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domingo, 8 de novembro de 2009

Cap. 7 Quem é Muriel?

Desamarrei a fita de couro e, rapidamente, desenrolei a carta.
- “Origem guardada em coração puro”.
- “Origem guardada em coração puro”. – repetiu. Correu os olhos sobre a grande mesa de madeira. – Tudo bem. – suspirou – Coração puro é uma pessoa boa, não é? – isto não era uma pergunta. Ela nem ao menos esperou que eu respondesse. – Então nós precisamos saber quem, nas lendas que eu li, tinha coração puro. – de repente, sua expressão mudou. De satisfação para incerteza.
– Ou pode ser uma pessoa ingênua. – arqueei as sobrancelhas.
- É! – sorriu, impressionada - As pessoas ingênuas não vêem maldade em nada. Isto as faz ter o coração puro – concordou. – Mas... Eu não me lembro de lenda alguma contendo UMA pessoa ingênua, especificamente. Têm várias, onde os Sidh enganam os humanos intrometidos, mas não há uma lenda que diz o nome de um destes humanos.
- Você tem certeza?
- Não completamente. – coçou a cabeça, em busca de lembranças – Será que aqui tem internet?
- Olhe para isto, Tah. – mostrei a sala - Você acha mesmo possível haver internet aqui? Provavelmente não tenha nem televisão! – reclamei.
- Como nós vamos saber de que lenda seu pai está falando?
- Não sei.
Tayla fez o mesmo que eu. Ficamos caladas alguns minutos, esperando algo cair do céu.
- É isso, Zah! – sorriu – Como eu sou idiota! Como não pensei nisso antes? – fitou-me.
- Mas... eu... eu disse alguma coisa? – arqueei as sobramcelhas.
- Não, você não disse nada, como sempre! – sorriu, novamente.
- Ah.
- Zarah, nós estamos na sua casa. – apontou.
- Não me diga! – debochei.
- Zarah, sua casa é o lugar com mais livros que eu já vi. E todos os livros são sobre os Sidh.
- Você não está querendo procurar em todos os livros. – fitei-a - Está?
- Não. Lógico que não!
- Ufa!
- Não precisaremos procurar em todos eles por que essa lenda não é sobre um dos Deuses. Sendo assim os diários dos Deuses estão descartados. – sorriu. – Isto faz nossa procura cair um terço. – fez sinal com as mãos.
- Ah. – repeti seu sinal – Cair um terço? Que ótimo saber. Nós temos quantos livros agora? Duzentos mil? – usei a melhor cara sarcástica que pude.
- Não exagere Zarah!
- Não estou exagerando! – franzi a testa.
- Agora você parece uma criança teimosa. – divertiu-se.
- Acho melhor nós começarmos, já que o tempo é tão curto.
- Por onde começaremos?
- Você é o cérebro da operação. – coloquei os dedos sobre sua cabeça.
- Pare com isso! - protestou
Retirei meus dedos. Ela esfregou um pouco a testa, provavelmente pensando qual o melhor lugar para começar.
- Eu já sei aonde nós iremos primeiro.
Virou-se, na direção oposta à que entramos, passou por uma grande porta e seguiu em frente no corredor. Segui, logo atrás, perguntando-me para onde estávamos indo. Passamos por algumas portas fechadas, duas grandes salas, sem portas, e chegamos ao fim do corredor. Tayla parou em frente a uma enorme porta de madeira.
- O que foi? – perguntei, depois de perceber que ela não abriria a porta.
- Abra! – disse Tayla, olhando-me.
- Por que você não abre?
- Eu não posso. – isso pareceu incomodá-la.
- Por que não?
- Por que eu não sou um Sidh. Elas não permitem que humanos as toquem. – correu os olhos para o chão.
- HA.HA. Se eu te colocar numa dessas salas e fechar a porta você nunca mais sai? – sorri.
- Cale a boca, Zah! – deu um tapa no meu ombro.
- Se você me bater de novo eu te coloco dentro de uma sala dessas e nunca mais volto. – ameacei, divertindo-me.
- Abra logo, Zah! - revirou os olhos
Apesar de grande e intimidadora, a porta não era pesada. Havia uma maçaneta, redonda, de vidro, com dizeres antigos que se pareciam mais com as escritas de dentro das pirâmides do Egito do que latim.
Ao entrar na sala tive uma sensação boa. Parecia que meu corpo reconhecia aquele lugar, e que estava feliz em revê-lo.
