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quinta-feira, 16 de julho de 2009

Cap. 3 Bonito

Kika inclinou-se o máximo possível, esticando o pescoço a fim de parecer menor e facilitar nossa descida. Eu fui à primeira. Coloquei uma perna de cada vez do lado esquerdo de seu corpo, como se esti-vesse sentada numa cadeira. O mesmo que fazemos ao descer de cava-los, dei um pequeno impulso sem tirar os olhos do chão e, como já era de se esperar, caí sentada ao tocá-lo, senti uma dor muito intensa nos calcanhares, mas nada que durasse muito tempo. Levantei-me com a ajuda de Kika, que me empurrou com uma das asas, e esperei os ou-tros, em pé, em baixo de uma grande mangueira localizada atrás da pousada.
– Obrigada – disse numa voz tímida.
Não gosto quando caio na frente das pessoas, isto sempre me deixa muito sem jeito.
Mesmo que a pessoa seja uma ave falante.
Depois de mim foi a vez de Tayla, ela não teve dificuldade alguma na descida, muito pelo contrário, se divertiu bastante enquanto escorre-gava as costas nas penas de Kika antes de pular.
Ao tocar o chão esticou um dos braços, alisou as penas da ave, depois correu em minha direção.
- Obrigada pela carona Kika. Espero que nos encontremos de novo para mais aventuras aéreas como esta. – disse numa voz divertida en-quanto sentava-se ao meu lado.
O Leprechaun ficou por último. Mas, antes de descer, permaneceu alguns segundos em cima de Kika, olhando-a fixamente e dizendo num tom baixo em outra língua, como se fosse algo que não podíamos saber. Aquilo foi muito estranho. Depois que ele desviou o olhar ela sacudiu a cabeça levemente como quem diz ter concordado com o que ele tenha dito.
Depois disto olhou em nossa direção e desceu. Foi tudo tão rápido que nem pudemos ver, quando percebemos, ele já estava vindo em nossa direção enquanto resmungava algo na mesma língua estranha de antes, impossível de se entender.
- O que nós faremos agora? – perguntou Tayla, ainda sentada, levan-tando a cabeça, a fim de olhar em minha direção.
- Não sei Tah, vamos falar com a mamãe, ela precisa me entregar a carta o quanto antes, ele acha que não temos mais tempo a perder. – disse apontando na direção do Leprechaun.
- Não temos tempo mesmo, seus pais já esperaram por muito mais tempo que o possível, eles não conseguirão agüentar nem mais um mês dentro daquela coisa, seja lá o que for aquilo, está se desfazendo e desmoronando, não tem muito tempo até serem soterrados. – disse andando em direção à pousada e desviando de onde estávamos Tayla e eu.
- Espere aí! – exclamei indo em sua direção enquanto fazia sinal com uma das mãos.
– Eu acho melhor Tayla e eu entrarmos primeiro e conversar com ela, contar tudo o que está acontecendo. Depois que terminarmos toda a história você entra. Se eu conheço bem a mamãe ela irá ter um “treco” e desmaiar assim que o ver entrar em casa, do nada, sem explicação alguma.
Ele pensou por alguns minutos e fez expressões engraçadas enquanto, em minha opinião, seu subconsciente debatia as idéias consideradas.
– Darei a vocês dez minutos e nada mais! – apontou o dedo em nossa direção – ela não precisa de muitas explicações, apenas o essencial que não a deixe louca com seu sumiço pelos próximos dias. – ele defi-nitivamente estava mal humorado, não contava em ser excluído da conversa com minha mãe.
- Dez minutos? Você está de brincadeira né? – Agora eu tenho somen-te dez minutos para contar a mesma história que ele levou a manhã quase inteira contando? Só nos pensamentos dele!
– Não mesmo! – olhei fixamente, tentando persuadi-lo - eu preciso de um pouco mais de tempo, e se ela reagir mal e não me deixar ir? Pre-cisarei de mais tempo para convencê-la. – fuzilei-o, tentando ser o mais convincente possível.
Deu certo.
- Tudo bem, nós vamos fazer assim então... – virou-se em direção à pousada, apontando o dedo enquanto dizia - eu vou com vocês até ali perto da casa e fico escondido, quando ela estiver pronta você me manda um sinal para que eu saiba a hora de entrar. – estava confiante de sua decisão. Sem precisar olhar para mim, continuou andando em linha reta.

- Mas...
– É isto ou nada feito, você escolhe. – me interrompeu - Ou eu mesmo vou e conto tudo a ela e vemos o que acontece ou fico o mais perto possível e você tem dez minutos para explicar a situação toda. É pegar ou largar!
- Eu pego! – disse, desviando meus olhos do pequeno homem e me virando em direção à Tayla. Ela me olhava com uma expressão engra-çada e um enorme ponto de interrogação no meio da testa. Levantei-me sacudindo os ombros em resposta.
– Eu não tenho escolha Tah, não queria que fosse assim, mas não há outro jeito de resolver as coisas. Não tenho tempo para discutir, ele é muito cabeça-dura, não mudará de idéia facilmente.
- O que? – deu uma pausa, provavelmente estava organizando seus pensamentos. - Zarah, você nunca trocou uma discussão por nada neste mundo! – estava com a expressão muito confusa. – O que está acon-tecendo com você? Ser paciente e compreensiva nunca foi seu forte!
- Não sei o que está acontecendo, Tah. Estou um pouco confusa com tudo o que está acontecendo. Minha vida deu um giro de trezentos e sessenta graus desde a hora em que acordei. Não é nada fácil para eu lidar com todas estas novidades repentinas.
Puxei-a pelo braço andando em direção à parte da pousada onde se localizava a sala de massagens de Valentina.
- Zah!
Virei para encará-la, não queria discutir mais, mas ela estava forçando um pouco a barra.
- O que foi agora Tayla? – eu já estava zangada.
- Feliz Aniversário! – um sorriso largo tocava seus olhos brilhantes.
-Obrigada Tah, eu já tinha me esquecido. – disse sem graça enquanto a abraçava.
- Tenho um presente, mas te darei quando voltar! – libertou-se de meu aperto e correu em direção à sala onde Valentina, possivelmente, está.
- Ela tem uma áurea muito iluminada! – disse o pequeno homem
- Eu sei, ela tem o coração mais puro e amoroso que eu conheço. – olhava-a enquanto corria até entrar na sala e sumir.
- Você acha mesmo necessário contar toda a história? – pegou em minha mão direita, me fazendo parar.
- Eu preciso! – disse numa voz triste – nunca escondemos nada uns dos outros... – parei a frase olhando o céu - exceto a minha procedên-cia. – disse num sorriso leve.
- Vá! – soltou minha mão – ficarei aqui nesta árvore – apontou um dos pés de manga.
- Assoviarei quando ela estiver pronta!
