Não pude aproveitar em nada o passeio. As dores eram tão freqüente-mente fortes que não me deixavam abrir os olhos. Meu maxilar travou, meus dedos incharam, o tom de pele deu lugar a um amarelo horrível, pelo pouco que pude ver, os lábios racharam e minha saliva, antes com gosto de sangue, secou completamente.
Tayla deitou-me em seu colo, como uma mãe faz para amamentar o filho. Minhas pernas ficaram penduradas para fora de Kika. Algumas vezes tive que controlá-las para não machucar a ave, pois não parava de pressionar meus calcanhares contra a lateral de seu corpo, quando as dores eram insuportáveis.
Depois de alguns minutos de dor intensa, senti mil peixes, maiores que os de antes, se locomovendo por todo o meu corpo. A última coisa de que me lembro é de dois dos maiores peixes terem estourado dentro de mim. A partir daí a dor cessou, mas eu não conseguia abrir meus olhos. Lutei algumas vezes tentando falar algo, mas nada saiu. Meus lábios pareciam estar costurados. Tentei movimentar-me, mas minhas pernas e braços não me obedeciam. O pânico tomou conta de todo o meu corpo.
Será que eu morri?
Se for isto, por que não vejo o paraíso ou o inferno, seja lá para onde eu fui? Tudo está escuro. Sinto que há alguém me tocando, mas não consigo ver quem é. Posso sentir também meu corpo encharcado por uma substância gosmenta. Não parece ser água ou suor. É algo gelado e pegajoso.
Concentrei-me em ouvir.
Primeiro senti dificuldades em entender o que todas as vozes diziam. Duas delas eu já conhecia, Tayla e o Leprechaun, mas há mais uma, lembro-me de tê-la escutado alguma vez há muito tempo. Não conse-gui lembrar-me de onde ou quando.
- Ela não parece mais tão amarela – a voz de Tayla dizia, bem perto de mim.
- Ela estará nova em folha daqui algum tempo – disse o Leprechaun. Não tão perto de mim como a voz de Tayla parecia estar.
Nenhum deles parece tão preocupado como antes. Muito pelo contrá-rio. Suas vozes estão calmas.
- Ela é uma Sidh muito forte. – exclamou a voz do meu passado. – Não me espantaria em nada se ela já pudesse nos ouvir. Na verdade eu creio que estará de volta antes do esperado. – seja lá que for esta ter-ceira pessoa tem a voz extremamente calma e maternal, como a de Valentina.
Consegui acalmar-me um pouco mais ao ouvir que voltaria em pouco tempo. Seja lá o que aconteceu comigo é apenas provisório. O pânico ainda tocava minhas veias, fazendo com que eu sentisse meu sangue, extremamente gelado, correndo sem descanso.
Esperei algum tempo até juntar forças suficientes e tentar dizer algo.
- Tay... la – minha voz saiu falhada.
- Zarah! Ah. Graças a Deus você acordou. – alívio aparente em sua voz.
Minha voz não fora vetada novamente. Então decidi testar meus mo-vimentos. Movimentei a ponta de meus dedos primeiro. Eles obedece-ram, levantando toda a minha mão esquerda.
Aos poucos minha visão voltou, embaçada pelos dois graus de miopia, e pude olhar em volta tentando me localizar.
- Quem tirou minhas lentes? – cocei os olhos
- Aqui seus óculos, Zah – disse Tayla, entregando-os.
A primeira visão que tive foi do teto. Coberto com desenhos de ramos de flores em cores claras. O pé direito deveria ser, com certeza, de seis metros.
Exatamente em cima da grande porta de entrada do quarto havia um mezanino, de madeira, de uma ponta à outra da parede, com duas pol-tronas em cada extremidade e uma enorme prateleira de livros organi-zados por tamanho. No quarto havia enormes janelas medievais orna-mentadas, na altura do mezanino. Todas as paredes estavam em três tons: vermelho, laranja e amarelo, de dar agonia a quem olhasse. La-baredas de fogo mexiam-se na parede, tentando se espalhar, em vão, impedidos de sair da parede e pulverizar os móveis e todos nós.
Do ângulo em que estou deitada não consigo ver o resto do quarto, mas dá para notar que há muito mais a ser explorado. O quarto deve ser imenso, pois, de onde eu estou até a porta de entrada dá uns bons dez metros de distância. Há muito mais onde minha visão não alcança, como algumas paredes atrás de mim, o restante de uma escada que, de onde estou, só vi o começo, e a outra metade do quarto.
- Como você está se sentindo? – disse a voz maternal
- Me... Melhor – rolei meus olhos pelo quarto, tentando encontrar a mulher.
- Que bom minha queria. Você consegue se levantar?
Minha visão periférica finalmente voltou e pude encontrá-la, sentada numa linda poltrona vermelha ao meu dado esquerdo e Tayla do outro lado, sentada na cama.
