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quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Cap. 6 A Carta

Tomei coragem e, finalmente, desenrolei o papel, já amassado. Por alguns instantes fui incapaz de ler. A letra era tão linda, leve e elegante que parecia estar gravada naquele papel há mil anos. Ela dançava entre os espaços vazios, do papel, cuidadosamente desenhada.

Meu solzinho

Antes de começar a contar tudo o que você, provavelmente, está ansiosa para saber, preciso dizer que esta carta, ao contrário do que você pensa, não foi escrita por sua mãe.
Desculpe-me por mentir, todos estes anos.

Meu nome é Ryan, eu sou seu pai.
Assinei esta carta com o nome de Zarah por não ter outra alternativa. Você não sabe, aliás, ninguém sabe, mas eu sou o irmão adotivo de Valentina, o irmão desaparecido, que foi embora e deixou apenas um bilhete, e nunca mais voltou. É estranho que tudo esteja se repetindo, não exatamente igual, mas está.
Assim como você, eu descobri que pertencia a outra família, uma família totalmente diferente do perfil que estava acostumado.
Aos 19 anos recebi a visita de um homem muito bem vestido e de boa aparência. Este homem me contou a história de um menino que fora levado de seus pais, ainda bebê. Este menino pertencia a um mundo onde coisas que ele julgava serem impossíveis, aconteciam. Um mundo mágico, e que parte deste mundo dependia de sua volta.
Quando ele me contou, pensei que estivesse louco e não dei muita importância, apesar de a história ser muito comovente. Mas aos poucos percebi alguns “deslizes” em sua fala, como: você, meu filho e algumas características que, em parte, se pareciam comigo. Tentei pensar o contrário, mas já não havia como. Eu estava, na época, tão empenhado em encontrar meus verdadeiros pais que me agarraria até a menos provável das chances. Porém, minhas suspeitas só foram confirmadas depois de ele responder minha pergunta sobre o fim da história, com um simples: “A partir daí, é com você, meu filho!”.
O homem, que, agora, era meu verdadeiro pai, me pediu para voltar com ele, para o reino ser salvo.
Eu pedi um tempo para pensar, mas ele me disse que seu tempo era curto e eu precisava decidir o mais rápido possível. Pensei em todas as possibilidades e resolvi acompanhá-lo, pretendendo voltar a Bonito logo depois que tudo estivesse resolvido.
Não havia tempo para explicações, então minha única alternativa era deixar uma carta, para minha família, comprovando que eu estava bem e voltaria em breve.
Quando cheguei ao meu “verdadeiro lar”, tudo era completamente diferente do que eu já havia visto. Havia seres poderosos, crianças com poderes especiais, pessoas do tamanho de borboletas, comidas diferentes, centauros, fadas, unicórnios, e muitas outras coisas. Minha primeira semana lá foi horrível, por que eu não conhecia ninguém, não havia nada de bom para fazer, além de ler, e eu não podia sair na rua, que as pessoas já começavam a apontar o dedo e cochichar umas com as outras: “Olha, aquele é o filho de Malvino e Nimue. O desaparecido!”. Ainda tinha que agüentar um irmão mais novo, pentelho, que só conversava comigo em outras línguas, para me irritar. A minha sorte é que consegui fazer um amigo, depois daquela semana infernal, que me levava para conhecer os reinos visinhos.
Foi numa destas visitas que eu vi Zarah, a garota mais meiga e encantadora que conheci. Eu a vi, pela primeira vez, deitada em baixo de uma macieira, dormindo profundamente. A partir deste momento eu não consegui mais tirar meus olhos dela.