Corri em direção a sala onde Valentina fica durante a manhã.
- Você tem dez minutos! Não se esqueça. – sua voz era apenas um sussurro.
Tentei me controlar o máximo para não dar bandeira. Entrei na sala de massagem o mais rápido que pude, tropeçando no tapete da porta.
- Mãe!
- Zarah? – perguntou uma voz do outro lado da sala.
- Mãe, onde você está? Na sala de massagem? – entrei e fiquei parada no meio da recepção.
- Oi filha! O que você está fazendo aqui? – perguntou, com os braços abertos, me esperando.
Valentina, alguns centímetros maior que eu, tem a pele naturalmente bronzeada, os cabelos negros, sem tintura alguma, lisos até o meio das costas e presos numa trança embutida. Ela é uma, diferente, mistura de português, por parte de pai, com índio, por parte de mãe. Tem um rosto de traços delicados, contrariando sua natureza indígena. Aparenta ser, aproximadamente, dez anos mais velha que eu. Apesar disto não faz questão alguma de mentir a idade real, trinta e oito anos. Ela tem um nariz pequeno e levemente empinado, os lábios um pouco finos numa boca pequena e olhos cor de mel. Magra, pela ausência de carne em sua dieta de grãos, verduras e legumes, quadris largos e barriga modelada, pelas aulas de pilates, de dar inveja a qualquer garota da minha idade.
- Eu estava com saudades de vocês! – menti.
Fui à direção de seus braços abertos e ficamos assim durante alguns segundos, que pareceram horas. Eu sempre me sinto mal em ter que mentir a um deles, mas precisava. Até estar pronta para contar a ver-dade, apesar de não ter tempo suficiente.
- Feliz Aniversário, Feia! – disse baixinho, a voz abafada pelo meu “abraço de urso”.
Minha família inteira me chama assim, desde que me lembro de ser gente. Nunca perguntei o porquê, basta dar uma olhada no espelho e lá estará a resposta. Apesar de a resposta que todos dão ser: “quando você era pequena costumava chamar todos assim, feia, então o apelido pegou em você!”. Mas eu nunca liguei para este apelido estranho, sempre fui realista a ponto de não ficar chateada. Ficar brava com to-dos não vai mudar meu rosto! Sempre pensei deste modo.
- Obrigada mãe! – soltei-a de meu aperto intenso.
- Tayla me disse que você tem uma história para me contar. – disse arrumando minha franja, que estava um emaranhado e cobrindo toda a minha visão esquerda tocando levemente a ponta do meu nariz.
- Disse, é? Onde ela está? – rolei meus olhos em volta da recepção, procurando a laranjinha traidora.
- Sim, me disse. Ela está na cozinha tomando café da manhã. Você não está com fome? A Dona Maria fez uma deliciosa salada de frutas para você.
- Na verdade eu preciso te contar tudo, antes, tenho apenas dez minu-tos. – apesar de ser ciente de ter um pouco menos de oito minutos ago-ra.
- Pode me contar então, já que você tem apenas dez minutos. – sorriu ao dar ênfase no número.
- Mãe, é sobre a minha carta. – disse calmamente – eu preciso que você me entregue.
- Primeiro conte-me a história e depois eu lhe entrego a carta. – irrita-ção aparente em seus olhos cor de mel.
Concordei sem reclamar.
- Eu não quero falar aqui na frente de todos. – mostrei, com os olhos, todos os hóspedes e funcionários que olhavam em nossa direção com ar de curiosidade.
- Vamos para a sala de massagem, lá ninguém nos ouvirá. – olhou-me preocupada enquanto me conduzia.
Ao chegarmos à sala, sentei-me numa cadeira e Valentina puxou outra até ficar de frente a mim. Contei toda a história, observando todos os seus movimentos e temendo um ataque cardíaco a qualquer hora. Ela ouviu tranquilamente, fazendo caras estranhas e ficando um pouco triste quando eu mencionava minha mãe verdadeira. Ficou estranha-mente feliz quando na parte da história em que meu pai aparece e disse sentir muitas saudades dele. No mesmo momento lembrei-me do irmão mais novo dela, que havia desaparecido misteriosamente, deixando apenas uma carta que dizia “voltarei para visitá-los. Algum dia.”, e nunca mais voltou. Senti um aperto no coração ao lembrar dos meus avós, que foram as pessoas que mais sofreram com seu sumiço.
Por incrível que pareça, Valentina compreendeu a história toda sem desmaiar, como eu fiz, ou reclamar quando contei iria procurá-los.
- Eu sei que não é o que você espera que eu diga – deu uma pausa, pegou minhas mãos, e continuou acariciando-as – mas eu não vou impedi-la de procurá-los, são seus pais de sangue, apesar de nunca estarem presentes. Eu tenho certeza que Ryan não deixará que nada de ruim aconteça a você, minha filha, se estas tais pistas são para você, com certeza elas não te levarão a lugares perigosos.
- Obrigada mãe! – uma lágrima rolou e secou antes de tocar meu ma-xilar.
- Agora, Feia, diga-me, onde está o seu amigo Leprechaun? Preciso trocar algumas palavrinhas com ele antes de te entregar a carta.
Antes que eu respirasse para chamá-lo ele estava em pé em frente à porta, muito sério, olhando na direção de Valentina, com olhos caute-losos.
- Madame. – acenou com a cabeça, como os bons cavalheiros de filmes da década de vinte.
- Você não nos estava espionando. Estava? – indagou Valentina, le-vantando-se lentamente.
- Não senhora! – disse ainda sério, fitando-a – Nós havíamos estipula-do dez minutos para a conversa. O tempo encerrou-se e eu apenas es-tou cumprindo o combinado, vindo até aqui apressá-la.
- Muito bem. – há centímetros do pequeno homem – Preciso conversar com você antes dela ler a carta. – virou-se a mim.
- Mãe, pegue leve com ele, está bem? Ele não tem culpa de nada. – disse pacientemente.
- Vá para a cozinha comer algo, deve estar faminta. Eu prometo não demorar muito aqui. – seus olhos borbulharam toda a tensão existente em seu corpo.
Valentina pediu que o Leprechaun se sentasse na mesma cadeira que eu ocupara antes. Fiquei parada em frente á porta, pensando qual seria a melhor opção, sair ou ficar?
Valentina não me deu alternativas.
- Vá tomar um pouco de ar se não estiver com fome, você está muito pálida, minha filha. – empurrou-me, delicadamente, para fora da sala. Trancou a porta e a última coisa que eu consegui ouvi foi “Agora po-demos conversar em paz”.
Saí da sala lentamente, tentando ouvir e absorver mais algumas pala-vras da conversa deles, mas não ouvi mais nada. Valentina tinha razão, eu estava me sentindo um pouco tonta com toda a conversa. Respirei fundo e fui à cozinha contar à Tayla que Valentina já estava por dentro de toda a história.