A mulher aparenta ter quarenta anos, mas pela sua voz pude ver que a ótima aparência mente a idade. Ela, aparentemente, é maior que eu, aproximadamente 1,70 metros de altura. Seus olhos são negros, da mesma cor dos meus, assim como os longos e levemente encaracola-dos, cabelos ruivos. Seu cabelo estava preso numa delicada coroa de ouro branco, de um grosso arco adornado por minúsculas flores. O cabelo estava arrumado solto em todas as direções, ordenadamente. De baixo de todo aquele cabelo saía uma longa trança caída sobre seu ombro esguio. Seu vestido branco de manga de sino não é de tecido algum que eu conheça. Parece feito com pequenos fios brilhantes, que o deixam imponente e magnífico. A combinação perfeita entre os tra-ços suaves e delicados do rosto de um anjo quarentão e a leveza da roupa.
Isto foi tudo o que pude reparar da jovem senhora sentada ao meu lado. Seus pés estão cobertos pelo longo vestido, então não consegui ver o que calçava.
- Bom dia minha queria. Bem vinda, de volta, ao lar.
Bom dia? Quanto tempo eu fiquei desacordada? Dias, meses? Sinto como se estivesse dormido apenas horas, mas eu sempre me engano, então decidi perguntar.
Pelo menos meu aniversário já passou.
- Há quanto tempo eu estou aqui? – minha voz não saiu exatamente como planejei. Apenas um suspiro.
- Vocês chegaram aqui ontem pela manhã. Então faz quase um dia. – passou a mão sobre minha testa.
Um sentimento bom percorreu cada centímetro do meu corpo. Como a lembrança de algo perdido para sempre que acaba de ser resgatado. A sensação foi boa, queria que se repetisse, mas era insano pedi-la para tocar novamente. Nem sei quem é e, pelas roupas que usa, é uma pes-soa muito importante, como uma conselheira, uma rainha ou algo as-sim.
Tentei sentar-me e deu certo. Minha cabeça girou um pouco, mas nada que afetasse minha persistência.
Finalmente pude dar uma boa olhada em volta, ver o resto do quarto que, outrora, se escondera de mim. Ele parece o quarto de filmes anti-gos, onde uma princesa passa as tardes lendo e bordando enquanto espera o príncipe encantado vir resgatá-la das garras da madrasta má.
Desconsiderando as paredes flamejantes, claro.
O chão é todo revestido de pedra. A cama é enorme, feita de madeira. No pé da cama há um chaise long todo colorido, no mesmo tecido das poltronas do mezanino. Ao lado direito da cama, alguns metros de distância de onde Tayla está sentada há um outro patamar, alguns cen-tímetros abaixo do restante do quarto. Neste patamar estão distribuí-dos dois enormes guarda-roupas, mais uma poltrona, exatamente igual a que a mulher ocupa. Uma linda penteadeira na mesma coloração e um grande espelho pendurado à parede.
Todos os móveis se encaixam perfeitamente aos respectivos lugares. A decoração parece feita pelo mais competente arquiteto de interiores. Ele reflete harmonia desde a estante repleta de livros até o pequeno criado-mudo ao lado direito da cama.
O lado esquerdo do quarto não tem muitos móveis, diferente dos ou-tros espaços. É ocupado apenas por uma pequena lareira e um lindo sofá de três lugares, deixando uma significativa porcentagem do espa-ço vazia de móveis. Uma porta, enorme, exatamente ao meio da pare-de, faz ligação do quarto com a sacada, a qual eu não pude ver de on-de estou. No espaço vazio de móveis há um, organizado, aglomerado de enormes almofadas, em cores suaves.
Percebi, ao analisar cada pedaço do quarto, que as cores vivas e as labaredas de fogo haviam sumido das paredes, dando lugar a pequenos seres brincalhões.
Estes pequeninos possuem pétalas na cabeça, como se pegassem um humano e o colocassem um chapéu de margarida muito bem elaborado. Seus rostos são finos até perto do nariz. A flor surge pouco acima dos olhos. Eles medem pouco mais de 15 centímetros de comprimento, são magros e delicados, com asas transparentes como as de uma libélula. Seus olhos são grandes, em relação à boca e o nariz, e brancos. O que mais me assustou foi isto, os olhos de todos eles são completamente brancos, inclusive a íris e a pupila. Mas, aparentemente, eles não são cegos, pelo contrário, pareciam me olhar fixamente, com extrema curiosidade.
Não há muitos destes bichinhos, talvez trinta, mas não sei ao certo. Eles não param de voar, ficam para lá e para cá. Alguns cantarolavam uma linda melodia sem letra, e outros simplesmente voavam, sem sair das paredes. É como se algum encantamento os impedisse, mas eles não parecem importar-se com o fato de estarem presos. Todos estavam muito alegres, pareciam estar festejando algo novo.
- Aqueles são os Gwers. – disse Tayla – Não são uns amorzinhos? Tão fofinhos.
Ela deve ter percebido meu olhar curioso nos bichinhos.
- Eles são... Cegos?
- Não, eles apenas não possuem poderes, por isto a ausência de colo-ração nos olhos. – Tayla parecia uma professora explicando coisas a seus aluninhos do maternal.
- Coitados. – soltei entre dentes.
- Na verdade eles têm sorte. – disse a mulher. – nunca tentam fazer mal a eles. Não vale a pena, por isso eles não vêem mal em não terem poder algum.
- Eles são tão lindinhos! – disse Tayla num grande sorriso
Virou-se em minha direção.
- Zarah, será que você já consegue se levantar?
