Desamarrei a fita de couro e, rapidamente, desenrolei a carta.
- “Origem guardada em coração puro”.
- “Origem guardada em coração puro”. – repetiu. Correu os olhos sobre a grande mesa de madeira. – Tudo bem. – suspirou – Coração puro é uma pessoa boa, não é? – isto não era uma pergunta. Ela nem ao menos esperou que eu respondesse. – Então nós precisamos saber quem, nas lendas que eu li, tinha coração puro. – de repente, sua expressão mudou. De satisfação para incerteza.
– Ou pode ser uma pessoa ingênua. – arqueei as sobrancelhas.
- É! – sorriu, impressionada - As pessoas ingênuas não vêem maldade em nada. Isto as faz ter o coração puro – concordou. – Mas... Eu não me lembro de lenda alguma contendo UMA pessoa ingênua, especifi-camente. Têm várias, onde os Sidh enganam os humanos intrometidos, mas não há uma lenda que diz o nome de um destes humanos.
- Você tem certeza?
- Não completamente. – coçou a cabeça, em busca de lembranças – Será que aqui tem internet?
- Olhe para isto, Tah. – mostrei a sala - Você acha mesmo possível haver internet aqui? Provavelmente não tenha nem televisão! – recla-mei.
- Como nós vamos saber de que lenda seu pai está falando?
- Não sei.
Tayla fez o mesmo que eu. Ficamos caladas alguns minutos, esperando algo cair do céu.
- É isso, Zah! – sorriu – Como eu sou idiota! Como não pensei nisso antes? – fitou-me.
- Mas... eu... disse alguma coisa?
- Não, você não disse nada, como sempre! – sorriu, novamente.
- Ah.
- Zarah, nós estamos na sua casa. – apontou.
- Não me diga! – debochei.
- Zarah, sua casa é o lugar com mais livros que eu já vi. E todos os livros são sobre os Sidh.
- Você não está querendo procurar em todos os livros. – fitei-a - Está?
- Não. Lógico que não!
- Ufa!
- Não precisaremos procurar em todos eles por que essa lenda não é sobre um dos Deuses. Sendo assim os diários dos Deuses estão descar-tados. – sorriu. – Isto faz nossa procura cair um terço. – fez sinal com as mãos.
- Ah. – repeti seu sinal – Cair um terço? Que ótimo saber. Nós temos quantos livros agora? Duzentos mil?
- Não exagere Zarah!
- Não estou exagerando! – franzi a testa.
- Agora você parece uma criança teimosa. – divertiu-se.
- Acho melhor nós começarmos, já que o tempo é tão curto.
- Por onde começaremos?
- Você é o cérebro da operação. – coloquei os dedos sobre sua cabeça.
- Pare com isso! - protestou
Retirei meus dedos. Ela esfregou um pouco a testa, provavelmente pensando qual o melhor lugar para começar.
- Eu já sei aonde nós iremos primeiro!
Virou-se, na direção oposta à que entramos, passou por uma grande porta e seguiu em frente no corredor. Segui, logo atrás, perguntando-me para onde estávamos indo. Passamos por algumas portas fechadas, duas grandes salas, sem portas, e chegamos ao fim do corredor. Tayla parou em frente a uma enorme porta de madeira.
- O que foi? – perguntei, depois de perceber que ela não abriria a porta.
- Abra! – disse Tayla, olhando-me.
- Por que você não abre?
- Eu não posso. – isso pareceu incomodá-la.
- Por que não?
- Por que eu não sou um Sidh. Elas não permitem que humanos as toquem. – correu os olhos para o chão.
- HA.HA. Se eu te colocar numa dessas salas e fechar a porta você nunca mais sai? – sorri.
- Cale a boca, Zah! – deu um tapa no meu ombro.
- Se você me bater de novo eu te coloco dentro de uma sala dessas e nunca mais volto. – ameacei, divertindo-me.
- Abra logo, Zah! – revirou os olhos
Apesar de grande, a porta não era pesada. Havia uma maçaneta redon-da e de vidro, com dizeres antigos que se pareciam mais com as escri-tas de dentro das pirâmides do Egito do que latim.
Ao entrar na sala tive uma sensação boa. Parecia que meu corpo reco-nhecia aquele lugar, e que estava feliz em revê-lo.
Aquilo não era uma sala com as outras, tinha uma grande figueira no centro, uma enorme cúpula de vidro no lugar do teto, permitindo que os raios do sol inundassem a sala, e inúmeras estantes lotadas de livros de todos os tamanhos e espessuras. Havia centenas de estantes de ma-deira abarrotadas de livros antigos. A sala, ou biblioteca, era tão gi-gantesca que, de onde estávamos não dava para enxergar todas as pra-teleiras. Não havia janelas, mas, apesar de parecer uma estufa, o local era bem fresco. Em volta da árvore havia grama e algumas flores, des-conhecidas por mim, mas a grama se acabava antes mesmo de chegar perto de onde estavam as grandes estantes. Apesar de não haver jane-las, havia uma parede de vidro desenhado, transparente, atrás da árvo-re, com a ilustração de um antigo mapa. As estantes de livros estavam organizadas bem próximas umas das outras, algumas em fila indiana e outras encostadas, ocupando todo o espaço das paredes e dos grossos pilares de madeira.
- Por onde começaremos? – perguntei, sem fôlego.
- Eu não sei. – Tayla também estava impressionada.
- Você nunca esteve aqui? – fitei-a.
- Não. – disse, caminhando até onde começava a grama.
- Como você sabia da existência dessa biblioteca?
- Berserker me disse ontem à noite.
- O que ele disse?
- Que no fim do corredor da sala de jantar havia a maior biblioteca do castelo. – desviou os olhos da grande figueira e seguiu em direção às estantes, rapidamente.
- Aonde você vai? – tentei segui-la.
- Tentar desvendar a pista. – gritou de onde estava.
Elise desceu do meu ombro, apressada, logo depois de ver as pequenas flores na grama. Correu, em passos engraçados, até a grama e começou a andar enlouquecida entre os raios de sol. Perdeu totalmente o medo de me perder, pelo menos por enquanto.
