12 de Março de 2009, quinta feira, um dia antes do dia menos espera-do do ano, pra mim. Meu décimo oitavo aniversário. Isso é bom, pen-sando no fato de que eu poderei finalmente dirigir, não precisarei de autorizações ou assinaturas dos meus pais caso queira viajar ou algo assim, mas me preocupa um pouco a idéia de ser presa. Não que eu pense em fazer coisas erradas, e sim por ser um ímã para desastres. Eu estou sempre na hora e no lugar errado. Não me admira em nada que amanhã seja sexta feira treze. O meu azar pessoal. Eu sempre pensei em aniversário como uma data inventada por uma pessoa que precisava ter toda a atenção pra si durante um dia inteiro. Para mim é a pior data do ano. É o dia em que, não importa o quanto eu tenha dito para meus pais que não queria uma festa, e para meus amigos a data errada, eles sempre descobrem e a festa acaba acontecendo. E, para minha perfeita derrota, eu sou o centro das atenções durante toda a noite.
Meu dia começou anormal, pra variar.
- Zarah acorda! Eu não vou te chamar de novo!- ouvi uma voz muito baixa e irritada, longe, no fundo da minha cabeça. – Acorda logo sua sonâmbula loca! Zarah! Eu sei que você está me escutando. Pode abrir logo esses olhos.
Reconheci a voz. Abri meus olhos e vi aquela coisinha laranja e sar-denta com um copo de água gelada na mão prestes a jogá-lo em mim.
– Vai Zarah, acorda! - fez soar em tom melancólico.
- Só mais cinco minutos, Tayla. – pedi, numa voz rouca de sono.
- Zarah, você já está atrasada. Acorda aí que eu vou tomar meu café da manhã. Se quando eu terminar você ainda estiver aí... – respirou fundo - Ah, você verá uma coisa! - se afastou - Eu venho, não com um copo, e sim com uma jarra de água pra tacar em você! – a voz muito irritada, mas sempre com aquela pontada de maternidade.
Isto é engraçado, eu sou a mais velha, era para eu estar acordando-a e não o contrário.
– Já acordei sua tampinha maldita! – falei tentando limpar minha voz, mas com os olhos ainda fechados.
- Então porque seus olhos estão grudados ainda?- usou o polegar e o indicador, tentando abri-los.
- Por que eu não quero ver essa sua cara branca e enferrujada, mané! – respondi já de saco cheio.
- Até parece que só a minha cara tem sarda aqui. - deu uma pausa e continuou com uma voz de zombaria - E pelo menos eu não acordo parecendo um leão escabelado. Olha isso! – senti seus dedos passando no meio da minha cabeça esparramando ainda mais meu cabelo.
- Sai do meu quarto, garota mané. Vai achar o que fazer! Pular de um poço ou qualquer coisa do tipo. Tayla se afastou, sacudiu mais uma vez meus ombros, só para não perder a oportunidade de me irritar e saiu resmungando por entre os dentes.
– Isso está errado. Eu sou a mais nova! – entrou na cozinha e disse em voz alta – eu que sou a mané?Com certeza não! Acho melhor você dar uma olhada de onde você está dormindo! – disse no mesmo tom de voz que usa quando me conta que venceu no Guitar Hero. Era o tom de vitória. Ela sabia que tinha ganhado essa.
- Ai não! – eu, certamente, sei onde estou.
Esse sonambulismo ainda vai afetar seriamente o meu psicológico. Eu morro de medo de um dia sonhar que sou a Mulher Maravilha e decidir pular da sacada. Mas estou um pouco mais despreocupada por que de uns anos pra cá eu tenho conseguido controlar ele e acordar um pouco antes de fazer alguma burrice. Hoje, assim como nos últimos 29 dias, acordei na sacada, deitada no chão, abraçada a meu travesseiro e segurando o meu camafeu na mão esquerda. Quando dei conta de me localizar saí correndo para o meu quarto para ver as horas. Já prevendo o óbvio ao me ouvir, da cozinha, saindo em disparada para o meu quarto, ela gritou.
– Cuidado com a....
Tarde demais. Nem deu tempo dela terminar a frase. Trombei meu braço na maçaneta da porta que dividia os quartos do resto do aparta-mento. Não sei por que, mas sempre mirei errado o espaço que existe entre meu corpo e os setenta centímetros desta porta estúpida. Depois de ficar uns dois minutos xingando até a última descendente dessa porta retardada e me perguntar se ela tinha se movimentado de propó-sito só por que achava divertido me ver com o braço roxo, cortei o monólogo no meio e me foquei no maior dos problemas, estar real-mente atrasada. Do corredor eu ouvi uma risada escandalosa que só podia ter saído dela. Depois que parou de rir e apontar pra mim, disse:
– Ow deixa eu te contar uma coisa! – exclamou
Eu já sabia o que ela iria dizer. Sempre diz isso.
– Tem uma porta aí! - então pegou seu material da mesa da sala, dois cookies e saiu do apartamento. Um segundo depois de fechar a porta ela a abriu e gritou de lá mesmo
– Zah, eu me esqueci de uma coisa! Faz assim – levantou a mão e eu fiz o mesmo –, agora repete comigo: EEEU SOOU... Já conhecia essa frase.
Abaixei minha mão na mesma hora que ela disse a segunda palavra, peguei a primeira coisa que vi. O controle remoto. Taquei na porta em sua direção, mas ela nem se preocupou em mexer sequer um milímetro de onde estava. Nos quinze anos de convivência aprendeu que eu, mesmo estando há um metro de distância e posicionada exatamente em sua frente, mesmo assim, seria incapaz de acertá-la. Tenho uma péssima mira. Sem contar que não tenho coragem suficiente para ma-chucá-la, afinal se trata de minha irmãzinha caçula. Por mais que bri-gamos o dia inteiro, eu a amo. É! Eu sou muito mais lerda que imagi-nava. Sempre caio nessa frase da mão. Quando entrei no meu quarto tudo estava fora do lugar, minha cadeira branca que não combinava nem um pouco com a escrivaninha preta, estava na frente do armário e de lado para a janela. Tentei lembrar alguma coisa sobre meu “sonho” da noite passada, mas lembrei somente de estar me arrumando pra viajar. Olhei para cima do armário e a minha mala não estava lá.
Passei rapidamente meus olhos para todos os lados e a vi aberta, em cima da poltrona, com todas as minhas roupas lá. Meus olhos correram rapidamente para a escrivaninha, com medo de estar vazia, mas para meu alívio ele estava lá, intacto, meu note book, a coisa mais importante na minha vida. Meu medo não tem nada a ver com eu ser viciada em internet, mas sim porque esse foi o último presente que meu avô me deu, essa coisa pequena, pra mim, tem um valor inestimável. Uma lembrança repentina fez meus pêlos arrepiarem e eu abri a porta do meu armário com muito receio, mas elas estavam lá. Todas as fotos que eu tiro do céu, dentro do portifólio com capa transparente. Minha segunda fraqueza. Depois de verificar se não faltava nada fui procurar meu relógio para ver se ainda havia tempo. Já são seis e vinte e isso quer dizer que eu tenho exatamente vinte minutos para estar fora de casa, ou perderei meu ônibus, e o próximo só passa as sete e quinze, ou seja, chegarei à faculdade por volta das sete e cinqüenta, no mínimo vinte minutos atrasada. Corri até o banheiro para tomar banho e escovar os dentes. Dei uma olhada no espelho ao entrar e vi que Tayla realmente tinha razão. Meu cabelo, que agora estava cortado um pouco acima dos ombros e todo repicado, parece um ninho de pássaro. Um ninho ruivo e armado. Está horrível. Isto só baixará depois que eu lavar minha cabeça, e já que eu estou atrasada, não fará diferença alguma perder tempo secando-o. Tomei banho correndo. Saí do banheiro e antes de colocar minhas roupas olhei no relógio e já era seis e trinta e dois.
- Como posso ter demorado tanto no banheiro? – perguntei em voz alta. Vesti-me, correndo, coloquei uma calça jeans, blusa branca com desenhos feitos por mim e coloquei meu Keds vermelho. Quando fi-nalmente terminei de me arrumar, peguei minhas lentes de contato para os ridículos dois graus de miopia e segui ao banheiro para colocá-las.
