A sala, assim como o resto do castelo, possui as paredes, desenhadas. É decorada com alguns quadros antigos e enormes janelas medievais com vidros desenhados, cortinas vermelhas e um lindo lustre ao centro da larga e imponente mesa de refeições.
Três dos enxutos idosos me deram as boas vindas abraçando-me edu-cadamente. Como já era de se esperar.
Aine sorria, em pé ao lado de uma linda e delicada mesa de canto con-tendo diferentes tipos de bebidas.
- Feliz aniversário Grania! – disseram, suavemente, como reis e rainhas se portam.
- Grania, minha querida. Você não sabe a alegria que todos desta sala sentem em tê-la de volta. – disse a jovem senhora que, se eu não esti-ver errada, é minha avó paterna.
Sorri, desconcertada.
Todos parecem saídos de um conto de fadas medieval.
Assim como Aine, a mãe de meu pai possui traços delicados e a pele sem rugas. A única semelhança entre as duas é a forma física esbelta e o andar leve e delicado. O cabelo dela é negro e, ao contrário da pele alva de Aine, a sua era dourada como a minha.
A delicada senhora de longos cabelos negros, pele bronzeada, olhos negros penetrantes, vestia um traje parecido, no corte, com o de Aine, apesar de ser totalmente diferente na cor e textura. O tom do vestido lembrava a água do mar em dia de sol, azul esverdeado. Já o tecido era leve e descia rente ao corpo até tocar pouco abaixo da cintura marcada por um mais solto até os calcanhares, tentando realçar o “projeto de curvas” visível do esbelto corpo de modelo da jovem senhora.
Os dois homens possuem barbas e roupas combinando, em época, com as das minhas duas avós.
O marido de Aine, meu avô materno, é extremamente forte e possui uma carranca como feição, um bigode e nenhuma barba. Apesar da cara de mau, ele parece ser calmo. Ele é relativamente maior que Aine. Suas vestes podem ser comparadas aos cavaleiros das frentes de batalha, exceto pela modernidade, ausência de armadura e a longa capa vermelho-sangue que cobria quase todo o seu espaçoso corpo.
Já o outro idoso, se é que posso considerá-lo um, tem aproximada-mente 1,90 metros de altura e está em plena forma física. Possui o cabelo misturando em tons de loiro e branco, assim como sua barba. Este se parece perfeitamente com um príncipe, aposentado, de histórias encantadas. Ele ainda estava vestido como nos tempos de glória, apesar de, como musculoso, sua roupa era mais moderna.
Fiquei tão impressionada com a beleza de todos que sequer dei conta de já estar dentro da sala.
- Eu sei que vai parecer estranho, mas – disse a mulher, abraçando-me – Eu sou Nimue, sua avó. É muito estranho sua avó precisar se apre-sentar, mas aqui estamos nós. Todos precisando nos apresentar.
Senti vergonha, novamente, pela calorosa recepção de Nimue.
- Sinto por não estar ao seu lado quando acordou, mas precisei resolver alguns conflitos no mundo das águas. Os Sidh estão eufóricos com a sua chegada, todos querem saber qual o seu iznuart.
Ótimo, mais uma palavra para a “Tayla traduções simultâneas”.
Antes de eu me virar e olhá-la, já prevendo, ela respondeu.
- Iznuart é como se fosse sua preferência. Dentro de você há os pode-res dos dois reinos, mas você sempre se sairá melhor em uma das ra-mificações. Se demonstrar melhor habilidade no céu quem te guiará nos ensinamentos será sua avó Aine. Caso controle bem o fogo, sua mãe te ajudará. Vegetação, seu avô Malvino. - apontou o forte idoso ao meu lado, que deu um leve sorriso. – Em tudo o que envolve as artes, seu pai. Nas águas doce e salgada, Nimue. Não sei se você per-cebeu – alertou-me – mas ela mesma acabou de dizer que precisou “resolver alguns conflitos embaixo d’água”.
Assenti.
- E por último, mas não menos importante – olhou para o velho parru-do – se você for boa em lutar seu avô Berserker poderá dar conta do recado. – deu uma piscadela, retribuída, imediatamente, pelo “Senhor Forte”.
