês. Nossas mães são amigas, por isso, fomos criados juntos. Ele sempre me dizia ter certeza que me amava antes mesmo de nascer.
Eu nunca me envolvi com outra pessoa, nem pensava na hipótese, pois não conseguiria viver um segundo sequer longe dele, e sabia disso. Nós vivíamos grudados vinte e quatro horas por dia, e um nunca se cansava da companhia do outro.
Ele, ao contrário de mim era muito ativo, não parava um minuto sequer, amava ir a festas com nossos amigos e reuniões de família, principalmente as da minha, que, segundo ele, eram as mais divertidas.
Todas as pessoas que nos conheciam diziam a mesma coisa, “eu não consigo ver vocês separados!” e todos o adoravam, principalmente meu pai. Para ele Benício era como um filho, andava grudado nele o tempo todo, até eu me estressar e reivindicar a atenção para mim.
Meu pai dava mais atenção a ele que a mim e minhas irmãs. Isto era muito engraçado, pois os pais geralmente têm um pouco de ciúmes das filhas com os namorados e implicam um pouco, e em casa era totalmente ao contrário, qualquer briga tola que tínhamos, ele me dava um sermão e dizia para eu falar com Benício.
Quando tínhamos dezesseis anos de idade, ele descobriu que tinha Leucemia. Tudo aconteceu tão de repente que a ficha só caiu depois que ele morreu. Alguns dias antes do meu aniversário, exatamente um mês antes do dele. Foi o dia mais triste de minha vida, parecia que mil facas haviam sido enfiadas em meu coração, eu não conseguia respirar, fiquei pálida e às vezes hiperventilava sem parar. Fiquei fora de mim por alguns dias até digerir tudo. Não falava com ninguém, não comia e sentia como se isso nunca fosse passar. A pior sensação do mundo. Perguntava-me várias vezes durante o dia: “por que ele e não eu?” ele amava tanto viver, aproveitava ao máximo, ao contrário de mim que não dava a mínima em aproveitar. Tinha tantos planos futuros e tantas pessoas que o amavam. Eu nem sabia o que faria no dia seguinte, meu único plano era casar-me com ele depois de formada e ter muitos filhos.
Hoje em dia tenho aversão a relacionamentos, minha mãe diz que é uma espécie de trauma causado pela perda e que eu não preciso me apressar, pois me recuperarei quando estiver pronta. A única pessoa que me entende. Mas eu duvido muito que consiga namorar alguém depois de tudo o que aconteceu. Todos os meninos que conheci e tentei me relacionar depois de sua morte, eram muito insignificantes perto dele, é como se eu estivesse formando uma barreira sentimental que me impede de tentar ter outra pessoa como namorado. Eu bem que tentei, mas tudo era motivo para me machucar ainda mais, eu fazia comparações o tempo todo, o beijo não era o mesmo, o toque, o cheiro, o jeito como falava comigo, tudo me lembrava ele. Só dificultava ainda mais a situação, pois ao mesmo tempo em que eu sabia que não poderia esquecê-lo eu sabia que um dia iria me envolver com outra pessoa e o sentimento iria desaparecer com o passar dos anos.
Fiquei parada em frente ao meu note book esperando as musicas começarem a tocar. Abri a pasta das minhas favoritas e dei play na primeira, Smile - McFly, os meninos mais fofos e engraçados que já vi. A música diz tudo o que Benício vivia me dizendo enquanto namorávamos.
Deitei em minha cama fechando os olhos, apenas sentindo a música. Mil memórias passavam em minha mente agora, eu sorri das lembranças boas enquanto lágrimas tristes tocam minhas bochechas. Não demorou mais que alguns segundos até as duas baterem à porta. Levantei-me e fui ver o que queriam.
- Abra esta porta Zah, não pode tê-los só para você! – disseram em coro
-Não! Deixem-me em paz!
- Por favor, Zah, nós também queremos ouvir a música. - Milla gritou do outro lado da porta.
- Tudo bem. Vou abri-la! Mas esperem alguns segundos.
Sequei algumas lágrimas, aumentei ainda mais a música e me dirigi à porta novamente.
Ao abri-la, fui puxada para fora do quarto, Tayla e Milla estavam dançando e cantando, desafinadamente, bagunçando meu cabelo e tocando os dedos em meus lábios, forçando o sorriso nas partes “Smile, smile, smile...”.
Quando dei por mim, já estávamos no meio da sala de televisão dançando e cantando em voz alta. A música acabou e nos sentamos no sofá dando gargalhadas.
- Vocês não prestam mesmo! – disse entre risos.
- Nunca dissemos a você que prestamos! – disse Milla.
- Na verdade, eu sou a única aqui que presta. Vocês são as loucas e eu a normal! – Tayla disse, num rosto sério, que a traiu no último instante, dando lugar a um sorriso enorme movimentando todos os músculos de sua face.
Ficamos assim, sentadas no sofá sem fazer nada, durante muito tempo. Conversamos algumas vezes e outras apenas nos olhamos. Não precisamos de palavras para nos comunicar, apenas um olhar já diz tudo.
O dia passou num piscar de olhos. Milla foi embora por volta das 15h30min, quando Glenda ligou lembrando-a que estava na hora de irem ao shopping, como haviam combinado ontem à noite.
Precisei de apenas alguns minutos com a louça suja. Depois de secar e guardá-la limpei a cozinha e fui ao meu quarto encarar aquela enorme bagunça. Gastei toda a minha tarde reorganizando e limpando-o em seguida.
Já era à noite quando, finalmente, terminei de limpá-lo e estava cansada demais para fazer outra coisa que não fosse dormir.
Tayla estava na sala vendo televisão quando eu passei, em direção à cozinha, para tomar água.
- Você já vai dormir? – perguntou, sem tirar os olhos da televisão.
- Já! Eu estou morta de cansada e tenho aula no laboratório amanhã, preciso estar cem por cento recuperada do sono. – sentei-me no encosto do sofá enquanto falava.
- Eu vou enrolar um pouco, minha aula amanhã só começa às nove e meia. Terá reunião de pais e mestres. – disse fazendo movimentos com os ombros.
Levantei-me e fui para a cozinha, em passos lentos e preguiçosos, tomei um copo de água e aproveitei para olhar no relógio do microondas que marcava oito e trinta e um. Fiquei lá parada até mudar o horário e saí da cozinha.
- Boa noite Laranjinha, até amanhã! – disse a última palavra em meio a um bocejo.
- Boa noite Zah! - disse sorrindo