Tudo envolta era de um verde sem fim, não havia mais nada além do verde, não havia árvores, asfalto, casas, pessoas, nada, nem sequer havia um horizonte. Há alguns metros à minha frente vi uma mesa iluminada por muitas luzinhas, como as de natal, envolta de um objeto grande, coberto de velas. Corri até a mesa e a paisagem mudou. Agora a cor era azul. Havia muitas pessoas em volta da mesa, elas estavam batendo palmas e olhando em minha direção como se me chamassem, mas eu não as ouvia. Pareciam estar acompanhando alguma música, mas eu não conseguia entender o que era. Quando me dei conta do que estava acontecendo já era tarde demais e eu estava em frente à mesa com um bolo enorme lotado de velas azuis. Eu, agora, conseguia en-tender a música que as pessoas acompanhavam com palmas, era a Marcha Fúnebre de Chopin. Comecei a gritar para elas pararem, mas ninguém me obedeceu. Continuaram olhando-me com rostos sorriden-tes. Sem parar de bater palmas. - Parem! Eu não quero uma festa! – disse enquanto uma lágrima tocava minha bochecha. – Eu odeio festas! Odeio todos vocês, saiam daqui agora! – muitas outras lágrimas rolaram de meus olhos. - Eu não vou fazer festas para você! – uma voz conhecida. - Me prometa então! – minha voz falhou em meio às lágrimas. - Eu prometo por todos os sapatos que eu já fiz. – a voz es-tava calma e confiante. – Agora, por que você não experimenta acor-dar? Está um lindo dia de sol. – disse, logo em seguida não pude mais ouvir sua voz, ele já havia ido embora.
De uma coisa eu tinha certeza, eu estava sonhando. Mas algo estava muito estranho, o ser dos meus sonhos nunca me pede para que eu acorde, muito pelo contrário, sempre que eu digo que está na hora, ele me pede para ficar um pouco mais e faltar à aula. Dizia que era perda de tempo freqüentar uma faculdade enquanto tinha coisas muito mais importantes com o que me preocupar. Sempre que vinha com este tipo de conversa eu o cortava e dizia que preferia acordar a ficar presa para sempre em minha imaginação. E ele concordava. Abri meus olhos. Eles estavam um pouco nublados. Vi uma estranha figura em cima da mesa do meu computador, encarando-me com olhar de curiosidade.
- Feliz Aniversário! – disse o pequeno homem.
Sentei-me à cama, rapidamente, arregalando olhos de susto, ao reco-nhecer a voz. Eu nunca havia visto aquele rosto antes, mas a voz me era muito familiar. Era a voz dos meus sonhos, a que conversava co-migo todas as noites enquanto eu dormia. Era o meu companheiro de conversas e meu confidente mais fiel.
- Por que esta cara garota? Você sempre me disse que queria que eu fosse real, e agora que eu me revelo você não me diz sequer “obrigada Leprechaun?” Vamos diga algo, eu estou esperando. – encorajou-me, fazendo sinal com as mãos.
- Droga! Será que eu estou louca de vez? Agora é que eu não posso mais discutir com a Tayla, eu realmente estou louca! – bati duas vezes em minha testa com mais de força que o necessário, isto fez doer um pouco.
- Calma menina, assim você vai acabar desmaiando. – seu rosto agora estava preocupado.
- Mas por que eu não consigo acordar? Por quê?
- Você já está acordada Zarah, eu realmente estou aqui falando com você. Isto não é sonho. – estava em pé na mesa, levemente inclinado em minha direção.
Isto realmente é muito estranho. Todas as vezes que eu o imaginei, ele tinha cabelos brancos, uma barba enorme, usava roupas como as de um feiticeiro e tinha pelo menos um metro e vinte centímetros a mais. Muito diferente deste pequeno homem em minha frente, de barba rui-va um pouco mais clara que a cor do meu cabelo, calça verde, presa por um cinto de fivela, camisa branca sem botões num corte em V, um pequeno paletó, e uma espécie de chapéu de três pontas em sua cabeça. O que mais me chamou atenção foram seus lindos e pequenos sapatos, eram num tom de marrom que eu jamais tinha visto, todo decorado com trevos de quatro folhas. Muitos deles, mais que uma pessoa seria capaz de encontrar mesmo que vivesse mil anos. Seus olhos eram num tom esmeralda que combinava perfeitamente com suas vestimentas. Pequenas rugas de expressão em sua testa e pequenas bolsas de água embaixo dos olhos faziam-no parecer ter por volta de sessenta anos de idade. Seu nariz é um pouco gordinho e logo abaixo havia um bigode ruivo, no mesmo tom da barba, que escondia seu lábio superior.
Quando terminei minhas observações, me foquei no problema que estava enfrentando e encarei o pequeno homem enquanto esperava meu cérebro processar toda aquela maluquice. Apenas uma pergunta veio em minha mente, então espirrou de minha boca antes mesmo de eu pensar em reformulá-la.
- Você pode me provar que é real? Por favor! – minha expressão era de medo, medo de realmente estar maluca.
- Essa é fácil! – agora ele sorria. Inclinou-se mais para perto de mim, esticou uma das mãos em minha direção e em seguida me deu um beliscão.
- Ai! – exclamei enquanto esfregava, levemente, a mão onde ele aca-bara de apertar.
- Pronto. Com certeza isto faz de mim real – sentou-se na ponta da mesa, com as pernas balançando em direção ao chão.
- Isto definitivamente não prova nada. – esfreguei meu braço. Será que ele precisava realmente apertar tão forte assim?
- Lógico que isto prova que eu sou real, como eu poderia te machucar? Não há como sentir dor quanto se está sonhando. – seus olhos estavam grudados nos meus.
- Mas se isto não é um sonho como pode você estar aqui no meu quar-to? A porta está trancada, não há como entrar. – decidi pensar que já estava acordada e tentar entender o que estava acontecendo, se isto for mesmo real. Depois que terminei minha frase ele desceu da mesa num pulo e foi em direção à porta.
- Não tive dificuldade alguma em lidar com esta porta, já vi coisas muito melhor trancadas! – colocou-se à frente da porta, sem precisar tocar a maçaneta, abriu-a num leve movimento de mãos.
- Como você fez isto? – Agora eu estava totalmente fora de controle, senti meu coração acelerar, as mãos molharem e a garganta secar.
Levantei-me muito rapidamente e fui a sua direção a fim de verificar mais de perto que a chave realmente não estava ali. Tudo nublou assim que me levantei e o chão do quarto já não estava mais sob meus pés. Tudo ficou preto. Senti, de repente, uma dor muito intensa na lateral direita de minha cabeça enquanto ouvia uma voz muito distante.
- Menina, será que algum dia você vai parar de cair tanto? Se continuar deste jeito não dará certo como Sidh.
- Sidh? – eu ainda não havia recobrado totalmente a consciência, o nome saiu apenas um sussurro.
- Levante do chão Zarah, nós precisamos ir logo, não há muito tempo! – ele, apenas com uma das mãos, me levantou do chão e em menos de um centésimo de segundo eu já estava sentada na cadeira com ele me observando numa expressão rabugenta. – Nós não temos mais tempo a perder menina, tente tomar mais cuidado ao andar, preciso de você viva. Você consegue fazer isto? – sua voz estava no mesmo tom que meu pai usa comigo quando me machuco. Paternalmente preocupada.
- Eu posso tentar – posso tentar? O que eu estava pensando quando respondi? É lógico que eu não posso tentar. Isto simplesmente aconte-ce e pronto, não tem como eu evitar, não sei quando vou cair, não pos-so prever meus tombos.
Tentei pensar logo numa maneira de consertar minha resposta, mas nada parecia ter sentido. Então me lembrei da frase que minha mãe sempre diz quando tentamos impor algo a ela.
- Eu tenho uma condição – soltei rapidamente.