- Acho que sim, não agüento mais ficar nesta cama. – dei um meio sorriso. – Mas eu preciso de um banho. – olhei para a mulher – O que vocês passaram em mim, Lodo? – passei a mão em meu braço direito que, assim como o outro, estava pegajoso de tanta gosma alaranjada.
- Isto é excremento de Jinko do Pântano Fenuso, muito raro de encon-trar. – disse o Leprechaun, levantando-se da chaise long localizada ao pé da cama.
- Excremento? Mas excremento não é... ECA! – parei de tocar meu braço, imediatamente, incrédula.
Tayla soltou uma gargalhada, a mulher passou uma de suas mão em minha testa, como fizera antes.
Até onde eu sei, excremento é o mesmo que cocô. Cocô! Pelos Deuses, será que não havia uma pomadinha disponível na despensa? Ou água? Um chazinho para eu tomar?
- Não há outra forma de curar as feridas dos alimentos humanos Gra-nia. Os alimentos não afetam apenas seus órgãos, mas também sua pele. As bolhas são comparáveis às de uma queimadura de segundo grau. – disse a mulher enquanto passava a mão, delicadamente, em minha bochecha.
- Mas cocô de monstrengo do pântano? Não podia ser... Sei lá... o es-pirro dele? Seria muito melhor. Aliás, qualquer coisa seria melhor que cocô de monstrengo nojento do Pântano Penoso.
-Fenuso – alertou Tayla.
- Que seja. – ignorei.
Todos me olharam como se eu cometesse o mais grave dos pecados ao ser contra o método, gosmento, de cura.
- Cuidado com o que diz menina – disse o Leprechaun - não pode sair por aí falando mal de quem te curou. – apontou o, gordo, dedo indica-dor - Isto é falta de educação, você não sabe? É como sair da sala de operação e xingar o médico.
Bem, olhando por este ângulo foi muita falta de educação de minha parte. Não tenho mesmo o direito de falar algo de quem acaba de sal-var minha vida. Mesmo que este alguém seja um bicho estranho.
Pelo nome, deve ser um monstrinho muito feio e nojento. Apesar de o musgo exalar um leve aroma de ervas.
A jovem idosa tirou a mão de minha bochecha.
- Acalme-se Bleedey, ela não fez por mal. – olhou-me maternalmente - Não está acostumada com o peso e importância das palavras mal escolhidas. Acabou de vir de longas férias como humana. Lá as pala-vras não têm poder algum com outros seres. – levantou-se da poltrona, calmamente – Os humanos se importam apenas em ofender ou não, ao próximo, não crêem no simples fato de o que uma frase mal dita é capaz de fazer. – piscou para mim.
Senti todo o sangue ser drenado para o meu rosto, minhas bochechas queimaram e, com toda a certeza do mundo, corei de vergonha.
Não consegui pensar em mais nada a dizer. A mulher, agora em pé ao meu lado, juntou as mãos, abaixadas, me lançou um último olhar, indo à direção da porta de entrada do quarto.
- Obrigada. Por... Cuidar de mim. – a única frase, falhada em vergo-nha, que meu cérebro foi capaz de formar.
- Obrigada você por trazer a alegria de volta a meu coração depois de tantos anos de uma longa e angustiante espera. – suspirou - Bem vinda de volta a seu lar, minha neta. – saiu em passos lentos, fechando a porta atrás de si, sem tocá-la.
Minha neta? O.K.! Com certeza eu estou naqueles estágios pós febrão em que a pessoa fica delirando por horas, ouvindo conversas aleatórias e sem sentido. Provavelmente meus ouvidos escutaram o que eu quis. Que aquela linda, iluminada e maternal jovem senhora, era minha avó. E que eu, possivelmente, estou no reino em que nasci.
- Tayla. – chamei
- Eu! – disse entre sorrisos
Um pouco desconfiada, fiz a pergunta crucial.
-Q... qual o nome daquela mulher? A que acabou de sair do quarto. – gaguejei, temendo que Tayla dissesse o mesmo nome em que eu estou pensando.
- O nome dela é Aryana.
Outch! Resposta errada.
Duas sensações, opostas, tocaram meu coração, fazendo minha espinha gelar e a garganta secar. A primeira é medo, a segunda, felicidade.
Eu quero muito estar em casa, e que esta seja minha casa. O meu ver-dadeiro “lar doce lar”. Quero aquela jovem senhora como avó. Sentir que pertenço a algum lugar. Não que Valentina me prive de sentimen-tos maternais ou me trate diferente de seus verdadeiros filhos, mas, estranhamente, sempre faltou algo. Uma pequena lasca de afeto, para completar minha felicidade.
Senti muito medo quando a resposta de Tayla não foi “Aine”. Pois, até onde sei, este é o nome de minha verdadeira avó.
Meus olhos inundaram em lágrimas, mas elas não rolaram. Ficaram ali, presas, esperando um momento maior de fraqueza.
- Então por que ela me chamou de neta? – as lágrimas escorreram até queimar minhas bochechas.
- Por que você está chorando? A dor voltou? – perguntou Tayla, fi-cando em pé ao lado da cama.
- Não, Tah. Será que você pode, por favor, responder à minha pergun-ta?