Isto é bom, mesmo que seja por algumas horas, assim eu conseguirei ajudar Tayla sem ser incomodada.
Tayla pegou vários livros de uma estante que continha os livros mais velhos de toda a biblioteca. Ela os colocou sobre uma das elegantes mesas de madeira perto da figueira e começou a lê-los. Fiz o mesmo. Peguei o máximo de livros que agüentava e comecei a ver os sumários. Mas havia algo errado.
- O que faremos agora? – perguntei, levantando o livro.
Todos os livros estavam escritos numa língua estranha. No lugar das letras e números havia símbolos.
- Ai... meu... Deus! O que a gente faz agora? – folheou o livro rapida-mente.
- Morre na praia. É isso que a gente faz! – respondi. – Nadamos, na-damos, nadamos e agora vamos morrer na praia. – fechei o livro com força e o coloquei sobre mesa.
- Vê se consegue falar com a Kika. – disse Tayla
- O que?
- Vê se consegue falar, ela vai saber traduzir isto. – apontou
- Não garanto nada. – soltei.
Fechei os olhos e relaxei o máximo que deu. Primeiro imaginei o rosto de Kika, depois pensei em voz alta “SOS na biblioteca, não sabemos ler na sua língua!” e esperei que ela estivesse perto o suficiente para ouvir.
Por via das dúvidas permaneci de olhos fechados e pensando nela, para facilitar o contato.
“Os livros?” – disse uma voz em minha cabeça. Era Kika.
“É!” – pensei – “Não conseguimos ler. Tem um monte de símbolos iguais aos da maçaneta da porta. Você precisa vir aqui traduzir.”
“Não é preciso. Basta você dizer a eles em qual língua deseja ler.”
“O que?” – saiu como um grito pensado.
“Fale com o livro que deseja ler. Agora eu tenho que ir. Estou ajudan-do Berserker em alguns assuntos.”
Abri os olhos, ainda sem entender muito.
- O que ela disse? – Tayla perguntou.
- Para eu... falar com os livros. – fiz careta.
- Falar o que? – fitou-me, sem entender.
- Pelo que eu entendi, é para eu pegar o livro e dizer “português” e ele muda a escrita.
- O que você está esperando? – sorriu, boquiaberta.
Bom, a Kika não iria mentir para mim numa hora crítica assim. Só me restava tentar fazer o que ela disse e rezar para dar certo.
Peguei um livro, olhei para ele e disse:
- Quero ler em português. – apertei os olhos, esperando, mas nada de diferente aconteceu.
- E? – perguntou Tayla.
- Nad... Ai! – soltei o livro rapidamente.
- O que foi? – perguntou Tayla, ansiosa.
- Não sei, ele ficou gelado de repente. – fitei o livro caído sobre a me-sa.
- Será que deu certo? – sorriu.
Toquei o livro, de leve, com o dedo indicador, para ver se ainda estava gelado.
- Está gelado ainda? – Tayla estava mais ansiosa que eu.
- Voltou ao normal. – disse, segurando-o.
- Veja se está em português.
Abri o livro, e, para minha total surpresa, consegui entender cada pa-lavra. Apesar de sentir meus olhos embaçarem, mas deve ser pela mu-dança rápida de grafia.
- Funcionou! – disse, alterando o tom de minha voz.
- Que ótimo! – exclamou Tayla – Agora só faltam 1999 mil livros. – sorriu.
- Putz! – reclamei – Um por um vai ser muito cansativo.
- E se você disser uma vez só, para todos eles?
Senti-me uma tola em ter de conversar com livros, mas era o único jeito de encontrar a pista.
Levantei-me, olhei para todas aquelas estantes abarrotadas de livros e disse em voz alta:
- Preciso que todos vocês mudem a escrita para português.
Assim como antes, nada aconteceu durante alguns segundos, mas aí, do nada, a temperatura da sala caiu, era como se tivessem ligado o ar condicionado mais potente que já inventaram. Mas alguns segundos depois a temperatura agradável da biblioteca havia voltado.
- Deu certo? – perguntou Tayla
- Sim, você não sentiu? – como ela não sentiu a sala diminuir 10ºC?
- Não senti nada. – reclamou.
- Ficou muito frio. Como você não notou?
- Zarah, eu não sinto a magia. Sou humana, lembra? A aberração aqui é você.
Tayla pediu que eu lhe mostrasse cada nome de capítulo, antes de co-meçar a lê-lo, para não perder tempo em coisas desnecessárias. En-quanto ela lia, fazia sinal com o polegar, dizendo se eu podia ou não ler aqueles capítulos. Ficamos lá, lendo, por muito tempo, mas não encontramos nenhuma lenda como a que nós procurávamos. Todas elas eram sobre Sidh enganadores de humanos, uma penca de garotas ingênuas e virgens, homens à procura de um pouco de romance proi-bido, caminhos sem fim, feitiços e mentiras. As lendas não continham nomes, nem sequer dos Sidh. O último livro da minha pilha, a quinta, para falar a verdade, o qual tinha o nome “Janas” escrito na capa, fez os olhos de Tayla brilharem. Ela o tomou de mim, leu rapidamente o sumário e soltou um imenso sorriso.
- Eu acho que encontramos! – mostrou um capítulo intitulado “Almas condenadas”.
Fiz um esforço extra a fim de ler o que dizia, já que minha visão ainda estava um pouco embaçada.
- O que isto tem a ver? A pista não fala nada sobre uma alma conde-nada. – critiquei, apontando o título.
- Era esta lenda que eu estava procurando Zah! Eu não me lembrava o título, pois no dia em que a li tinha mais uma porção de outras lendas misturadas, mas agora eu me lembrei. Janas. Este era o nome da lenda!
- Será que é esta? Você tem certeza? – desafiei.
Torci para que fosse aquela lenda. Ah, como torci. Nem os Deuses tem noção o quanto era grande a minha torcida.
Eu nunca me dei muito bem com livros de lendas e todas aquelas coi-sas mágicas. Só o fato de eu ter lido mais ou menos cinco pilhas de livros com este contexto, tive um pouco de náuseas e dor de cabeça. Nós ficamos tanto tempo sentadas naquela mesa, lendo, que o sol já havia se escondido e Elise já voltara para perto de mim. Ela estava dormindo de barriga para cima, toda gorda e esparramada, sobre o livro das ninfas azuis.