- Isto não é moeda de troca menina, você simplesmente não pode se machucar e pronto, não estou aberto a negociações. – ele estava sim e eu podia ver em seus olhos, ele é o ser mais curioso que eu conheço.
- Tudo bem então, eu não queria dizer a minha idéia mesmo. É um pouco tosca sabe, tenho certeza que você riria dela depois que ouvisse. – pronto, a semente já estava plantada, agora era só uma questão de tempo até que me peça para contar.
Olhou-me fixamente enquanto pensava em minhas palavras. Sem tirar os olhos de mim, pegou um cachimbo de dentro do bolso esquerdo da calça e o segurou, enquanto tocava, com o dedo indicador da outra mão, o fornilho e o acendia. Observei a cena sem me mexer um milí-metro sequer. Pasma ao perceber que não havia nada em sua mão, nada que pudesse provocar a faísca e o fogo.
- Como você faz isto? Não vi nada sair de seu dedo! Como você faz isto?
- Qual é a sua condição? Eu troco com você, estou aberto a negocia-ções.
- Apague isto agora, eu tenho alergia, a não ser que você queira que eu morra daqui a vinte minutos quando minha garganta se fechar comple-tamente!
O cheiro do tabaco tomou conta do quarto em segundos e pude sentir uma leve dor de cabeça. Isto sempre acontece quando estão fumando perto de mim. Primeiro a dor de cabeça e depois a dificuldade na res-piração.
- Tudo bem, eu apago se você prometer contar-me a condição.
- Eu conto. – a pressão em minha cabeça estava ainda maior. Antes mesmo de apagar o cachimbo ele o guardou em no bolso, mas não havia sinal algum de que ele estava lá. O bolso continuou, aparente-mente, vazio. Quando será que eu vou parar de me surpreender com este homenzinho?
- Conte logo menina, este suspense todo está me matando! – agora ele estava com os braços cruzados, me encarando, enquanto franzia as sobrancelhas, esperando que eu começasse a falar. Respirei fundo, duas vezes.
– Tudo bem – dei uma pausa – Vamos fazer assim, você me conta tudo o que sabe e eu prometo fazer o possível para não me machucar.
- Mas isto não é nada menina, realmente você não é muito boa em negociar! Eu iria ter que te contar a história toda de um jeito ou de outro, antes de irmos.
- Então, porque você não me conta tudo logo? Você mesmo disse que não temos tempo a perder!
- Tudo bem, mas a história é um pouco pesada, então me prometa que não irá desmaiar. E me avise ao sentir-se mal.
- Eu prometo. – levantei a mão esquerda apenas com o dedo mínimo levantado –Palavra de escoteira – não é assim que os escoteiros fazem, mas eu não era uma, então, não me preocupei no que ele acharia do meu ato de tentar ser sincera.
- A história que vou te contar agora se passou dois anos antes de você nascer – agora sentado em minha cama enquanto eu ainda estava na cadeira em frente à porta. – Eu era o melhor amigo de sua... De... De uma linda menina, seu protetor, seu confidente. Nós éramos insepará-veis – fez uma pausa, seus olhos umedeceram rapidamente com alguma lembrança e, antes que uma pequena lágrima começasse a rolar, ele a secou com as costas de sua mão. Esta, com certeza é uma lembrança difícil para ele. – Você sabe o nome de sua mãe verdadeira? – agora ele estava levemente inclinado em minha direção.
Que pergunta mais idiota, lógico que eu sei o nome de minha mãe, a não ser que, que ele esteja falando de minha outra mãe. Mas.... Como ele poderia saber que eu fui adotada? Eu nunca disse isto a ele, pois nunca liguei. Minha mãe sempre diz que, para ela, sou a filha de san-gue como a Tayla e o Cadu e não só a do coração, como Milla.
Algumas vezes, quando era criança, tive curiosidades sobre minha verdadeira mãe, mas ela nunca soube responder nenhuma das minhas perguntas. De todas as perguntas que eu fiz a ela apenas duas tinham resposta, qual o nome de minha verdadeira mãe e se quando ela me encontrou eu já usava meu camafeu. A segunda resposta foi fácil de arrancar dela. Quando ela me encontrou, em cima de sua cama, emba-lada numa espécie de lenço feito de fibras naturais, este camafeu esta-va amarrado ao meu braço por um pedaço de couro. Já a primeira res-posta, eu tive que implorar a ela para me falar. Ela respirou fundo e soltou as palavras com muita rapidez “Zarah, este é o nome de sua verdadeira mãe, eu o coloquei em você por que além de um nome lin-do, quer dizer iluminada. Foi o que você fez em meu coração aquela noite, o iluminou de alegria. Graças à sua mãe eu ganhei o melhor presente de toda a minha vida.”.
Depois de ficar uns bons cinco minutos sem saber o que fazer e apenas olhando em seus olhos, finalmente consegui pensar em algo. Perguntei como ela sabia seu nome, e ela me disse que minha mãe havia deixado uma carta para eu ler quando fizesse dezoito anos. Estava escrito “Cuide bem do meu solzinho. Zarah.”. Durante os últimos dez anos eu a incomodei, até encher sua paciência, para que me deixasse ler a tal carta antes dos dezoito anos, mas ela sempre disse que cumpriria sua palavra. Se estava escrito para eu ler apenas aos dezoito, assim seria. Ela não iria falhar com a palavra. Isto para mim sempre pareceu um absurdo, elas nunca sequer se viram, como teria uma promessa a cumprir?
- Zarah? - eu disse confiante, apesar de sair mais como uma pergunta.
- Como você ficou sabendo?
- Minha mãe adotiva me contou quando eu tinha uns oito anos. – na verdade eu arranquei a resposta dela, mas não quero entrar em detalhes agora.
- Isto facilita muito as coisas para mim, sabe. – passou a palma da mão direita na testa como se fosse secar o suor. Parecia estar aliviado com minha resposta. – Eu já estava preparado para te consolar assim que te contasse que é adotada, mas você saber, minha nossa! Isto facilita mesmo as coisas para o meu lado. – soltou um sorriso, bufado de alí-vio.
- Será que você pode, por favor, voltar à história? Nós não temos tem-po a perder! – eu disse, usando sua frase.
- Oh, claro, claro, como quiser. – deu uma pausa para se concentrar e tentar lembrar onde parou. – Como disse, esta história começa em 1989, era o dia do ano mais esperado pelos Sidh. Sua mãe estava em-baixo de sua macieira, como fazia todos os anos. Era dia vinte e um de junho. O dia que o raio mais intenso do sol, no ano inteiro, toca as árvores. A partir do momento em que o primeiro raio penetra na flo-resta, se você estiver segurando o fruto de sua árvore com a mão es-querda e com a outra a tocando é possível, pro alguns segundos, ver quem está destinado a você, seu amor para a vida inteira, ou a alma gêmea, como os humanos dizem. A pessoa destinada a você pode ser de qualquer idade e pertencer a um mundo diferente do seu, ou não. Quando este tipo de coisa acontece, pertencer a outro mundo, o que é muito raro, tudo fica muito mais difícil, pois quando estamos em nosso mundo basta perguntar à sua macieira que ela indicará o lugar. Mas há restrições, ela pode indicar somente nos limites dos anéis de Aine. Não pode encontrar um humano. E você terá que encontrá-lo sozinha. Geralmente os Sidh destinados a humanos demoram muitos anos até encontrá-los. Com sua mãe aconteceu quase isto. Ela viu seu prometi-do e ficou muito feliz, segundo ela, era a pessoa mais bonita e ilumi-nada que já vira em toda sua existência. Quando foi perguntar onde encontrá-lo a árvore não pôde mostrar, isto queria dizer que ele per-tencia ao outro mundo. Ela ficou muito triste e inconsolável, por muito tempo, até que Aine, rainha e protetora dos Sidh, que era sua mãe, viu um dos desenhos que fez do prometido. – olhou-me com o sorriso de uma orelha à outra - Sua mãe é uma ótima desenhista, sabe. Ela desenhava tudo o que via. Tudo! – voltou à concentração de antes, mas ainda com um sorriso dançando no canto da boca. – Depois que o viu nunca mais conseguiu esquecer seu rosto e o desenhou muitas e muitas vezes. Quando Aine se deparou com um dos desenhos de Za-rah contou a ela que aquele era o filho de Malvino, um ser muito po-deroso ligado aos druidas – fez uma cara divertida ao citar todas aque-las palavras. Enumerando cada uma com os dedos. – o garoto fora seqüestrado por um druida, ao nascer, e colocado no mundo dos hu-manos.