Não tenho certeza se é por eu estar faminta ou pelo cheiro delicioso que vinha da cozinha, algum destes fatores me fez andar mais depressa que o possível.
Parei na porta e vi Dona Maria, uma senhora com mais de sessenta anos, baixa, cabelos esbranquiçados, pele branca e bem gordinha, pro-vavelmente, uns vinte quilos à cima do peso. Ela trabalha com minha família desde quando minha mãe era pequena.
- Minha filha! – largou a vasilha, que continha uma cobertura de cho-colate, na mesa e veio em minha direção. – Feliz Aniversário, minha lindinha! – disse alegremente ao me abraçar. Ela é a única pessoa que não me chama pelo apelido. Sempre fica brava quando ouve alguém me chamando assim.
- Obrigada Táta! – disse dando um beijo em sua bochecha.
Eu sempre a chamei por este apelido, desde pequena. Minha mãe diz que todas as vezes que Dona Maria tentava me ensinar a falar seu no-me, a única palavra que saía era Táta. Desde então eu só a chamo as-sim.
- A Táta fez uma saladinha de frutas para você! – disse, em terceira pessoa, sorridente, me guiando pela cozinha, com uma das mãos em minha cintura. – Sente-se aqui que eu vou pegá-la.
Tayla estava sentada do outro lado da mesa, de frente para mim, se lambuzando na panela da cobertura de chocolate que Táta havia aca-bado de preparar.
- Isto vai te dar dor de barriga Tah! – disse, torcendo o nariz, repug-nando o cheiro do chocolate quente que havia tomado conta da cozi-nha. – Olhe isto, – toquei um dos dedos na parte de fora da panela – ainda está quente!
- Ah. Dê-me um tempo Zarah! A alérgica a chocolate aqui é você e não eu! – disse, afundando o dedo indicador na lateral da panela, en-chendo-o de chocolate.
- Eca! – fiz cara de nojo. Um arrepio tocou meus braços e fez doer os dois lados do meu maxilar, o mesmo que ocorre quando chupo tama-rindo. - Você vai virar uma obesa se continuar comendo deste jeito. Nem vai passar na porta, mais! – sorri em provocação.
- Vire esta boca para lá! – disse, colocando o dedo novamente na pa-nela. – Eu preciso aproveitar a oportunidade, eu nunca acordo a tempo de comer o resto da calda que fica na panela. – encheu o dedo, desta vez e o enfiou inteiro na boca, lambuzando os lábios e o queixo.
- Tayla!
- O que foi desta vez Zah? – levantou a cabeça em minha direção
- Tem chocolate na sua cara! – apontei o dedo, de longe.
- Onde? – balançou levemente a cabeça, mandando seu cabelo todo para trás dos ombros e deixando o rosto livre para minha observação.
- Aqui, olha! – ainda apontando o dedo longe
- Onde? – começou a ficar irritada
- Aqui, olha! – fiz o mesmo movimento
- Onde garota? Fala logo onde é! – estava no ponto que eu esperava. Muito irritada.
Espalmei minha mão e levei-a em direção a seu rosto. Ela se inclinou levemente em minha direção então eu desviei o foco, enfiei minha mão na panela e a esfreguei duas vezes seguidas no rosto de Tayla.
- Aqui, olha! – fiz movimentos circulares com a mão esquerda, sem tocar seu rosto novamente.
- SUA VACA! – disse entre a calda de chocolate que inundava seu rosto – você me paga! – lambuzou as duas mãos na panela empurrando a cadeira logo em seguida.
- AHHHHHHHH! – soltei um grito estridente
Levantei-me, num pulo, da cadeira e corri para fora da cozinha, em direção à parte de fora da pousada. Mas, como já era de se esperar, tropecei na grama e caí feito uma jaca, de costas para o chão. Tayla, que estava logo atrás, montou em cima de mim, me deixando parcial-mente imobilizada. Passou a cobertura em meu rosto e, como não pa-rava de me mexer, acabou inundando todo o meu cabelo com aquela a calda horrível de tão doce.
Quando acabou todo o chocolate de suas mãos, e não havendo mais espaço em meu rosto, ela deitou-se na grama, ao meu lado. Olhamos uma para a outra e começamos a rir, de nós mesmas e daquela situação estranhamente engraçada. As duas com o rosto coberto de chocolate e deitadas no chão.
Seu rosto estava completamente coberto de chocolate, fazendo com que o cabelo ficasse num tom ainda mais alaranjado que o normal. Havia também alguns pedaços da grama colados em meio à cobertura marrom.
- Mas o que está acontecendo aqui? Vocês enlouqueceram? – Táta gritou da porta da cozinha.
Levantei-me rapidamente, meu estômago doendo de fome. Ajudei Tayla a se levantar e nos viramos em direção a ela.
- Meu Deus! – levou a mão à boca, num susto – Mas será que vocês duas não irão tomar jeito, nunca? – disse ainda parada à porta.
- Tomara que não Táta! – locomovi-me em sua direção
- Tomar jeito é para os fracos! – Tayla estava logo atrás de mim, sor-rindo da expressão de Táta.
- Opa, opa, opa, opa! Onde vocês pensam que vão? – fez sinal com uma das mãos, impedindo-nos de entrar.
- Ah, Táta! Eu estou faminta, deixe-nos passar, vai! – fiz beicinho.
- E eu preciso acabar aquela panela antes que o Cadu acorde. – retru-cou Tayla.
- Nada disso, vocês vão comer aqui fora! Até parece que vou deixar dois animaizinhos sujos entrarem em minha cozinha. – sorriu e virou-se de costas, indo à direção da mesa onde estávamos sentadas antes da mega guerra de chocolate.
Pegou a panela onde Tayla se esbaldava e uma pequena tigela com minha salada de frutas e voltou onde estávamos.
- Aqui! E depois que terminarem me chamem que eu venho pegar estas coisas. – fez movimentos para os dois objetos - E não se atrevam entrar aqui em! – alertou-nos.
- Onde nós vamos sentar? – perguntei, olhando ao redor.
- Vocês não tiveram preocupação alguma em se jogar no chão anteri-ormente. – lembrou-nos.
- Afe, Táta, você está má hoje em! Seu João dormiu de calça jeans ontem? – Tayla disse enfiando dois dedos, encharcados de chocolate, de uma só vez na boca enquanto sentava-se na grama.
- Onde a senhorita anda aprendendo este tipo de coisas em, Tayla Ma-ria? – aproximou-se de Tayla.
- Eu aprendi com a vida, Táta, com a vida! – as palavras saíram en-charcadas pela grande quantidade de chocolate de sua boca. – e tem mais, senhorita Táta. Eu não tenho Maria no nome, lembra? – desafi-ando Táta.