- Senti o grau um pouco forte, mas acho que é só impressão.
Depois de tudo pronto peguei meus materiais, abri uma gaveta do meu armário onde ficavam os óculos de sol. Peguei um dos meus favoritos, um Wayfarer preto, e fui correndo para a cozinha, sem bater na porta do corredor desta vez. Tomei meu café da manhã o mais rápido possí-vel, duas torradas e dois copos de suco de laranja, apesar de não a-güentar, mas eu tenho algumas dificuldades em lidar com números ímpares. Se forem duas torradas, têm que ser dois copos de suco. Uma torrada, um suco, tudo exatamente equilibrado em termo de propor-ções. Mas não é só na comida, que eu aplico essa regra maluca, tem volumes, horários, contagens, enfim, tudo que envolve números, se der ímpar me deixa fora de foco. Algumas coisas são mais complicadas de consertar, e o tempo que eu levo para encontrar uma solução sempre parece uma eternidade. Mas eu sempre dou meu jeito. Nas últimas semanas essa é minha rotina. Acordar em lugares estranhos da casa, ter sonhos de viagens, sonhar com o Leprechaun. Ela se repete todo ano, desde meus dez anos de idade. Um mês antes do meu aniversário algo ruim me acontece e tudo vira de cabeça para baixo. Isso me lembrou uma vez que eu fui tomar um milk shake com uma amiga chamada Natália. Ela me disse que era culpa do meu inferno astral e que era para eu relaxar, pois todo mundo tinha. Mas o meu é mais acentuado, digamos assim, pois eu me meto em roubadas mais frequentemente que as pessoas normais e, esse “inferno” acabaria à meia noite do dia 13, ou seja, meu inferno astral acabaria à meia noite de uma sexta feira treze. Isso definitivamente não mandou meu nervosismo. Agora, se foi um truque dela para me acalmar ou se realmente esse “período” existe, eu não sei. Consegui, finalmente, sair do apartamento as 06h54min. Quatorze minutos atrasada, apesar de já estar pronta para ir para a faculdade desde as 06h50min, tive que ficar esperando na porta, pois só saio de casa em número par e já era cinqüenta e um, comecei a ficar nervosa. Todas as vezes que eu olhava o relógio era ímpar, então tentei me concentrar em não entrar em pânico e deu certo, três minutos depois. Tentei não pensar nisso. Andei o mais rápido que pude, não sei para quê, se meu ônibus só passaria no ponto pelo menos quatorze minutos depois de eu estar lá. Deve ser para testar meus pés, já que eles nunca se deram bem correndo ou andando rápido demais. Mas, desta vez, nada aconteceu, eu não caí ou tropecei, uma coisa rara na minha vida. Eu nunca fui capaz de andar mais de duas quadras, razoavelmente rápido, sem cair ou tropeçar. Tudo bem que não são todos os dias que eu me machuco, mas cair, pra mim, sempre foi uma rotina, eu tenho certeza que minhas pernas sentem muita falta dos machucados quando os intervalos dos tombos passam de uma semana. Fato raro. Quando finalmente cheguei ao ponto de ônibus, ele estava lotado e não havia lugar para sentar. Fui obrigada a ficar em pé pelo menos dez minutos ao lado de um homem que, pelas minhas contas e levando em consideração o odor que exalava de todas as partes de seu corpo, ele não tomava banho desde a infância, no mínimo. Tinha uma aparência de mendigo, seu cabelo, que começava em uma meio careca e seguia levemente armado até um pouco para baixo dos ombros, tinha uma cor castanha escura, queimado de sol nas pontas e totalmente sem corte. Seu rosto era todo marcado de rugas de expressões e só de olhar para as bolsas embaixo de seus olhos notava-se que a noite passada dele não foi menos turbulenta que a minha. Ele usava uma camiseta com as escritas quase apagadas, com cinco números quase sumindo e a foto de um candidato a vereador. Uma bermuda que era, com certeza, dois números maiores do que ele normalmente vestiria, toda rasgada e cheia de terra, como se ele tivesse brincado com um bando de cachorros de rua. Mas de repente eu parei e pensei que a sujeira provavelmente vinha de uma noite mal dormida numa das calçadas dessa cidade. Esse pensamento trouxe uma pontada de remorso por eu estar julgando a aparência de uma pessoa que, provavelmente, não teve um centésimo das oportunidades que eu tive na vida. Quando parei de analisá-lo e voltei para seu rosto, ele estava me olhando com uma cara engraçada, com um meio sorriso que mostrava uma seqüência de falhas dentárias. Pouco tempo depois o ônibus finalmente chegou e, para minha surpresa, não estava lotado. Subi rápido para aproveitar e pegar um lugar longe do sol, pois estava muito quente, fazia trinta e três graus lá fora, odiei essa parte, porque não trinta e dois? Ou trinta e quatro? Com certeza se eu sentar num dos bancos que pegaria sol durante o caminho todo eu entraria em ebulição. Encontrei um lugar vazio no fundo do ônibus antes mesmo de passar pela catraca. Tive um pouco de dificuldades com a minha régua, mas a cobradora, muito prestativa, me ajudou, empurrando-a.
- Obrigada. – disse a ela sem fazer som com a boca, apenas mexendo meus lábios. Ela entendeu e disse, num tom um pouco alegre.
– De nada.
Isso, definitivamente é um fato raro, ela nunca sorri para nenhum pas-sageiro. Não sei se é por isso, mas, para mim, parece que não vê a hora de ir embora para casa. Não conversa com ninguém, vive com a cara fechada e presta atenção somente nas portas, para não machucar alguém. A única vez e que a vi sorrindo foi quando eu levava uma maquete para a aula e, ao sair do ônibus, caí no primeiro degrau e es-correguei sentada até o segundo. Ela gargalhou como as bruxas fazem nos filmes, debochando de minha cara. Mas eu nem liguei, pois se ficasse irritada todas as vezes que alguém ri de mim, seja eu caindo ou me enroscando nas coisas eu viveria infeliz. Sem sorrir um minuto sequer. Quando, finalmente consegui sentar-me peguei o celular e liguei para a Milla, para avisá-la do meu atraso, assim se o professor decidisse passar a lista de chamada no início da aula, ela assinaria para mim. Ela já está tão acostumada a imitar minha assinatura que ninguém nota a diferença. Eu sempre chego alguns minutos atrasada, pois tudo sempre dá errado na minha vida. Sempre. Eu bem que tento não pensar negativamente, mas não é sempre que dá. Eu já pensei muito sobre isso, até já li alguns livros que falavam que quanto mais negativa a pessoa é, mais negatividade ela atrai. Mas isso não mudou em nada a freqüência dos meus tombos. Enquanto eu estava pensando uma mulher falou comigo numa voz muito estranha, como se estivesse sendo estrangulada. Ela me perguntou se podia se sentar ao meu lado. Eu ainda não havia tirado meus olhos da janela. Distraí-me com o fato dela ter me perguntado se poderia sentar comigo. Ninguém pergunta isso, todos simplesmente chegam e sentam no assento vago. Virei-me, a fim de responder sua pergunta e tomei um susto tão grande que te-nho absoluta certeza de ela ter percebido, pois o olhar que me deu em troca não foi nada amistoso. Também, não havia como ela não perce-ber.
Nunca soube conter minhas expressões faciais. Quando eu não res-pondi nada, e fiquei olhando, a mulher, que deveria ter, pelo menos, duzentos quilos, simplesmente tentou caber na poltrona ao lado da minha. Como não havia divisórias, ao sentar-se, a elefanta preencheu todo o espaço que tinha ela direito e mais um pedaço significativo da minha poltrona, sua nádega direita ficou em cima da minha coxa. Senti como se mil quilos fossem jogados em cima da minha perna, que começou a adormecer rapidamente enquanto eu encarava a mulher ao mesmo tempo em que tentava empurrá-la. Depois de algumas tentati-vas frustradas, o ônibus virou a esquina e a mulher deslizou para cima de mim. E o que jurava ser impossível, aconteceu. Ela ficou ainda mais em cima de mim. Eu olhei muito brava para a enorme perna em cima da minha.