- Zarah, ela é sua avó. – parecia não entender minha reação
- Não, ela não é! – senti minha voz alguns tons a cima do normal
- Sim ela é! – desafiou-me
- Mas... Mas o nome não bate Tah! – rolei meus olhos em direção à porta.
- Você queria Aine? Bem, senhorita “Chora Fácil”, lamento muito, mas você está errada. Aine não é o nome da sua avó, e sim o título que recebeu ao se tornar rainha. O nome dela é Aryana, a Aine dos Sidh. Entendeu agora, pouco cérebro? – soltou uma risada. – Só você mesmo Zarah para não saber nada da história de seu povo. Uma Sidh leiga. Coitados dos Sidh, não sabem em que enrascada se meteram.
Saiu de perto da cama, indo à direção da escada do mezanino.
- O que você vai fazer? – sentei-me.
- Vou lhe ensinar um pouco sobre seu povo, sua incompetente.
Chegou ao fim da escada.
- Meu Deus, Zarah, você não tem idéia de quantas histórias emocio-nantes têm escritas aqui. – apontou a estante lotada de livros antigos, em perfeito estado de conservação. – Sabe aquelas lendas que eu lia na internet? São todas reais. Isto é muito melhor que a Rota Boiadeira em dia de chuva. Muito melhor. – seus olhos brilhavam de entusiasmo.
Não é a toa que está assim, ela é fascinada por lendas. Conhece todas, de trás para a frente, de tanto que leu.
O Leprechaun deu um pigarro
- Gania, eu preciso resolver algumas questões pendentes na cidade, você ficará em segurança aqui. Se precisar de algo é só chamar Kika. Volto logo.
Assenti.
- Tayla, por que as paredes não estão mais pegando fogo?
Levantei-me da cama, fui à direção das paredes e passei a mão num dos Gwers. Ele pareceu sentir Em seguida, todos os outros bichinhos aglomeraram-se em volta de minha mão, pedindo carinho.
- Elas têm um encantamento Zah. Você estava queimando de febre, isto explica o fogo. As paredes representam o que você está sentindo. Agora, por exemplo, você está feliz. Os Gwers só voltam às paredes quando você está feliz ou triste. Eles te ajudam a se acalmar. O canto deles é lindo, não é? – Tayla já estava ao pé da escada, com dois e-normes livros nas mãos.
- Então este quarto é meu? – perguntei maravilhada.
- Claro que sim, sua lerda. – respondeu, com indignação.
- Nossa! – me virei para contemplá-lo – Ele é maior que o nosso apar-tamento! – sorri com a comparação.
- É, com certeza.
Tayla colocou os livros sobre uma mesa redonda, de quatro cadeiras, localizada pouco atrás do sofá da lareira.
Senti cócegas nas mãos.
Um dos Gwers roçava suas delicadas pétalas em mim, enquanto os outros riram da minha feição de espanto. Sorri e passei o dedo indica-dor, de leve, sobre seu tórax, tentando fazer-lhe cócegas. Ele soltou uma suave gargalhada e mudou de cor, para rosa-claro.
- Oi lindinho. - falei
Senti-me a garota mais louca do mundo, aqui parada, fazendo cócegas na parede. Que tosca! Só eu mesma para me divertir com o “papel de parede”.
- Eles não podem sair da parede?
- Sim, mas são uns diabinhos. Comem os móveis, rasgam as roupas, estragam tudo por onde passam. – sorriu.
Voltei a olhá-los, incrédula. Como coisinhas tão fofas podem ser tão terríveis? O pensamento deles destruindo todos os móveis do meu quarto pareceu engraçado. Deve ser como nos desenhos onde os cu-pins destroem tudo em segundos.
- Você acha que eles estão assim, felizes, por que eu voltei?
- Sim. Eles pensam que você é a mãe deles. Qualquer um ficaria feliz em ter a mãe de volta! – fez um tom de zombaria
- Você não pode estar falando sério! – olhei para todos os delicados bichinhos.
- Relaxa Zarah, você não precisa alimentá-los, trocar as fraldas e todas aquelas coisas chatas. Só precisa dar um pouco de atenção. Nem pre-cisa ser todos os dias. É só sentirem seu cheiro que se acalmam.
- Ah. Que legal, aos dezoito anos, na flor da idade e com trinta filhos para criar. – sorri, pela brincadeira.
- E solteira. – completou Tayla, do outro lado do quarto, numa doce gargalhada.
Sorri, ficando séria em seguida.
- Tah, você percebeu que a minha... Avó... Não me deu os parabéns? – atravessei o quarto. Sentei-me numa das cadeiras ao lado dela.
- Está reclamando? – perguntou, sem tirar os olhos de um dos livros.
- Não, mas é estranho você não acha?
Coloquei os cotovelos sobre a mesa, corri os dedos de uma das mãos sobre o pequeno símbolo ao centro da capa do outro livro.
- Zarah, você odeia receber felicitações. – lembrou-me – Ela não quer você magoada logo no primeiro dia de lar doce lar – fitou-me.
Desviei o assunto.
- Este livro é sobre o que?