- Olhe como fala comigo menina, eu troquei suas fraldas! – cutucou as costelas de Tayla com uma das mãos.
- Ahhh, pare Táta! Zah me ajude! – gritou
- Não, menininha topetuda! – aumentou a freqüência de seus dedos.
-Ah, eu não Tah, estou ocupada comendo minha salada de frutas. De-pois eu te ajudo! – prometi
- Depois? – disse indignada
-É! Depois! – sorri, com a bola lotada.
- Ahhh, pára, por favor, Tatinha lindinha do meu coração! Ahhh, pára, pára, pára! Ahhh... – fez beicinho, entre gritos e tentativas, frustradas, de livrar-se dos dedos rápidos de Táta.
- Eu vou passar meu rosto cheio de cobertura em você, se não parar! – testou a sorte.
- Já parei, já parei, não precisa fazer isto! – alertou Táta soltando seus braços e se afastando
- Grrrr! – rugiu Tayla – Eu venci a luta! – levantou os braços com os punhos fechados - Yeah! Eu sou fera! Táta não é de nada! – apontou o dedo em sua direção.
- Espere só até você tomar banho! – disse afastando-se e entrou na cozinha.
- Grrrr! Eu venci! – repetiu olhando para mim.
- Cale esta boca! – passei a colher suja de salada de frutas em seu nariz
- Ah. Zarah, agora eu terei que tomar um banho! – divertiu-se, olhando a ponta do nariz, ficando vesga ao tentar.
Terminamos de comer, gritamos para Táta pegar as coisas e fomos para casa tomar banho.
Nossa casa fica na parte de trás da pousada, em cima de um pequeno morro. Ela é bem espaçosa, tem quatro quartos com banheiro. Um meu, um da Tayla e outro do Cadu, uma suíte dos meus pais com uma enorme porta que dá para uma pérgula, de madeira, em volta de um enorme pé de manga, onde eles lêem seus livros e conversam. Na pér-gula há duas espreguiçadeiras em fibra sintética com entrelaçado natu-ral na cor castanho-claro e três puffs brancos. Não há calçada em volta e sim grama, pois têm medo que prejudique a árvore, localizada ao centro.
Na parte da frente da casa há uma enorme sala com três portais de madeira que dão acesso à varanda, toda de madeira em balanço com vista para a pousada. A sala contém um sofá com chaise long e puff, na cor branca, decorado com quatro almofadas na cor magenta, bem gordinhas, feitas por Valentina. Há duas poltronas, também brancas, uma em cada lado do sofá. Atrás há uma enorme charmosa mesa de sinuca, um “chupequinho de caramelo”, como diz meu pai, ao elogiar algo. Ele a trata como se fosse membro da família, limpando diaria-mente e cuidando para que Cadu não a suje ou estrague.
Atrás da mesa há duas portas. Uma dá para a sala de estudos, a quase biblioteca como diz meu pai, onde fica o computador dele, o grande armário de livros e um sofá preto de couro, de três lugares. Na outra porta é a cozinha, pequena, mas completa. Da porta dá para ver apenas uma mesa e a ilha onde, na parte de dentro, está o fogão, a pia e o for-no, e atrás os armários de madeira e vidro e na parte de fora serve co-mo um balcão, com quatro bancos de madeira, altos, na mesma cor dos armários. A mesa de jantar, de madeira, tem seis lugares e combina com os armários e os bancos.
Toda a casa é cercada por um imenso jardim contendo várias árvores frutíferas. A piscina fica à frente da casa, é um projeto do meu pai. Ela possui duas partes, a primeira é um semicírculo com bancos dentro da água e um bar na parte de fora, concluindo-o. A outra é um retângulo, para jogarmos biribol, com um espaço lateral um pouco mais raso para o Cadu.
Chegando à casa, fui direto para o meu quarto, tomar banho. Demorei mais do que deveria embaixo do chuveiro, passando xampu mais de duas vezes para ter certeza de que ainda não havia vestígio algum da maldita calda. Repeti o mesmo ritual ao passar condicionador.
Saí do banheiro enrolada na toalha e fui à direção do armário pegar uma muda de roupas. Esquecendo-me completamente que havia esva-ziado-o feriado passado e levado todas as minhas roupas para Campo Grande. Abri o guarda-roupa e lá só havia roupas de frio.
- Tayla, onde está a mala? – gritei da porta do meu quarto
- Aqui! – abriu a porta, já vestida decentemente, e rolou a mala até mim.
- Obrigada! – disse, puxando a mala para dentro.
Meu quarto não é muito grande, mas conseguimos ocupar todos os espaços disponíveis da melhor forma possível. Há um armário de ma-deira com três portas deslizantes. Minha cama, de casal, também de madeira, é cercada de prateleiras presas à parede, fica no centro do quarto. Ao lado esquerdo há uma mesa para computador e uma pol-trona lilás, de frente para a janela. Todas as paredes são brancas, exce-to a de atrás da cama, que é num tom lilás da mesma cor de uma das portas do guarda-roupa.
Vasculhei durante alguns segundos, rezando por um par de roupas decente, próprios para minha “futura aventura”, dentre minhas opções. Mas a sorte, definitivamente, não está a meu lado, nada parece se en-caixar à necessidade. O que Tayla estava pensando quando colocou dois vestidos, duas blusas e um short jeans? Pensou que eu fosse à praia? Definitivamente isto não chega nem perto do que eu procuro.
Tirei todas as roupas da mala, impaciente, a fim de encontrar uma calça jeans, pelo menos. Depois de quatro blusas e três shorts jeans, vi o que estava procurando. Puxei ainda mais rápido o resto das roupas e finalmente cheguei a ela. Uma das minhas calças jeans preferidas. Eu a comprei por acaso um dia, no shopping, quando procurava um presente de aniversário para Milla, estava em promoção, R$39,90. Ela é num tom mais claro que os jeans comuns, num corte reto. O que me favorece bastante, por ser baixa.
Decidi colorar a blusa da minha banda favorita, depois de McFly, Cu-eio Limão, a melhor banda brasileira, em minha opinião. A camiseta, branca, contém o desenho de um coelho se enforcando com a parte do aparelho de DVD onde se coloca o CD, com um limão apertando o botão “open/close” no controle remoto. Coloquei meu tênis Allstar branco, o mesmo que usei ontem para ir à aula, com cadarços trança-dos, prendi meu cabelo, ou pelo menos o que consegui pegar dele, num rabo de cavalo e saí porta fora.
Fui à cozinha beber água antes de voltar à pousada. Enchi um copo, bebi rapidamente e tornei a enchê-lo.
Sentei-me à mesa, ao lado de Tayla.
- Será que mamãe ainda está conversando com ele? – murmurei.