Aquilo não era uma sala com as outras, tinha uma grande figueira no centro, uma enorme cúpula de vidro no lugar do teto, permitindo que os raios do sol inundassem a sala, e inúmeras estantes lotadas de livros de todos os tamanhos e espessuras. Havia centenas de estantes de madeira abarrotadas de livros antigos. A sala, ou biblioteca, era tão gigantesca que, de onde estávamos não dava para enxergar todas as prateleiras. Não havia janelas, mas, apesar de parecer uma estufa, o local era bem fresco e arejado. Em volta da árvore havia grama e algumas flores, desconhecidas por mim, mas a grama se acabava antes mesmo de chegar perto de onde estavam as grandes estantes cheias de livros antigos. Apesar de não haver janelas havia uma parede de vidro, desenhado, transparente, atrás da árvore, com a ilustração de um antigo mapa. As estantes de livros estavam organizadas bem próximas umas das outras, algumas em fila indiana e outras encostadas, ocupando todo o espaço das paredes.
- Por onde começaremos? – perguntei, sem fôlego.
- Eu não sei. – Tayla também estava impressionada.
- Você nunca esteve aqui? – fitei-a.
- Não. – disse, caminhando até onde começava a grama.
- Como você sabia da existência dessa biblioteca?
- Berserker me disse, ontem à noite.
- O que ele disse?
- Que no fim do corredor da sala de jantar havia a maior biblioteca do castelo. – desviou os olhos da grande figueira e seguiu em direção às estantes, rapidamente.
- Aonde você vai? – tentei segui-la.
- Tentar desvendar a pista. – gritou de onde estava.
Elise desceu do meu ombro, apressada, logo depois de ver as pequenas flores na grama. Correu, em passos engraçados, até a grama e começou a correr enlouquecida entre os raios de sol. Perdeu totalmente o medo de me perder, pelo menos por enquanto.
Isto é bom, mesmo que seja por algumas horas, assim eu conseguirei ajudar Tayla sem ser incomodada.
Tayla pegou vários livros de uma estante que continha os livros mais velhos de toda a biblioteca. Ela os colocou sobre uma das elegantes mesas de madeira perto da figueira e começou a lê-los. Fiz o mesmo. Peguei o máximo de livros que agüentava e comecei a ver os sumários. Tayla pediu que eu lhe mostrasse cada nome de capítulo, antes de começar a lê-lo, para não perder tempo em coisas desnecessárias. Enquanto ela lia, fazia sinal com o polegar, dizendo se eu podia ou não ler aqueles capítulos. Ficamos lá, lendo, por muito tempo, mas não encontramos nenhuma lenda como a que nós procurávamos. Todas elas eram sobre Sidh enganadores de humanos, uma penca de garotas ingênuas e virgens, homens à procura de um pouco de romance proibido, caminhos sem fim, feitiços e mentiras. As lendas não continham nomes, nem sequer dos Sidh. O último livro da minha pilha, a quinta, para falar a verdade, o qual tinha o nome “Janas” escrito na capa, fez os olhos de Tayla brilharem. Ela o tomou de mim, leu rapidamente o sumário e soltou um imenso sorriso.
- Eu acho que encontramos! – mostrou um capítulo intitulado “Almas condenadas”.
- O que isto tem a ver? A pista não fala nada sobre uma alma condenada. – critiquei, apontando o título.
- Era esta lenda que eu estava procurando Zah! Eu não me lembrava o título, pois no dia em que a li tinha mais uma porção de outras lendas misturadas, mas agora eu me lembrei. Janas. Este era o nome da lenda!
- Será que é esta? Você tem certeza? – desafiei.
Torci para que fosse aquela lenda. Ah, como torci. Nem os Deuses tem noção o quanto era grande a minha torcida.
Eu nunca me dei muito bem com livros de lendas e todas aquelas coisas mágicas. Só o fato de eu ter lido mais ou menos cinco pilhas de livros com este contexto, tive um pouco de náuseas e dor de cabeça. Nós ficamos tanto tempo sentadas naquela mesa, lendo, que o sol já havia se escondido e Elise já voltara para perto de mim. Ela estava dormindo de barriga para cima, toda gorda e esparramada, sobre o livro das ninfas azuis.
- É esta sim! – fuzilou-me com os olhos – desde quando você duvida tanto assim da minha capacidade de lembrar das coisas?
- Não estou duvidando, Tah. Eu só estou perguntando.
Ela conseguiu me intimidar.
- Eu vou ler este capítulo em voz alta. – deu um pigarro – Começarei daqui. – apontou para o meio da página. – Este começo é pura embromação.
- Comece, então. – pedi, revirando os olhos.
Tayla puxou um pouco de ar e começou.