- Quem fez esta maldade com ele? – perguntei inquieta.
Ele fingiu não ouvir e continuou a história.
- Como ele era o sucessor de Malvino, seu pai ofereceu recompensas a quem dissesse seu paradeiro. Quando seus guardas finalmente encon-traram o druida, que já era muito velho, ele estava à beira da morte e havia empregado em si mesmo o feitiço do silêncio. Sendo assim não pode contar-lhes onde havia escondido o bebê, que já deveria ter uns dois anos de idade, mesmo que tivesse de morrer por isto.
- Trágico! – pensei em voz alta.
- Ninguém jamais encontrou a criança e a linhagem estava prestes a se perder de vez, pois ele era o filho primogênito e seus poderes ficariam perdidos para sempre, caso não voltasse ao reino antes de fazer vinte e um anos. – agora ele olhava para mim como se estivesse esperando que eu perguntasse algo, mas eu não tinha nada para perguntar.
Eu queria saber mais, muito mais.
– Você está conseguindo acompanhar ou quer perguntar algo?
- Não, quer dizer, sim – eu estava realmente confusa sobre a história, não que eu não tenha entendido, mas é pelos nomes, são tão... Esquisi-tos. – Como minha mãe o encontrou?
- Eu já estava chegando nesta parte. – me deu uma olhada e continuou – Sua mãe já sabia o principal, que ele não era humano. A partir daí não seria tão difícil assim encontrá-lo, já que ele era um de nós. Ela foi até sua árvore, de novo, para tentar ao menos ver algo que a ajudasse. – inclinou-se um pouco mais em minha direção - A macieira muitas vezes dá pistas do lugar onde a pessoa está – a frase saiu como um sussurro - Zarah disse tudo o que havia descoberto e perguntou-a mais uma vez. A árvore lhe mostrou a imagem de uma gruta de água azul. Só o que Zarah viu foi isto, uma gruta de água azul. – fez um leve movimento com as mãos - No mesmo instante ela voltou a sua mãe para contar o que tinha visto. Aine mandou um de seus guardas contarem a Malvino o que havia descoberto. – um sorriso tocou seus finos lábios - Zarah ficou muito contente. Eu nunca a vi tão feliz. Ela sabia que o encontrariam. – parou alguns segundos, fitando-me. - E foi o que aconteceu. – a voz calma.
Eu o encarei, agora com mil perguntas em minha cabeça.
- Você está querendo me dizer que este tal de filho de Malvino, pro-metido da minha mãe estava escondido o tempo todo dentro da Gruta do Lago Azul, em Bonito?
- Não! Ele estava na cidade de Bonito, que tem uma gruta, não dentro da gruta! – deu gargalhada enquanto respondia minha pergunta.
Ah, não foi uma pergunta idiota. Ele foi seqüestrado por um druida. Eles são tão estranhos, pode muito bem ter pensado em escondê-lo lá.
- Posso continuar a história? – fitou-me.
- Pode! – disse num tom de entusiasmo.
- Quando Malvino o encontrou foi difícil convencê-lo a sair daquela cidade, pois lá ele tinha amigos e uma família que o amava muito. Quando, finalmente o convenceu, ele saiu da cidade sem se despedir da família anterior. Disse que uma despedida só complicaria mais a situação. Ele voltou muito triste para o reino, mas sabendo que fez a escolha correta. Alguns dias depois de ter voltado encontrou sua mãe na floresta enquanto ela descansava sobre a sua macieira. Bernardo, o nome que recebeu de sua segunda família, se apaixonou perdidamente por ela, no momento em que a viu. Ela já estava loucamente apaixo-nada por ele, como o destino havia lhe avisado. A partir daí tudo acon-teceu muito rápido. Casaram-se algumas semanas depois desde o pri-meiro encontro, unindo os dois reinos; céu e sol, que era de sua mãe e o reino das primaveras quentes, ciências mágicas e vegetação – fez uma cara parecida com a de antes, debochando da quantidade de rei-nos. - que era de Bernardo. Alguns meses após seu casamento, Zarah descobriu que estava grávida. – agora ele olhava pela janela. Olhando o céu.
– O que foi? – perguntei quando vi uma lágrima rolando de seus olhos.
- Não foi nada, só me dói muito lembrar deles, eu sinto muito a falta de Zarah, ela era a melhor amiga que alguém poderia ter. – não olhava mais pela janela, agora seus olhos estavam em mim. – Você não tem nada a me perguntar? – secou os olhos.
- Sim, tenho uma pergunta. – disse rapidamente - Se ela estava grávida e eles tinham unido os dois reinos – olhei-o com um ponto de interro-gação bem no meio da testa – então a criança teria os dois poderes? O das magias e o do céu? E seria dona, sozinha, dos dois reinos?
- Não é assim do jeito que você está pensando. Há muitas outras coisas envolvidas nisto – sua resposta foi calma demais para o meu gosto.
– Esta criança deve ser muito poderosa. Quem é ela?
- Vou terminar minha história e você tira suas próprias conclusões, já que ainda não tirou.
Esta resposta, definitivamente, eu não entendi.
- Quando filho mais novo de Malvino, três anos mais jovem que Ryan, ficou sabendo da gravidez de Zarah, fez de tudo para acabar com a vida do irmão, ele tinha muita inveja de Ryan por ter dois reinos e o poder de seu pai junto ao poder que ele já carregava desde o nasci-mento. Além de temer o nascimento de sua filha, a herdeira. – deu ênfase à palavra - Ao saber que o irmão queria matá-lo, Ryan foi obri-gado a bani-lo do reino. Mesmo ele sendo parte da família. Ele se es-condeu na Floresta Negra, a floresta intocada, do nosso mundo. Lá encontrou um druida e viveu com ele alguns meses. Este druida o en-sinou várias poções, incluindo o feitiço secreto da realização dos dese-jos com os ramos de aveleira. Mas ele não aprendeu a fazê-lo. Apenas a usar. Este é um segredo compartilhado apenas a uma pessoa, o rei. Somente o rei tem o poder de todas as magias em mãos. Imediatamen-te ele voltou ao reino de Ryan e Zarah a fim de matá-los. Quando che-gou lá a criança já havia nascido. Uma linda menininha, com cabelos chamuscantes da cor dos raios do sol, como os da mãe, a pele num tom de dourado como a do pai e de olhos negros e penetrantes. – voltou a olhar através da janela, mas desta vez nenhuma lágrima rolou de seus olhos.
- O que foi Leprechaun? Não vai chorar de novo em, você já está bem grandinho para isso! – disse numa voz sorridente tentando alegrá-lo.
- Vo... Ela... Era o bebê mais lindo que eu já tinha visto, os olhos ne-gros como a escuridão e a boca rosada como a das ninfas. – deu um suspiro e voltou a olhar em minha direção.
- Continue – o encorajei.
Encheu os pulmões de ar.