- Será que dá pra você sair de cima de mim?Ou ta difícil? – sua gorda maldita que não tem noção de espaço, eu pensei o resto da frase. Se eu falasse, com certeza essa seria a última frase da minha vida. Mesmo assim ela não saiu, eu tenho certeza que ela não escutou, ou ela não estava sentindo que aquilo não era a poltrona e sim uma pessoa. A mulher só saiu de cima de mim porque um homem que estava na pol-trona à nossa frente deu um cutucão nela repetiu a minha frase, na terceira pessoa. Quando ela finalmente saiu, eu me levantei num pulo, desequilibrando-me um pouco pelo formigamento a cima do joelho e segurei em seu ombro, sem querer, para me equilibrar. Ela retirou a minha mão na mesma hora e virou-se para frente com um olhar de paisagem, como se não tivesse acontecido nada. Finalmente estava a duas quadras da minha faculdade e um ponto antes do meu. Quando as portas do ônibus fecharam, eu puxei cordinha fazendo aquele barulho irritante. Pouco tempo depois, ele parou e as portas se abriram, apesar de estar muito quente do lado de fora, o vento que bateu em meu rosto ao sair do ônibus fez meu humor melhorar um pouco. Saí correndo do ônibus, passei pela catraca e vi o horário, era sete e quarenta e sete. Passei rapidamente pelas cantinas indo à direção do meu bloco, que era um dos últimos do campus. Parei no caminho para carregar meu passe que já estava vazio, mas ele não carregou e eu não tinha tempo para esperar reiniciar o processo. Deixei para carregar mais tarde quando saísse da aula. Fui para a sala mais apressada que o normal, sem tropeçar desta vez. Cheguei à sala e o professor estava passando a matéria no slide show, isso facilitou a minha entrada discreta. Passei por um aglomerado de carteiras amontoadas no único espaço possível de se passar na sala.
Meu lugar é o último, no fundo da sala, perto de onde os meus amigos sentavam. Todos eles já estavam lá, Letícia uma garota morena, com traços indianos, olhos negros da mesma cor dos meus, cabelos lisos e tão compridos que tocavam sua cintura, ela é alta e tão magra que às vezes parece que apenas um grito seria capaz de trincá-la ao meio. Estava sentada na carteira ao lado da minha. Miyuki, uma japonesa de cabelos negros na altura dos ombros, que não é alta como Letícia, pelo contrário, ela conseguia ser menor que os meus 1,60 m, tem um corpo atlético, em forma. É jogadora de futebol de salão. E Everlyn uma menina com rosto de boneca, fino, bochechas rosadas e olhos azuis, cabelos num tom loiro-amanteigado. Razoavelmente magra.
Estavam sentadas uma atrás da outra.
Antes mesmo de chegar à minha carteira vi um ser cabeludo todo es-parramado numa das carteiras. Era o Rafael. Ele estava dormindo com a cabeça encostada na parede, uma cadeira à frente da minha, atrás de Milla.
Milla é minha meio irmã por parte de pai. Tem o cabelo castanho es-curo, pele bronzeada e um corpo de dar inveja a muitas atrizes. Olhos caramelos brilhantes e líquidos que sempre me dava nos nervos de tão lindos. Milla estava estrategicamente sentada uma carteira depois da dele, tapando a visão do professor, para que ele pudesse dormir sem ser incomodado. Ela sempre fazia isto, aliás, faria tudo o que ele pe-disse. Sorte a dela que além de um namorado muito prestativo e apai-xonado.
Rafael é um doce de pessoa e muito engraçado. Não pára de me inco-modar um segundo, fazendo piadinhas inúteis sobre o meu tamanho ou a cor do meu cabelo. Mas eu nunca ligo para o que ele fala. Eles são tão apaixonados que eu duvido muito que isto não acabe em ca-samento. Já há uma espécie de data ou algo assim, eles sempre dizem que vão se casar um ano depois de terminar a faculdade. Definitiva-mente foram feitos um para o outro.
Todos eles estavam conversando quando cheguei. Menos Rafa, claro. Sentei-me em meu lugar no canto da parede, em silêncio. Milla se virou e me perguntou com um tom de animação enquanto passava seus dedos para cima e para baixo no cabelo de Rafa.
– O que a gente tem para a amanhã? Eu falei com papai e ele liberou o apartamento para fazermos uma “festinha”. Ah, ele disse que sente em não poder vir, mas a pousada está lotada e não tem como deixar al-guém tomando conta.
Todos olharam em minha direção, ao mesmo tempo, esperando que eu respondesse, com toda certeza, algo do tipo “ah, vamos fazer um chur-rasco ou coisa do tipo, depois sair para beber em algum barzinho!”.
Definitivamente, isto não chega perto do que eu realmente quero res-ponder.
Achei bom que meus pais não possam vir. Isso me poupa de assoprar velas, fazer cara de feliz, ganhar presentes e tudo mais que todos os aniversariantes têm direito. Coisas que eles não deixam passar de for-ma alguma.
Todos em casa amam festas, tudo o que acontece é motivo para co-memorações. Ajuda muito o fato de que nossa família é um pouco grande e todos moram na mesma cidade, Bonito, localizado no interior do estado e tem aproximadamente 25 mil habitantes. Quando alguém não tem mais nada para fazer liga para todos os outros e combina de fazer um churrasco, eles nunca conseguem passar um final de semana cada um em suas casas. Chega ser irritante para alguém como eu, que odeia aglomeração de gente. Eu me livrei de muitas coisas que me incomodavam em Bonito quando escolhi mudar de cidade e estudar em Campo Grande, a capital do estado, Mato Grosso do Sul, à cerca de 330,00 quilômetros de casa. Livrei-me das festas, intromissões em assuntos pessoais e as fofocas que toda cidade pequena tem. Mas por outro lado foi ruim toda esta mudança, eu amava morar lá por motivos mais que óbvios.
Bonito é o paraíso. Águas cristalinas, cachoeiras, muitas espécies de peixes, natureza abundante, corredeiras, trilhas, tudo o que faria qual-quer pessoa trocar o stress da cidade grande por uma vida mais calma, sem pensar duas vezes. Quando eu era menor, todos os fins de tarde eu, meus pais e meus irmãos íamos de bicicleta ao balneário depois das cinco horas da tarde e voltávamos somente depois que fechasse. Mesmo quando chovia nós ficávamos sentados na grama olhando o céu e esperando que as gotas tocassem nossa pele ou entrávamos na água, permanecíamos quietos e tentávamos ouvir os barulhos que os pingos faziam ao tocar a superfície do rio. É a melhor sensação do mundo, dava para sentir a energia que irradiava do céu, era inexplica-velmente bom ficar ali apenas sentada olhando a chuva toca o rio fa-zendo vários círculos pequenos. Bons tempos aqueles. Tempos em que eu não me preocupava com nada. O dia do meu aniversário, por exemplo. Isso me fez lembrar que Milla ainda estava esperando uma resposta. Respirei fundo e procurei fazer a melhor cara de cínica. A mais verdadeira possível.
- Am... - dei uma pausa, sentando e abrindo o meu caderno desviando de seu olhar. - Nada? – respondi ainda pegando meu material.
Sei que, em se tratando da Milla, qualquer coisa que eu disser poderá ser usada contra mim mais tarde.
- É né, sua bandida! Eu sei que você não está se agüentando de tanta vontade de que amanhã chegue logo. Bolo, presentes, ser o centro das atenções, tudo o que você mais ama no mundo.
Ela me conhecia o suficiente para debochar. Com certeza estava me testando para ver até onde iria. É o esporte preferido dela, fazer per-guntas sobre como foi o resto do meu dia depois da faculdade só para rir um pouco quando eu conto que caí ou me cortei com algum objeto não cortante da maneira mais retardada possível, me ouvir reclamando alguma algo sobre os Leprechaum ou coisas do tipo.
Fiz cara de desinteresse.
- Ah, é sobre... Isso? – tentei enfatizar o máximo que pude a última palavra – Você sabe que eu nunca me lembro do dia do meu aniversá-rio.