- "As Janas são seres condenados. São garotas enganadas e roubadas para sempre. São as almas de donzelas que foram deixadas a guardar tesouros. A Jana pode aparecer sozinha, acompanhada de outras Janas encantadas, ou de um Sidh. Geralmente enganadas por um Sidh, Elas têm suas almas aprisionadas em uma cripta de pedras brancas perto de um riacho. Aparecem junto de nascentes, fontes, pontes, rios, poços, cavernas, antigas construções ou velhos castelos. Se você vir uma delas, perceberá que, não muito longe, está sua cripta. As Janas aparecem sempre segurando um baú de madeira. No baú há um tesouro, que ela protege como se fosse sua própria vida, em troca de um dia ter sua alma de volta. Existem diferentes meios de se obter o tesouro: pode ser oferecido pela Jana como recompensa, roubado, ou achado. Sempre que você encontrar alguma delas perceberá que ela é apenas um corpo sem vida, sem alma. Para realizar o desencantamento é solicitado um segredo, um beijo, o pronunciamento de algumas palavras, ou a realização de alguma tarefa. Falhar é não desencantar a Jana e 'dobrar o encanto' ou não obter o tesouro desejado.
- V... você acha... que... que meu pai roubou a alma de uma garota... por que precisava que alguém de confiança guardasse a segunda pista? Ele não seria capaz de uma coisa tão horrível como essa. – levantei meus olhos até ver o rosto sardento - Seria? – senti meus olhos inundarem. – Isto é coisa de gente baixa, Tah. De gente má. – não pude conter as lágrimas. – Esta não deve ser a pista certa!
- Não temos certeza, Zarah. Não é certo sair por aí tirando conclusões precipitadas. – me abraçou, aninhando-me em seu tórax.
- As evidências estão aí, se estivermos certas. É claro que ele enganou uma garota. – comecei a soluçar. Tirei meus óculos antes que embaçassem.
- Eu não vi evidência alguma. – Tayla continuava com a voz calma.
Aquilo me deixou um pouco mais aflita.
- Está mais do que na cara! – fiz o tom de minha voz subir dois terços.
- Não, não está! Seu pai não se aproveitou de alguma alma já condenada! – desafiou-me. – Ele não seria capaz de fazer mal nem à uma mosca.
Aquilo fez o pequeno Chinnuril acordar assustado. Elise pulou, aflita, no meu colo, fazendo aqueles barulhinhos engraçados. Tentei acalmá-la, ainda prestando atenção no que Tayla dizia.
- O que você quer dizer com isto? – pisquei várias vezes, expulsando as grossas lágrimas que desfocavam minha visão.
- Nós duas sabemos que seu pai é um homem bom. – abaixou mais o tom de sua voz.
- Ele poderia estar enganando a todos. – rolei os olhos até Elise.
- Zarah, e se eu te dissesse que nós acabamos de passar para a pista 2?
- O que? – desviei meu olhar, até encontrar o de Tayla. Ela estava radiante. – O que você quis dizer com “acabamos de passar para a pista 2”?
Tayla não disse nada. Ela pegou o livro de cima da mesa e apontou com o dedo.
Coloquei meus óculos imediatamente.
No meio da página havia um pequeno pedaço de papel. O nome Muriel estava escrito de caneta preta, na mesma elegante caligrafia da minha carta.
- Quem é Muriel? – perguntei, sentindo uma leve dor de cabeça.
- É o que precisamos descobrir. – Tayla parecia mais nervosa que antes. – Vamos sair daqui. – cochichou em meu ouvido
- O que foi? – perguntei no mesmo tom.
- Eu acho que tem alguém atrás da porta. Eu ouvi alguma coisa. – alertou.
- Tipo o que?
- O tipo de coisa que uma pessoa de bem não faz! – apressou-se – Vamos, levante-se. Isto deve ter outra saída.
- Tayla, você está louca? Não tem ninguém atrás da porta. – sorri. Ainda sussurrando, como ela fazia.
Elise pulou da palma, lançando-se em direção à porta. Tayla tentou alcançá-la mas chegou tarde demais, e eu estava, ainda, na metade do caminho. O pequeno Chinnuril passou as mãozinhas na porta e começou a arranhá-la, fazendo um barulho muito ruim. Eu a peguei no colo, levei a mão à maçaneta de abri aporta. Tudo isso em poucos segundos.
Tayla tinha razão. Havia alguém atrás da porta.
Apertei Elise em minha mão, num susto, após abrir a porta e dar de cara com um rosto não muito agradável e desconfiado. O pobre Chinnuril soltou um grito tão alto, que me fez voltar rapidamente do estado de choque. Eu não sabia o nome da pessoa que me deixou daquele jeito, só a tinha visto duas vezes durante o almoço. Ela era a mãe de Noba e, segundo Aine, a “faz tudo do castelo”.
- Nem precisei bater. – disse a mulher, sorrindo. Aquele não pareça o sorriso de alguém que estava planejando algo errado.
- A... Se... Senhora quer alguma coisa? – perguntei. Recuperando-me do susto.
- Vim perguntar se vocês duas estão com fome.