- É esta sim! – fuzilou-me com os olhos – desde quando você duvida tanto assim da minha capacidade de lembrar das coisas?
- Não estou duvidando, Tah. Eu só estou perguntando.
Ela conseguiu me intimidar.
- Eu vou ler este capítulo em voz alta. – deu um pigarro – Começarei daqui. – apontou para o meio da página. – Este começo é pura em-bromação.
- Comece, então. – pedi, revirando os olhos.
Tayla puxou um pouco de ar e começou.
- “As Janas são seres condenados. São garotas enganadas e roubadas para sempre. São as almas de donzelas que foram deixadas a guardar tesouros. A Jana pode aparecer sozinha, acompanhada de outras Janas encantadas ou de um Sidh. Geralmente enganadas por um Sidh, elas têm suas almas aprisionadas em uma cripta de pedras brancas perto de um riacho. Aparecem junto de nascentes, fontes, pontes, rios, poços, cavernas, antigas construções ou velhos castelos. Se você vir uma de-las, perceberá que, não muito longe, está sua cripta. As Janas aparecem sempre segurando um baú de madeira. No baú há um tesouro, que ela protege como se fosse sua própria vida, em troca de um dia ter sua alma de volta. Existem diferentes meios de se obter o tesouro: pode ser oferecido pela Jana como recompensa, roubado, ou achado. Sempre que você encontrar alguma delas perceberá que ela é apenas um corpo sem vida, sem alma. Para realizar o desencantamento da Jana, é solicitado um segredo, um beijo, o pronunciamento de algumas pala-vras, ou a realização de alguma tarefa. Falhar é não desencantar a Jana e ‘dobrar o encanto’ ou não obter o tesouro desejado”.
- V... você acha... que... que meu pai roubou a alma de uma garota... por que precisava que alguém de confiança guardasse a segunda pista? Ele não seria capaz de uma coisa tão horrível como essa. – levantei meus olhos até ver o rosto sardento - Seria?
- Não temos certeza, Zarah. Não é certo sair por aí tirando conclusões precipitadas. – alertou.
- As evidências estão aí, se estivermos certas. É claro que ele enganou uma garota. – fitei-a.
- Eu não vi evidência alguma. – Tayla continuava com a voz calma.
Aquilo me deixou um pouco mais aflita.
- Está mais do que na cara! – fiz o tom de minha voz subir dois terços.
- Não, não está! Seu pai não se aproveitou de alguma alma já conde-nada! – desafiou-me. – Ele não seria capaz de fazer mal nem à uma mosca.
Aquilo fez o pequeno Chinnuril acordar assustado. Elise pulou, aflita, no meu colo, fazendo aqueles barulhinhos engraçados. Tentei acalmá-la, ainda prestando atenção em Tayla.
- O que você quer dizer com isto? – pisquei várias vezes, expulsando as grossas lágrimas que desfocavam minha visão.
- Nós duas sabemos que seu pai é um homem bom. – abaixou mais o tom de sua voz.
- Ele poderia estar enganando a todos. – rolei os olhos até Elise.
- Zarah, e se eu te dissesse que nós acabamos de passar para a pista 2?
- O que? – desviei meu olhar, até encontrar o de Tayla. Ela estava ra-diante. – O que você quis dizer com “acabamos de passar para a pista 2”?
Tayla não disse nada. Ela pegou o livro de cima da mesa e apontou com o dedo.
No meio da página havia um pequeno pedaço de papel. O nome Muriel estava escrito de caneta preta, na mesma elegante caligrafia da minha carta.
- Quem é Muriel? – perguntei, sentindo uma leve dor de cabeça.
- É o que precisamos descobrir. – Tayla parecia mais nervosa que antes. – Vamos sair daqui. – cochichou em meu ouvido
- O que foi? – perguntei no mesmo tom.
- Eu acho que tem alguém atrás da porta. Eu ouvi alguma coisa. – aler-tou.
- Tipo o que?
- Um bisbilhoteiro. – apressou-se – Vamos. Isto deve ter outra saída.
- Tayla, você está louca? Não tem ninguém atrás da porta. – sorri. A-inda sussurrando, como ela fazia.
Elise pulou da palma de minha mão, lançando-se em direção à porta. Tayla tentou alcançá-la, mas chegou tarde demais, e eu estava, ainda, na metade do caminho. O pequeno Chinnuril passou as mãozinhas na porta e começou a arranhá-la, fazendo um barulho irritante. Eu a pe-guei no colo, levei a mão à maçaneta de abri aporta. Tudo isso em poucos segundos.
Tayla tinha razão. Havia alguém atrás da porta.
Apertei Elise em minha mão, num susto, após abrir a porta e dar de cara com um rosto não muito agradável e desconfiado. O pobre Chin-nuril soltou um grunhido tão alto, que me fez voltar rapidamente do estado de choque. Eu não sabia o nome da pessoa que me deixou da-quele jeito, só a tinha visto duas vezes durante o almoço. Ela era a mãe de Noba e, segundo Aine, a “faz tudo do castelo”.
- Nem precisei bater. – disse a mulher, sorrindo. Aquele não pareça o sorriso de alguém que estava planejando algo errado.
- A... Se... Senhora quer alguma coisa? – perguntei. Recuperando-me do susto.
- Vim perguntar se vocês duas estão com fome.
- Est-
- Não! – respondeu Tayla, rapidamente, interrompendo-me. – Quer dizer. – desviou o olhar – Ainda é cedo, né! – pigarreou.
Não entendi o que ela quis dizer com aquilo, mas, se tem uma coisa que eu aprendi em todos estes anos foi que é melhor não contrariá-la.
- Eu não estou com tanta fome assim. – soltei um meio sorriso.
A mãe de Noba pareceu um pouco insatisfeita com minha resposta. Soltou um meio sorriso e disse:
- Bem, se vocês precisarem de alguma coisa é só me chamar.