- Provavelmente sim. – respondeu Tayla – Você sabe muito bem como ela é. É só ter a oportunidade de falar e tudo vira um discurso do Fidel Castro – olhou-me.
Dei de ombros, virando o copo e tomando toda a água de uma só vez.
- Bom dia, bom dia, bom dia, bom dia! – uma voz gritou da porta da cozinha.
Eu conheço muito bem aquela voz. Ela pertence à criança mais linda e doce do mundo. Cadu. Ele sempre diz isto, várias e várias vezes, ao acordar.
- Bom dia, bom dia, bom dia, bom dia! – respondemos sorridentes, em coro.
Correu para dentro da cozinha e deu um beijo, todo sorridente, primei-ro em Tayla e depois em mim.
- Eu quero comer! – disse, empurrando seu cadeirão e escalando-o em seguida.
- O que você quer comer? – perguntei, levantando-me, enquanto Tayla o acomodava à mesa.
- Eu quero comer esquilos coloridos! – disse, pegando um giz de cera e desenhando à parte da mesa, feita especialmente para ele, onde havia papéis, descartáveis, no formato A3, para que pudesse brincar.
- Meu amor, aqui não tem esquilos coloridos! – eu disse, rindo da ex-pressão.
- Tem no armário! – apontou o dedo.
- Olhe como não tem. – abri uma das portas e deixei que ele visse.
- Eba! Esquilos! – bateu palmas e apontou com o dedo novamente.
- Zarah, tenho uma leve impressão que ele quis dizer sucrilhos! – Tayla disse divertindo-se com a troca de palavras de Cadu e apontou à caixa de sucrilhos.
Nós duas rimos e ele não parou de bater palmas até eu terminar de arrumar os esquilos de chocolate e colocar em sua frente.
Cadu é a criança mais linda que eu já vi. Tem o mesmo tom de pele que Tayla, os cabelos um pouco mais alaranjados que os dela e cheio de cachinhos. Tem olhos verdes hipnotizantes, é dono de um par de bochechas sardentas e rosadas, irresistíveis de morder e pouco mais de 105 cm de altura e 17 kg. E fica mais lindo ainda naquela fashion composição de fralda noturna carregada de xixi e uma enorme pantufa de dinossauro.
- Oi crianças! – disse papai ao entrar na cozinha, pela porta lateral que dá acesso à área de serviço.
- Oi pai! – respondemos Tayla e eu, sorridentes.
- Olha, olha os meus esquilos, Nolan! – disse Cadu, enfiou a mão na tigela e pegou alguns dos sucrilhos que estavam boiando no leite.
Ele chama nosso pai de Nolan desde que percebeu que minha mãe só o chama assim.
O nome dele é de origem irlandesa. Sua família inteira é de lá, mais especificamente de Armagh, uma cidade na Irlanda do Norte, sede do Condado de Armagh. É a cidade menos populosa da Irlanda do Norte, e a segunda menos populosa da ilha da Irlanda. Possui uma população de 14. 590 pessoas. Apesar disto, ela é muito importante, pois lá eles trabalham com plantação de macieiras e existe também um lugar onde as pessoas pagam para plantarem um carvalho em memória de outra. Todo o dinheiro da venda dos carvalhos é usado para ajudar pessoas com câncer. Meu pai sempre diz que a terra de lá tem grande fertilidade para este tipo de cultivo e que há muito tempo sua família vive da comercialização das maçãs.
- Esquilos? – papai perguntou, chegando mais perto dele.
- Coloridos! – disse Cadu. Depois enfiou a mão inteira na boca e co-meçou a fazer graça para meu pai.
- Não faça isto Cadu. Coma direitinho! – ordenou.
Cadu parou, na mesma hora, pegou a colher, e voltou a comer corre-tamente, como fazia antes dele chegar.
Sempre que faz algo errado e lhe é chamada atenção ele pára, na mesma hora, e fica todo envergonhado. Vira o pescoço levemente à direita e faz um beicinho irresistível, “o charminho” como diz Valen-tina. Ele não costuma desobedecer aos adultos e fazer aquele tipo de chatice que toda criança faz como dar tapas, gritar na hora errada, xin-gar, e sapatear. Por incrível que pareça, ele sempre está de bom humor. Minha mãe diz que sua calma é pelas massagens que faz nele antes de dormir e os chás de ervas que toma o dia inteiro, com intervalo de três horas de um para o outro. Eu sei que os chás ajudam um pouco, mas o comportamento diferente das outras crianças deve-se ao seu gênio. Ele é, naturalmente, calmo e fácil de lidar.
- O que estão fazendo aqui, no meio da semana? – disse colocando seu chapéu de palha sobre uma das cadeiras.
Meu pai é a pessoa mais sem noção de moda que eu conheço. Ele, depois que mudou para Bonito, nunca mais usou paletó, gravata ou calças sociais. A não ser em casamentos, formaturas e outras festas formais. Agora só usa bermudas cáqui com camisetas lisas ou com o nome da cidade, normais, ou de gola pólo, todas em cores leves.
Mudou, obviamente, seus calçados, trocou os sapatos sociais por tênis New Balance brancos e todos iguais. Na verdade eu nem sei se ainda vendem o estilo que ele gosta. Ele os usa com meias branca e curtas. O chapéu é um adereço à parte que eu nem comento mais. Já cansei de incomodá-lo e nem ligo mais. Todas as vezes que eu reclamo, ele diz precisar dele para se proteger do sol intenso. Isto é verdade, pois ele é muito branco e se não se cuidar pode vir a ter câncer de pele ou adqui-rir mais sardas do que já tem, se isto é possível. Meu pai tem os cabelos cacheados, mas nunca dá tempo de eles se formarem, ele é compulsivo por cortar o cabelo. Seus olhos são verdes, da mesma cor dos de Cadu, bochechas lotadas de sardas, assim como o resto do corpo. Mede 1, 80m, 45 anos e um corpo esguio, mas atlético. É muito preocupado com a saúde. Corre todos os dias às 05h30min da manhã e nada na piscina durante a noite e não come qualquer tipo de carne, assim como minha mãe. Papai é uma pessoa muito bem humorada e de bem com a vida, sempre está com um sorriso estampado no rosto e com olhos brilhantes. Uma criança grande.
Aqui em casa quem dá as ordens e diz sim ou não é Valentina. Sempre que pedimos algo a meu pai ele diz para perguntarmos a ela antes, para “analisar” as duas opções de resposta. Mas sempre suas opiniões são iguais as dela e nós, na grande maioria das vezes, não voltamos a perguntá-lo. Já que a resposta final já fora dada por mamãe.
- Pai, você sabe que dia é hoje? – Tayla perguntou um pouco receosa.
- Dia dez? – perguntou ele se encolhendo ao prever a adivinhação er-rada.