- Est-
- Não! – respondeu Tayla, rapidamente, interrompendo-me. – Quer dizer. – desviou o olhar – Ainda é cedo, né! – pigarreou.
Não entendi o que ela quis dizer com aquilo, mas, se tem uma coisa que eu aprendi em todos estes anos foi que é melhor não contrariá-la.
- Eu não estou com tanta fome assim. – soltei um meio sorriso.
A mãe de Noba pareceu um pouco insatisfeita com minha resposta. Ela soltou um meio sorriso e disse:
- Bem, se vocês precisarem de alguma coisa é só me chamar.
- Nós chamaremos! - sorri
A mulher não pareceu muito feliz em ir embora. Demorou um tempo a se locomover de perto da porta. Várias vezes seguidas ela mudou seu olhar, entre mim, Tayla e o lado de dentro da sala.
Tayla passou à minha frente e serrou os olhos na mulher.
- Mais alguma coisa? – perguntou, soltando o sorriso mais falso que eu já vi.
- Não. – respondeu a mulher, entre dentes.
Sem esperar que a mulher se locomovesse Tayla soltou a maçaneta, trocou sua mão pela minha e a empurrou até a porta se fechar.
- Ai. – exclamou, sacudindo a mão.
- O que foi?
- Não posso tocar as portas. Lembra?
- Ela... tentou te queimar? – notei um círculo vermelho na palma de sua mão.
- Elas não gostam de humanos. – sorriu sem graça.
- Tah. Por que você tratou a mãe da Noba daquele jeito? – a segui de volta à mesa de estudos.
- Você não viu o jeito que ela te olhava? Parecia que você tinha descoberto algum segredo dela. Achei até que fosse te bater. – alertou-me, como se eu tivesse perdido alguma parte da rápida conversa.
- Eu não vi nada. – coloquei Elise na outra mão - Aliás, dona Tayla, você precisa parar de achar que todos no mundo estão conspirando contra você! – toquei a ponta de seu nariz.
- Eu não acho que o mundo inteiro é uma conspiração, Zarah Luna! – serrou os olhos – Você é que vê o mundo de um jeito ingênuo demais. Você nunca acredita que as pessoas sejam capazes de cometer maldades. – repetiu meu movimento.
- Tudo bem. – levei Elise perto de minhas bochechas – Seu mundo é mal e o meu é bom. - sorri
- Francamente, eu não sei como agüento você! – fechou o livro, juntou-o aos outros da mesa, fez uma pilha e dirigiu-se às prateleiras.
Eu fiz o mesmo. Deixei minha bolinha de pêlos, reclamona, sobre a mesa, fiz minha pilha de livros e segui até as prateleiras.
Limpamos a mesa em menos de cinco minutos.
- Você tem idéia de onde o Leprechaum esteja?
- Não sei. Ele disse que ia à cidade. – dei de ombros – Por quê?
- Precisamos saber quem é Muriel. Ele deve saber quem é.
- Ele disse para chamarmos a Kika se precisarmos de alguma coisa enquanto ele não estivesse aqui. – lembrei.
- Chame-a! – Tayla parecia mais aflita que eu.
Concentrei-me, repeti seu nome várias vezes e, de repente, aconteceu um pouco desagradável.
Era como se minha consciência estivesse falando comigo, na voz de Kika. Foi uma experiência engraçada e perturbadora ter uma voz, que não seja a minha, em minha cabeça. É tipo de coisa que eu nunca irei me acostumar.
- Você conseguiu falar com ela? – senti Tayla me sacudir. Seu humor ainda não mudara.
Desfoquei por alguns segundos, recuperando-me da conversa inusitada.
- Ela disse para nós voltarmos ao meu quarto.
- Ela falou com você... pela sua mente?
Assenti, ainda extasiada.
- Agora entendi por que você está aí com esta cara de quem viu um fantasma! – sorriu – Ela disse mais alguma coisa?
- Só isso.
Dez segundos de silêncio. Tayla não parava de olhar a parede de espelhos atrás da grande figueira.
- O que faremos? Ela pediu para não demorarmos. – toquei seu ombro.
- Faremos o que ela pediu. – disse sem me olhar.
Tayla seguiu em direção a porta, vagarosamente. Parecia não estar muito empolgada em continuar seguindo as pistas.
Saímos da sala e fizemos o mesmo caminho, para voltar ao meu quarto. Passamos pela sala de jantar, pegamos minha nova mochila, subimos as escadas, entramos no imenso corredor da linda sala de música e da velha poltrona vermelha. Tayla não disse uma palavra até chegarmos ao meu quarto. Todas as vezes que eu a olhava ela soltava um meio sorriso, sem graça, e voltava em seus pensamentos. Seu olhar dançava entre duas emoções diferentes. Algumas vezes parecia resolver cálculos de física avançada, outras vezes sua feição era de desprezo e repugnância.