- Quando o irmão de Ryan a viu, ficou sem reação, ele não esperava por isto, pensou ter ficado fora por menos tempo. Neste meio tempo, enquanto seu irmão estava em choque, Ryan pegou a criança dos bra-ços de Zarah e a protegeu. Esta foi a única coisa que deu tempo de alguém fazer, até o irmão mais novo perceber e desejar algo sobre Zarah e ela sumir. Foi tão rápido que nem sua voz foi capaz de ouvir. – a lembrança o deixou triste. Ele parou, encheu os pulmões de ar al-gumas vezes e continuou. - Ryan conseguiu fugir para longe, com a criança, pois agora seus poderes eram inúteis contra os desejos do irmão. Nada que ele fizesse seria capaz de deter os pedidos enfureci-dos do irmão, não seria capaz de salvar-se ou o bebê. Ele ficou sumido por muitos dias. Enquanto não voltava, nós tentamos, com tudo o que estava a nosso alcance, matar o irmão. Mas ele voltou à Floresta Negra, um território hostil para nós. Algum tempo se passou, não sei bem quanto. Sabe, nós não marcamos o tempo como os humanos fazem. - olhou-me - Ryan voltou para enfrentá-lo, mas estava sem a criança, ele a escondera, evitando assim que seu irmão a matasse. O garoto demorou a reaparecer, e quando o fez, ninguém o viu entrar nos limites do reino. Ele havia usado um dos pedidos nele mesmo, impossibi-litando-nos de vê-lo avançando para dentro do anel de Aine. Ele con-seguiu chegar até Ryan e, assim que teve a oportunidade, jogou a capa dos desejos sobre o irmão e fez seu pedido. Mas Ryan, antes que a capa o tocasse, o enfeitiçou. – olhou-me novamente - Ele agora é uma escultura, sem vida, que decora uma das salas do castelo. – parou, me olhando durante alguns segundos, até eu perceber.
- Fim da história? – perguntei horrorizada
- Desta sim.
- Tem mais uma? Mas você não disse que eram duas! – franzi a testa. Apesar de serem muito interessantes, estas histórias são tão longas.
- Agora tem a minha história, que começa a partir de onde esta acaba. - Então me conte rápido, quero muito saber a sua história, você já me ouviu contando da minha vida, mas nunca me disse nada da sua. Eu realmente estava empolgada.
- Tudo bem, agora começa a minha história! – deu uma pausa, respirou fundo, duas vezes, e continuou. – Depois que eles sumiram os dois reinos continuaram unidos, mas agora sob os cuidados dos pais de Zarah e Ryan. Nós nunca conseguimos encontrar a criança, apesar de passar dez anos tentando. Um dia, eu estava caminhando na floresta quando vi a árvore de Zarah, ela estava linda, com as folhas muito verdes. Isto era um sinal de que ela estava bem, seja lá onde estivesse, por que a árvore transmite todos os sentimentos de sua protetora. Caso a protetora venha a falecer, a árvore seca completamente. Sentei-me embaixo dela para admirá-la. Quando fazia algumas horas que eu es-tava lá, ouvi uma voz, uma voz muito conhecida. Era de Zarah. De algum jeito ela conseguia se comunicar comigo. Eu fiquei muito feliz em poder ouvir sua voz e aliviado por ela estar a salvo. Mas ao mesmo tempo triste, por que não podia tê-la por perto. Indaguei-a sobre esta capacidade de se comunicar comigo. Este tipo de conversa normal-mente é feito por druidas. Ela me disse que Ryan lhe passou todos os ensinamentos assim que o bebê nasceu. Ele temia que o irmão o des-truísse antes que sua filha chegasse à idade de aprender as magias e feitiços. Caso ele fosse pego seus poderes estariam perdidos para sempre, assim como ocorreria com seu pai, se não o tivesse encontrado em Bonito um ano antes.
- Nossa! – encolhi-me na cadeira e abracei os joelhos, mordiscando-os. O Leprechaun deu-me uma olhadela e levantou a sobrancelha direita.
- Além de conseguirmos conversar por pensamento eu era capaz de ver com seus olhos. Tudo o que ela estava vendo eu também conseguia ver. Ela tentou me mostrar onde estava aprisionada mas eu não conseguia distinguir o lugar, eu nunca estive lá e ela não tinha a menor idéia de como era por fora. Eles foram aprisionados juntos, Zarah e Ryan, ela me contou que sabia onde sua filha estava escondida e me pediu para tomar conta dela. A menina estava escondida na mesma cidade que Ryan havia sido levado quando bebê, ele a levou para a família que o tinha criado e a deixou com sua irmã adotiva. A irmã dele chama-se Valentina.
- Não! Não, não, não, não, não pode ser! Este é o nome da minha mãe! Então... Isso... Eu... Não! – sacudi a cabeça. Comecei a hiperventilar, tudo girou, nublou e, de repente, ficou preto.
- Vamos lá mocinha, temos muito a fazer agora que você já sabe que é a herdeira, temos que ir ao encontro de Valentina, você precisa pegar a primeira pista, que está com ela. – novamente me levantando do chão num só mexer de mãos.
- Pista? Pista para quê? – tudo estava embaçado diante de meus olhos. - Seu pai é um homem muito esperto Zarah, ele viu na mente de seu tio para onde havia mandado sua mãe e, antes de voltar ao reino, deixou pistas para que você mesma pudesse salvá-la, caso ele morresse.
- Mas por que ele não diz a você onde estão? É bem mais fácil que eu ter que pirar meu cabeção procurando por pistas, eu sou péssima nisso! – depois eu que sou a lerda.
- Eu iria chegar aí – estava muito impaciente agora. – Há um feitiço que não permite que falem onde estão, mesmo que alguém possa con-versar com eles. Todas as vezes que tentam dizer, sua voz some um pouco e as palavras saem retorcidas, como se estivessem falando den-tro de uma garrafa.
- Então vamos! – eu estava decidida – mas, espere um pouco! Nós temos que ir para Bonito, pegar a pista, traduzi-la e pronto? Simples assim?
- Não exatamente, se eu conheço bem seu pai as pistas não serão muito fáceis de decifrar, já que ele não queria que você voltasse ao reino tão cedo, pelo menos enquanto ainda não estivesse ganho seus poderes. Além de ele estar proibido de dizer ou escrever o nome do lugar. Não poderia simplesmente pegar uma folha e deixar para que Valentina entregasse a você em seu décimo oitavo aniversário, quando ganharia os poderes e conseguiria atravessar o portal sem alertar todas as criaturas mágicas que vivem ao seu redor protegendo-o de humanos curiosos.
Levantei-me da cadeira num pulo e coloquei-me em pé. Precisava reservar duas passagens no primeiro ônibus que fosse a Bonito agora de manhã. Abri a porta do quarto e lá estava ela, parada atrás da porta escutando a nossa conversa. Levei um susto tão grande que caí sentada na cadeira novamente. Seus olhos estavam arregalados como se estivesse vendo a própria morte, de tão aterrorizada, ela nem sequer se mexeu um milímetro do lugar onde estava, continuou a me olhar com aqueles olhos castanhos e arregalados como se eu estivesse indo para a forca.
- Tayla, você está bem? – perguntei ainda mantendo certa distância.
- Você... É... Ele... – ela estava tão apavorada que não conseguiu for-mar sequer uma frase.
- Tayla sente-se aqui – levantei-me da cadeira e a coloquei em meu lugar – você está pálida laranjinha, tente se decompor. - precisava pas-sar um ar de calma para ela, apesar de estar gritando enfurecida, por dentro, ela precisava que eu estivesse calma, naquele momento. – O que exatamente você escutou? Desde quando estava atrás da porta?
Tayla respirou fundo, agora conseguindo se controlar e já um pouco corada.
– Eu levantei-me para tomar água e vi que você ainda não tinha acor-dado. Fui até sua porta e quando levantei a mão para bater e te avisar que estava atrasada ouvi uma voz estranha. Fiquei com medo e decidi te chamar, mas a voz lhe perguntou algo muito estranho, o nome de sua mãe, você demorou um pouco a responder e quando o fez disse seu próprio nome. Eu achei aquilo muito estranho, depois ele pergun-tou como você sabia de tudo então você contou-lhe da nossa mãe e que você é... Adotada.