- Nós chamaremos! - sorri
A mulher não pareceu muito feliz em ir embora. Demorou um tempo a se locomover de perto da porta. Várias vezes seguidas ela mudou seu olhar, entre mim, Tayla e o lado de dentro da sala.
Tayla passou à minha frente e serrou os olhos na mulher.
- Mais alguma coisa? – perguntou, soltando o sorriso mais falso que eu já vi.
- Não. – respondeu a mulher, entre dentes.
Sem esperar que a mulher se locomovesse Tayla soltou a maçaneta, trocou sua mão pela minha e a empurrou até a porta se fechar.
- Ai. – exclamou, sacudindo a mão.
- O que foi?
- Não posso tocar as portas. Lembra?
- Ela... tentou te queimar? – notei um círculo vermelho na palma de sua mão.
- Elas não gostam de humanos. – sorriu sem graça.
- Tah. Por que você tratou a mãe da Noba daquele jeito? – a segui de volta à mesa.
- Você não viu o jeito que ela te olhava? Parecia que você tinha des-coberto algum segredo dela. Achei até que fosse te bater. – alertou-me, como se eu tivesse perdido alguma parte da rápida conversa.
- Eu não vi nada. – coloquei Elise na outra mão - Aliás, dona Tayla, você precisa parar de achar que todos no mundo estão conspirando contra você! – toquei a ponta de seu nariz.
- Eu não acho que o mundo inteiro é uma conspiração, Zarah Luna! – serrou os olhos – Você é que vê o mundo de um jeito ingênuo demais. Você nunca acredita que as pessoas sejam capazes de cometer malda-des. – repetiu meu movimento.
- Tudo bem. – levei Elise perto de minhas bochechas – Seu mundo é mal e o meu é bom. - sorri
- Francamente, eu não sei como agüento você! – fechou o livro, juntou-o aos outros da mesa, fez uma pilha e dirigiu-se às prateleiras.
Eu fiz o mesmo. Deixei minha bolinha de pêlos, reclamona, sobre a mesa, fiz minha pilha de livros e segui até as prateleiras.
Limpamos a mesa em menos de cinco minutos.
- Você tem idéia de onde o Leprechaum esteja?
- Não sei. Ele disse que ia à cidade. – dei de ombros – Por quê?
- Precisamos saber quem é Muriel. Ele deve saber quem é.
- Ele disse para chamarmos a Kika se precisarmos de alguma coisa. – lembrei.
- Chame-a! – Tayla parecia mais aflita que eu.
Concentrei-me, repeti seu nome várias vezes.
Era estranho, como se minha consciência estivesse falando comigo, na voz de Kika. É meio perturbador ter uma voz, que não seja a minha, em minha cabeça. Nunca acostumarei.
- Você conseguiu falar com ela? – senti Tayla me sacudir. Seu humor ainda não mudara.
Desfoquei por alguns segundos, recuperando-me da conversa inusita-da.
- Ela disse para nós voltarmos ao meu quarto.
- Ela disse mais alguma coisa?
- Só isso.
Dez segundos de silêncio. Tayla não parava de olhar a parede de espe-lhos atrás da grande figueira.
- O que faremos? Ela pediu para não demorarmos. – apressei.
- Faremos o que ela pediu. – disse sem me olhar.
Tayla seguiu em direção a porta, vagarosamente. Parecia não estar muito empolgada em continuar seguindo as pistas.
Saímos da sala e fizemos o mesmo caminho, para voltar ao meu quarto. Passamos pela sala de jantar, pegamos minha nova mochila, subimos as escadas, entramos no imenso corredor da linda sala de música e da velha poltrona vermelha. Tayla não disse uma palavra até chegarmos ao meu quarto. Todas as vezes que eu a olhava ela soltava um meio sorriso, sem graça, e voltava em seus pensamentos. Seu olhar dançava entre duas emoções diferentes. Algumas vezes parecia resolver cálculos de física avançada, outras vezes sua feição era de desprezo e repugnância.
Enfim chegamos ao meu quarto. Abri a porta e a deixei entrar primeiro. A Laranjinha Sardenta ainda estava com aquele olhar de matadora de aluguel. Em seu rosto não havia sinais de felicidade ou algo perto disso.
Tayla entrou no quarto, ainda pensativa, dirigiu-se até a chaise ao pé da cama, deitou e lá ficou. Seus olhos fitavam o teto e uma ou duas vezes ela olhava em direção ao mezanino lotado de livros.
- O que houve com ela? Vocês discutiram? – perguntou Kika, num tom baixo.
- Eu não sei, não falei nada a ela. Acho que deve ser a mão, a porta da sala de livros a queimou. – lancei o olhar para a coisinha laranja es-tendida sobre a chaise. Mas ela não parecia preocupada com a leve queimadura em sua mão.
- Ela está muito machucada? – Kika deu alguns passos para dentro do quarto, preocupada com Tayla.
- Não se preocupe, só ficou vermelho, nem saíram bolhas.
- Por que ela tentou abrir a porta, ela sabia que seria impedida.
- Foi um momento de descuido. Tayla estava muito apreensiva com a presença da mãe de Noba. Chegou até dizer que a coitada estava nos vigiando. – usei um tom irônico.
- Mas o que fez Tayla pensar isto de Grianna? – Kika parecia muito interessada no rumo em que nossa conserva havia tomado.
- A Tayla é louca, a... – dei uma pausa - Grianna?
Kika assentiu.
- Ela só foi perguntar se nós estávamos com fome.
- Não aconteceu mais nada? Eu não a conheço tão bem quanto você, mas tenho certeza que Tayla não é de tirar conclusões precipitadas. Grianna deve ter dito algo, sem que você perceba, e ela não gostou de ouvir.
- Não, ela não disse nada. – forcei a memória, mas fui incapaz de en-contrar algo que deixaria Tayla magoada.
- Tayla não te disse nada? – perguntou apreensiva.
- Ela disse que tinha alguém nos escutando do outro lado da porta. Fomos até lá e era Grianna.
- Nada mais?
- Acho que não.
- Ela agiu como se tivesse sido pega de surpresa?
- Não. Mas ela não parecia muito feliz. – lembrei-me.
Kika permaneceu calada, pensativa, alguns segundos.