Enfim chegamos ao um quarto. Abri a porta a deixei entrar primeiro. A Laranjinha Sardenta ainda estava com aquele olhar matadora de aluguel. Em seu rosto não havia sinais de felicidade ou algo perto disso.
Tayla entrou no quarto, ainda pensativa, dirigiu-se até a chaise ao pé da cama, deitou e lá ficou. Seus olhos fitavam o teto e uma ou dias vezes ela olhava em direção ao mezanino lotado de livros.
- O que houve com ela? Vocês discutiram? – perguntou Kika, num tom baixo.
- Eu não sei, não falei nada a ela. Acho que deve ser a mão, a porta da sala de livros a queimou. – lancei o olhar para a coisinha laranja estendida sobre a chaise. Mas ela não parecia preocupada com a leve queimadura em sua mão.
- Ela está muito machucada? – Kika deu alguns passos para dentro do quarto, preocupada com Tayla.
- Não se preocupe, só ficou vermelho, nem saíram bolhas.
- Por que ela tentou abrir a porta, ela sabia que seria impedida.
- Foi um momento de descuido. Tayla estava muito apreensiva com a presença da mãe de Noba. Chegou até dizer que a coitada estava nos vigiando. – usei um tom irônico.
- Mas o que fez Tayla pensar isto de Grianna? – Kika parecia muito interessada no rumo em que nossa conserva havia tomado.
- A Tayla é louco, a... – dei uma pausa - Grianna?
Kika assentiu.
- ela só foi perguntar se nós estávamos com fome.
- Não aconteceu mais nada? Eu não a conheço tão bem quanto você, mas tenho certeza que Tayla não é de tirar conclusões precipitadas. Grianna deve ter dito algo, sem que você perceba, que ela não gostou de ouvir.
- Não, ela não disse nada. – forcei a memória, mas fui incapaz de encontrar algo que deixaria Tayla magoada.
- Tayla não te disse nada? – perguntou apreensiva.
- Ela disse que tinha alguém nos escutando do outro lado da porta. Eu fui até lá, abri, e vi Grianna.
- Mais nada?
- Acho que não.
- Ela agiu como se tivesse sido pega de surpresa?
- Não. Mas ela não parecia muito feliz. – lembrei-me.
Kika permaneceu calada, pensativa, alguns segundos.
- Talvez sua irmã esteja certa. – alertou.
- Talvez não. – respondi insegura – Tayla sempre acha que todas as pessoas do mundo são más. Vive se metendo em encrenca por isso. – minha voz saltou dois terços, assim como a rapidez que as palavras saíram.
- Garanto que ela quase nuca está errada.
- Isto é verdade. – refleti
- Não acha que está na hora de dar mais crédito ao que ela diz? Você não percebe que ela está fazendo de tudo para você ter seus pais de volta? Ela viajou um dia inteiro em cima de um Grifo segurando sua mão enquanto você se contorcia de dor. Sozinha, aos quinze anos de idade, ela enfrentou o conselho dos anciãos do reino que não queriam que ela ficasse aqui. Você sabe por que eles a deixaram ficar? – perguntou, segurando meu olhar em seus olhos penetrantes. Nem parecia uma adolescente de dezoito anos. Ela falava como Valentina.
Fui incapaz de dizer uma frase sequer.
- Por que essa garota de apenas quinze anos prometeu lhes entregar todas as lembranças que tiver daqui. – seu tom continuou baixo, porém áspero.
Arregalei meus olhos, espantada.
Nunca pensei que Tayla fosse capaz de fazer algo assim por mim. Perder as lembranças deste reino só para que a idiota aqui, que nem ao menos acredita nas coisas que ela diz, tivesse sua família de volta.
- Se não bastasse tudo isso – continuou -, ainda dormiu sentada na poltrona ao lado da cama esperando você melhorar. Ela fez tudo isso para que você, que nunca presta atenção ao que ela fala, tivesse a chance de ser feliz.
- Eu-
Kika interrompeu-me.
- Eu ainda não terminei.
Meus lábios se fecharam imediatamente.
- Sua avó Aine me pediu pra ficar de olho em Tayla.
- Por quê? – fechei a boca rapidamente. Esperei que ela não se zangasse.
Não pretendo estar perto quando essa cruza, mutante, de fênix com leão da montanha se zangar.
- Por que ela é apenas uma humana indefesa, e é a humana mais inteligente que nós já conhecemos. Alguém pode fazer mal a ela. Nunca ouviu falar que “o ignorante vive mais que o sábio”?
- Você está me dizendo que ela pode estar em perigo por que... Sabe demais? – diminuí mais o tom de voz, para que Tayla não ouvisse.