O livro tem algumas centenas de páginas. A capa é muito linda, num brilhante couro marrom escuro e, aparentemente, muito resistente. No couro há o desenho de um Grifo, movimentando-se. Alguns segundos depois ela estava empoleirada num imponente brasão, contendo a letra “g”, numa elegante caligrafia, ao centro da capa.
- É o seu livro. – puxou-o em sua direção
- Eu sei que é meu. Todos são meus. Estão no meu quarto, não estão? – olhei à estante lotada com livros de todos os tamanhos e espessuras.
- Não, você não entendeu. – abriu o livro – está vendo? Ele ainda está em branco. É isto que eu queria lhe mostrar. – entregou-me o livro, aberto.
- Mas não há nada escrito aqui! – exclamei perplexa
Folheei o livro, rapidamente, virando-o em direção a ela. Ele está em branco, exceto pela numeração das páginas.
- Olhe isto!
- Zarinha, amor. Este é o seu livro. Você é quem escreve nele. É assim que as histórias são passadas de geração em geração. O único modo de as palavras não se perderem nunca. Aqui... – bateu, levemente sobre o livro – você contará toda a sua história de vida, todas as aventuras, romances, perdas, lutas, amizades, enfim a sua vida inteira.
- Mas por que não pagam alguém para fazer isto? Não é mais fácil? Eu não levo jeito para escrever. – fiz uma voz manhosa.
- Ah, você não precisa escrever nada, apenas dizer umas palavrinhas mágicas – fez um sinal de aspas com os dedos - e contar a ele, exata-mente, o que você escreveria. Conforme você fala as letras aparecem.
- Uau! – soltei, em meio à respiração alterada.
A cada minuto que eu passo neste quarto, coisas imprevisíveis aconte-cem. E o pior de tudo? É apenas o começo.
- O que você está lendo? – perguntei
-Adivinhe. – desafiou-me
Levantou o livro, permitindo-me ver apenas a capa. Havia finos ramos de flores delicadas decorando as laterais. Tem o mesmo tamanho que o meu. A capa é toda branca, ao centro há um homem de cabelos cas-tanhos, a pele da cor da minha, muito bonito, segurando um bebê rui-vo, muito fofinho. Assim como o Grifo do meu livro, o homem e o bebê se mexem. É como uma gravação. O plano de fundo é um lindo campo florido. O homem brinca, alegremente, com o bebê; coloca-o deitado sobre o tapete de flores, joga-o para cima, anda em direção à “câmera”, sorridente e o bebê não pára um segundo de sorrir.
Terminada a análise sobre livro, me virei à Tayla, entregando-o.
- Não sei de quem é.
Ela pegou-o de volta e olhou-me fixamente. Sem dizer uma palavra.
- O que foi? Eu não sei de quem é! – disse, irritada.
- É da sua mãe! – levantou o livro – Este homem aqui é o seu pai, e esta criança é você! – apontou o dedo – Você é burra assim mesmo ou está só tirando sarro da minha cara?
Fiquei muito ofendida com suas palavras. Levantei-me, tomei o livro de sua mão e fui à direção da sacada. Tayla não se mexeu de onde estava, permaneceu calada e imóvel.
Na sacada havia duas poltronas brancas e um enorme telescópio preto. Caminhei até a borda, abraçada ao livro da minha mãe, senti algumas lágrimas rolarem de meus olhos. Mas elas secaram, imediatamente, depois de focá-los à paisagem. Onde estou, aparentemente, é o lugar mais alto, pois consigo ver a cidade, quase, inteira. Ela é, estranha-mente, organizada em formato de meia-lua, deformada, virada para a casa da minha avó, ou melhor, para o Castelo da minha avó. É impos-sível olhar o tamanho desta construção e chamá-la de casa. Minha sacada é virada para a parte de fora do castelo, assim como algumas outras, como pude notar. Daqui é possível enxergar um enorme jardim, lotado de flores, àrvores frutíferas e pequenos animais e algumas pessoas vestidas como na época medieval.
- Tah, olhe isto! - chamei
Tayla chegou encostou-se à enorme porta.
- Não está mais chateada comigo?
- Não muito. - sorri
Tayla retribuiu o sorriso, aproximando-se até encostar o corpo à ele-gante grade que circunda a sacada.
- É bonito, não é?
- Muito! – respondi sorrindo – Olhe o céu. É perfeito. - apontei
Tayla ficou alguns segundos olhando longe, com cara de paisagem, sorrindo. De repente virou o rosto em minha direção, dando-me um susto.
- Ai garota! – reclamei, sentindo o coração acelerar.
Ela sorriu.
- Zah, você se lembra uma vez que eu imprimi o desenho de um lindo castelo e te mostrei?
- Lembro, mas não me lembro do castelo, me lembro de outra coisa. – dei um sorriso envergonhado. – Eu peguei o seu desenho, fiz um bo-neco-palitinho numa das sacadas do castelo, escrevi meu nome nele e te contei a história da “princesa Zarah e a Nerd do mal”.
- Você é perversa, não é?
Assenti, num breve sorriso.
Tayla sorriu e disse:
– Eu estou começando a pensar que você é uma vidente.
- Por quê? – perguntei apreensiva.
Eu tenho mais um poder? Prever todos os acontecimentos?
Sorri, pela idéia.