- Talvez sua irmã esteja certa. – alertou.
- Talvez não. – respondi insegura – Tayla sempre acha que todas as pessoas do mundo são más. Vive se metendo em encrenca por isso. – minha voz saltou dois terços, assim como a rapidez que as palavras saíram.
- Garanto que ela quase nunca está errada.
- Isto é verdade. – refleti
- Não acha que está na hora de dar mais crédito a ela? Não percebe que ela está fazendo de tudo para você ter seus pais de volta? Ela viajou um dia inteiro em cima de um Grifo, segurando sua mão, enquanto você se contorcia de dor. Sozinha, aos quinze anos de idade, ela en-frentou o conselho dos anciãos do reino que não a queriam aqui. Você sabe por que eles a deixaram ficar? – perguntou, segurando meu olhar em seus olhos penetrantes. Nem parecia uma adolescente de dezoito anos. Ela falava como Valentina.
Fui incapaz de dizer uma frase sequer.
- Por que essa garota de apenas quinze anos prometeu lhes entregar todas as lembranças que tiver daqui. – seu tom continuou baixo, porém áspero.
Arregalei meus olhos, espantada.
Nunca pensei que Tayla fosse capaz de fazer algo assim por mim. Perder suas lembranças só para que a idiota aqui, que nem ao menos acredita no que ela diz, tivesse sua família de volta.
- Se não bastasse tudo isso – continuou -, ainda dormiu sentada na poltrona ao lado da cama esperando você melhorar. Ela fez tudo isso para que você, que nunca leva a sério ao que ela diz, tivesse a chance de ser feliz.
- Eu-
Kika interrompeu-me.
- Eu ainda não terminei.
Meus lábios se fecharam imediatamente.
- Sua avó Aine me pediu pra ficar de olho em Tayla.
- Por quê? – fechei a boca rapidamente. Esperei que ela não se zangas-se.
Não pretendo estar perto quando essa cruza mutante, de fênix com leão, se zangar.
- Por que ela é apenas uma humana indefesa, e é a humana mais inte-ligente que nós já conhecemos. Alguém pode fazer mal a ela. Nunca ouviu falar que “o ignorante vive mais que o sábio”?
- Você está me dizendo que ela pode estar em perigo por que... Sabe demais? – diminuí mais o tom de voz, para que Tayla não ouvisse.
- Exatamente! Zarah, seu tio não conseguiria entrar no castelo, as duas vezes em que seus pais sumiram se não contasse com a ajuda de al-guém de dentro. – sua respiração alterou – Tayla já havia tirado essas conclusões antes mesmo de virmos para cá. Ela acha que seu tio só conseguiria entrar se alguém daqui de dentro do castelo o ajudasse. Ela só não descobriu quem.
- Mas você acha que Grianna seria capaz de trair meus pais deste jeito? – as palavras não saíram num tom amistoso.
- Eu não sei Zarah, não acredito que seja verdade, pois ela trabalha há tanto tempo com sua família. Não acredito que seja ela. Antes de vir para cá, Grianna cuidava do castelo de Aine e Berserker.
Senti meu coração acelerar e meu rosto esquentar. Uma onda de afli-ção e raiva dançou desde a ponta dos meus pés até o último fio de cabelo.
Kika percebeu a mudança no meu rosto.
- Por via das dúvidas eu estou de olho nela o máximo de tempo que posso. Não se preocupe. Você precisa se focar em desvendar as pistas de seu pai e deixar que do resto eu cuide.
Assenti.
- Conhece alguma Muriel? – lembrei-me
- Ela falou com você? – o grande Grifo parecia aflito
- Não. – sentei no chão à sua frente – A próxima pista está com ela.
Kika abaixou-se lentamente até que seus olhos ficassem na altura dos meus. Seu olhar, antes preocupado, agora estava com um brilho dife-rente, como se um peso tivesse sido tirado de suas costas.
- Coloque Elise no chão. – ordenou
Sem entender, tirei Elise do meu ombro, na marra, e a coloquei no chão. Ela começou a protestar.
- Elise, não faça isso! – forcei uma cara brava.
Não adiantou nada. Elise continuou colada em mim.
Kika lançou um olhar de dar medo em qualquer um. O pobre chinnuril ficou espantado, correu, de um jeito engraçado, e subiu no colo de Tayla.
- O que aconteceu? – ela perguntou. A pequena “pluminha” branca em suas mãos estava de olhos arregalados, alternando o olhar entre mim e Kika.
- Fique com ela – ordenei.
- Tudo bem. – Tayla a segurou firme.
- Não importa o que aconteça, não a solte. – disse Kika – Coloque a mochila na cama. – apontou. Andei alguns passos, tirei-a dos ombros o mais rápido que pude, jogando, com força, sobre a cama.
- O que eu lhe mostrarei agora é muito importante e terá de ficar entre nós. – seu hálito de flores do campo tocou cada milímetro do meu rosto, me deixando fora do ar por segundos.
Todo o quarto movimentou-se como um ciclone enquanto nós perma-necíamos imóveis. Aos poucos a imagem mudou, dando lugar a uma linda paisagem verde esmeralda alternada entre milhares de macieiras e aveleiras, salgueiros, carvalhos, olmeiros e bétulas e várias outras árvores e plantas postas em longas filas e colunas. Parecia que cada uma havia escolhido seu lugar na fila e obedecia à linha reta que se formava nos espaços vazios entre elas.
Estou incrivelmente impressionada com a minha capacidade de dife-renciar toda aquela variedade de árvores que eu nunca tinha visto pes-soalmente. Era como se eu fizesse parte de toda aquela floresta orga-nizada. Era como se ela dependesse de mim e eu dela. Senti-me livre e mais saudável.
- O que é tudo isso? – respirei fundo o ar que a grande quantidade de clorofila exalava. Fechei os olhos, respirei mais algumas vezes, espe-rando a resposta.
- Esta é Dinniúntt.
- Estou sem a tecla sap. – sorri ironicamente
- Como é?
- Eu não entendi o que disse. Você falou grego? – sorri novamente
- Não Zarah. É a língua que todos falam aqui. Nossa língua mãe.