- Exatamente! Zarah, seu tio não conseguiria entrar no castelo, as duas vezes em que seus pais sumiram, se não contasse com a ajuda de alguém do reino. – sua respiração alterou – Tayla já havia tirado essas conclusões antes mesmo de virmos para cá. Ela acha que seu tio só conseguiria entrar se alguém daqui de dentro do castelo o ajudasse. Ela só não sabe quem.
- Mas você acha que Grianna seria capaz de trair meus pais deste jeito? – as palavras não saíram num tom amistoso.
- Eu não sei Zarah, não acredito que seja verdade, pois ela trabalha há tanto tempo com sua família. Não acredito que seja ela. Antes de vir para cá, Grianna cuidava da casa de Aine e Berserker.
Senti meu coração acelerar e meu rosto esquentar. Uma onda de aflição e raiva dançou desde a ponta dos meus pés até o último fio de cabelo.
Kika percebeu a mudança no meu rosto.
- Por via das dúvidas eu estou de olho nela o máximo de tempo que posso. Não se preocupe. Você precisa se focar em desvendar as pistas de seu pai e deixar que do resto eu cuide.
Assenti.
- Conhece alguma Muriel? – lembrei-me
- Ela falou com você? – o grande Grifo parecia aflito
- Não. – sentei no chão à sua frente – A próxima pista está com ela.
Kika abaixou-se lentamente até que seus olhos ficassem na altura dos meus. Seu olhar, antes preocupado, agora estava com um brilho diferente, como se um peso tivesse sido tirado de suas costas.
- Coloque Elise no chão. – ordenou
Sem entender, tirei Elise do meu ombro, na marra, e a coloquei no chão. Ela começou a protestar.
- Elise, não faça isso! – forcei uma cara brava.
Não adiantou nada. Elise continuou colada em mim.
Kika lançou um olhar de dar medo em qualquer um. O pobre chinnuril ficou espantado, correu, de um jeito engraçado, e subiu no colo de Tayla.
- O que aconteceu? – ela perguntou. A pequena “pluninha” branca em suas mãos estava de olhos arregalados, alternando o olhar entre mim e Kika.
- Fique com ela – ordenei.
- Não importa o que aconteça, não a solte. – disse a grande ave
- Tudo bem. – Tayla a segurou firme.
- O que eu lhe mostrarei agora é muito importante e terá de ficar entre nós. – seu hálito de flores do campo tocou cada milímetro do meu rosto, me deixando fora de mim por segundos.
Todo o quarto movimentou-se como um ciclone enquanto nós permanecíamos imóveis. Aos poucos a imagem mudou, dando lugar a uma linda paisagem verde esmeralda alternada entre milhares de macieiras e aveleiras, salgueiros, carvalhos, olmeiros e bétulas e várias outras árvores e plantas postas em longas filas e colunas. Parecia que cada uma havia escolhido seu lugar na fila e obedecesse à linha reta que se formava nos espaços vazios entre elas.
Estou incrivelmente impressionada com a minha capacidade de diferenciar toda aquela variedade de árvores que eu nunca tinha visto pessoalmente. Era como se eu fizesse parte de toda aquela floresta organizada. Era como se ela dependesse de mim e eu dela. Me senti livre e mais saudável.
- O que é tudo isso? – respirei fundo o ar que a grande quantidade de clorofila exalava. Fechei os olhos, respirei mais algumas vezes, esperando a resposta.
- Esta é Dinniúntt.
- Estou sem a tecla sap. – sorri ironicamente
- Como é?
- Eu não entendi o que disse. Você falou grego? – sorri novamente
- Não Zarah. É a língua que todos falam aqui. Nossa língua mãe.
- Por que, se todos falam português? – fucei meu cérebro, esperando alguma memória que respondesse minha pergunta.
- Bem, nós estamos na terra dos Sidh. É normal que todos aqui falem esta língua.
- Por que eu só ouvi falarem português?
- Ah! Nós falamos muitas línguas. – deu uma pausa – “Falar” não é a palavra certa para o que eu faço, mas tudo bem. –
- É – refleti.
Kika encarou-me, mas havia uma espécie de sorriso escondido no grande bico e em todas aquelas penas.
- Aprendemos desde pequenos, apesar de o português ter sido adicionado à nossa lista somente na época em que descobriram que Bernardo fora escondido no Brasil.
- Vocês falam todas as línguas do mundo? – perguntei impressionada.
- Não todas, mas uma boa parte delas. Não somos obrigados a aprender, apesar de a grande maioria dos Sidh fazer questão.
- Em que lugar da Irlanda nós estamos?
- Nos limites dos Anéis de Aine. Não existe um lugar certo para os Anéis, é sua avó quem determina o lugar, estamos sempre mudando de cidade. Pode-se dizer que somos nômades. – a voz mudou para um tom divertido.