- Não, Zarah, estou apenas brincando. Você não é vidente. – respon-deu, rapidamente, ao ler minha expressão. – Você não se lembra de quem era aquele castelo?
- Não? – saiu em tom de pergunta.
Vasculhei meu cérebro, tentando lembrar-me de algo mais, nunca prestei atenção nas conversas de Tayla, provavelmente nem ouvi quando ela mencionou o nome do dono do castelo.
- Aine.
- Em? - o nome familiar interrompeu meus pensamentos.
- Aine. Este é o nome da dona do castelo. E a sacada do boneco-palitinho que você desenhou é esta. – bateu as duas mãos na grade. – Você se desenhou na sacada certa. Não é uma loucura tudo isto?
- Muita loucura! – soltei o ar. - Eu sou uma vidente mesmo! – coloquei o dedo indicador na têmpora. – estou vendo o seu futuro! – fechei os olhos – e ele me diz que você... – abri os olhos – vai permanecer deste tamanho para sempre!
Sacudi os dedos em sua direção.
- Zarah, pára de amolar e vai tomar um banho! Está muito nojenta com toda esta meleca pelo corpo. – usou dois dedos para tampar o nariz.
- Eca, havia me esquecido! – levantei os braços a fim de olhar a gosma mais de perto.
- É. Vai lá, vai. – fez sinal com a mão livre.
Entrei no quarto, procurando o banheiro.
- Em baixo da escada! – gritou Tayla.
Corri para lá, escorregando no carpete branco que envolvia a cama. Deixei uma marca alaranjada exatamente onde caí.
- Droga!
Levantei-me, num pulo, e continuei, agora devagar, seguindo até a porta abaixo da escada. Respirei fundo antes de abri-la, pensando em como seria o outro lado.
- É lindo! – gritou Tayla, novamente – Entre logo!
Ela estava sentada à mesa, folheando o livro da minha mãe, como fi-zera antes.
Respirei mais algumas vezes.
- Tudo bem, não se assuste. – disse repetidas vezes.
Abri a porta, devagar. Tayla tinha razão, o banheiro é lindo. E grande.
- Caraca! – perdi o fôlego.
O banheiro é enorme, tem uma linda banheira e armários, com muitas toalhas e acessórios íntimos, em volta de uma bancada. Tudo de ma-deira, exceto a pia do meio da bancada, esta, levemente prateada, mas sem chamar atenção. Havia também um lindo chuveiro, da cor da pia, e um vaso sanitário. Mas o que me chamou atenção mesmo foram as paredes.
As paredes são repletas de pedras do tamanho da minha cabeça. Mas apesar disto não parece rústico, e sim leve.
Lembrei-me da gosma colada em meu corpo e desviei os olhos das paredes, indo à direção do chuveiro. Demorei um pouco no banho, por que a gosma não saía de jeito algum.
Saí do chuveiro, abri um dos armários e peguei uma toalha e roupas íntimas, sequei-me, passei os dedos em meu cabelo molhado, espa-lhando-o, coloquei as peças e saí de lá enrolada na toalha.
Passei pela porta, fechando-a em seguida.
Coloquei meus óculos de grau, para não tropeçar em nada.
- Saiu tudo? – perguntou Tayla, agora esparramada às almofadas do chão, junto à Kika.
- É aí que você dorme? – perguntei à minha nova melhor amiga
- Sim. – disse em sua doce voz de soprano
- Que ótimo, acho que ficaria com medo de dormir sozinha aqui.
- Ela é tão fofinha de apertar. – disse Tayla, em meio às penas de Kika.
- Tah, onde você colocou as minhas roupas? – procurei a mala.
- Elas guardaram tudo nos guarda-roupas. – respondeu, sentando-se.
Andei até os guarda-roupas e abri o primeiro. Nele havia quatro portas, de rolar. Abri uma delas e tive uma surpresa. Todas as minhas roupas estavam lá, todas mesmo, as da mala e as do meu armário de Campo Grande.
- O que foi? – perguntou Tayla, ainda nas almofadas.
- Todas as minhas roupas estão aqui! – apontei
- Eles trouxeram as minhas também. Legal né!
- Estranho. – sorri.
- O que tem no outro? – desviei os olhos para o segundo armário, sig-nificativamente, maior que o primeiro.
- Roupas para você usar aqui. Algumas para o dia-a-dia e outras para ocasiões especiais. Pelo menos foi isto que ela me disse. – explicou-se. – Mas eu acho que você não vai gostar muito. Elas são meio... Me-dievais. – fez careta
Desisti, imediatamente, das antigas roupas e abri o outro armário. Nele havia seis portas. As duas primeiras contêm uma sapateira, abarrotada com todos os tipos de calçados. Desde os meus Allstars até sapatos estranhos de contos de fada.
- Tah, olhe isto! – abri totalmente as portas do armário.
- Nossa! – levantou-se veio até mim.
Tayla tirou todos os pares do armário e experimentou um por um. En-quanto ela se divertia, eu abri as portas do meio, procurando pelas roupas. Portas certas. Na parte de dentro há duas divisões, verticais, com blusas penduradas de um lado e vestidos do outro. O espaço das blusas, pouco maior que o dos vestidos, contém mais peças. Assim como os calçados, aqui a variedade é muita, desde camisetas desenha-das a blusas que faziam par com os sapatos da Cinderela. Com os ves-tidos não é diferente, há desde vestidos longos com corpete até soltos de renda. Quase todos no mesmo padrão de época
Foi difícil escolher, mas acabei optando por uma camiseta preta e um casaco vermelho com zíper e capuz, já que estava um pouco frio.