Tayla estava muito perdida em toda aquela história, afinal ninguém, além de mim e papai, sabiam que eu sou adotada. Eu mesma fiquei sabendo por acaso quando ouvi uma discussão deles, onde meu pai dizia a ela que eu precisava saber de toda a verdade enquanto ainda era pequena. Valentina nunca se acostumou à idéia e prefere não falar a ninguém sobre isto, portanto para todos os moradores da cidade eu sou sua filha legítima assim como Tayla e Cadu. Não foi muito difícil para Valentina convencer as pessoas de sua gravidez, por que quando me encontrou havia acabado de chegar de Campo Grande, onde mo-rou dez meses com meu pai, antes de convencê-lo a mudar-se para Bonito. Eles tinham acabado de chegar à pousada e ela estava no ba-nho, quando saiu do banheiro eu já estava lá, em cima de sua cama. Eles decidiram que ficariam comigo depois dela ter lido a carta que meu pai deixou comigo, que ela pensa ser de minha mãe. Agora, sa-bendo de toda a história, uma pergunta ficou martelando em minha cabeça.
- Por que ele assinou o nome de minha mãe no fim da carta endereçada a Valentina? – perguntei, tentando entender toda esta loucura que minha vida havia se tornado.
- Simples menina, você queria o que, que ele assinasse “Ryan”? Não sei se você se lembra, mas ele é o irmão adotivo dela, o que sumiu! Decidiu colocar o nome de Zarah para não levantar suspeita alguma, nunca. – realmente meu pai era um gênio, é uma pena eu não ter pu-xado esta qualidade dele, com certeza facilitaria muito as coisas na hora de traduzir as pistas.
- Você ouviu a história inteira Tayla? – agora me virando para encará-la.
- Sim, toda, e se for mesmo verdade tudo isto eu quero ir junto com vocês! Não perco essa aventura por nada no mundo. – disse toda ani-mada enquanto levantava-se da cadeira sem se conter de animação.
- Acho melhor não Tah, você só nos atrapalharia estando lá! – não mesmo, ela está pensando o que, que nós estamos indo para a Disney? Isto não é um passeio, eu nem sei se vou correr perigos enquanto esti-ver traduzindo as pistas, ela está louca quando pensou em ir conosco.
- Eu vou com vocês e ponto final! – respondeu nervosa, batendo os pés ao terminar a frase.
- Não, ela não pode entrar nos limites do reino sem ter sido convidada, vão fazê-la perder a consciência caso encontrem-na, nenhum humano é autorizado a por os pés lá. Todos os que passaram pelo anel mágico de Aine nunca mais voltaram a si ou recobraram a consciência.
- Viu? – perguntei desafiando-a desta vez, por esta ela não esperava e com certeza ela não discutiria com ele.
- Eu vou com vocês até Bonito, pelo menos. Não ficarei aqui sozinha enquanto você se aventura mundo afora. – ela é rápida nas respostas.
- Tudo bem então, fica aqui com ele que eu vou tomar banho, escovar os dentes e depois ligar para a rodoviária e reservar três passagens. Enquanto isto vai arrumando as malas. – abri a porta do meu guarda roupa. Peguei uma calça jeans e uma blusa de abotoar xadrez e corri para o banheiro. Tomei o banho mais rápido que pude. Saí de lá e fui para sala pegar o telefone. Voltei ao meu quarto e procurei minha a-genda, onde estava marcado o número da rodoviária.
- Por que nós temos que desperdiçar tanto tempo dentro de um ôni-bus? Eles são muito lentos. – reclamou o pequeno homem.
- Por que, a não ser que você tenha um jatinho particular te esperando lá embaixo, este é o nosso único meio de chegar a Bonito. – será que ele ainda não percebeu que eu não tenho um carro? Que pergunta mais idiota esta que ele fez, ele sabe muito bem que eu ainda não tenho licença para dirigir mesmo que tivesse um.
- Eu não tenho um jatinho, mas eu tenho uma amiga que nos levaria até lá em menos de uma hora. – um sorriso imenso inundou seu rosto. - Que amiga? Ela tem um jatinho? Com certeza isto muda tudo em! – empolgação, isto estava visível em meu rosto.
- Você! – seu sorriso tocou todos os músculos de sua face.
– Você pode nos levar até lá em menos de uma hora, você acaba de fazer dezoito anos então seus poderes já estão totalmente formados e prontos, apenas esperando o momento em que você irá usá-los.
- Então eu posso fazer a gente aparecer lá como num passe de mágica? – estralei meus dedos como os mágicos fazem nos shows.
- Não é disto que eu estou falando. Você pode nos levar até lá voando! - Não, definitivamente não posso! – só podia ser brincadeira.
- Por que não? Você agora tem poderes, é só concentrar-se. – ele esta-va me encorajando, mas em nada iria adiantar.
- Que ótimo! Era só o que me faltava. – Tayla soltou entre os dentes, enfurecida de raiva.
- O que foi? – ele perguntou se virando para olhá-la. – O que eu disse de errado?
- Zarah tem fobia de altura, é isso! Ela nem sequer chega à sacada do apartamento! –senti dois pares de olhos em minha direção enquanto mantinha a cabeça abaixada e me lembrava como respirar.
- Estamos fritos! – sentou-se em minha cama e deu uma bufada jogan-do os ombros à frente em sinal de derrota.
- Vamos ter que ir de ônibus, lá se vai cinqüenta reais. – seu olhar dançava entre dois sentimentos, desapontamento e pesar.
- Não temos tempo a perder indo de ônibus, ela precisa tentar! – ele estava irritado agora, com certeza não contava com esta minha covar-dia.
- Eu não quero tentar, não vou, por favor, não me obrigue a fazer isto! – eu estava implorando desesperadamente. Meus olhos umedeceram e algumas lágrimas tocaram minhas bochechas. Eu realmente estava desesperada e fora de controle.
- Você não é obrigada a tentar Zarah, você só vai quando achar que está pronta. – Tayla me abraçou enquanto falava, ela sabia que eu havia entrado em pânico.
- Tudo bem, eu já estava contando com isto, eu tenho outro plano.
- “Eu tenho outro plano?” Então porque você me deixou desesperar deste jeito se você tem outro plano? Por que não falou antes seu Le-prechaun de uma figa? – eu realmente estava fora de controle agora.
Tentando lembrar como respiram e falar ao mesmo tempo.
- Por que o plano B é consideravelmente maior que você, caso algum humano esteja olhando para o céu quando chegarmos a Bonito, com certeza estaremos encrencados.
- Não importa o quão encrencados ficaremos caso isto aconteça, o plano B é melhor que o A. – minha calma começando a voltar – A propósito, qual o plano B? – minha curiosidade saltando de tão gran-de.
- Antes eu preciso te contar uma história. Mas prometo que esta é bem curta. – disse enquanto arrumava-se na cama Será que para todas as minhas perguntas as respostas são em forma de histórias? Eu, since-ramente, espero que não.
– Quando a filha ou filho primogênito de um rei nasce, é costume seu pai presenteá-lo com uma criatura mágica que a protegerá a qualquer custo e estará ligada a ela para sempre. Esta criatura desenvolve um sentimento afetivo pelo bebê maior até que o amor, ela fará de tudo para mantê-lo a salvo e estará onde a mandar em questão de minutos. Quando você nasceu, seu pai a presenteou com Kika, um Grifo, parte fênix, parte leão, já que você um dia será a rainha do sol e do fogo, e a parte fênix faz com que ele seja imune ao fogo. – deu-me uma olhada e continuou a falar. - Costumavam dormirem juntas, e você só pegava no sono quando se aninhava debaixo de suas asas. Nasceram no mesmo dia, hoje ela também completa dezoito anos, apesar de ser consi-deravelmente maior que você. Vocês não se separavam nenhum se-gundo sequer, apenas quando ela saía para caçar, mas voltava assim que ouvia seu choro.