Eu devo ter dormido uma eternidade mesmo, pois ela já conhece tão bem todos os meus avós que já está íntima deles.
- Bem, todos nós já fomos apresentados, portanto podemos mandar servir o almoço, certo? – Berserker apressou-se, saindo da sala. Dirigiu-se à cozinha, penso eu.
- Tayla, às vezes você me assusta, sabia? Ainda vou perguntar algo que você não saiba.
Todos riram.
- Sua exagerada! – disse Tayla, depois de me dar um leve empurrão no ombro.
- Ela sabe muitas coisas sobre este mundo. Não penso que “assustar” seja a palavra correta. O termo certo é “impressionar”. – soltou Mal-vino - Fiquei muito impressionado com as perguntas que ela me fez ontem à noite. Ela me disse ter lido na internet. Não sabia que as pes-soas se interessavam tanto por nossas histórias. – virou-se à Nimue e Aine – Na Irlanda tudo bem, mas no Brasil?
- Ela não tem nada para fazer. É por isso que sabe tantas coisas. – dei alguns passos, aproximando-me deles.
- Diferente de você que só procura biografias dos compositores de música clássica e livros de magia, eu tento me informar sobre tudo. – mostrou-me a pequena língua.
- Meninas, não é hora de discussão. – disse Aine, sentando-se à mesa junto com Nimue.
- Desculpe. – dissemos juntas.
- Estão desculpadas. – sorriu Malvino – Por que vocês também não se sentam? Noba servirá o almoço em alguns minutos. – puxou uma das majestosas cadeiras de madeira e sentou-se.
Tayla e eu sentamos uma em cada lado da mesa. Ao meu, estavam Nimue e Malvino, ao lado dela Aine e o lugar vago de Berserker. Per-cebi que os pratos estavam colocados apenas nas laterais e a ponta da mesa possuía duas cadeiras vagas.
- O que tem para o almoço? – perguntei curiosa.
Se eu sou alérgica a comida humana, com certeza a daqui é muito di-ferente de tudo o que eu já experimentei.
- Você verá. – disse Malvino – Mas não se preocupe, Noba tem mãos de ninfa em se tratando de cozinhar. Não há outra pessoa que cozinhe melhor.
- Relaxa Zah – antecipou-se Tayla.
Fiquei envergonhada por desconhecer a cultura da minha verdadeira família. Tentei desconversar.
- Porque ninguém se senta naquelas duas cadeiras? – apontei.
Tayla meneou a cabeça, olhando para baixo.
- São os lugares dos seus pais. – disse Aine. Afagou minhas costas depois de passar a mão em meu cabelo.
- Desculpa. – abaixei a cabeça, envergonhada.
- Você não precisa pedir desculpas Grania. Eles também são seus pais. Você pode perguntar qualquer coisa.
- Qualquer coisa. – Malvino e Nimue disseram juntos.
Tayla soltou um riso baixo.
- O que foi? – perguntou Nimue.
- Vocês não sabem como a vida de vocês era feliz antes das perguntas da Zarah começarem. – sorriu.
- Nada a ver, sua mané. –
- Eu não entendi. – Aine apoiou-se à mesa em sinal de interesse à conversa.
- Não é nada Aine. – respondi – a Tayla que gosta de ficar me tirando.
- Eu não ficaria tirando se você parasse de fazer perguntas idiotas e pensasse um pouco.
- Até parece que eu tenho culpa de não entender algumas coisas. – revidei. – você fala como se eu fosse burra, um porta.
- Eu sei que você não é burra, Zah, o problema é que você nunca presta atenção em nada que as pessoas dizem. Você se desliga das conversas e não percebe. Se fosse burra não iria nem chegar perto de um livro, e você lê em um mês quase a mesma quantidade que eu leio em seis. Sem mencionar as músicas clássicas. – passou os olhos em todos da sala.
- Cala essa boca Tah – alterei-me. Ela sabe muito bem que eu odeio que as pessoas saibam que eu ouço música clássica enquanto leio.
- Vejam só. – levantou-se Malvino - Acabamos de descobrir o iznuart dela. – atravessou a mesa até posicionar-se atrás de mim – Ela será uma artista, como o pai. – beijou-me na testa, todo contente.