Ela sabia que parte era mentira e parte era verdade. Eu realmente es-queço as datas, inclusive a do meu aniversário, mas desta vez eu estava bem informada, pois Tayla tinha gritado isso no meu ouvido ontem a noite inteira, no mínimo cem mil vezes seguidas. Ela também, por outro motivo, me conhece bem o suficiente para saber ler a minhas expressões com perfeição. Nada passa despercebido por seus olhos críticos. Ela é apenas um ano mais velha que eu e, por sermos como unha e carne desde pequenas, com ela minhas técnicas de mentira nunca deram certo. Às vezes parece saber o que eu estou pensando.
Quando me pergunta algo, e eu demoro a responder, tira suas próprias conclusões e se vira para mim perguntando se era isso que eu estava pensando. Normalmente ela acerta, ou melhor, todas às vezes ela acer-ta. Minhas respostas sempre são óbvias demais. O melhor que eu faço quando quero mentir é falar o mais depressa possível, antes de sua conclusão ou apenas sacudir a cabeça respondendo sim ou não.
- Você já não é tão boa em mentir como era antigamente. Já nem con-segue mais passar pelo detector de mentiras. – disse apontando para si mesma e sorrindo.
- Ha.ha. Muito engraçado! – eu fiz o melhor que pude para parecer que estava tirando sarro. Mas uma pontinha de preocupação apareceu no fim da frase e pôs tudo a perder.
- Eu falei com a Tayla hoje – levantei a minha cabeça e ela continuou mais empolgada. – Ela estava muito brava com você e disse algo como “é aquele maldito inferno astral que essa loca tem. Como se não bastassem os Leprechaun!” eu acho que era isso. O que quer dizer?
- É um ho...
- Zarah, eu sei o que é um Leprechaun, você fala dele o tempo todo desde os dez anos. Eu quero saber o que é inferno astral. Disto você nunca me falou. – atacou um pequeno pedaço da borracha que estava em sua mesa, incomodada com a minha lerdeza e falta de atenção.
Eu fiz uma cara de quem não estava a fim de conversar e respondi o essencial.
- É um período de mais ou menos trinta dias antes do dia do aniversá-rio. Todo mundo tem. Nada dá certo e nos sentimos fora do eixo.
Milla sorriu.
- Será que você não tem mais nada pra fazer da vida? Eu tenho certeza que fica a tarde inteira na internet procurando coisas estranhas. Certe-za! – disse a última palavra arqueando a sobrancelha esquerda e vi-rando-se para frente da sala.
Quando percebi que ela não voltaria mais a tocar no assunto, olhei para frente e tentei me concentrar em prestar atenção na aula. Era a aula que mais me dava sono. Eu sempre ficava uma tarde inteira tentando fazer os exercícios, mas nunca conseguia terminar todos antes de desistir.
Pouco depois ouvi uma voz muito baixa falando meu nome e uma mão me sacudindo. Era Everlyn, ela falava alguma coisa sobre alguém ter pegado um anel, mas eu estava com muito sono para entender.
Sono? Como assim sono?
Acordei rapidamente, levando um susto.
Eu nunca dormia durante as aulas, por mais chata que fosse a matéria. Eu me sinto mal só de pensar em sair mais cedo quando precisava, imagina dormir uma aula inteira, ou sei lá quanto tempo eu dormi. Enquanto eu pensava no assunto percebi que Everlyn parou de falar e agora estava me olhando, esperando, certamente, que eu respondesse sua pergunta.
-Quanto tempo eu dormi? – perguntei ainda um pouco grogue.
- Relaxa Leprechaun, você só cochilou. – Everlyn disse, esperando minha resposta. Por que ela insiste em me chamar deste apelido?
- É... Você ia dizendo? – parei no meio da frase, com uma entonação de pergunta, balancei a mão como num sinal para ela repetir.
- Eu perdi meu anel, sabe. Aquele que tem uma flor. E eu pensei os seus Leprechaun pudessem ter pegado e que você poderia pedir para devolverem ele. Você sempre diz que eles pegam para nos ver procurar como loucas. Mas depois devolvem. – eu a olhei fixamente, tentando encontrar um lugar em seu rosto que me fizesse ver que ela estava tirando sarro da minha cara, mas lá eu só encontrei uma expressão. Um grande ponto de interrogação bem no meio do seu rosto.
- Mas porque você acha que foram eles?
- Ah. Você sempre diz isso “malditos Leprechaun, pegaram de novo” quando você perde algo, e depois de alguns dias você diz que eles devolveram.
- Mas eu não falo sério Lins, é só uma maneira que eu encontrei de colocar a culpa da minha desatenção em outra pessoa. Eu as acho al-guns dias depois por que eu arrumo o meu quarto enquanto procuro. - Mas será que não dá para você pedir mesmo assim? Eu fiquei pensan-do tanto nesta possibilidade que agora não vou sossegar enquanto você não pedir a eles que devolvam meu anel.
- Está bem, então quando eu voltar para casa eu peço. Ok? – eu disse rindo da cara dela.
- Tudo bem então. – ela disse com uma voz alegre.
Nenhuma de nós tinha levado esta conversa a sério.
- Não engana a menina sim sua má! - ouvi uma voz caçoando de mim - Coitadinha dela, tão ingênua. – Milla disse apertando as bochechas de Everlyn tirando sarro enquanto sentava-se em minha carteira, me empurrando um pouco para que pudéssemos dividir o mesmo espaço.
- Eu não menti para ela. – meu tom estava normal agora. Disse dando de ombros como se não fizesse importância para mim o assunto.
- Pode até ser! Não mentiu para ela, mas para si mesma, porque você sabe que no fundo, no fundo, cria uma expectativa de que eles real-mente existam. – eu abri minha boca para contestar, mas ela me cortou. – Hey, não pira não, ta? Não adianta em nada enlouquecer tentando colocar na cabeça esta idéia contrária a que você tem. É muito mais engraçado quando você bóia na batata falando neles. Se você parar, de quem eu vou encher o saco? – levantou as duas mãos, rodando apenas os dedos indicadores na lateral da cabeça, como se estivesse me cha-mando de louca, enquanto fazia várias caretas.
Eu me virei e empurrei sua cabeça enquanto dava um tapinha.
– Idiota! Vai falando mal, vai. Eu sei que você até gosta das minhas “histórias” e que você também não consegue ficar longe de mim. – fiz um movimento as minhas pernas até conseguir empurrar parte do seu corpo para fora do assento da cadeira. – Você me ama, mão vive sem mim! – dei uma piscadela.
Milla se virou em minha direção, de novo e, num sorriso que ia de uma orelha à outra, fez a pergunta que faz todos os dias, já sabendo a resposta.
Já é rotina para eu vê-la fazendo isso, quando ela dava aquele sorriso de criança em parque de diversões, pegava minha mochila e vasculhava em todos os bolsos até encontrar o lugar onde eu deixei minhas balas. Eu sempre tenho algumas balas ou chicletes para emergências. Sempre me acalma quando eu saio do controle, não que isso aconteça frequentemente, mas nas últimas semanas eu estou mais vulnerável que nunca e todo cuidado é pouco. Este tipo de coisa acontece fre-quentemente quando está chegando a pior data do ano. A culpa é toda do maldito inferno astral, ele deixa meus nervos à flor da pele e total-mente fora de controle.
- Nossa Zah, você gastou toda a sua mesada em balas desta vez? – Milla apontou para o bolso lateral da minha mochila que estava abar-rotado de balas. – Eu tenho certeza que dá pra ficar um ano chupando estas aqui e ainda sobrará para o próximo. – sempre exagerada.
- Não, eu não gastei minha mesada inteira em balas, não sou idiota! – sorri e completei. – Também comprei chicletes, olha o outro bolso. – apontei para o outro lado da mochila.
- Nossa! Definitivamente isto altera um pouco as coisas. Isto faz de você uma pessoa muito esperta. Quando eu crescer quero ser igual. – disse apertando minha bochecha enquanto usava a outra mão para abrir o bolso que continha os chicletes. - Mas falando sério agora. Como você comprou tanto chiclete assim? – Milla realmente parecia impressionada.
- Eu fui ao Olímpia ontem com a Tayla, nossa geladeira já estava vazia, então fomos lá para repor o estoque de comida. Comprei uma caixa fechada de balas e ela uma de chicletes, depois dividimos igualmente entre nós duas.