- Eu tenho um Grifo? – eu realmente não acredito nisso. Como alguém pode ter um Grifo? A única pessoa que eu sei que te um é o Hagrid, do Harry Potter, e ele nem mesmo é real. Na verdade eu acho que era um hipogrifo, mas isto não muda nada, ainda parece uma grande loucura.
- Sim, e ela já não agüenta mais de saudades suas, me incomoda todos os dias, desde que descobriu que eu te visito durante as noites, que-rendo que eu a trouxesse junto. Ela é uma ave impossível de lidar, tem o mesmo gênio que você, quando enfia algo na cabeça não há nada que a faça mudar de idéia. – ele sorria enquanto olhava em direção à janela.
- O que foi? – saí de onde estava e fui à direção à janela, para ver o que ele estava olhando. Não havia nada ali, ele apenas olhava as nu-vens, o sol, os pássaros, nada em especial.
- Então, você não vai chamá-la? Precisamos sair logo daqui. – senti seu olhar penetrar em meus olhos enquanto falava.
- Por que você não a chama? Você a conhece melhor, eu não saberia como fazer.
- Eu não posso chamá-la, ela é capaz de escutar apenas sua voz na distância em que está, e de mais ninguém.
- Mas como eu faço para ela me ouvir, dou um grito bem alto?
- Não, basta pensar em seu nome que ela ouvirá de onde quer que es-teja.
- Tudo bem, isto parece fácil. – fechei meus olhos e menos de um se-gundo depois, ainda com eles fechados, perguntei – Como é mesmo o nome dela? – me concentrei esperando ele responder. Sua voz estava perto do meu ouvido agora, ele havia ficado em pé na cama e calma-mente se inclinou para sussurrar o nome.
– Kika, sua mãe colocou este nome nela para que você conseguisse chamá-la desde pequena, quando precisasse, por ser um nome fácil de pronunciar.
Eles pensaram em tudo mesmo, não deixaram passar nada. Meu pai com as dicas e minha mãe com esta facilidade do nome do Grifo.
Apertei meus olhos o máximo possível e pensei bem alto seu nome, repetindo muitas e muitas vezes para ter certeza que ela me veria com clareza. Fiquei algum tempo de olhos fechados pensando em meu pré-dio, a rua, a cidade, para facilitar que ela me localizasse, não custa nada ajudá-la já que ela está tão longe.
Quando abri meus olhos eles estavam um pouco embaçados pelo fato de eu tê-los forçado, olhei para Tayla, mas ela estava paralisada o-lhando em direção à janela, como uma estátua de pedra. Segui seu olhar tentando entender o que havia do lado de fora e quando encon-trei todos os pêlos do meu corpo se arrepiaram. Era enorme, muito grande mesmo, e estava aqui na minha frente, linda e flamejante, Kika. Com certeza ela tem pelo menos três metros de altura e seis de comprimento. Seus olhos são tão suaves como os de uma criança, mas ameaçadores ao mesmo tempo. Seu bico que parecia estar num sorriso, é levemente mais escuro que o tom de suas penas. Em seu pescoço havia mais de dez tons que variavam entre o ouro e o laranja, como uma fogueira, porém mais brilhante viva. Suas patas, duas de ave e duas de leão, são delicados e mortais, pois apesar do tamanho são bri-lhantes como suas penas e da mesma cor do bico. É simplesmente impossível acreditar que exista algo assim, é como estar dentro de um livro de magia onde as coisas mais impossíveis acontecem.
- Isto está errado, as lendas dizem que o Grifo não é um bicho muito amistoso. Elas dizem que eles são maus, sujos e agoureiros, e não esta ave flamejante! – Tayla ainda estava impressionada, seus olhos esta-vam inquietos, ora em Kika, ora no Leprechaun. Com certeza espe-rando alguma explicação.
- O Grifo que você ouviu falar realmente existe, mas há mais de um tipo diferente delas, a de fogo, metade fênix, como Kika, são proteto-ras. As águias, brancas e mansas, são aves que trazem paz e sabedoria. Já as negras, as quais você já ouviu falar, são agoureiras e trazem muito poder, por um lado, mas em troca desse poder lhe é levado embora toda a felicidade. – o pequeno homem fez gestos como quem explica algo a uma criança de dois anos de idade, todas as palavras saíram devagar e num tom médio, para que não houvesse mais questionamen-tos.
- Ah, é que as lendas nunca falam dela. A propósito, aonde ela vai “estacionar” para que possamos subir? – disse a palavra fazendo gestos de aspas com o indicador e o dedo médio das duas mãos.
- Para começar ela não “estaciona” – fez um sinal copiando-a ao dizer a mesma palavra. – não estamos falando de um carro e sim de uma ave. E para terminar, vamos subir daqui mesmo. – apontou à janela.
- Não há como, ou você não percebeu que há uma tela aí na janela? – Tayla disse desafiando-o.
- Francamente, menina, você nunca leu sobre os poderes dos Lepre-chauns? Aparentemente não. Vou te dar uma breve explicação, sou capaz de fazer com que ela suma sem nem precisar mover meus dedos. – orgulhoso de si mesmo, olhando em minha direção com ar de superioridade enquanto movia-se em direção à janela.
- Ow, ow, ow, espera aí! – eu disse pegando em seu braço – Você sabe quanto custou para colocar esta tela aí? Eu não quero ter que pagar por uma nova quando voltar... De... Ah, sei lá, de onde formos. – até pare-ce que eu o deixaria acabar com minha tela, já pensou se, ao voltarmos, eu tenho um ataque de sonambulismo e decido pular? Minha mãe mandou colocá-la justamente para evitar acidentes.
Ele fingiu nem escutar o que eu disse livrando seu braço, com muita facilidade, do aperto de minhas mãos e virou-se novamente à janela.
Na hora em que se virou em minha direção para de me encarar depois da tela desaparecer. Aconteceu tudo tão rápido e ao mesmo tempo em que fiquei impressionada, permaneci imóvel e boquiaberta.
Por alguns segundos fui incapaz de lembrar-me de como fechar a boca. Tentei me lembrar de ter visto, mesmo que por menos de um segundo, a tela sumindo, mas eu realmente não consegui enxergar.
- Agora que não há nada nos impedindo que tal se vocês se apressarem e pegarem logo mala para sairmos daqui o mais rápido possível, antes que alguém veja Kika? – estava um pouco mais irritado que o normal enquanto apontava à mala em cima do meu armário e falava.
- Você não acha melhor nós esperarmos ela estar no chão para subir-mos? Não estamos acostumadas a este tipo de aventura, sabe. E com a sorte que tenho é provável que eu caia daqui de cima ao tentar subir. – eu estava com muito medo, muito mesmo, será que ninguém aqui neste quarto se lembra mais do meu pânico de altura?
- Você não vai cair Zarah, ela nunca deixaria que isto acontecesse. Tente ficar calma e não pensar na altura ou olhar para baixo enquanto estivermos voando, e lembre-se que seus sentimentos estão diretamen-te ligados aos dela. Se você entrar em pânico, automaticamente ela também entrará, e te garanto que não é nem um pouco agradável vê-la fora de controle em pleno vôo.
Sua voz estava calma e paternal, com certeza ele estava tentando evitar que eu perdesse o controle e me recusasse a subir em Kika. Mas ele está completamente errado se pensou que eu sou capaz de deixar que um medo idiota me impeça de salvar meus pais.
- Tudo bem, mas você sobe primeiro, quero ver como faz, afinal não estamos acostumadas a este tipo de meio de transporte. – tentei imitar o tom de meu pai quando nos manda fazer algo. Deu certo.
- Eu vou primeiro então, mas não demorem a subir, por favor. – num pequeno salto ficou em pé na janela e se curvou até encostar a mão esquerda na asa de Kika, ela a esticou o máximo que pôde, então, poucos segundos depois ele já estava sentado, próximo ao seu pescoço, nos esperando.