Aproximei-me um pouco mais, observei os traços delicados de seu rosto, o tom alaranjado de seus cabelos e sua boca rosada. Porém, o que me chamou mais atenção foi o objeto caído sobre suas mãos, um desenho, perfeito, do meu rosto. Cheguei mais perto, a fim de pegar o pedaço de papel de suas mãos e olhar melhor, mas, sem querer, escorreguei num pequeno pedaço de madeira podre, há alguns centí-metros dela. A garota acordou muito assustada, mas o susto maior foi o meu, por que assim que me viu caído no chão, morrendo de vergonha, ela soltou um sorriso hipnotizador e de abraçou. Naquele momento meu coração disparou e eu fiquei sem reação. Fui incapaz de dizer uma só palavra. Ela não me dava espaço. Ficava o tempo todo dizendo “Sabia que você viria! Eu não desisti um só minuto...”. Ela só parou de falar depois de perceber que eu havia entrado em estado de choque. Não estava acostumado a lidar com garotas. Eu era tão tímido, que a única garota que já havia chegado assim tão perto de mim era minha irmã Valentina. A garota, então, libertou-me de seu abraço e sorriu, sem graça. Ela se apresentou, educadamente, e, antes que eu dissesse o meu nome, ela o fez. Perguntei surpreso, como ela sabia, e ela me explicou que já esperava por mim há algum tempo. Contou que eu era seu prometido, segundo aquela árvore, e me disse que se eu não a quisesse, ela não se importaria, pois o que importava era que eu estava lá, naquela hora. Eu não sabia o que dizer. Corei de vergonha, meu coração acelerou ainda mais e minhas mãos gelaram. A única coisa de que tinha certeza era que, depois daquele momento, não conseguiria viver um só minuto longe daquela garota. Então, pela primeira vez em minha vida, fiz algo impensado.
A beijei.
Depois daquele dia, nós nunca mais nos desgrudamos. Sem saber com agir, uma semana depois, a pedi em casamento, e alguns meses depois do casamento ela descobriu que estava grávida. Nove meses depois, você veio nos iluminar. Foi o dia mais feliz de nossas vidas. Nós dois éramos muito jovens para ser pais, mas conseguimos provar, para todos, que os míseros 20 anos pouco importavam, perto do inexplicável sentimento que tínhamos por você, e pela alegria de saber que você era o fruto do nosso amor.
Meu irmão mais novo, Dylan, ficou completamente fora de si depois que Zarah e eu unimos as quatro magias. Ele tentou me matar e foi expulso dos limites do reino.
Isto aconteceu antes de você nascer.
Ele permaneceu longe durante muito tempo, mas, quando você completou um mês de idade, ele voltou. E estava mais forte. Trazia consigo uma magia antiga, que nem eu e Malvino fomos capazes de prever. Meu irmão invadiu o castelo, jogou um dos pedidos em Zarah, e ela desapareceu logo em seguida. Nós sabíamos que ele não descansaria até que todos estivéssemos fora de seu caminho. Tive alguns segundos para pensar, antes que ele desejasse algo sobre mim. Foi aí que tive a idéia de levar você para Valentina.Você, certamente, está chocada com toda esta história. Quero que saiba que meu amor nunca mudou e nunca mudará. Não pense que eu e Zarah te abandonamos, muito pelo contrário, nós estamos te protegendo. Esta foi à única forma, que encontrei de permitir que você cresça numa ótima família e longe dos perigos do seu verdadeiro mundo. É na certeza de que você terá um futuro seguro longe de tudo isso, que tomei todas estas decisões. Es-tá sendo muito difícil escrever esta carta. Olhando você aqui, dormindo profundamente em meus braços, me dá vontade de congelar este momento para toda a eternidade. Você dorme tranquilamente, o sono dos justos, nem parece que acabou de passar por tantas tragédias.Queria que sua mãe estivesse aqui. Eu deveria estar aprisionado em seu lugar, era eu que Dylan queria,, não Zarah.
Eu a amo tanto. Assim como amo você. Isso é o que me torna forte em momentos como este que parece que o sol jamais nascerá de novo. Foi este sentimento que me amadureceu tão rápido.
Quero que saiba que sua mãe e eu pensaremos em você todos os dias de nossas vidas. Não importa o que aconteça.
Provavelmente não estarei mais entre vocês quando Valentina lhe entregar esta carta,. A dor que estou sentindo, em deixá-la, não pode ser medida ou comparada com nenhuma outra.
Guiarei cada passo seu. Estarei sempre ao seu lado, mesmo quando você falhar. Quando o pior acontecer pense no esforço que fiz para mantê-la a salvo, e encontre as forças necessárias para se levantar e seguir em frente.