- Por que vocês não me avisaram? Eu precisava comprar xampu, minha mãe esqueceu de comprar, como sempre, será que ela nunca vai crescer? E eu também poderia dar uma carona a vocês. - abriu um chiclete e o colocou na boca - Francamente em, vocês sempre esque-cem de me chamar para estes programas família. – ela realmente é exagerada!
A mãe de Milla era uma pessoa um pouco difícil de lidar. Não é de se espantar que meu pai agüentasse somente até Milla nascer para dar o fora. Ele sempre diz que era impossível conviver vinte e quatro horas com ela sem sequer pensar em deixá-la, pois ela é muito mandona, reclama de tudo e tem a mentalidade de uma garota de dezesseis anos. Ela nem deixa Tayla chamá-la de mãe, só pode chamá-la se for pelo primeiro nome, Glenda, caso contrário nem olha e finge que não ouviu. É muito difícil lidar com ela, mas Milla já se acostumou. Como tem um coração de manteiga e toda a calma do mundo, sempre faz as vontades de sua mãe e nunca seria capaz de contrariá-la. Exceto quando a mãe a deixa nervosa demais.
Glenda, diferente da filha, não conversa com ninguém da minha famí-lia, ela tem verdadeira aversão por mim e meus irmãos e vive dizendo que minha mãe roubou meu pai dela e, se não fosse por minha mãe, eles ainda estariam juntos. Mas diz isto somente para tentar irritá-la, sabe muito bem que meu pai se divorciou dela antes mesmo de conhe-cer minha mãe e decidir trocar a vida agitada e estressante da capital por uma mais calma e sossegada no interior. Minha mãe nunca ligou para os comentários maldosos de Glenda, ela é totalmente zen e diz sempre a mesma coisa “ela é assim por culpa do asfalto, precisa tirar alguns dias de folga e vir para cá fazer uma limpeza espiritual.” Minha mãe às vezes me assusta com estas conversas de equilíbrio emocional e com suas terapias florais, cristais, arometerapia e várias outras coisas que usa, segundo ela, para equilibrar, corrigir ao realinhar e remover todo o negativismo que ocorre no mau funcionamento dos chakras. Algumas vezes já conseguiu me convencer a deixá-la fazer suas mas-sagens relaxantes e usar acupuntura para tentar espantar a minha má sorte e meu desequilíbrio. Mas eu sempre digo que não quero saber de me furar à toa e só a massagem já será suficiente para alinhar minha vida toda. Para ela é exatamente isto o que está acontecendo com Glenda, seus chakras estão totalmente desalinhados. Mas isto refletiu de modos diferentes em mim e nela, eu sou desequilibrada física e ela emocionalmente. Eu sempre tive uma opinião formada sobre o fato de Glenda não gostar de minha mãe. Para mim isto não passa de uma birra boba de adolescente. Ela não está acostumada a perder, e minha mãe foi a única pessoa que proporcionou a ela este sentimento ao se casar com meu pai e fazê-lo mudar de cidade.
- Milla! – observei que havia pegado quase todas as minhas balas da mochila.
- Zah, estas balas não fazem mal para você?
- Fazem né, mas são tão boas que vale a pena correr o risco. – sorri
- Nossa! Essas são boas em.
- Sua gorda, as balas não vão sair correndo daí, ou você quer que eu as amarre? Pegue uma de cada vez!
- Não vão? Nossa, eu podia jurar que vi estas aqui tentando escapar. – Milla disse estendendo a mão para que eu pudesse ver as balas às quais se referia.
- Pode ficar com elas então, não quero ter que ficar por aí correndo atrás de balas fujonas.
- Essa eu pagava pra ver! Até consigo imaginar você correndo para pegar as balas e quando chega perto de uma, tropeça e cai! – fez um movimento como o de uma pessoa caindo, mas apenas com o tronco e braços.
O professor terminou de passar a matéria no quadro e depois de expli-cá-la nos liberou para o intervalo.
Peguei minha mochila e as balas das mãos de Milla, guardei meus materiais e me levantei da carteira rapidamente, esperando pelos ou-tros.
Ela seguiu para sua carteira para guardar os seus materiais e acordar Rafa, passando o dedo indicador levemente desde a testa até a ponta de seu nariz. Ela o acordava da maneira mais calma possível, pois ele sempre se assustava e dava um pulo da carteira. Eu prefiro quando ela está sem paciência e apenas põe a mão em sua cabeça, eu adoro ter motivos para fazer piadas dele e isto definitivamente era uma oportu-nidade, apesar de ser impossível competir com a freqüência das que ele fazia de mim.
Depois que todos já haviam guardado os materiais nós saímos da sala e fomos à direção do bloco sete à frente do de onde estávamos saindo. A próxima aula, de PAUP será no atelier, então fomos para lá deixar os materiais para não precisarmos ficar carregando-os à toa. Ao sairmos de lá fomos à direção da cantina, que já estava lotada, procuramos por uma mesa e hoje tivemos sorte ao encontrar uma vazia. Sentamos lá e conversamos um pouco. Depois de alguns minutos Letícia virou-se a mim e perguntou se eu poderia acompanhá-la à cantina do bloco quatro. Segundo ela, não se agüentava mais de vontade de comer um croissant de chocolate.
Afirmei com a cabeça.
- Tudo bem, eu estou precisando andar um pouco. – disse enquanto me levantava.
Fomos à direção do bloco quatro, o qual ficava do outro lado da facul-dade.
- Você realmente não gosta de festas? – senti seu olhar me fuzilando.
- Não muito. – porque as pessoas ficam tão indignadas com este fato? Eu apenas não gosto e ponto final. Não sou só eu, conheço muitas pessoas que compartilham da mesma opinião. Tem até uma comuni-dade no orkut, com mais de sete mil membros, falando sobre isto.
- Mas você nunca vai a festas, nem com a Milla ou a sua outra irmã? Elas saem juntas não saem? – ela é muito insistente. Demais de insis-tente. Insistente pra caramba!
A conversa começou a me irritar.
- Não, eu prefiro ficar em casa assistindo filmes, lendo ou na internet. Sabe, não tenho pique para acompanhá-las. Geralmente eu vou a chur-rascos na casa de algum amigo, nada além disto, não curto muito essa agitação toda.
- Churrascos são legais mesmo, mas eu não troco uma balada por nada. Eu amo dançar e fazer novos amigos e uma festa é o lugar perfeito para isto.
- Eu não tenho esta necessidade toda de fazer amigos – fiz um movi-mento com as mãos ao dar ênfase na palavra. – Estou contente com os meus poucos e bons, prefiro qualidade à quantidade.
- Você é muito estranha, Ruiva, mas prometo que um dia eu ainda tento te entender. – disse dando um leve jogo de corpo em minha dire-ção e sorrindo. – Hoje não, mas quem sabe um dia.
Ela é tão alta que esta “leve” jogada de corpo me fez trançar as pernas e desequilibrar, mas sem cair.
- Ops, da próxima vez te empurrarei apenas com meus dedos. – es-palmou as mãos e mexeu seus longos dedos dando uma prévia.
- Da próxima vez? – encarei-a enquanto ria do tom que saiu minha voz, um tom de divertimento.
- Da próxima vez sim. Lógico que haverá uma próxima, ou você não se lembra que quase todos os dias você dá um jeito de se machucar? Não vai demorar muito para chegar minha vez de novo. E eu estarei preparada. – sacudiu as mãos novamente. – Mas eu prometo que não vai doer. – agora nós estávamos sorrindo uma para a outra.
- Mal posso esperar por este dia. – disse imitando seus movimentos.
Enfim chegamos ao bloco, ela me guiou até a cantina que vendia os benditos croissants e fez um escândalo ao vê-los.
Depois eu era a louca, pelo menos eu não vejo comida e começo a sorrir, balançar as mãos e apertar os braços de quem está do meu lado, de tanta felicidade. Mas era Letícia, ela ama comer e come de tudo, não havia como me espantar com toda aquela felicidade que brilhava em seus olhos. Letícia comprou dois croissants e deu um deles para mim.