Olhei para Tayla com receio de que seu rosto me mostrasse algo que eu não queria ver. Medo. Ou que ela me olhasse pedindo para não subir em Kika. Para minha surpresa, havia um sorriso enorme em seu rosto, ela estava olhando para o enorme pássaro do lado de fora de minha janela como se fosse um prêmio de loteria, seus olhos brilhavam de entusiasmo enquanto seus olhos percorriam cara centímetro do enorme pássaro. Senti um alívio imediato, todos os meus músculos relaxaram então pude perceber o quão tensa estava. Logo em seguida senti um gelo percorrendo minha espinha e todos os meus pêlos arrepiaram, afinal, o maldito pânico de altura não estaria curado assim que eu subisse na ave e sim pioraria, eu tenho certeza absoluta disto, sem contar que não me alegra em nada a idéia de estar sobrevoando várias cidades a sabem-se lá quantos metros de altura.
- Eu vou primeiro! – Tayla realmente estava animada com a idéia. Subiu em minha cama e foi em direção à janela com uma mala em mãos, jogou-a em direção à Kika para que o Leprechaum pegasse e passou uma perna de cada vez até que se encontrasse sentada à beira da janela.
- Você não precisa fazer isto Tayla, nós ainda podemos ir de ônibus, não precisa bancar a corajosa! – disse enquanto puxava sua camiseta com a mão esquerda enquanto a outra segurava um de seus braços. Eu estava literalmente tremendo de medo enquanto a impedia de se jogar a esta aventura louca e inconseqüente.
- Zarah, dá pra me soltar? Assim eu vou acabar caindo daqui. – segu-rando minha mão que estava apertando levemente seu braço, tentando se livrar de mim. – Depois que eu estiver lá conte até três, sem olhar para baixo e faça o mesmo que fiz. – agora totalmente livre de minhas mãos ela ficou em pé na janela e se jogou em direção ao enorme pás-saro.
Quando já estava seguramente sentada, um pouco atrás do Lepre-chaum, deu uma boa olhada ao redor seguida de um sorriso enorme e estonteante mostrando todos os dentes.
– Agora é sua vez, concentre-se e não olhe para baixo. – esticou uma das mãos e fez um sinal para que eu a acompanhasse.
Subi em minha cama muito devagar, tomando muito cuidado para não olhar para baixo, sentei-me à janela imitando seus movimentos. Segu-rei-me à lateral da janela até conseguir ficar em pé enquanto tentava me equilibrar. Impossível manter minhas pernas firmes ali, eu tremia mais que uma vara verde e meus pés não me obedeciam, por mais que eu dissesse repetidas vezes em minha cabeça: “você não está com me-do, você não está com medo!”. Mas não adiantou em nada. Ainda sem olhar para baixo, foquei-me apenas em não cair e inclinei-me poucos graus à frente até conseguir tocar a ponta de meus dedos trêmulos na asa de Kika. Minhas pernas, agora, estavam tremendo muito mais que antes e não podia senti-las direito. Mas mesmo sem poder controlá-las fechei meus olhos e saltei em direção à ave enquanto sentia meu cora-ção disparar, o sangue gelar e meus pés e mãos formigarem. Por alguns segundos permaneci sem abrir meus olhos apenas esperando sentir o calor de Kika sob mim. Suas penas são tão delicadas e macias que a sensação é de estar sentada em milhares de plumas. Apesar da sensação de conforto, ainda não estava preparada para abrir meus o-lhos e permaneci imóvel por o que me pareceu alguns minutos, te-mendo entrar em pânico e estragar tudo. Senti um vento gelado tocar meu rosto bagunçando meu cabelo, deixando um pedaço de minha franja fazer cócegas nas maçãs de meu rosto, me fazendo dar um sor-riso trêmulo e tremer de frio ao mesmo tempo. Quando finalmente tomei coragem para abrir os olhos não pude acreditar no que vi. Todos os prédios eram como pequenos quadrados e retângulos aglomerados em alguns pontos da cidade e escassos em outros, as ruas pareciam como as que eu desenhava na terra quando criança, apenas uma linha. Eu estava inacreditavelmente maravilhada com a vista, sem conseguir tirar os olhos da cidade que ia, aos poucos, sumindo do meu campo de visão e dando espaço às fazendas de gado e às plantações. As cores são tão vivas e intensas que se tornam impossivelmente admiráveis, vários tons de verde se mesclam a alguns pontinhos brancos nas fa-zendas. Vesti o casaco que havia amarado à cintura enquanto lembra-va-me de um detalhe muito importante desta viagem, algo essencial para mim.
- Você lembrou-se de pegar minha câmera fotográfica? – perguntei à Tayla sem mover meus olhos da paisagem. – Eu queria tirar algumas fotos, este é o lugar perfeito, com certeza, olha este céu! – eu estava maravilhada com tudo aquilo. Fiquei até um pouco perdida sem saber para onde olhar. Tudo é tão lindo e impossivelmente perfeito. Nem em meus melhores sonhos havia um lugar assim.
- O que seria da você sem mim em Zah? – disse numa voz divertida enquanto abria minha bolsa e tirava minha máquina de lá. – Eu sabia que você ficaria louca em ver esta paisagem sem poder tirar fotos!
- Realmente Tah, o que seria de mim sem você? – peguei minha má-quina de suas mãos, a liguei e comecei a tirar fotos sem parar. Quem sabe quando terei outra oportunidade dessas, melhor não desperdiçar.
- Que bom você estar aproveitando o passeio Grania, eu ficaria mago-ada se você continuasse em pânico, isto quer dizer que confia em mim. – uma voz graciosa e conhecida, como um soar de sinos, uma voz que eu não escuto há muito tempo, disse baixinho.
- Grania? Quem disse isso? – eu estava olhando para Tayla e o Lepre-chaum alternadas vezes esperando uma resposta. Os dois olharam um para o outro e logo em seguida para Kika, Tayla apontou o dedo na direção da ave e apenas com um mexer de lábios sem som disse “ela”.
- Você não deve se lembrar do som de minha voz, eu já esperava por isto. – sua voz de sinos estava triste agora.
- Na verdade eu me lembro vagamente de sua voz Kika. É que demo-rou algum tempo para me lembrar de onde a conhecia. Desculpe-me, eu não pretendia te magoar. – eu realmente sinto muito.
Inclinei-me, enquanto falava, até que minha bochecha esquerda esti-vesse totalmente coberta por suas penas. Eu não tenho culpa de não tê-la reconhecido, afinal a última vez que a ouvi deveria ter apenas um mês de vida. Esta é a melhor sensação que eu já tive, a de estar prote-gida e saber que nada de mal me acontecerá. Continuei aninhada em suas penas enquanto passava meus dedos levemente na linda pluma-gem de seda e admirava o céu. Alguns flashes de uma memória emba-çada e escura apareceram diante de meus olhos. Na memória uma pe-quena e desajeitada ave vinha em minha direção e empurrava leve-mente meus braços para cima enquanto esfregava seu bico em minha barriga tentando fazer cócegas.
- Quem é Grania? – perguntei com a voz abafada pelas plumas doura-das.
- Você! Este é o nome que sua mãe escolheu, quer dizer amada. Mas se você preferir eu posso te chamar pelo nome humano. – disse cal-mamente com a voz feito soar de sinos.
- Pode me chamar como quiser! – dei uma pausa, levantei minha ca-beça e olhei em sua direção. – Mas Grania é um nome tão feio, parece gralha, não parece? Não gostei muito dele. Acho melhor você me chamar de Zarah mesmo. – ela olhou em minha direção e pareceu que por um momento um sorriso tocou seu bico, um sorriso divertido.
- Como você quiser Zarah! – disse numa voz divertida e calma.