- Melhor você não se apressar, querido. Ela pode apenas ter puxado o bom gosto do pai. – protestou Nimue.
Pela primeira vez na vida senti que realmente pertencia a algum lugar. Foi divertido ver a discussão que se seguiu. Todos tentavam encontrar semelhanças comigo. Senti-me feliz, realmente existe a possibilidade de eu parecer com algum deles, desta vez é de verdade. Eu estou entre meus verdadeiros avós, em minha verdadeira casa.
- Vocês moram todos aqui? – soltei, sem perceber que eles ainda dis-cutiam.
Dois tons diferentes de risadas inundaram a sala. Delicados sopranos, de minhas avós e o barítono do meu avô.
Outch! Pergunta errada de novo? Caramba. Será que eu não vou dar uma dentro?
- Nós não moramos aqui, Grania. Viemos te ver e relembrar o tempo em que sentávamos a esta mesa para almoçar e jantar. Seus pais faziam questão da presença de todos. Diziam que você cresceria melhor e mais feliz, nos tendo por perto. – disse Malvino.
- Mas vocês moram muito longe daqui? Eu e Tayla vamos dormir so-zinhas? Não é perigoso? – bombardeei-os com perguntas.
- Primeiro; tenha mais calma ao falar, foi difícil entender o bolo de palavras saídas de sua boca. Segundo; é indelicado encher as pessoas de perguntas, espere até que respondam a primeira e dê um tempo para pensarem. – disse Nimue.
Assenti.
- Nós moramos perto daqui, - começou Malvino - mas para você nós moramos longe, por que os humanos, com quem foi criada, têm a no-ção de espaço diferente da nossa. Para nós não existem lugares lon-gínquos e sim Sidh preguiçosos. – sorriu. – E, não se preocupe, há muitas pessoas trabalhando, dia e noite, neste castelo, e outras que dariam a vida para estar aqui cuidando de você.
- Mas se vocês moram longe – pausei – como chegavam a tempo para o almoço e jantar? E... Todos os dias.
- Magia. – respondeu Tayla – Essa eu sei!
Como se existisse alguma pergunta que ela não seja capaz de respon-der.
Revirei os olhos.
- Você quer o que, que eu bata palmas? – levantei as mãos.
- Não seja rude, Grania. – protestou vó Aine – Continue querida. – fez sinal para Tayla.
- Eu não tenho certeza, – coçou a cabeça – mas uma vez eu li que vo-cês são como o ar. Não do jeito que nós pensamos em “ar”, e sim co-mo... Não sei qual a palavra. – olhou todos na sala.
- Vou tentar explicar de uma maneira melhor. – disse Nimue – Quando você está lendo não tem a impressão de estar dentro do livro, vivendo a história? Como se o pensamento fosse forte o bastante para romper as barreiras do papel?
- Si... Sim.
- Então. O que nós fazemos é praticamente isto. Visualizamos o lugar e a nossa alma nos transporta até ele. É a força do pensamento.
- Nossa! – arfei. Senti os pêlos dos meus braços arrepiarem – Eu tam-bém posso fazer?
- Você fará melhor. – disse Malvino – você possui todos os nossos talentos. Ainda não houve manifestação por que nunca precisou deles.
Serrei os punhos, tentando sentir algo. Mas foi só perda de tempo.
Todos riram do meu movimento repentino.
- Você precisa de treinamento. Para nós foi fácil por que sempre trei-namos para que os poderes aflorassem, sempre soubemos os poderes que teríamos. Mas você perdeu muito tempo, até ontem nem imaginava ser possível carregar tantos poderes dentro de si. Demorará muito tempo até você controlar todos os poderes. - soltou Nimue, do outro lado da mesa.
- Mas se eu treinar bastante. O dia inteiro, durante um ano. – fiz uma pausa – Eu serei capaz de fazer todas as coisas, igual vocês fazem. Não é?
Esperei, aflita, pela resposta.
Todos se olharam e viraram em minha direção, ao mesmo tempo.