- Pai! – ela estava alarmada – hoje é dia treze! – apontou a cabeça em minha direção
- Pelos Deuses! – virou-se a mim – Como pude me esquecer? Aniver-sário da minha princesinha! – deu-me um abraço apertado
- Acho que você me puxou! – sorri, aceitando seu abraço.
- Desculpe-me Zarinha. – deu-me dois beijos, um em cada bochecha, espalhou meu cabelo todo para trás e segurando meu rosto com as duas mãos. – Você me desculpa? – perguntou sério colando sua testa na minha.
- Pai, eu sempre me esqueço dos aniversários de todos. O mínimo que eu faço por você é não ficar brava. – agora eu segurava seu rosto com as duas mãos.
Ele sorriu dando-me três beijinhos de esquimó.
- Aaai, pai! – sorri pelas cócegas. – Eu não sou mais criança!
- Os filhos nunca crescem. – alertou, sem tirar os olhos de mim.
Levei meu rosto em sua direção.
- Quatro para dar sorte!
- Zarah, Zarah, Zarah, Zarah, você e esta cisma com números ímpares! – passou seu nariz levemente no meu, mais três vezes.
- Você sempre faz de propósito né! – não foi uma pergunta.
- Sim. Mas não sempre. – deu um sorriso largo que fez seus olhos cor esmeralda brilharem.
Cadu soltou uma forte gargalhada.
- Eu também quero um beijo de esquiló! – gritou da mesa.
Por que ele insiste tanto nestes esquilos malditos? Será que tudo agora envolverá a palavra esquilo?
- É... ES QUI MÓ – dividi as sílabas para melhor compreensão de Cadu.
- ES QUI MÓ – repetiu pausadamente, exatamente como eu fiz. Não parou um segundo sequer de mexer em seu café da manhã.
- Isto mesmo! Viu, não é difícil. – batemos palmas, encorajando-o.
- Fale de novo – disse Tayla. – Esquimó!
- Esquiló, esquiló, esquiló! – deu um largo sorriso, batendo palmas, todo contente.
- Ah! Eu desisto! – Tayla olhou para nosso pai.
- Vocês precisam ter um pouco mais de paciência com ele, meninas. – disse papai, sentando-se na cadeira ao lado de Cadu e passando a mão em seus pequenos cachinhos. – Quantos beijinhos de “esquimó” você quer Cadu? – olhou em minha direção ao dar ênfase à palavra.
- Um milhão quatrocentos e vinte e sete mil! – levantou as mãos, es-palmadas, acima da cabeça e jogou-as à mesa, fazendo um barulho baixo.
- Isto você sabe falar né! Espertinho. – olhei em sua direção.
Como ele pode saber falar quatrocentos e não conseguir dizer esqui-mó? Pelo amor dos deuses! Ele está testando até onde vai nossa paci-ência, com toda a certeza.
Nolan se inclinou à direção de Cadu até que narizes se tocassem e fez vários movimentos seguidos, sorrindo, enquanto Cadu ficava paralisa-do, apenas olhando-o fixamente. Concentrado, pelo que parece. Ele não agüentou muito tempo, até sentir cócegas e soltar uma gostosa gargalhada que inundou a casa inteira.
- Você já terminou seu papá? – perguntou Nolan
- Eu não quero mais. – empurrou a tigela, da Turma da Mônica, para o centro da mesa.
- Vamos encontrar a Tereza então, para ela te dar um banho. – disse meu pai, retirando-o do cadeirão.
Ainda com Cadu no colo, deu um abraço, de boas vindas, em Tayla e virou-se a mim.
- A propósito. Por que vocês vieram para cá no meio da semana? Hoje é feriado? – lançou os olhos, desconfiados, no calendário pregado na geladeira. Apesar de ser impossível enxergar os números na distância em que está.
- Não, pai. Nós viemos pegar a carta de dezoito anos da Zarah. – Tayla disse, sem pensar - A que o pai dela deixou com a mamãe. – com-pletou, tentando ajudá-lo a se lembrar.
Meu pai arregalou os olhos em minha direção, mudando o foco algu-mas vezes. Muitas emoções agrupadas e confusas passaram em seu rosto.
- Você já... Leu... A carta? – perguntou receoso.
- Ainda não. – Tayla respondeu à pergunta. Eu continuei olhando-o, sem saber o que dizer ou como reagir à conversa que se seguiria.
- Minha filha, você tem certeza que precisa ler isto? – disse trocando Cadu de braço – Isto não faz parte de você. Nunca fez. Só te deixará mais triste e não resolverá em nada sua vida. – a voz melancólica e calma.
- Pai, eu preciso ler aquela carta! – disse confiante, no mesmo tom calmo. – Eu descobri tudo. Eu sei quem são meus pais. Eu sei onde nasci, por que vim parar aqui e mais um monte de coisas loucas e sem sentido algum, mas que são verdades. – corri meus olhos para o chão, temendo não ter feito a escolha certa de palavras.
O clima ficou tenso.
- Olá crianças! – disse uma voz de dentro da sala de televisão.
Era Tereza, a babá de Cadu.
Ela é irmã mais nova de Táta e muito parecida fisicamente, apesar de ser magra. Tem quarenta e poucos anos e é muito simpática. Tereza cuida de Cadu desde que ele nasceu. Não tem filhos, apesar de ser casada há muitos anos, e por isto o trata como se fosse um príncipe, não desgruda um minuto sequer. Cadu é tão grudado com ela que ano passado, em dezembro, ela tirou férias e ele ficou doente. Só melhorou quando minha mãe a trouxe para visitá-lo. Mesmo assim ainda havia alguns dias de recaída e a febre voltava.
- Tureza! – Cadu olhou para todos nós e tentou descer o mais rápido possível do colo de meu pai.
- Hei ,hei, hei, espere um pouco garotinho. – meu pai ria – Assim você cai, espere um pouco, a Tereza não vai fugir. – exclamou enquanto o deixava em pé no chão.
Tereza chegou à porta da cozinha e disse:
- Bom dia meu homenzinho. Como passou a noite? – olhou em volta, em nossa direção. – Olá meninas! – exclamou sorridente.
- Oi Tereza. – dissemos em coro
-Tureza! Bom dia, bom dia, bom dia, bom dia! – correu em sua dire-ção.
Esta é outra palavra que ele teima dizer errado, “Tureza”.
- Olá meu príncipe. Como passou a noite? Dormiu bem? – agachada próxima à porta da cozinha, com Cadu agarrado ao pescoço.
- Olha Tureza, o dinossauro! – ergueu um dos pés lutando para equili-brar-se ao seu pescoço.
- Ai que pantufas mais lindas Cadu. – disse num sorriso imenso dei-xando aparecer suas duas covinhas da bochecha.