Permaneci na mesma posição durante alguns segundos olhando apenas as nuvens que mudavam de forma constantemente. De repente vi algo se mexer entre uma delas.
- O que é aquilo? – apontei o dedo em direção a uma enorme nuvem.
- O que? – perguntou Tayla segundo meu olhar.
- “Aquilo”- disse o Leprechaun numa voz irritada com o meu descaso - são seres protetores do céu, eles têm o poder de controlar o tempo, assim como você, mas também protegem as aves.
- O que? – perguntou Tayla novamente.
- Aqueles seres atrás daquela nuvem maior. – disse apontando o dedo novamente.
- Ela não pode vê-los Zarah, é uma humana, a não ser que eles deixem que isto aconteça, ela não conseguirá vê-los.
- Nossa, eles são... Lindos! – a frase saiu tremida no final, apenas um suspiro.
- Diga a eles para me deixarem ver! – exclamou numa voz melodiosa. Fixei meus olhos no Leprechaun esperando uma resposta à exclamação de Tayla.
- Eu não posso, eles precisam saber sobre você para que os veja. – disse calmamente olhando-a nos olhos.
- Mas por que Zarah pode vê-los? Eles também não a conhecem.
- Lógico eles que a conhecem, todos os Sidh sabem quem ela é. E estes aqui cuidam dela durante o dia, quando estou do outro lado do anel.
Virei meu rosto para olhá-los novamente.
Eles são tão delicados que apenas um grito, aparentemente, seria capaz de parti-los ao meio. Seus rostos têm traços delicados e finos, como o resto do corpo.
Era dois, um homem, num tom de pele muito claro. A musculatura do corpo aparente em seus braços nus, vestido como as estátuas de Deu-ses Gregos, os cabelos loiro-claros quase brancos, os olhos castanhos. Magro, mas musculoso, com enormes asas brancas que acabavam perto de seus calcanhares. O outro era uma mulher, no mesmo tom de pele dele, mais baixa e esguia, um corpo perfeitamente moldado como de uma modelo. Cabelos também loiros, ligeiramente mais escuros que do homem, levemente enrolados até a altura de seu quadril. Lembra muito a beleza da Deusa Afrodite. Ambos, irritantemente perfeitos, estavam parados, praticamente imóveis há alguns metros de distância de nós.
- Eles ficam ali parados o dia inteiro? – perguntei sem desviar meus olhos.
- Não Gran... Zarah, eles precisam ficar de olho em tudo o que aconte-ce aqui em cima, movimentando-se para todo o lado, como fazem os pássaros. – disse Kika calmamente tentando me fazer entender.
- Podemos chegar mais perto? Eu posso falar com eles? – perguntei sem mudar o foco de meus olhos.
- Pode, mas... – pensou durante alguns segundos – o que você preten-de dizer a eles? – perguntou curiosa.
- Na verdade não sei, dizer olá talvez?
- Podemos? – virou o pescoço em direção ao Leprechaun.
- Claro, não vejo problema algum. Estamos quase chegando mesmo.
Kika inclinou-se à esquerda, em direção à nuvem e pousou em cima da mesma.
- Como pode fazer isto? É impossível! – Tayla arregalava os olhos olhando para baixo.
- Nada é impossível para nós! - disse o Leprechaun levantando uma das sobrancelhas e tocando num pedaço da nuvem.
- Olá Grania! – as personificações de Deuses Gregos disseram em coro, abaixando-se como os plebeus fazer às rainhas em filmes antigos. Fiquei envergonhada pela saudação e por ficar assim tão perto deles. Como poderia existir seres tão perfeitos como estes? São ainda mais lindos e intimidadores, de perto.
- Não precisam fazer isto! – disse corando de vergonha.
- Oi! – disse Tayla, olhando na mesma direção que meus olhos esta-vam, mas parecendo uma cega, passando os olhos por cima da cabeça deles. – Eu sou Tayla, irmã da Zarah Grania! – sorriu com a piadinha, estendeu uma das mãos, cumprimentando-os.
- O que você está fazendo? – perguntei irritada.
- Me apresentando. – numa voz tranqüila – Não é assim que poderei vê-los?
Os dois se olharam e sorriram de sua expressão divertida.
- Olá! Meu nome é Fingal - disse o homem, estendendo a mão até tocar a de Tayla.
- Meu Deus! – exclamou perplexa – Você parece um Deus Grego! Só que não no tom de mármore, e na versão Cupido. – disse piscando sem parar e encarando-o e sacudindo a mão que os unia, sem parar.
- Você é tão espontânea! – divertiu-se com o entusiasmo exagerado dela.
- Eu sou Bridget! – disse a mulher, libertando a mão do homem, colo-cando-se à frente, entre ele e Tayla.
- Oi! – disse Tayla – Minha nossa, você se parece às mulheres das revistas de moda que eu compro. - Mas você, você ganha de qualquer homem que eu já vi na internet, naqueles sites de top 10 das pessoas mais bonitas do mundo. – disse virando-se para olhar o Deus Grego.
Como pode ser tão ingênua e boca grande ao mesmo tempo? Será que ela não percebeu o ciúme da mulher ali?
- Tayla, menos ta? Muito menos! – alertei-a
– O que eu fiz? – agora seus olhos estavam na mulher.
- Você não está com ciúme. Está? Por que se estiver pode ficar tran-qüila, eu sou muito jovem para ele!
- Acho melhor irmos embora antes que você se complique ainda mais. – disse olhando-a fixamente. - Am... Obrigada por cuidarem de mim todos estes anos, obrigada mesmo. – disse envergonhada.
É praticamente impossível não sentir desconforto ao dirigir a palavra aos dois.
– Nem sei como agradecer. – disse olhando para a mulher.
- Não fizemos nada além do nosso dever. – disse, num sorriso impos-sivelmente brilhante e intimidador.
- Desculpem pelo comportamento de minha irmã, ela não está acos-tumada a segurar a língua, nem a pessoas bonitas – disse num sorriso amarelo de vergonha, olhando em direção à Tayla.
Ela levantou a sobrancelha e desviou o olhar para Kika.
Os dois riram e concordaram. Não sei se riram do meu desconforto ou de Tayla e sua boca grande.
- Você pode nos agradecer encontrando seus pais. – disse o homem.
- Prometo tentar. – disse apertando meu camafeu com a mão esquerda, como faço sempre que estou preocupada.
- Podemos ir agora? – disse o Leprechaun quando desviei meu olhar dos dois seres perfeitos.
- Sim.
- Tudo bem. Segurem-se! – disse Kika
- Até mais! – acenei sem olhar, ainda envergonhada.
Tayla ficou emburrada, o resto da “viagem”, pelo que eu falei a ela. Falava somente com Kika, perguntando sobre sua dieta, se comia inse-tos, amimais grandes, pequenos, folhas e flores, como é o reino e tudo o que lhe vinha à cabeça. Kika respondeu todas as perguntas com calma e interesse. Ela estava se dando melhor com Tayla que comigo. Mas é só questão de tempo, até eu me acostumar com ela e começar a conversar. Eu geralmente demoro algum tempo para puxar assunto com pessoas que acabei de conhecer.
– Todos se segurem agora, não quero perder nenhum de vocês, vamos aterrissar! Senti um frio tocar todos os meus músculos e enrijecê-los, apertei minhas mãos segurando ainda mais forte nas penas de Kika e fechei os olhos evitando entrar em pânico com a descida brusca e o aumento da velocidade em que os ventos gelados tocavam meu rosto. Kika fez uma ótima aterrissagem levando em consideração sua carga extra, duas garotas de cinqüenta quilos, e um leprechaum de pouco mais de quarenta centímetros e acima do peso. Mas pelo seu tamanho e a impecável aterrissagem, com certeza era como uma pessoa carre-gando uma mochila escolar, nada consideravelmente pesado.
2 comentários:
amei a história
ta mtoo legalllllll...
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