- Por que, se todos falam português? – fucei meu cérebro, esperando alguma memória que respondesse minha pergunta.
- Bem, nós estamos na terra dos Sidh. É normal que todos aqui falem esta língua.
- Por que eu só ouvi falarem português?
- Ah! Nós falamos muitas línguas. – deu uma pausa – “Falar” não é a palavra certa para o que eu faço, mas tudo bem. –
- É – refleti.
Kika encarou-me, mas havia uma espécie de sorriso escondido no grande bico e em todas aquelas penas.
- Aprendemos desde pequenos, apesar de o português ter sido adicio-nado à nossa lista somente na época em que descobriram que Ryan fora escondido no Brasil.
- Vocês falam todas as línguas do mundo? – perguntei impressionada.
- Não todas, mas uma boa parte delas. Não somos obrigados a apren-der, apesar de a grande maioria dos Sidh fazer questão.
- Em que lugar da Irlanda nós estamos?
- Nos limites dos Anéis de Aine. Não existe um lugar certo para os Anéis, é sua avó quem determina o lugar, estamos sempre mudando de cidade. Pode-se dizer que somos nômades. – a voz mudou para um tom divertido.
- Por que você me trouxe para cá? – lembrei do principal motivo de estarmos aqui.
- Como assim, Zarah? Este é o seu mundo. Você precisa salvar seus pais. – a doce ave deu lugar a um leão aborrecido.
- Eu não quis dizer para dentro dos Anéis. Perguntei sobre esta flores-ta. - apontei
O leão voltou a ser a calma e delicada ave de antes.
- Ah. – sentiu-se envergonhada pela ação precipitada - Eu te trouxe aqui para mostrar algo que seu pai me deu antes de te esconder.
- Uma floresta? – fiz cara de desprezo
- Pare de ser tão... Tão adivinha! – seu humor fez o leão tentar sair.
- Desculpe. – disse rapidamente, tentando evitar que o leão ganhasse a briga com a fênix.
- Desculpas aceitas.
Kika desviou os olhos dos meus, o que me deu certa segurança, e fixou sua visão até depois das grandes árvores. Eu segui seu olhar, atenta a não perder detalhe algum.
Aos poucos as árvores ficaram cada vez mais próximas. Era como estar parada em uma grande e movimentada estrada de mão única, na contramão, com muitos carros passando em alta velocidade ao nosso lado.
Todo aquele movimento de galhos e folhas me deu uma leve vertigem.
- É meio... – arfei - rápido isso, né. – sentei, coloquei a cabeça entre os joelhos, esperei a tontura passar e a respiração voltar ao normal.
A grande ave-mamífero não desviou os olhos das árvores um segundo sequer.
- Você já pode olhar. – inclinou-se até tocar, de leve, o bico em minha cabeça.
Levantei lentamente, temendo sentir náuseas.
- Nossa!
Kika havia nos levado para dentro da floresta, perto de um riacho re-pleto de pedras com musgos, algumas cachoeiras e muitas árvores num tom de verde tão lindo que dava vontade de tocar para ter certeza de que não era apenas uma ilusão.
- Isto é... – não encontrei a palavra certa para descrever aquele lugar. Se eu dissesse incrível, seria uma ofensa a tal beleza.
- Repugnante. – era o leão quem falava agora.
- Repugnante? Eu não diria isso, diria extraordinário, sobrenatural, magnífico, impressionante ou qualquer sinônimo.
- Como pode achar extraordinário um ato tão cruel quanto este? Na-quele momento, se a parte leão de Kika fosse a da frente, ela teria me mostrado todos os dentes e ainda soltaria um bom rugido.
- O que você tem contra a natureza? – perguntei incrédula.
- Não é a floresta. – apontou a cabeça na direção da maior das cacho-eiras.
- O que eles estão fazendo? – perguntei espantada.
Havia quatro homens armados com lanças esperando algo sair de den-tro da grande cachoeira. Eles vestiam camisas, sem botão, brancas e encardidas e botas de couro aparentemente feitas à mão e sem acaba-mento algum. Um deles era bem alto e forte, tinha cabelos negros e olhos verdes. O outro, ao seu lado, também muito forte, era pouco mais baixo, tinha cabelos castanhos e barba por fazer e um tom de pele muito claro. O terceiro homem, a meu ver, era gêmeo com o segundo, pois as feições eram praticamente as mesmas: cabelos castanhos, forte e pele branca. Exceto pela ausência da barba e estar pouco acima do peso. O que estava mais perto da cachoeira não era forte como os outros, mas era alto como o primeiro homem. Tinha cabelos loiros encaracolados, pele dourada e rosto de aparência angelical.
- O que eles estão fazendo? – dei alguns passos em direção à cachoeira
- Esperando Muriel sair. – disse. Ela estaria trincando os dentes se tivesse algum.
- Eles farão o que com ela? – tentei não pensar o pior.
- Prendê-la! - uma lágrima rolou de seus olhos flamejantes – Minha mãe morreu tentando protegê-la.
- Eu sinto muito. – acariciei a ponta de sua asa.
- É agora! – arfou.
De dentro de uma passagem secreta, na lateral da cachoeira, saiu uma linda e delicada jovem de pele dourada, olhos castanhos, boca carnu-da, orelhas levemente pontudas e sobrancelhas arqueadas. A jovem deveria ter uns vinte anos, não mais que isso. Seus longos cabelos negros tocavam abaixo do rústico cinto preso numa calça de couro grosso com costuras nas laterais. A camisa, parecida com a dos homens que a aguardavam, apesar de ser feminina, era azul com manga, de sino, 3/4. Algo parecido com um corpete, bem amarrado à esbelta silhueta, mantinha a camisa colada no seu abdome e frouxa nos braços.
- O que ela é? – perguntei, sem desviar os olhos.
- Muriel é uma ninfa da floresta. – disse baixinho.
- Ela não parece uma ninfa. – discordei
- Você já viu uma? – desafiou-me.
- Não, mas nos livros elas são loiras, delicadas e usam vestidos feitos de flores. – dei de ombros.
- Livros. – debochou – Eles gostam de contar histórias erradas. Aposto que nenhuma destas ninfas que você viu possui um Grifo. – senti seu olhar me fuzilar.