- Por que você me trouxe para cá? – lembrei do principal motivo de estarmos aqui.
- Como assim, Zarah? Este é o seu mundo. Você precisa salvar seus pais. – a doce ave deu lugar a um leão aborrecido.
- Eu não quis dizer para dentro dos Anéis. Perguntei sobre esta floresta. - apontei
O leão voltou a ser a calma e delicada ave de antes.
- Ah. – sentiu-se envergonhada pela ação precipitada - Eu te trouxe aqui para mostrar algo que seu pai me deu antes de te esconder.
- Uma floresta? – fiz cara de desprezo
- Pare de ser tão... Tão adivinha! – seu humor fez o leão tentar sair.
- Desculpe. – disse rapidamente, tentando evitar que o leão ganhasse a briga com a fênix.
- Desculpas aceitas.
Kika desviou os olhos dos meus, o que me deu certa segurança, e fixou sua visão até depois das grandes árvores. Eu segui seu olhar, atenta a não perder detalhe algum.
Aos poucos as árvores ficaram cada vez mais próximas. Era como estar parada em uma grande e movimentada estrada de mão única, na contramão, com muitos carros passando em alta velocidade ao nosso lado.
Todo aquele movimento de galhos e folhas me deu uma leve vertigem.
- É meio... – arfei - rápido isso, né. – sentei, coloquei a cabeça entre os joelhos, esperei a tontura passar e a respiração voltar ao normal.
A grande ave-mamífero não desviou os olhos das árvores um segundo sequer.
- Você já pode olhar. – inclinou-se até tocar, de leve, o bico em minha cabeça.
Levantei lentamente, temendo sentir náuseas.
- Nossa!
Kika havia nos levado para dentro da floresta, perto de um riacho repleto de pedras com musgos, algumas cachoeiras e muitas árvores num tom de verde tão lindo que dava vontade de tocar para ter certeza de que não era apenas uma ilusão.
- Isto é... – não encontrei a palavra certa para descrever aquele lugar. Se eu dissesse incrível, seria uma ofensa a tal beleza.
- Repugnante. – era o leão quem falava agora.
- Repugnante? Eu não diria isso, diria extraordinário, sobrenatural, magnífico, impressionante ou qualquer sinônimo.
- Como pode achar extraordinário um ato tão cruel quanto este? Naquele momento, se a parte leão de Kika fosse a da frente, ela teria me mostrado todos os dentes e ainda soltaria um bom rugido.
- O que você tem contra a natureza? – perguntei incrédula.
- Não é a floresta. – apontou a cabeça na direção da maior das cachoeiras.
- O que eles estão fazendo?
Havia quatro homens armados com lanças esperando algo sair de dentro da grande cachoeira. Eles vestiam camisas, sem botão, brancas e encardidas e botas de couro aparentemente feitas à mão e sem acabamento algum. Um deles era bem alto e forte, tinha cabelos negros e olhos verdes. O outro, ao seu lado, também muito forte, era pouco mais baixo, tinha cabelos castanhos e barba por fazer e um tom de pele muito claro. O terceiro homem, a meu ver, era gêmeo com o segundo, pois as feições eram praticamente as mesmas: cabelos castanhos, forte e pele branca. Exceto pela ausência da barba e estar pouco acima do peso. O que estava mais perto da cachoeira não era forte como os outros, mas era alto como o primeiro homem. Tinha cabelos loiros encaracolados, pele dourada e rosto de aparência angelical.
- O que eles estão fazendo? – dei alguns passos em direção à cachoeira
- Esperando Muriel sair. – disse. Ela estaria trincando os dentes se tivesse algum.
- Eles farão o que com ela? – tentei não pesar o pior.
- Prendê-la! - uma lágrima rolou de seus olhos flamejantes – Minha mãe morreu tentando protegê-la.
- Eu sinto muito. – acariciei a ponta de sua asa.
- É agora! – arfou.
De dentro de uma passagem secreta, na lateral da cachoeira, saiu uma linda e delicada jovem de pele dourada, olhos castanhos, boca carnuda, orelhas pontudas e sobrancelhas arqueadas. A jovem deveria ter uns vinte anos, não mais que isso. Seus longos cabelos negros tocavam abaixo do grosso cinto preso numa calça de couro grosso com costuras nas laterais. A camisa, parecida com a dos homens que a aguardavam, apesar de ser feminina, era azul com manga, de sino, 3/4. Algo parecido com um corpete, bem amarrado à esbelta silhueta, mantinha a camisa colada no seu abdome e frouxa nos braços.
- O que ela é? – perguntei, sem desviar os olhos.
- Muriel é uma ninfa da floresta. – disse baixinho.