- Com certeza é algo a ser considerado, Grania. – sorriu Malvino – Você precisará ser muito persistente e desprezar as falhas diárias. Tente pensar que está subindo uma escada. Se a escada é muito alta, com muitos degraus, você ficará cansada e logo pensará em desistir. Ao contrário disto, pode continuar e provar o delicioso sabor da vitória. Sem esquecer que toda vitória merece um prêmio. – deu uma piscade-la.
- A escada... – engoli a seco - bom... Ela é muito alta? - encolhi
- Tudo depende do seu desempenho, querida. – disse Aine.
- Farei o possível! – sorri, animada.
Todos me olharam e sorriram.
- Finalmente Noba nos servirá! – Berserker surgiu de um longo corre-dor, com um sorriso enorme tocando suas bochechas rosadas. Era es-tranho ver um sorriso naquela carranca.
Sentou-se ao lado de Aine, perto da ponta da mesa.
Pouco tempo depois duas mulheres surgiram do mesmo lugar. A cozi-nha. Cada uma carregava uma bandeja média, de prata.
As duas mulheres são parecidas. Cabelos negros e lisos, presos num rabo de cavalo e pele bronzeada. Ambas pouco acima do peso. Uma delas, a mais velha, usava um vestido azul, longo e avental branco. A outra, vinte anos mais jovem, estava usando um vestido pouco mais curto e lilás. Seus olhos eram de um, hipnotizador, azul celeste.
- Olá Grania. – disse a mais velha.
- Oi! – disse, desviando os olhos de seu rosto.
A outra mulher, que depois pude ver que era apenas uma garota, cum-primentou-me com um leve aceno de cabeça e um sorriso sem graça.
As bandejas possuíam dois recipientes cada. Na da garota havia uma pequena travessa, prateada, contendo verduras e legumes que eu nunca vi na vida, e outra, exatamente igual, contendo vários roedores, assados, claro, que lembravam porquinhos da índia.
- Esta é Noba – disse Aine, referindo-se à garota. – A melhor cozi-nheira do reino. - sorriu
A garota sentiu-se envergonhada, deu outro sorriso sem graça, colocou as bandejas na mesa e voltou para a cozinha.
- E a outra, é quem? – perguntei baixo, perto de seu ouvido.
- A outra é a mãe dela. Normalmente ela não ajuda na cozinha, ela cuida do castelo, é a “faz tudo” daqui. Divide os trabalhos igualmente, coordena, cuida do jardim. Ela é a governanta, como vocês dizem no Brasil.
- Nossa, ela dá conta de fazer todas estas coisas?
- Ela faz isto há tanto tempo que já se acostumou à cansativa rotina. – sorriu Aine.
- O que são estes animais?
- Ah! São os aifdin – respondeu Malvino.
- Eles também são do Pântano Fenuso. – disse Nimue.
- Vocês comem Jinkos também?
- Não, Grania. Eles são sagrados para nós.
- Mas... e estes legumes? Eu nunca os vi. – apontei
- Estas verduras e legumes só existem aqui. – disse Nimue
- E o que vocês comem, além de carne e salada? – procurei por algo diferente, na mesa.
- Nosso cardápio é bastante variado. Não colocamos uma grande di-versidade de alimentos por que achamos melhor você começar pela carne e salada, já que está acostumada, apesar da leve diferença.
- Ah! – admirei a preocupação deles - Mas a alimentação de vocês é muito diferente da nossa?
- Completamente. – disse Berserker – Todos que provaram a comida humana e depois a nossa, dizem que esta é muito melhor. – apontou.
Vô Berserker levantou-se e cortou os aifdin enquanto Nimue o entre-gava os pratos, um por um. Ele serviu a todos nós, sentou novamente em seu lugar e todos começaram a comer. Menos eu.
- Ora menina, não tenha medo, eles já estão mortos. Coma! – caçoou Malvino.
Lancei meus olhos em Tayla, que devorava a comida com muita vora-cidade.