- Não mesmo! – sussurrei, tentando evitar que os homens nos ouvis-sem.
- É melhor acreditar em mim. – disse, me olhando. Menos de um piscar de olhos ela estava séria novamente, olhando na direção dos quatro seres repugnantes.
Os homens estavam mais perto da cachoeira, mais perto de Muriel e se distanciando de nós duas.
- Precisamos ajudá-la! – sussurrei.
Kika não saiu do lugar.
Saí correndo em direção aos homens, sem planejar nada. Com certeza apanharia, mas pelo menos daria para salvar Muriel e a mãe de Kika.
- Não adianta. – disse Kika numa voz melancólica.
Parei há alguns metros dos quatro homens. Olhei nos olhos do Grifo, que agora não passava de um animal triste e indefeso.
- Nós precisamos ajudá-las. – sussurrei para que não me ouvissem.
- Não há como interferir. Isto é apenas uma visão.
Desviei o olhar, passando-o entre os quatro homens e Muriel, que ain-da não os tinha visto.
Permaneci imóvel. Senti uma dor insuportável por não poder ajudá-la, mas não havia nada o que fazer a não ser sentar e esperar tudo aconte-cer.
Quando Muriel puxou as pedras para fechar a entrada da caverna os quatro homens a cercaram.
A garota era uma ótima lutadora. Mas os quatro também lutavam mui-to. Ela lutou com eles por um longo tempo, encheu o loiro de socos e o jogou no grandão, que por sua vez tentou lhe dar uns bons golpes enquanto os gêmeos se esquivavam dos chutes e pontapés e tentavam pegá-la.
Quatro homens bons de briga era um número grande para as habilida-des da pobre garota. Os gêmeos, de tanto rodearem-na, acabaram con-seguindo achar um ponto fraco e a prenderam. Apesar de já estar a-marrada ela não desistiu da luta. Esperneou tanto que acabou chutando o rosto de um deles, o qual ficou muito bravo e lhe deu um soco no estômago, deixando-a caída no chão, sem forças.
De repente, surge no céu um brilho incandescente.
- Máthair. – sussurrou Kika
- O que?
- Minha mãe! – seus olhos brilharam em chamas douradas.
À medida que a mãe de Kika se aproximava, deixava de ser apenas um brilho incandescente e se tornava uma grande Grifo flamejante.
Ouvi o gêmeo mais gordo dizer algo. Todos deixaram Muriel de lado, pegaram as lanças e esperaram o Grifo chegar mais perto.
“Téigdh!” – disse Muriel numa voz rígida, quebrada pelo arfar de sua respiração.
O homem mais forte mantinha os olhos colados na mãe de Kika.
O Grifo deu um rasante, pegou o loiro com suas grandes garras, o le-vou para cima e o soltou. Foi uma queda livre sem pára-quedas. Aquele estava fora de combate para sempre.
O ato do Grifo só fez os outros três ficarem ainda mais raivosos.
Eles começaram a gritar, gesticulavam chamando-a e apontavam as lanças em sua direção enquanto gritavam em outra língua.
- Você não precisa ver isto. – disse para Kika, sem tirar os olhos da luta.
- Eu preciso. – parecia incomodada – Preciso entender. Seu pai não me deu isto em vão, há algo que eu não consigo ver, algo implícito. Já revi esta cena muitas e muitas vezes, mas não consigo encontrar nada. – sacudiu a cabeça, indignada.
- Você acha que é algo que eles dizem?
- Não creio que seja isto. Eles não dizem nada importante, na verdade eles nem falam muito. Tenho certeza que é algo simples que está aí o tempo todo, simples de mais para ser notado.
Seu brilhante rosto estava tão submerso em tristeza que me fez ser incapaz de dizer algo. Permaneci ali, olhando atentamente enquanto aquele imenso ser mágico tinha seu momento de tristeza e decepção.
- Nós iremos descobrir. – fiz o melhor que pude, evitando que minha voz tremesse.
Enquanto eu tentava esconder o nervosismo e prestar atenção na luta, Muriel nocauteou o grandão depois de acertar mais de seis socos em seu grande e redondo rosto, agora ensangüentado.
Sobraram somente os gêmeos, que agora mostravam sinais claros de pânico e pavor ao ter de enfrentar um Grifo e uma Ninfa sozinhos.
Senti-me confiante e segura de que eles desistiriam da briga e iriam embora. Não havia como a mãe de Kika e Muriel se darem mal. Não agora que sobraram somente os clones covardes.
Muriel encarou um dos gêmeos, que deu um passo atrás. A mãe de Kika aterrissou com tanta rapidez e força que fez a terra do chão subir. Ela parou exatamente atrás do outro gêmeo, que se virou rapidamente para encará-la.
- Esta é a terceira pista. – disse. Seus olhos não desviavam um segundo sequer da imagem de sua mãe.
Senti um arrepio.
Podia ver a grande neblina de nervosismo prestes a me desfocar. “Não há tempo para isto! Você é forte, controle-se!” repedi várias e várias vezes em minha cabeça. Meus sentimentos estão diretamente ligados aos de Kika, portanto se eu me descontrolar tudo irá por água abaixo. Já basta ter de compartilhar sua tristeza, uma dose extra de pânico em nós duas iria complicar ainda mais as coisas.
- Por que você não me disse antes? – fitei-a. Mas ela não parecia ouvir.
- Não precisa assistir esta parte, se não quiser. – alertou.
- É agora? – perguntei espantada.
Como pode ser o final? Não há como elas perderem agora. Não contra estes dois clones idiotas.
Meus olhos encheram de grossas lágrimas, e com elas veio um aperto no coração, como se ele estivesse sendo esmagado. Algo muito além de tristeza. Aquele sentimento não estava certo, era como se alguém estivesse me apertando forte o bastante que impedisse meu coração de bater regularmente e também havia a sensação de nunca mais sentir felicidade. Doía muito, e eu realmente não estava entendendo o por-quê do sentimento tão intenso. Foi aí que me lembrei da ligação entre Kika e eu. Era óbvio que o aperto em meu coração é exatamente o que ela sentiu ao perder a mãe.