Eu observava atenta à animada conversa dos dois, mas percebi que o mesmo não ocorria com Tayla e meu pai. Eles me olhavam sem mover-se, esperando que eu retomasse a conversa anterior, interrompida pela chagada de Tereza. O que não aconteceu tão cedo. Continuei olhando Cadu e Tereza à porta da cozinha, ele mostrava as duas pantufas todo animado enquanto ela o incentivada com adjetivos positivos.
Nolan percebeu que eu não voltaria a tocar no assunto enquanto Tereza ainda estivesse lá.
Claro, ninguém da cidade poderia saber da minha adoção e muito me-nos que eu era a herdeira de um reino cuja existência, para os humanos, limita-se às folhas dos livros.
- Tereza. – chamou Nolan – O Cadu está com a fralda cheia, é bom dar um banho nele, agora. – Ela levantou-se, com meu anjinho ruivo no colo.
- Sim senhor Seu Nolan. – avançou em direção aos quartos.
Nolan virou-se em minha direção, esperando, novamente, que eu con-tinuasse a conversa.
Eu não sabia como retomar o assunto. Fiquei estática, por alguns se-gundos, buscando a melhor maneira de contar-lhe a história toda. Mas não conseguia pensar em nada.
- Tudo bem – puxou a cadeira e sentou-se – se você não vai me contar nada então eu vou fazer as perguntas e você as responde. - Tirou os óculos de grau, colocando-os à mesa. Sua expressão me assustou, por alguns segundos. Ele estava muito preocupado e irritado com toda esta situação constrangedora em que nos metemos. Afinal nunca imagina-mos que este dia chegaria. O dia em que eu descobriria tudo sobre meus verdadeiros pais e consequentemente conto à Nolan.
Ele nunca se preocupou em pensar na possibilidade de um dia tudo vir à tona. Pois eu não fazia questão alguma de descobrir minha verdadei-ra identidade ou ficava perguntando sobre as conversas dele, sobre mim, com Valentina.
Permaneci estática, apenas esperando a chuva de palavras com pontos de interrogação chegar a mim.
Meu pai olhou em direção à Tayla por alguns instantes e voltou-se a mim.
- Você ainda não leu a carta, certo? – as palavras saíram num tom ponderado
Respirei fundo uma vez
– Certo.
- O.K.! – exclamou, parecendo reorganizar as próximas perguntas. – Mas se você ainda não a leu como descobriu toda a verdade? – a paci-ência transbordando em cada palavra.
Puxei a cadeira, sentando-me à ponta da mesa, lugar reservado à Cadu e seus desenhos, com Nolan à minha esquerda.
- Pai – entrelacei os dedos, em meu colo, muito nervosa. – Sabe o Le-prechaun? – meus dedos não pararam um segundo de se entrelaçarem enquanto esperava sua resposta.
Nolan assentiu.
Meu pai já havia presenciado várias ocasiões em que eu reclamava de algo desaparecido e metia o nome Leprechaun no meio. Ele sempre dizia algo sobre minha imaginação fértil e coisas do tipo, mas nunca ligou para as minhas loucuras.
Olhei por baixo da mesa, minhas mãos tremiam e meus dedos não pararam momento algum. Esperei meu coração se acalmar e as borbo-letas pararem de bater asas em meu estômago.
Enfim tomei coragem e contei-lhe toda a história, sem privá-lo de de-talhes. Ele fazia caretas nas partes razoavelmente tristes e expressões de espanto quando cheguei à parte do sumiço de meu pai e à conversa de Valentina com o Leprechaun. Nolan ficou muito espantado ao saber da existência de Kika e quis saber mais algumas coisas a respeito do reino, mas eu não tinha a mínima idéia de como era então estas respostas ele não teve.
Quando cheguei à parte das pistas ele ficou muito nervoso e disse que meu pai não deveria me expor deste jeito atrás de pistas envolvendo seres mágicos. Disse também que eu acabaria me deparando com seres ruins e que meu pai era um inconseqüente ao pensar em mim como a única pessoa capaz de encontrá-los.
Terminei a história com um “e agora eu preciso que Valentina me entregue a carta. Lá está a primeira pista”. Consegui convencê-lo de que era o único modo de impedir que meus pais morressem e descobrir quem eu realmente sou. Isto é a mais pura verdade.
- Eu não estou pedindo sua permissão pai – desafiei – eu apenas estou informando-o de que farei de tudo para salvá-los. Eles não merecem ficar lá presos por mais tempo. – disse num tom melancólico, nada desafiador - É a única forma de agradecê-los por arriscarem suas vidas para me salvar. – estiquei minhas mãos até tocar a as pontas dos dedos em seu braço sardento - Sem contar que é dos meus pais que eu estou falando. Não é de um amigo, um vizinho ou de pessoas aleatórias, é dos meus verdadeiros pais.
Meus olhos umedeceram.
Ele deu um suspiro.
- Então você está mesmo a fim de se meter nesta encrenca? – deu um meio sorriso.
- Sim pai, eu espero que você entenda. – passei meus dedos em seu braço novamente.
Estendeu as mãos à mesa, como sempre faz quando não temos mais nada a falar. Coloquei as minhas em cima. Nolan apertou levemente minhas duas mãos, fazendo carinho. Ficamos assim durante um bom tempo. Até Tayla se encher e dizer:
- Ai que meigo isto. – sorriu. – Fiquei até comovida. – jogou o resto da água, do copo, que acabara de tomar, na pia, e veio em nossa direção. Atravessando o balcão, que formava uma ilha na cozinha e sentou-se no colo de nosso pai.
Ele sorriu e soltou uma de minhas mãos para afagar os cabelos dela.
- Zarah, é melhor você procurar logo aquele Leprechaun. Ele mesmo disse que não havia tempo a perder.
- Mas tenho certeza que mamãe ainda não terminou a conversa com ele. Senão já teria mandado alguém vir aqui nos chamar.
Na mesma hora Valentina entrou na cozinha. Nós três olhamos em sua direção.
- Onde ele está? – referi-me ao pequeno homem.
- Ele disse para você pegar as coisas que precisa para alguns dias longe de casa e depois encontrá-lo no mesmo lugar em que a ave os deixou.
- Mãe, eu preciso da carta. – pedi.
- Eu vou pegá-la para você – dirigiu-se aos quartos, mas voltou antes mesmo de chegar ao hall. – vai arrumar sua mala enquanto eu pego a carta.
- Tudo bem!
Levantei-me da cadeira num pulo. Tive uma pequena tontura, minhas pernas e braços pareciam pesar uma tonelada. Meu estômago ferveu e minha cabeça rodou sem parar. A pior sensação que já tive.
Sentei-me à cadeira novamente. Uma dor insuportável subia do meu estômago até minha garganta. A queimação agora havia desaparecido, dando lugar à outra sensação, muito mais insuportável. Contorci-me na cadeira, sem saber o que fazer. Tayla e Nolan desesperaram-se. Ele pegou minha mão enquanto Tayla correu em direção aos quartos para chamar Valentina.