Peguei os talheres e cortei um dos vegetais. Coloquei na boca, com medo, mastigando vagarosamente. O gosto se parece com o da cenou-ra, apesar de ser um pouco mais adocicado. Cortei outro vegetal, uma folha branca de nervuras vermelhas. Desta eu não gostei, por ser um pouco amarga. Já a carne do aifdin é muito boa, macia, suculenta e muito bem temperada. Não lembra a de nenhum animal que eu já tenha comido, mas a sensação foi a mesma de quando comi carne de jacaré pela primeira vez. Curiosidade, por nunca ter experimentado, e alívio, ao perceber o sabor delicioso.
Depois que todos terminaram, Noba trouxe a bebida e a sobremesa.
Numa linda jarra de vidro havia um líquido esverdeado. Era tão cha-mativo que só de olhar já dava água na boca. Noba nos serviu, deixou uma bandeja, com várias frutinhas verdes, sobre a mesa e voltou à cozinha. O suco eu não sabia do que era, mas a frutinha eu conhecia muito bem.
- Guavira? – perguntei curiosa.
- Sim, nós comemos muito disto por aqui. – disse Aine.
- Mas esta é a mesma que tem lá em Bonito?
- Sim, mas a nossa é mais pura.
- Então é por isso que guavira nunca me fez mal. – peguei a maior fruta do pote.
- Ah. Este é o néctar dos Deuses! – exclamou Berserker, colocando várias em seu prato e sorrindo em seguida.
- Por que esta fruta também nasce no Brasil?
- A guavira é uma fruta que nasce somente em terras de coração quen-te. – disse Malvino, colocando a mão sobre seu peito, como as pessoas fazem ao cantar hinos.
- Como assim? – perguntou Tayla.
- As pessoas no Brasil são muito hospitaleiras e calorosas. É por isso que dizemos “coração quente”. O Brasil está sempre de braços abertos a qualquer pessoa, de qualquer país, que vá para lá. A guavira procura nascer lugares onde as pessoas tenham, dentro de si, carinho para com os outros. É a única fruta do nosso mundo que também nasce no mun-do dos humanos. Mas ela também nasce em outros países.
- Vocês fazem mais alguma coisa com ela? Remédio?
- Sim, ela possui grandes poderes curativos. Mas o maior de todos os poderes dela é o de fazer as pessoas voltares no tempo.
- Voltar no tempo? Como uma máquina? – perguntei, olhando para Tayla.
- Não. – disse Berserker.
Todos soltaram uma gostosa gargalhada.
- O que acontece, Grania, é que quando uma pessoa come a guavira, depois de muito tempo sem prová-la, consegue lembrar-se até de coisas que aconteceram quando era pequena. A pessoa se lembra dos melhores momentos da vida, os melhores sorrisos, as pessoas mais importantes, tudo o que as fez feliz.
- Isso é bom. – sorri.
- Eu não sabia que era assim. Nunca senti nada parecido. – disse Tayla. – E esse suco é de quê?
- Furnequí. – respondeu Berserker – A fruta mais popular por qui. É como uma praga. - sorriu.
Aine levantou sua taça e todos imitaram seu movimento.
- Um brinde à volta de Gania? – fitou-me, sorrindo.
- Tim-Tim – disse Tayla.
Não tive medo, desta vez. Se esta é a fruta mais popular por aqui, deve ser a mais saborosa também. Tomei um grande gole, sem me preocupar com o gosto, e percebi que realmente era muito bom. Mais uma vez não lembrei de nenhum outro que eu conheça e seja parecido. Sequei minha taça, rapidamente, e pedi para Aine servir-me novamente. Ela sorriu, assentiu e colocou suco até depois do meio da taça.
- Fico feliz que tenha gostado. – disse Aine, dando outra de suas pis-cadelas. – Todos terminaram? – perguntou, dirigindo-se até a ponta da sala, próxima à porta da cozinha.
- Hora das surpresas? – perguntou Malvino
- Sim. Hora das surpresas de aniversário. - sorriu
Ai... Meus... Deuses! Eu pensei ter escapado das terríveis surpresas de aniversário, ao vir para cá. Já vi que estava errada.
Tayla olhou-me, fez sinal com as mãos para evitar futuros constran-gimentos, pedindo para eu não pirar. Não prestei atenção em seus mo-vimentos, pois estava acompanhando, com os olhos, tudo o que meus avós faziam. Malvino e Berserker sentaram-se em duas poltronas perto da mesa de bebidas e Aine e Nimue saíram da sala, voltando em seguida, com um presente cada.