Lancei o olhar ao grande rosto da ave. Kika estava de olhos fechados, apertados, e todas as suas penas e pêlos eriçados. Ela parecia cem qui-los mais gorda, como os pássaros ficam em dia de chuva, apesar de nela as proporções serem bem maiores.
Eu ainda não conseguia entender como Muriel e a mãe de Kika perde-ram aquela luta contra os gêmeos sem cérebro. Era tudo tão óbvio. Elas já os haviam dominado. Por algum tempo cheguei a pensar que talvez esta visão terminasse de maneira diferente das outras que Kika teve.
Este rápido pensamento se afastou como um relâmpago.
Os quatro homens, que era a quantidade inicial deles, não estavam sozinhos. Era por isso que os gêmeos não estavam com medo de en-frentar as duas. Eu deveria saber que havia algo mais, senão eles já teriam corrido de lá há muito tempo.
Foi aí que minha respiração acelerou.
De trás da cachoeira saíram duas águias gigantescas, pouco menores de Kika, com olhos cor âmbar líquido e fulminando de raiva.
Naquele momento eu tive vontade de correr na direção delas. Gritar para chamar sua atenção, assim evitando que elas matassem Muriel e a grifo. Qualquer coisa estúpida que eu fizesse seria melhor do que ficar aqui parada assistindo o estrago ser feito.
- O que-
– Bem vinda ao mundo real! – exclamou, desanimada.
- Mundo real? – fitei-a - Como assim? Este não é o mundo real, o que você sabe sobre o mundo real? Você vive no mundo dos contos de fada, da magia, feitiçaria. Valentina, Tayla, Cadu, Milla, Nolan, eles sim vivem no mundo real.
- Você não percebeu? – disse impaciente.
- Percebi o que? – desafiei.
- Aquele é o mundo de contos de fada, Zarah! – seus grandes olhos se encheram de presunção. – Este é o mundo real! O mundo em que você vivia é o mundo que todas as criaturas boas daqui gostariam de estar. Um mundo em que uma lei serve para todos e não há seres malignos percorrendo os bosques atrás de vítimas, destruindo tudo e todos que vêem pela frente. Aqui as regras mudam conforme o jogador. Cada espécie, tribo, criatura, reino, vila tem suas próprias regras. Agora você vem me dizer que eu vivo em um conto de fadas? Pense bem. Olhe ao seu redor, Zarah! Estamos assistindo minha mãe morrer, seus pais estão desaparecidos, com apenas dezoito anos você é a única que pode salvá-los. Onde no seu “mundo real” isto aconteceria? Você ouviu falar, em qualquer uma das histórias dos contos de fada, de leis ou alguém que as façam ser cumpridas? Não, você nunca ouviu! E por quê? Porque isto não existe no mundo real!
Aquilo me deixou com medo, nunca vi Kika descontrolada deste jeito, apesar de tê-la conhecido ontem. Ela falava tão calmamente, tão mei-ga, que esta explosão de raiva me assustou.
- Me desculpe, eu não quis... – não sabia como me desculpar. Percebi que a melhor coisa a fazer era me calar. Evitaria a chance de dizer outra idiotice.
- Sinto muito por dizer todas estas coisas, mas você realmente me tirou do sério com esta conversa de “conto de fadas”. – desculpou-se – Eu não quis te assustar. – seu rosto alternava os sentimentos de dor e culpa.
- Me desculpe. – apoiei todo o lado esquerdo do meu corpo em Kika. Fitei o chão, envergonhada. Ela passou a asa em volta de mim, acei-tando minhas desculpas.
A esta altura, as águias já haviam entrado na luta. As duas foram na mãe de Kika enquanto Muriel tentava dar conta dos gêmeos covardes.
Minha atenção estava toda voltada para Muriel. Ela estava se saindo muito bem, um dos homens estava contundido, caído no chão e sem fôlego, mas o outro resistia bravamente.
É, acho que posso dar um crédito a ele. Ele até que é valente, mesmo sabendo que não vai agüentar por muito tempo.
- Ele é resistente. – sussurrei. Mas Kika não me deu ouvidos. Ela me apertou junto de si, me protegendo.
Foi aí que me lembrei de sua mãe e as duas águias. Eu sabia que aquilo não acabaria nada bem.
Elas não lutavam no chão, como Muriel e o homem. Elas sobrevoavam a cachoeira, arranhando-se, e as duas águias estavam dando um trabalho e tanto para a Grifo. Tentavam se chocar contra ela, bicavam, arranhavam e faziam de tudo para derrubá-la. Mas a mãe de Kika re-sistiu o máximo que pôde. Apesar de ser pouco maior que aquelas aves demoníacas e conseguir que seu corpo todo ficasse em chamas, ela não resistiu muito tempo, caindo aos poucos até seu corpo atingir a parte mais rasa e cheia de pedras do rio.
- Não! – gritei junto com Muriel.
Kika me apertou ainda mais, baixou a cabeça até tocar a minha, ten-tando me consolar.
- Shhhh... Já acabou. – disse calmamente, afagando minha cabeça com o bico.
Ficamos assim alguns segundos, até eu não agüentar mais ouvir Muriel gritar desesperadamente.
A pobre garota estava tão focada em ajudar a mãe de Kika, que esque-ceu sua luta contra o gêmeo remanescente. Este se aproveitou do mo-mento de fraqueza dela e a dominou de vez.
Naquele momento percebi que Muriel havia desistido de tudo, até mesmo de viver. Ela poderia lutar contra o homem, sim poderia, e se sairia muito bem, mas não o fez. A vida não tinha mais sentido depois que sua companheira alada se fora. Havia fraqueza e tristeza estampa-da em seu rosto marcado por cortes e arranhões. Os olhos não tinham vida ou brilho, o corpo não se mexia por conta própria, o único esforço visível era do homem que a carregava, amarrada e amordaçada, sobre os ombros.
3 comentários:
bom e longo!
É bem empolgante..por isso quando eu tiver um tempo maior, leio todos os capítulos anteriores pra ficar por dentro.Pelo que percebi você é uma escritora de mãos cheias! Parabéns!!
Beijoos
Muito bom!
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