- O que foi Zarah? – meu pai perguntou, ainda segurando minha mão.
Eu tentei responder, mas a dor é tão forte que não me deixava falar e respirar ao mesmo tempo. Também, eu não conseguiria explicar o que estou sentindo, é algo que nunca tive antes.
A dor aumentava gradativamente. Como as labaredas de uma fogueira conforme o fogo toma conta da madeira. Apesar de o que eu estar sen-tindo não parecer em nada com fogo, e sim uma pressão de algo áspero movimentando-se em meu sistema digestivo. Fiquei contorcendo-me na cadeira, com Nolan agora segurando minhas costas com uma das mãos enquanto a outra permanecia refém de meu aperto forte.
Eu não gritei ou chorei. Não havia fôlego para isto. Apenas travei meus dentes e lembrei-me de respirar o mais homogeneamente possível, caso isto demore muito a passar.
- Zarah, por favor, me fale o que você está sentindo. – Nolan estava desesperado, como qualquer pai ficaria ao ver um filho sentindo dores absurdas e não podendo fazer nada para cessar.
Novamente eu não consegui dizer nada. A dor é tanta que nem me importei em tentar lhe responder.
- Zarah, você está ficando amarela! – meu pai gritou – Valentina! Va-lentina!
- O que... Meu Deus, o que foi com ela? – Valentina apareceu à porta sem saber o que acontecera.
- Eu não sei.
- Zarah, fale comigo! O que você está sentindo?
Será que eles só sabem perguntar isto? Eu estou aqui morrendo de dor e eles esperam que eu consiga dizer algo? Se eu estivesse em condições de conversar já teria falado há muito tempo.
- Ela não responde. – disse Nolan desesperado
- Ela deve estar com muita dor, mas precisa conseguir nos dizer o que está sentindo. – minha mãe é a única pessoa capaz de manter a calma, mesmo nos momentos mais turbulentos. – Ela está suando frio. Ajude-me a levá-la até o sofá para ela deitar um pouco.
Meu pai me levantou, com jeito, da cadeira. Isto fez a dor intensificar-se ainda mais. Sentei-me de volta, desesperada de dor.
- Você não consegue ficar em pé? – perguntou Nolan
Respondi apenas sacudindo a cabeça duas vezes.
-Tudo bem, agachou-se até ficar na altura de meus olhos. – Eu vou contar até três e te pegar no colo. – alertou – Tente não se mexer mui-to.
Assenti.
- Um... Dois... Três.
Levantou-me da cadeira, a dor aumentou mais. Tentei não me mexer, apesar de parecer que vários peixes espinhentos decidiram se locomo-ver sem rumo, dentro de mim. A dor, agora, não subia pela minha garganta, ela se espalhava por todas as partes do meu corpo, menos em meus membros. Apesar de eles ainda pesarem uma tonelada.
Nolan acomodou-me no sofá. Valentina colocou um travesseiro sob minha cabeça. Fiquei deitada com as pernas encolhidas e os braços em volta da barriga.
- Será que é alergia de algo que ela comeu? – ouvi minha mãe pergun-tar a Nolan.
- Mais uma alergia? – perguntou ele, alarmado.
Impossível ser mais uma. Eu me recuso ser alérgica a mais um ali-mento. Já não posso comer carne, tomar leite e derivados, molhos, remédios, o que mais poderia estar faltando? Só falta eu ser alérgica a H2O.
- O que aconteceu com ela? – perguntou o Leprechaun, da porta de entrada.
- Nós ainda não sabemos – minha mãe respondeu.
- Talvez seja alergia a outro alimento, mas ainda não temos certeza. Ela só comeu salada de frutas hoje, mais nada. – disse meu pai, sem tirar os olhos de mim.
- Oh! Pelos Deuses. – exclamou preocupado. – Ela ingeriu comida humana? – atravessou a sala até chegar à minha frente. - Nós precisa-mos ir embora daqui, logo, somente os Sidh podem te curar agora. - desviou os olhos de mim – Ela não vai agüentar por muito tempo. Comida humana não faz nada bem para nós. É o mesmo que ingerir o mais puro dos venenos. Eu preciso levá-la até Aine, ela saberá o que fazer.
- Ela não está em condições de ir a lugar algum agora. – disse Valen-tina, agora alterada. – Vamos esperar que a dor melhore um pouco. Ela não consegue nem levantar-se.
- A dor não diminuirá Valentina. Ela continuará aumentando minuto após minuto. Ela já está amarelada, não sei se chegaremos a tempo nos limites do portal, se a senhora esperar mais alguns minutos. – disse, mostrando todo seu poder de persuasão.
- Mãe... – tentei dizer algo, mas a voz falhou.
- Zarah, eu não vou deixar que ele a leve daqui! – explicou-me
- Por... Favor – supliquei, em meio às dores, insuportáveis, que au-mentavam cada vez mais.
- Não há mais tempo, senhora. – disse, levantando-me do sofá. Igno-rando totalmente o olhar repreensivo de Valentina.
- Ele sabe o que está fazendo, Valentina. – disse meu pai – Não a co-locaria em risco. É o único modo de salvá-la. – segurou-a em seus braços.
O Leprechaun guiou-me até a porta da frente, onde Kika já nos espe-rava. Tayla lhe entregou minha mala e nos acompanhou até perto da ave.
- Você não pode ir conosco menina. – disse o pequeno homem
- Mas ela precisa de mim. E outra, não me venha com a desculpa de que eu serei reprimida pelos Sidh, pois esta já não cola mais! – disse apontando-lhe o dedo – Eu estarei com a futura rainha deles. Com certeza não poderão nem mesmo chegar perto de mim.
Ai. Esta foi duro de engolir em.
Com certeza o Leprechaun ficou com medo dela, pois não disse mais nada até subirmos em Kika.
- A sua mãe não vai gostar nada disso. – alertou-a
- Ela me deixou ir com vocês. – disse passando-lhe sua mala.
- Como conseguiu isto? Ela nem ao menos deixou Zarah ir comigo.
- Digamos que eu... Tenha... Mentido um pouquinho. – abaixou o tom de sua voz.
- O que você disse? Mas você não tem jeito mesmo em menina. – cu-riosidade saltando de seus olhos cor de esmeralda.
- Eu disse a ela que Zarah precisava de mim, já que entendo tudo de lendas antigas. Disse também que a própria avó me chamou para esta missão. – Tayla disse vitoriosa.

2 comentários:

Priscila Machado. disse...

Sou muito feliz de ver pessoas interessadas em literatura. Não me sinto mais sozinha.

Um abraço, bons ventos para suas letras.

:)

Thaís A. disse...

AAH, isso é tipo um livro-blog?