- Feliz Aniversário! – disseram juntas, discretamente.
Nimue entregou-me uma grande e leve embalagem, decorada com uma fita azul clara.
- Quando você nasceu, nós lhe demos isto que está em seu pescoço. – apontou o camafeu – ele é seu protetor. Agora daremos algo que lhe ajudará bastante na busca pelos seus pais.
Estudei, na grande embalagem, a melhor forma de abrir sem causar danos ao presente. Consegui encontrar a ponta do laço e puxei com força, ele se desprendeu e a embalagem abriu. Tayla estendeu a mão para que eu lhe desse a embalagem, dando um passo atrás, logo em seguida. Desdobrei o presente e vi duas alças pretas. Terminei de des-dobrá-lo e então pude ver do que se tratava, era uma mochila. A mo-chila era num couro marrom, brilhante de tão limpo, de tamanho médio e muito bonita.
- Obrigada.
Os dois deram um aceno de cabeça.
- Você não vai perguntar para quê serve? – indagou Malvino.
- Para guardar... Coisas? – perguntei perdida.
- Também. Mas esta é diferente das outras. Você pode guardar seu guarda-roupa inteiro aí e ela não ficará pesada ou abarrotada.
- Nossa! – suspirei – Obrigada. Obrigada mesmo! – fui até onde esta-vam e dei um forte e encabulado abraço.
Os dois sorriram e retribuíram o gesto.
- Agora o nosso presente. – disse Berserker, levantando-se da poltrona.
Estendi as mãos e Aine entregou-me uma pequena caixa retangular, amarela, cheia de furinhos nas laterais.
- O que é isto, um cachorrinho? – perguntei curiosa
- Abra. – encorajou-me Berserker, fazendo movimentos com as mãos.
A caixa não possuía amarras, portanto, para abri-la era só levantar a tampa. Foi o que eu fiz.
Dentro da caixa havia panos esfarrapados e uma bolinha branca cober-ta por finos pêlos macios e ouriçados.
Movi meus olhos rapidamente até Aine, fazendo cara de surpresa.
- O que é isto?
- O que? – disse Tayla, movendo alguns centímetros em minha direção.
- É um Chinnuril. – disse Aine.
- Ele morde?
- Não, Grania, por quê?
- Ele está com os olhos vendados. Por quê?
- Ah! – sorriu Aine – Você deve ser a primeira pessoa que ele vê. As-sim pensará que é sua mãe, caso contrário ele ficaria procurando-a e faz um escândalo de trincar qualquer vidro.
- Então... – corri meus olhos em seu pequeno corpinho de bola – ele nunca viu a mãe? – senti pena.
- Ela os abandona antes que a vejam. Ninguém jamais viu uma Chin-nuril com filhotes, por que eles nunca a deixam caçar e precisam de muita atenção.
- Coitado. – toquei, levemente, seu fino pêlo. – Eu posso tirar a venda?
- Agora sim, mas não o deixe olhar para outra pessoa antes de te ver.
Tayla afastou-se.
Peguei o pequeno Chinnuril de dentro da caixa e o coloquei na mão. Tirei o pedaçinho de pano que cobria seus olhos, coloquei sobre a mesa e levei o bichinho perto do meu rosto. Esperei que fosse o lado certo, já que era impossível saber se estava de costas ou de frente.
O Chinnuril abriu os olhos, e fez um som muito baixinho e engraçado. Pulava sem parar e mexia todo o pequeno corpinho, querendo que eu me aproximasse mais. Juntei a outra mão, fazendo uma concha, e ele ficou todo contente. Olhando-o mais de perto pude ver que seus pés pareciam patas de passarinho, apesar de mais robustas, cobertas com um milhão de finos pêlos brancos. Ele tinha pequenos braços, também cobertos de pêlos, e quatro dedos com garrinhas. Era tão fofinho e redondo que dava vontade de apertar até não querer mais.
- Agora eu posso ver? – perguntou Tayla
- Ele, com certeza, já sabe quem é a mãe – disse Nimue.