- Eu não estou com fome – disse cruzando os braços ao recusá-lo.
- Não é para você. Eu só quero que segure este para mim, eu preciso colocar mostarda no outro.
- Mostarda? – Fiz uma careta. – Mostarda com chocolate? Você está louca? Deve ter pouco mais de dez tipos de vermes no seu corpo, cer-teza! Sua vermenta! Nem eu que sou louca por mostarda seria capaz de fazer uma coisa destas.
- Nossa você precisa experimentar, é muito, muito, muito bom.
Deveria ser mesmo, pelo tanto de vezes que ela disse a palavra e a cara que fez.
- Não obrigada! – disse enquanto meu estômago embrulhava ao vê-la segurando o sache.
- Segura este para mim pelo menos e pára de fazer esta cara!
Peguei o croissant de sua mão e observei-a abrindo o sache e despe-jando toda a mostarda. Antes que ela desse a primeira mordida virei meu rosto para evitar o constrangimento de vomitar na frente de todas aquelas pessoas.
- Vamos? Já deve ter começado a aula. –disse, dando um passo à fren-te.
Caminhei quieta ao seu lado enquanto ela devorava rapidamente o primeiro e estendia a mão para pegar o segundo. Letícia comia tanto que era impossível ela ser normal, era muito magra para a quantidade de comida que ingeria por dia. Às vezes fazíamos piadas sobre para onde ia tudo aquilo. As piadas, perguntas e suposições iam desde a teoria do buraco negro no estômago, à bulimia. Mas ela não se impor-tava com as piadas e fingia não ouvir. Voltamos ao nosso bloco e to-dos já estavam na sala.
O atelier já estava lotado quando entramos, mas o professor ainda não havia chego, então fomos para os nossos lugares perto de Milla, Rafa, Miyuki e Everlyn, para conversar, enquanto a aula não começava. Esta é uma das minhas aulas preferidas, eu amo fazer projetos e é exa-tamente o que fazemos nesta aula. O único problema é que as horas sempre passam rápido demais em dias como este, eu nunca tenho tempo de tirar todas as minhas dúvidas e isto não é bom. Eu tenho uma memória péssima, “de galinha velha”, como diz meu pai, e preciso anotar tudo em minha agenda, caso contrário, na próxima aula, não me lembrarei mais o que pretendia perguntar. Antes Mesmo de tirar metade de minhas dúvidas dei uma olhada em meu relógio e já estava no fim da aula. Peguei minha agenda e anotei todas as perguntas que pretendia fazer hoje, guardei meus materiais, desmontei minha régua paralela e percebi que a sala já estava quase vazia. Milla estava em pé ao meu lado, esperando, enquanto os outros já estavam do lado de fora da sala indo à direção das escadas.
- Cadê o Rafa? – perguntei enquanto analisava a sala inteira.
- O pai dele veio buscá-lo. Chegou hoje de viagem e queria poder pas-sar um tempo junto dele antes de voltar a Bonito.
- Você vai almoçar com a gente hoje ou na sua casa?
- Se você faz tanta questão assim, Zah – disse sorrindo -, eu almoço com vocês. Já faz alguns dias que eu não dou alguns apertões naquela ruivinha sardenta. – disse toda divertida.
- Não faço muita questão, não! – usei meu melhor tom de ironia.
Com certeza ela tinha um plano antes mesmo de eu sequer perguntar ou me dar conta. Se divertir um pouco almoçando em casa e livrar-se daquela "mãe projeto de bruxa". Ela sempre fazia isto. Eu adoro quan-do ela vai almoçar em casa comigo e com a Tayla. Milla é uma exce-lente cozinheira, não que Tayla não seja, mas sua comida é extraordi-nariamente boa. Não existe outra melhor no mundo, com certeza. Eu sempre digo a ela para fazer gastronomia e montar um restaurante, mas ela nunca me ouve. Com certeza se daria bem neste ramo, tem tudo o que precisa. Amor. Milla ama cozinhar e passa todo este sentimento para a comida. Por isso fica tão saborosa.
- Termine logo de guardar este material menina! – disse enquanto batia os pés no chão insistentemente e roia as unhas.
- Isto não vai ajudar em nada. – disse apontando para seus pés.
- Vai logo Zarah, eu estou famintéperrima! – começou a pegar meus materiais e colocá-los dentro da mochila.
- Calma Milla você não vai morrer só de esperar dois minutinhos! – empurrei suas mãos, que estavam atrapalhando mais do que ajudando.
Terminei de juntar tudo e quando olhei para frente ela já estava na porta, me esperando.
Andei mais apressadamente para que ela não decidisse me matar, ao entrarmos no carro, por fazê-la esperar. Quando chegamos a casa Tayla ainda não havia chegado da escola. Milla foi direto para meu quarto, depois de pendurar sua régua num dos ganchos da parede ao lado da porta de entrada. Pendurei minha régua no mesmo lugar depois entrei na cozinha para pegar um copo de água.
- Milla, está com sede? – gritei da cozinha.
- Pega o maior copo que tiver aí. Eu estou morta de sede! – sempre exagerada.
Entrei em meu quarto, Milla já havia ligado meu note book e estava abrindo a página para ler seus e-mails. Quando me sentei na cama ela virou-se em minha direção pegando o copo de água, virando-o de uma só vez.
- Você anda fazendo festas no seu quarto durante a noite? Isto aqui está uma bagunça. Até um galinheiro é mais arrumado. Como você conseguiu encontrar a porta e sair daqui hoje de manhã? – olhou en-volta, com cara de divertimento.
- Eu tinha uma bússola. –levantei-me da cama, a fim de reorganizar tudo.
- Ah! Lógico que você tinha uma. Afinal, quem hoje em dia não tem uma bússola guardada em casa para casos de extrema emergência, como este? – ela realmente estava achando a situação divertira.
Tudo bem, não tem como não achar.
- Eu vou tomar banho e depois termino de arrumar isto tudo. – com certeza eu perderia a tarde toda arrumando esta bagunça.
Peguei uma muda de roupa das que estavam dentro da mala, uma blu-sa regata, azul, um short jeans curto, frouxo e fui para o banheiro. Quando saí, Milla já não estava mais em meu quarto. Com certeza ela já estava na cozinha, preparando o almoço antes de Tayla chegar, só para vê-la irritada. Ela adora ajudar Milla a cozinhar, aliás, não há nada na lista de coisas a fazer dela que o nome de Milla não esteja envolvido. Elas são como unha e carne, uma não vive sem a outra. É divertido ver como se dão bem e nunca brigaram. Na verdade é muito impossível não se dar bem com Milla, sempre atenciosa e calma, pronta para ajudar a todos, ela também é a "carne da minha unha", assim como a de Rafa. Definitivamente ela é a pessoa mais amável que eu conheço.
Entrei no meu quarto para pegar os copos e levar à cozinha e dei mais uma arrumada na bagunça. Quando entrei na cozinha Milla já estava lavando o arroz enquanto esperava algumas coxas de frango, que esta-vam dentro de um tapeware, descongelarem no microondas.
- Qual é o prato do dia? – perguntei entusiasmada.
- Capeletti de frango ao molho branco. Sua mãe comprou muitos e já estão vencendo. E para você uma mega salada de todos os vegetais possíveis e imagináveis.
- Mas e aquilo, você vai fazer frango frito também? – perguntei apon-tando na direção do microondas.
- Não, eu vou desfiar para colocar junto ao molho.
- Ah! – caminhei em direção ao fogão, onde Milla agora colocava óleo numa panela pequena onde faria o arroz.
- Você quer ajuda? Eu posso desfiar o frango. – perguntei, apenas por educação, eu odeio colocar as mãos na comida enquanto ainda está crua.
- Sabe como você poderia me ajudar? Dando o fora daqui! Eu não quero ter outra experiência como a das férias passadas. – pegou-me pelo braço e me levou até o sofá.
- Fique quieta aí e vê se não atrai a bomba atômica pra cá, ok? – apon-tou para a cicatriz do meu braço que já não parecia mais tão forte como era antes.