Abri as duas últimas portas, prevendo o que encontraria. Diferente das portas do meio, a parte de dentro, deste lado do armário, não possui divisão. Há uma enorme arara lotada de calças e shorts de todos os tipos e modelos. Desta vez não foi difícil escolher, optei por uma calça jeans skinning, escura. Olhei os sapatos jogados no chão. Demorei a decidir qual usar, guardei os de salto, a fim de ter uma visão melhor dos tênis. Escolhi um allstar cinza.
- Ficou bom?
- Eu gostei. – respondeu Tayla, ainda no chão.
- O que achou Kika? – subi na cama.
- Gostei. – disse, levantando a enorme cabeça.
- Então será esta. – pulei da cama de volta ao chão. Sem cair.
- Você sentirá calor com este casaco. – disse Tayla, em pé, analisando um scarpin, bordo, de bico redondo, em seu pé.
- Não vou, não. Está esfriando. – respondi segura do que havia dito.
- Lógico que não está. – desceu do salto, guardando-o em seguida.
- Lógico que está!
- Ela não pode sentir, Grania. Os humanos não são tão sensíveis, como nós às mudanças de temperatura. Eles sentem se ela muda dois ou três graus, já nós, podemos sentir as mudanças antes que elas aconteçam.
- Unf. Vai esfriar, mesmo? – bufou Tayla.
Kika assentiu.
- Eu disse! – desafiei.
- Mas que droga em! E vai esfriar mais?
- Com certeza. – disse kika, acomodando-se às almofadas.
- Pelo menos isso né. - observei
- Por que você gosta tanto de friu? – perguntei
Fiz careta, pela explicação, impossível, de Tayla. Não acredito que existam tantos seres mágicos assim.
Ela fingiu não ver minha expressão.
Terminou de guardar os tênis, fechou a porta do armário e dirigiu-se até as almofadas. Sentando-se ao lado de Kika, perto de sua cabeça, e começou a fazer carinho na enorme ave.
- Termine logo de se arrumar, seus avós estão nos esperando lá em baixo.
Senti todos os meus músculos se contraírem. A palavra “avós” e não “avó” interrompeu minha linha de raciocínio e fez minhas pernas bambearem. A vida inteira eu só conheci um avô, que faleceu ano passado. Tomei um choque tremendo ao saber da existência de Aine, e agora, do nada, a palavra muda para o plural. Várias emoções estranhas brotaram ao mesmo tempo. Permaneci estática, forçando meus olhos focarem algo e pararem de sambar ao redor do quarto. Concentrei-me em não ter outro ataque igual ao de quando conheci Kika. Foi difícil, mas eu consegui não pirar e pensar em algo mais importante.
Tentei não pensar no depois. Apenas focar-me no agora, e agora eu precisava de olhos.
Dei alguns passos à frente.
Kika e Tayla me olharam apreensivas.
- Cadê minhas lentes?
Abri a primeira gaveta da penteadeira.
- Ela não sabia que você usava lentes. Não deu para comprar, mas me disse que você pode ir à cidade pegar algumas, depois do almoço.
Fechei a gaveta com força.
- Ah, que ótimo! – bufei.
Odeio usar óculos, apesar de este ser bonito; pequeno de armação pre-ta. Eles sempre parecem pesar uma tonelada. Todos me incomodam, um pouco. Eu sei que é apenas por que eu os odeio, pois o mesmo não acontece aos de sol.
- Terei de usar esta coisa até depois do almoço? Mas que sorte em.
Levantei-me da cadeira.
- Relaxa Zah. Nós já vamos almoçar.
- Que horas são? – perguntei espantada
Pensei que não fosse nem nove da manhã.
- 11h30min. – disse Tayla, olhando em seu relógio.
- Que horas eles costumam almoçar? – perguntei à Kika
- Fique tranqüila, Grania, você não os está atrasando. Eles não costu-mam almoçar muito cedo.
Relaxei um pouco mais. Pelo menos a rotina deles eu não baguncei, totalmente.
- Estou pronta.
- Eu acho que não. – disse Tayla, apontando para meu cabelo.
- Ah, havia me esquecido! – coloquei a mão sobre a cabeça.
Corri até o banheiro.
Lembrei-me de ter visto um secador dentro de um dos armários. Esta-va certa. Sequei meu cabelo, com pressa. Suas pontas voltaram a ficar espetadas, dei uma arrumada na franja e saí.
- Agora sim! – disseram em coro.
- Vamos? – desloquei-me até a porta.
- Agora sim. – exclamou Tayla.
- Não esqueça de pegar seu casaco, Tah. Já está começando a esfriar e nós não voltaremos aqui, vamos direto para a cidade, preciso pegar as lentes o quanto antes. – lembrei-a
- Me espere, então! – apontou o dedo.
Ah, como se eu tivesse coragem de descer lá sozinha para conhecer meus avós. Até parece.