- Ele é muito lindo. Tão fofinho! – exclamou Tayla, quando o coloquei em sua mão.
O Chinnuril fez aquele barulho engraçado, novamente, mas desta vez não parecia estar feliz, deveria estar com medo de perder a “mãe”, já que o coloquei nas mãos de Tayla. A bolinha de pêlo começou a sapa-tear, aumentou o volume da reclamação e sacudiu os braços em minha direção.
Tayla o devolveu, logo em seguida, depois de receber alguns aranhões.
- Este bicho é um pouco bravinho, não é? – examinou os arranhões.
- Ele só está com medo de perder a mãe. – exclamou Aine, divertindo-se.
- Podre bichinho. – alisei seu sedoso pêlo.
- Você não vai dar um nome a ele? – perguntou Tayla.
- Até queria, mas não sou boa em dar nomes. Você lembra muito bem dos animais que eu tive – tentei refrescar sua memória – a tartaruga Oi, o cachorro Cão, a gata Caolha, de um olho só, outra tartaruga, chamada Outra.
Meus avós começaram a rir.
- Você não é boa em nomes em. – disse Malvino, aproximando-se.
Sorri, sem graça.
- Criatividade, em nomes, não é o forte dela. – gargalhou Tayla.
- É fácil – exclamou Berserker – O que você mais gosta de fazer?
Todos me olharam.
- Am... Ler? – tentei lembrar-me de outra atividade preferida.
- Por que você não coloca o nome do personagem que você mais gos-ta?
- É uma boa idéia. – refleti.
- Então, qual será o nome? – perguntou Berserker
- Já sei que nome colocarei nela.
- Capitu? – disse Tayla – Dom Casmurro foi o livro que você mais gostou de ler, lembra?
- Não será o nome de uma personagem. Quer dizer, vai ser o nome de uma personagem que participou indiretamente na criação da obra.
- Fale logo o nome! – disse Tayla, irritada.
- Elise! - suspirei
-Elise? Você nunca leu um livro que tenha esta personagem. – tentou lembrar-se.
- Não é um livro. É uma música. – lembrei-a.
- Fur Elise! – disse Malvino, ainda sentado na poltrona.
- O que vocês acharam? – fitei-os.
- Nossa, Zarah, você vai colocar o nome de uma música do Chopin?
- Exatamente! – sorri.
- Depois eu que sou a nerd. – revirou os olhos. – Olha só o nome que você escolheu!
- Você sabia que esta é a música preferida do seu pai? – perguntou Malvino
- Não. – rolei meus olhos até Tayla – também é a minha favorita. – baixei a cabeça até alcançar os brilhantes olhos azuis de Elise.
Tayla me olhou, confusa. Com certeza ela pensou que eu não fosse me importar tanto.
Meus olhos se encheram de lágrimas.
Não sei por que isto vem acontecendo tão frequentemente. Antes eu não me emocionava com facilidade.
Tentei disfarçar, mas não adiantou. Nimue viu as lágrimas tocarem meu rosto e avisou Aine.
- Não chore minha querida. – Disse Aine. – Não fique triste. –abraçou-me.
- Eu não estou triste. Só que – dei uma pausa – e se eu não conseguir encontrá-los? – disse, ainda sem tirar os olhos de Elise. – Se for tarde demais...
Aine interrompeu-me.
- Você os encontrará. Não deixe que as duras circunstâncias a façam fraquejar. – sussurrou em meu ouvido.
Elise apoiou as duas “mãos” em meus dedos, improvisando um cari-nho.
Sorri, passei o dedo indicador em seu corpo de bola, e pude perceber que ela possuía uma pequena divisão entre a cabeça e o resto do corpo. Ela era uma circunferência peluda.
Lembrei-me.
- A minha carta! – reclamei – Tah, nós precisamos voltar para casa. Na pressa, esquecemos a carta. – apoiei-me em seu ombro.
- Relaxa Zah, a mamãe me entregou a carta. – retirou meu braço de seu ombro.
- Por que você não me entregou-a logo depois que eu acordei? – fitei-a.
- Você não me pediu. – olhou-me como se fosse a mais óbvia das res-postas.
- Ah, claro! – queimei-a, com os olhos. – Onde ela está afinal?