Alguns instantes antes de sua mãe desaparecer, Dylan baixou o bloqueio de sua mente, aproveitei o deslize e descobri onde ele a havia aprisionado. Como disse anteriormente, a magia que ele usou é muito antiga e possui várias armadilhas. Uma delas é a Magia do Selo, que impede a pessoa de dizer o que viu. Por isto estou proibido de dizer o lugar em que Zarah está. Mas não estou impedido de deixar pistas.
Seu trabalho é desvendá-las o mais rápido possível.
Não se preocupe, elas te levarão direto para sua mãe.

Tenho um pedido a fazer, antes de lhe entregar a primeira delas:
Quando encontrar Zarah, dê um abraço bem forte, diga que eu a amo muito e que fiz tudo o que estava ao meu alcance para manter vocês a salvo.
Lembre-se...
Nunca deixe de acreditar no amor que sentimos por você!

Com amor. Papai.


Pista 01
Origem guardada em coração puro.

Duas lágrimas rolaram de minhas bochechas, direto na carta. Sequei algumas, que ainda tocavam as maçãs do meu rosto, enrolei novamente o papel e levantei-me da poltrona.
Tayla acompanhou, atentamente, todos os meus movimentos, sem se mover. Ao contrário do que previ, ela não pegou a carta de minhas mãos, perguntou o que estava escrito ou qual era a primeira pista. O que me deixou surpresa.
Eu não estava mais chorando, e as lágrimas já haviam secado, mas de repente, quando meu olhar encontrou os dois lugares vagos da mesa de jantar, uma sensação de aperto no coração fez meus olhos inundarem, fazendo-me soluçar, de tanto chorar.
- Não fique assim. – disse Tayla, vindo em minha direção.
Não fui capaz de respondê-la.
O pequeno Chinnuril, percebendo minha tristeza, desceu de volta para minha mão, olhando-me atentamente, alojou-se em minha palma, fa-zendo um “carinho improvisado”.
- Eu posso ver? – estendeu uma das mãos em direção à carta.
Levei a carta, lentamente, em sua direção. Minhas mãos tremiam tanto que tive dificuldades em entregá-la.
Tayla, com muito esforço, retirou-a de meu aperto forte e sentou-se, na mesma cadeira em que me observava ler a carta.
Continuei onde estava. Esperando o ataque de choro passar e meus olhos pararem de nublar. Retirei o óculos, fiz um malabarismo, ten-tando não deixar Elise cair, limpei as lentes embaçadas pelas lágrimas, e coloquei-o logo em seguida.
Fiz um enorme esforço para enxergar a pequena pessoa sentada na cadeira, poucos passos de mim, pois meus olhos ainda não haviam se recuperado da “super” quantidade de lágrimas.
Diferente de mim, ao ler a carta, Tayla sorria constantemente, como se aquilo fosse um gibi da Turma da Mônica. Mas, quando terminou, percebi que algumas, tímidas, lágrimas começavam a brotar de seus grandes olhos castanhos. Ela levantou-se, me devolveu o pergaminho, já amarrado ao pedaço de couro que eu havia deixado sobre a mesa, soltou um grande suspiro, secou as lágrimas e disse:
- O que nós faremos agora?
- Eu, realmente, não sei! - respondi
- Seu pai caprichou na pista em!
- Eu não entendi nada. Acho que ele escreveu em outra língua. - re-clamei
- Pare de ser lerda, Zah! Não deve ser tão difícil assim desvendá-la. Ele não seria capaz de escrever algo praticamente indecifrável. Nós só precisamos pensar com calma. Você verá como as coisas simplesmente se desenrolarão em nossas mãos. É só ter um pouco mais de paciência. – soltou uma piscadela.
- Espero que você esteja certa. Espero mesmo. – fitei o chão.
- Você pode ler a pista para mim? – disse Tayla, sentando-se numa das cadeiras.
Acompanhei seu movimento, sentando-me na cadeira ao lado.
Coloquei Elise sobre a mesa. Ela reclamou um pouco, fazendo aquele barulhinho engraçado, sapateou algumas vezes, mas eu não dei muita moral para ela, então, depois de algum tempo, ela parou.
- Coitada! – reclamou Tayla.
- Ela precisa saber que minha vida não gira em torno dela, Tah! Ou eu imponho limites enquanto ela inda é um bebê, ou ela será escandalosa assim para sempre. – passei a mão sobre sua vasta penugem branca.
- Mas ela é só um bebê! - apontou
- Você não ouviu quando Aine disse que ela fica atrás da mãe o tempo todo?
- Ouvi.
- E você ouviu quando ela disse que a mãe do Chinnuril, quando espe-ra ele sair do ovo, pode até morrer de fome por que ele não a deixa comer? Ouviu? – desafiei - Já pensou se Elise achar que eu tenho o dever de carregá-la nas mãos em todos os lugares que eu for? – es-palmei as mãos na mesa - Precisarei de minhas mãos quando estiver-mos decifrando as pistas. E outra, ela não vai ter um ataque cardíaco só por que não está “colada” em mim.
Tayla concordou, silenciosamente.

3 comentários:

MaRi disse...

ADOREEEEEIII!!!!
fiquei com dó da valentinaa, eu n tinha me tocado antes que a Zarah jah eh a segunda perda da vida dela!
primeiro irmão que ela nem sabe se tah vivo ou morto, depois a zarah q era quase filha dela!
COITADAAA! =/

Luh* disse...

Adorei! mais nem terminei de ler tudo
=/

Beatrix disse...

Sabe o que eu queria te pedir..se vc pode enviar pra mim a historia ,é que tô no tabalho e as vezes fica ruim pra acessar o blog mas meu e-mail é liberado e adoro sua historia.. ;*