Ela estava se referindo ao meu acidente do ano passado, quando, no primeiro dia das férias, fizemos um churrasco aqui no apartamento e cada uma estava responsável por uma tarefa. A minha, não sei o por-quê, era a de pegar as mandiocas da panela, assim que estivessem prontas. Quando deu o tempo delas ficarem prontas Milla me avisou e eu fui pegá-las. Cheguei à cozinha e vi uma panela grande com um pino em cima da tampa, tirei o pino com um pano, segurei-a pelo cabo com uma das mãos e com a outra apertei a parte da tampa que se en-caixava nele. Ele se desprendeu e eu soltei, mas não aconteceu nada, ela não soltou e a tampa não abriu.
- Milla, não quer abrir! – gritei da cozinha.
- Pára de ser fraca Zah, traga logo a mandioca, nós estamos com fome! – exclamou da varanda. Peguei o cabo com uma mão enquanto a outra segurava a tampa e puxei com muita força. A panela se mexeu para o lado esquerdo, quase caindo do fogão, eu a trouxe de volta e tentei mais uma vez. Puxei com a maior força possível e a tampa finalmente abriu. Mas eu coloquei tanta força que, ao abrir, ela bateu na água fervendo que pulou para fora, queimando toda a parte de cima do meu antebraço direito. Eu dei um grito tão alto que Tayla e Milla estavam dentro da cozinha em menos de um segundo, antes mesmo de eu chegar a pia para me lavar. Como eu iria saber que antes abrir uma panela de pressão eu precisava colocá-la em baixo da torneira ligá-la? Para começo de história eu nem sabia que aquilo era uma panela de pressão, pois nunca entrei na cozinha de casa enquanto minha mãe cozinhava, ela nunca me deixou passar da porta, eu sempre fui um ímã de desastres, desde pequena. Também tinha o fato de eu odiar cozi-nhar. Nunca quis nem aprender. Entro na cozinha de casa apenas quando estou com sede ou vou fazer um lanche, nada de chegar perto do fogão. O mais perto que eu chego de preparar uma comida é colo-cá-la, já pronta, no microondas.
Enquanto mudava de canal sem parar, procurando por algo interessan-te, ouvi a porta se abrir e Tayla entrar em casa sorrindo.
- Adivinhe quanto eu tirei em física? – será que ela pode fazer uma pergunta menos óbvia?
- Deixe-me ver... Am... – fingi estar pensando enquanto passava a mão no queixo. - Está entre dez e dez? – sorri desviando os olhos da televi-são e focando-os nela.
- Como você adivinhou? Eu nunca tiro dez em física. – ainda parada na porta.
- Pelo fato de você ter entrado em casa com uma cara de quem ganhou na mega sena acumulada, e que você iria saber o resultado desta prova hoje. – apontei para a folha que estava em suas mãos. - E outra coisa... – levantei-me do sofá indo à direção da cozinha. – Milla, adivinhe quanto a cenourinha nerd tirou em física! – disse, encostando-me à porta da cozinha.
- DEZ! – disse alto, olhando para mim e dando um sorriso que ia de uma orelha à outra.
- Nossa você acertou! - olhei para Tayla com um ar de deboche. – E como prêmio, você levará para casa uma cenoura de um metro e cin-qüenta e cinco centímetros. – fiz um movimento com as mãos igual ao que as mulheres de programas de auditório fazem ao mostrar os prê-mios.
- Cala a boca Zarah, nerd é a – antes que terminasse a frase Milla a chamou de dentro da cozinha, apontando para a panela de arroz.
- Porque você não me ajuda a fazer o almoço enquanto me conta como foi seu dia?
Milla sempre sabia acabar com nossas brigas na hora certa.
– Não ligue para Zarah, ela só está com inveja de você! Ela sempre usa esta desculpa por que sabe que eu não ligo para este tipo de coisa. Abri um sorriso.
- Vocês querem tereré? Eu sirvo enquanto vocês trabalham. Antes mesmo de elas responderem, entrei na cozinha e comecei a prepará-lo.
Esta era a minha função, a única dentro da cozinha, servir tereré en-quanto elas cozinhavam. Eu gosto de ajudá-las de alguma forma, mesmo que indiretamente. Quando estava tudo pronto peguei os talhe-res, os pratos, a toalha e fui colocar tudo sobre a mesa de jantar, ao lado da sala.
Esta é a rotina de todos os almoços e jantares de nós três, elas cozi-nham, enquanto eu arrumo a mesa e lavo a louça.
Depois de colocar tudo no lugar sentei-me de novo no sofá da sala e continuei a mudar os canais, parando de vez em quando para ver cli-pes.
- Um, dois, três e já... MONTINHOOO! – as duas falaram juntas, cor-rendo em minha direção.
- N – não deu nem tempo de me mexer ou terminar a palavra. Elas já estavam em cima de mim. Primeiro Tayla, depois Milla, pularam em minha direção, uma por cima da outra. Não contentes em me amassar feito panqueca, me derrubaram no chão e começaram a fazer cócegas. Fiquei lá, parada, sem me mexer enquanto elas ficavam me apertando, fazendo caretas e rindo ao mesmo tempo. Elas sempre esquecem que eu não sinto cócegas.
- Pronto? – perguntei quando elas pararam.
- Nossa! Sua insensível. Você parece um ser de outro planeta. – Milla voltou a fazer cócegas, ainda com esperanças.
- Agora é minha vez! – elas olharam uma para a outra, depois para mim e deram um grito tão alto que faria qualquer vidro espatifar-se em mil pedaços.
Segurei as duas pela blusa e comecei a mexer meus dedos enquanto minhas mãos passavam por suas costelas. Mas por pouco tempo, Tayla conseguiu se livrar de minhas mãos e puxou Milla, ao levantar.
- Vamos comer logo, eu já estou verde de tanta fome. – Tayla disse enquanto me ajudava a levantar.
O almoço, como sempre, não foi nem um pouco quieto. Milla pergun-tava a nós o que tínhamos feito semana passada, quando estava em São Paulo com a mãe.
- Eae, Zah, conseguiu arrumar algum namorado este fim de semana?
- Não! E você sabe muito bem que eu odeio namoros! – irritação apa-receu em minha voz.
Qual a necessidade que as pessoas da minha família sentem em fazer este tipo de pergunta a mim? A resposta sempre será a mesma.
- Você sabe muito bem por que não quer namorar mais. Precisa superar isto Zah. – um tom maternal tocou as palavras.
- Não, não sei o porquê, aliás, não existe um por que. Eu apenas não quero namorar e ponto final.
- Zah, você precisa superar a perda do Benício. Eu sei que não é fácil, mas precisa tentar, tenho certeza que ele gostaria de te ver feliz com outra pessoa e não assim neste estado deprimente. Atingiu meu ponto fraco.
- Eu não quero superar. Não é justo isto! Eu não quero Milla! – meus olhos nublaram, uma lágrima rolou.
- Relaxa Zarah, ninguém aqui está te pressionando. – Tayla disse afa-gando minhas costas.
- Me desculpe Zah, não fiz por mal, só pensei que ajudaria se você falasse mais frequentemente nele.
- Não ajuda nem um pouco Milla! – disse entre os soluços e as lágrimas que tocavam minhas bochechas. Levantei-me da mesa indo à direção do meu quarto, batendo a porta com força ao entrar.
-Não vá lá falar com ela Milla, deixe-a pensar um pouco, quando esti-ver pronta ela vai sair de lá! – ouvi Tayla dizer, calmamente.
Este é o tipo de conversa que eu tento evitar no último ano, desde que Benício morreu.
Nós namorávamos desde meus treze anos, éramos da mesma cidade e nos conhecíamos desde bebês. Nossas mães são amigas, por isso, fo-mos criados juntos. Ele sempre me dizia ter certeza que me amava antes mesmo de nascer. Eu nunca me envolvi com outra pessoa, nem pensava na hipótese, pois não conseguiria viver um segundo sequer longe dele, e sabia disso. Nós vivíamos grudados vinte e quatro horas por dia, e um nunca se cansava da companhia do outro. Ele, ao contrá-rio de mim era muito ativo, não parava um minuto sequer, amava ir a festas com nossos amigos e reuniões de família, principalmente as da minha, que, segundo ele, eram as mais divertidas. Todas as pessoas que nos conheciam diziam a mesma coisa, “eu não consigo ver vocês separados!” e todos o adoravam, principalmente meu pai. Para ele Benício era como um filho, andava grudado nele o tempo todo, até eu me estressar e reivindicar a atenção para mim. Meu pai dava mais a-tenção a ele que a mim e minhas irmãs. Isto era muito engraçado, pois os pais geralmente têm um pouco de ciúmes das filhas com os namo-rados e implicam um pouco, e em casa era totalmente ao contrário, qualquer briga tola que tínhamos, ele me dava um sermão e dizia para eu falar com Benício. Quando tínhamos dezesseis anos de idade, ele descobriu que tinha Leucemia.