- Eu espero, mas vá logo! – estralei os dedos.
Ela, rapidamente, pegou um casaco, branco, do meu armário e o amar-rou à cintura. Correu até perto da porta e fez sinal para q eu abrisse.
Puxei os dois lados, da grossa porta, sem esforço algum, para meu espanto. Olhei para dentro do quarto uma última vez, Kika já havia saído pela enorme porta da sacada e Tayla estava impaciente, atrás de mim.
- A hora é agora! – sorriu.
Respirei fundo, dando um passo para fora do quarto.
Coração acelerado, mãos gélidas.
Já fora do quarto, meu coração acelerou, impossivelmente, ainda mais. Em frente há um largo corredor com paredes de alabastro, da cor de peixe cozido, esculpido, mas não foi somente isto que me impressio-nou. Antes de chegarmos ao fim do corredor passamos pro várias salas de portas abertas. Eram tantas que foi impossível lembrar o que há em todas elas, mas três me chamaram atenção. A primeira é uma enorme biblioteca; muitos quadros antigos, alguns sofás e dois andares de pra-teleiras lotadas de livros. Já a segunda contém instrumentos musicais; violino, violoncelo, harpa, piano, clarinete, corne inglês e flauta foram os que consegui enxergar. Todos os instrumentos do mundo deveriam estar lá. Nas paredes havia quadros de compositores dos quais reco-nheci meus favoritos; Beethoven, Brahms, Chopin, Debussy, Schu-mann e Bach. Eu não consegui identificar uma porção de outros com-positores, e parei de olhar ao notar que num dos quadros havia uma mulher de um olho só. E ela não era a única “estranha” dentre as ima-gens, pois havia mais dois homens de diferentes tons de pele. Os tons não variavam entre o albino e o negro e sim entre azul claro, lilás e amarelo. A sala número três, consideravelmente menor que as outras, me chamou atenção de uma maneira diferente. Ela não possuía nada além de uma poltrona bordo, antiga e puída, de costas para a porta, grandiosas janelas medievais cobertas por cortinas negras, chamusca-das, e um majestoso espelho prateado. A pequena sala era iluminada apenas pelo feixe luz vindo do corredor. Mas o que me chamou mais atenção foi que em todas elas há Gwers, uma espécie diferente em cada sala. Eles se comportavam como guardiões delas, reprimiam meu olhar curioso com protestos delicados.
Logo chegamos ao fim do enorme corredor que termina numa escada no mesmo tom de mármore claro das paredes. A escada se junta ao lado oposto de onde estávamos e desce majestosamente larga até o hall de entrada. Havia muitos quadros com lindas paisagens e diferentes rostos.
Descemos a escada numa rapidez absurda. Tayla parecia achar graça de minha ansiedade, mas acompanhou-me sem reclamações.
- Esquerda. – apontou ao ver o ponto de interrogação no meio do meu rosto.
- Como você sabe para onde devemos ir?
- Zah, você tem idéia de quantas horas eu fiquei esperando você acor-dar? Não havia nada a fazer aqui, então decidi explorar o castelo. - olhou envolta – Me pergunte onde fica qualquer coisa, eu saberei! – respondeu orgulhosa.
- Menos Tah, bem menos!
Deixei que ela me orientasse, passando à frente.
O restante do castelo continuava na mesma cor de paredes e piso. Muitos lustres gigantescos, cadeiras com acolchoado vermelho, dese-nhos no teto e tapetes, muitos tapetes. Vários portais ligavam corredo-res intermináveis e espaços ocupados, ora por tochas nas paredes, ora por quadros.
Chegamos à sala onde estavam meus avós.
Foquei-me em não tropeçar e conseguir dar um passo de cada vez, mas não estava com cabeça para isto. Só o que consegui foi olhar cada um dos rostos enrugados e sorridentes da grande sala retangular e sentir vergonha quando meu olhar foi retribuído por cada um deles. Meus pés não me obedeceram, fazendo-me permanecer onde estava. Tayla me deu um leve empurrão tentando melhorar a aproximação.
- Bem vinda de volta Grania! – disse o Jovem idoso sentado ao lado de Aine.
Todos levantaram, vieram em minha direção, a passos lentos, depois de perceber a dificuldade de Tayla em me mover para dentro da sala.
Meus olhos dançaram entre Tayla e os quatro idosos.
4 comentários:
Oii ;DD, Olha, ce nao me conhece HUIASOH, mas vi sua historia numa comunidade [achoquedeMcFly]O/, e tipo, ta MUITO BOA! *-*, Cê escreve suuuper bem, ta de parabens ;D. Mal posso esperar para ler os outros capitulos *-*. ;***
Que nada ;D,
Entaaao, era um diario, mas mudei de ideia --', Ai deixei o blog so para eu postar a minha historia, ;D
É, gosto de escrever tbm HUIAHASAI
E a sua hst ta muito boa ;D
Sim, sim HUAISHOAUI, n é mais Diario nao, é so pra postar capitulos da minha historia mesmo *-*
Se puder, da uma passada no meu as vezes ;DDD
Bjoo ;**
AE! Tá ficando muito bom,xará! Orgulho mesmo! Me manda pra eu ler dreitinho! beijos ;)
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