- Eu entreguei a Berserker. – apontou.
Imediatamente, Berserker veio em minha direção. Em suas mãos havia uma espécie de pergaminho enrolado e amarrado numa fina tira de couro. Caminhou lentamente, posicionou-se frente a frente comigo, estendeu a mão ocupada pelo pequeno pergaminho.
Estendi uma das mãos e o pedaço de papel enrolado deslizou em mi-nha palma. Olhei-o, alternando entre ele e meu avô. Sem saber como agir, permaneci estática. Toda a sala pareceu absorver minha angústia, assim como as pessoas, também paralisadas, que me olhavam apreen-sivas.
- Você vai ficar aí parada? – indagou Tayla.
Meu cérebro foi incapaz de formular uma resposta.
Elise, prevendo que eu precisaria das duas mãos, escalou, rapidamente, meu braço, deixando marcas de suas pequenas mãozinhas por todo o meu antebraço.
Voltei meus olhos no, velho, pergaminho e decidi desatar o laço. De repente senti meu coração disparar, meu rosto esquentar e meus dedos amolecerem. Estava com tanta pressa em desenrolá-lo e saber o que meu pai havia escrito que, sem perceber, comecei a tremer. Meus dedos foram incapazes de conciliar a tremedeira com a pressa, fazendo com que eu perdesse um bom tempo apenas no primeiro laço. Berserker, como um bom, sem paciência, Senhor da Guerra, não conseguiu, apenas, me observar “apanhar” do laço e, num ataque de falta de cal-ma, esvaziou minhas mãos. Devolveu, logo em seguida, o papel, já desenrolado e pronto para eu ler.
- Já estava ficando impaciente! – disse, enrolando a pequena tira de couro nos, gorduchos, dedos da mão esquerda.
- Ahmm – passei meus olhos em todos da sala – Será que eu posso... Ler... Ahmm... Ler em outro lugar? Eu queria ficar sozinha, um pouco. Acho que não conseguiria ler com todos estes pares de olhos me observando. – torci para que compreendessem, de maneira correta, o que eu quis dizer.
Meus avós se entreolharam.
- O que for melhor para você, minha querida. Nós desejávamos com-partilhar este momento, mas se prefere lê-la quando estiver sozinha, quem somos nós para discutir? Esta carta lhe pertence, nós sabemos a importância que ela representa para você. – alertou Aine. – Além do mais, nós precisávamos mesmo resolver alguns assuntos. – fitou os outros idosos - Voltaremos à tarde para ver como você está, e se con-seguiu desvendar a primeira pista. – caminhou em minha direção – Boa sorte. – abraçou-me.
Retribuí o abraço.
Pude sentir os dedos de Berserker entrelaçados aos meus, fazendo carinhos leves, atrás de Aine.
- Obrigada. – respondi.
Os dois saíram da sala, de mãos dadas, lentamente. Logo em seguida Nimue e Malvino vieram se despedir de mim, desejaram boa sorte, assim como Aine, e saíram.
- Eu posso ficar aqui? – perguntou Tayla.
- Se você quiser. – dei de ombros – Mas eu vou me sentar daquele lado da sala - apontei uma das poltronas – e você não vem comigo! – fitei-a.
- Ah, Zarah! – reclamou.
- Tayla. É a carta do meu pai. Você tem noção do quão importante este pequeno pedaço de papel velho representa para mim? Você pode respeitar o meu momento, pelo menos agora? – repreendi. – Eu não vou conseguir lê-la se você estiver olhando.
- Pode até ser, mas você vai me contar tudo, Tim-Tim por Tim-Tim.
- Depois, Tah. Depois. Agora, me deixe ler!
Sentei-me numa das poltronas, tremendo de tanta ansiedade. Tayla permaneceu em pé, alguns segundos, procurando, estrategicamente, na mesa, a cadeira mais próxima de mim.
Não me importei com sua curiosidade, estava tão ansiosa que perma-neci um bom tempo apenas olhando a carta.
2 comentários:
CAPITULOOO NOOOVOOO
CADÊ CADEÊ CADEÊEEEEEEEEEEEEEEE???
att por favoor!
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