Tudo aconteceu tão de repente que a ficha só caiu depois que ele mor-reu. Alguns dias antes do meu aniversário, exatamente um mês antes do dele. Foi o dia mais triste de minha vida, parecia que mil facas ha-viam sido enfiadas em meu coração, eu não conseguia respirar, fiquei pálida e às vezes hiperventilava sem parar. Fiquei fora de mim por alguns dias até digerir tudo. Não falava com ninguém, não comia e sentia como se isso nunca fosse passar. A pior sensação do mundo. Perguntava-me várias vezes durante o dia: “por que ele e não eu?” ele amava tanto viver, aproveitava ao máximo, ao contrário de mim que não dava a mínima em aproveitar. Tinha tantos planos futuros e tantas pessoas que o amavam. Eu nem sabia o que faria no dia seguinte, meu único plano era casar-me com ele depois de formada e ter muitos fi-lhos.
Hoje em dia tenho aversão a relacionamentos, minha mãe diz que é uma espécie de trauma causado pela perda e que eu não preciso me apressar, pois me recuperarei quando estiver pronta. A única pessoa que me entende. Mas eu duvido muito que consiga namorar alguém depois de tudo o que aconteceu. Todos os meninos que conheci e ten-tei me relacionar depois de sua morte, eram muito insignificantes perto dele, é como se eu estivesse formando uma barreira sentimental que me impede de tentar ter outra pessoa como namorado. Eu bem que tentei, mas tudo era motivo para me machucar ainda mais, eu fazia comparações o tempo todo, o beijo não era o mesmo, o toque, o cheiro, o jeito como falava comigo, tudo me lembrava ele. Só dificultava ainda mais a situação, pois ao mesmo tempo em que eu sabia que não poderia esquecê-lo eu sabia que um dia iria me envolver com outra pessoa e o sentimento iria desaparecer com o passar dos anos. Fiquei parada em frente ao meu note book esperando as musicas começarem a tocar. Abri a pasta das minhas favoritas e dei play na primeira, Smile - McFly, os meninos mais fofos e engraçados que já vi. A música diz tudo o que Benício vivia me dizendo enquanto namorávamos. Deitei em minha cama fechando os olhos, apenas sentindo a música. Mil memórias passavam em minha mente agora, eu sorri das lembranças boas enquanto lágrimas tristes tocam minhas bochechas. Não demorou mais que alguns segundos até as duas baterem à porta. Levantei-me e fui ver o que queriam.
- Abra esta porta Zah, não pode tê-los só para você! – disseram em coro
-Não! Deixem-me em paz!
- Por favor, Zah, nós também queremos ouvir a música. - Milla gritou do outro lado da porta.
- Tudo bem. Vou abri-la! Mas esperem alguns segundos. Sequei al-gumas lágrimas, aumentei ainda mais a música e me dirigi à porta novamente. Ao abri-la, fui puxada para fora do quarto, Tayla e Milla estavam dançando e cantando, desafinadamente, bagunçando meu cabelo e tocando os dedos em meus lábios, forçando o sorriso nas par-tes “Smile, smile, smile...”.
Quando dei por mim, já estávamos no meio da sala de televisão dan-çando e cantando em voz alta. A música acabou e nos sentamos no sofá dando gargalhadas.
- Vocês não prestam mesmo! – disse entre risos.
- Nunca dissemos a você que prestamos! – disse Milla.
- Na verdade, eu sou a única aqui que presta. Vocês são as loucas e eu a normal! – Tayla disse, num rosto sério, que a traiu no último instante, dando lugar a um sorriso enorme movimentando todos os músculos de sua face.
Ficamos assim, sentadas no sofá sem fazer nada, durante muito tempo. Conversamos algumas vezes e outras apenas nos olhamos. Não preci-samos de palavras para nos comunicar, apenas um olhar já diz tudo. O dia passou num piscar de olhos.
Senti-me enjoada pouco depois do almoço. Estava sentindo náusea e o meu almoço decidiu sair do meu estômago. Apesar de durar somente algumas horas, foi o suficiente par deixar Milla preocupada, mas ela teve de ir embora para casa, por volta das 15h30min, quando Glenda ligou lembrando-a que estava na hora de irem ao shopping, como ha-viam combinado ontem à noite.
Milla disse que ligaria quando voltasse do passeio, para saber como eu estava.
Precisei de apenas alguns minutos com a louça suja. Depois de secar e guardá-la limpei a cozinha e fui ao meu quarto encarar aquela enorme bagunça. Gastei toda a minha tarde reorganizando e limpando-o em seguida. Já era à noite quando, finalmente, terminei de limpá-lo e es-tava cansada demais para fazer outra coisa que não fosse dormir. Tayla estava na sala vendo televisão quando eu passei em direção à cozinha, para tomar água.
- Você já vai dormir? – perguntou, sem tirar os olhos da televisão.
- Já! Eu estou morta de cansada e tenho aula no laboratório amanhã, preciso estar cem por cento recuperada do sono. – sentei-me no encos-to do sofá enquanto falava.
- Eu vou enrolar um pouco, minha aula amanhã só começa às nove e meia. Terá reunião de pais e mestres. – disse fazendo movimentos com os ombros.
- A Milla ainda não ligou? – perguntei
- Ela acabou de ligar, mas eu disse que você estava melhor, ela disse que se você se sentisse mal novamente era para ligar para ela.
- Tempestade! – sorri
- Sempre. – disse Tayla – Se não fizer tempestade em copo d’água, não é ela.
A minha irmã mais velha é a garota mais desconfiada, com doença, que eu conheço.
Levantei-me e fui para a cozinha, em passos lentos e preguiçosos, to-mei um copo de água e aproveitei para olhar no relógio do microondas que marcava oito e trinta e um. Fiquei lá parada até mudar o horário e saí da cozinha.
- Boa noite Laranjinha, até amanhã! – disse a última palavra em meio a um bocejo.
- Boa noite, Zah! - disse sorrindo.
11 comentários:
perfeito *-*
maaaaraaaaaaaaa *-*
Oieeeee... parabéns, li já um bom pedaço ... BEM LEGAL, parece que estou na nossa mesa almoçando...hehehe. Se me permite uma dica, inverta as cores, deixe o fundo claro e as letras escuras, pois com as letras claras está cansativo para ler. Mas novamente PARABÉNS. Beijocas Hamilton
Oi Iara!
Nossa!!! Estou ainda muito admirado por conta do seu texto (apesar de não ter lido tudo).
Parabéns pela iniciativa, criatividade, vocabulário...
Virei fã, estou surpreso e agradavelmente admirado!
Valeu! Beijos e muito sucesso!!!
Nossa mtooo bom! Não vejo a hora de ler os próximos capítulos! A história além de divertida e empolgante, valoriza nossa linda cidade, Bonito.
Parabéns pela iniciativa! Tenho certeza que seu livro fará mto sucesso!
Beijos da sua bi-primaaa que te ama e admira,
Ane :)
muito divertido!
caaarambaa que textaao iaraaaa!
paarabéns *-*
ele é otimoo :D
suadades
Oie,não sabia da historia mas agora vou ler tudo.. ;*
ATOROM PERIGON
Mtuuu booom, todo mundo devia leeer pq eh super bem escrito não só pra quem gosta dessas coisas de magia como Harry Potter mas também a todos que gostam de ler um livro divertido e que com certeza vai se identificar em mtas partes! Parabenns
Nooosss...AMEEEEII...ow posta os outros caps! vc vai publicaaa? Adoreeei....vo recomendaaa! =]
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