- Ela não parece uma ninfa. – discordei
- Você já viu uma? – desafiou-me.
- Não, mas nos livros elas são loiras, delicadas e usam vestidos feitos de flores. – dei de ombros.
- Livros. – debochou – Eles gostam de contar histórias erradas. Aposto que nenhuma destas ninfas que você viu possui um Grifo. – senti seu olhar me fuzilar.
- Não mesmo! – sussurrei, tentando evitar que os homens nos ouvissem.
- É melhor acreditar em mim. – disse, me olhando. Menos de um piscar de olhos ela estava séria novamente, olhando na direção dos quatro seres repugnantes.
Os homens estavam mais perto da cachoeira, mais perto de Muriel e se distanciando de nós duas.
- Precisamos ajudá-la! – sussurrei.
Kika não saiu do lugar.
Saí correndo em direção aos homens, sem planejar nada. Com certeza apanharia, mas pelo menos daria para salvar Muriel e a mãe de Kika.
- Não adianta. – disse Kika numa voz melancólica.
Parei há alguns metros dos quatro homens. Olhei nos olhos do Grifo, que agora não passava de um animal triste e indefeso.
- Nós precisamos ajudá-las. – sussurrei para que não me ouvissem.
- Você não pode tocá-los. Isto é apenas uma visão.
Desviei o olhar, passando-o entre os quatro homens e Muriel, que ainda não os tinha visto.
Permaneci imóvel. Senti uma dor insuportável por não poder ajudá-la, mas não havia nada o que fazer a não ser sentar e esperar tudo acontecer.
Quando Muriel puxou as pedras para fechar a entrada da caverna os quatro homens a certaram.
A garota era uma ótima lutadora. Mas os quatro também lutavam muito. Ela lutou com eles por um longo tempo, encheu o loiro de socos e o jogou no grandão, que por sua vez tentou lhe dar uns bons golpes, enquanto os gêmeos se esquivavam dos chutes e pontapés e tentavam pegá-la.
Quatro homens bons de briga era um número grande para as habilidades da pobre garota. Os gêmeos, de tanto rodearem-na, acabaram conseguindo achar um ponto fraco e a prenderam. Apesar de já estar amarrada ela não desistiu da luta. Esperneou tanto que acabou chutando o rosto de um deles, o qual ficou muito bravo e lhe deu um soco no estômago, deixando-a caída no chão, sem forças.
De repente, surge no céu um brilho incandescente.
- Máthair. – sussurrou Kika
- O que?
- Minha mãe! – seus olhos brilharam em chamas douradas.
À medida que a mãe de Kika se aproximava, deixava de ser apenas um brilho incandescente e se tornava uma grande Grifo flamejante.
Ouvi o gêmeo mais gordo dizer algo. Todos deixaram Muriel de lado, pegaram as lanças e esperaram o Grifo chegar mais perto.
“Téigdh!” – disse Muriel numa voz rígida, quebrada pelo arfar de sua respiração.
“Re ann bieagnacth, re ann bieagnacth” - disse o homem mais forte. Os olhos colados na mãe de Kika.
O Grifo deu um rasante, pegou o loiro com suas grandes garras, o levou para cima e o soltou. Foi uma queda livre sem pára-quedas. Aquele estava fora de combate para sempre.
O ato do Grifo só fez os outros três ficarem ainda mais raivosos.
Eles começaram a gritar, gesticulavam chamando-a e apontavam as lanças em sua direção enquanto gritavam em outra língua.
- Você não precisa ver isto. – disse para Kika, sem tirar os olhos da luta.
- Eu preciso. – parecia incomodada – Preciso entender. Seu pai não me deu isto em vão, há algo que eu não consigo ver, algo implícito. Já revi esta cena muitas e muitas vezes, mas não consigo encontrar nada. – sacudiu a cabeça, indignada.
- Você acha que é algo que eles dizem?
- Não creio que seja isto. Eles não dizem nada importante, na verdade eles nem falam muito. Tenho certeza que é algo simples que está aí o tempo todo, simples de mais para ser notado.
Seu brilhante rosto estava tão submerso em tristeza que me fez ser incapaz de dizer algo. Permaneci ali, olhando atentamente enquanto aquele imenso ser mágico tinha seu momento de tristeza e decepção.
- Nós iremos descobrir. – fiz o melhor que pude, evitando que minha voz tremesse.
Enquanto eu tentava esconder o nervosismo e prestar atenção na luta, Muriel nocauteou o grandão depois de acertar mais de seis socos em seu grande e redondo rosto, agora ensangüentado.
Sobram somente os gêmeos, que agora mostravam sinais claros de pânico e pavor ao ter de enfrentar um Grifo e uma Ninfa sozinhos.
Senti-me confiante e segura de que eles desistiriam da briga e iriam embora. Não havia como a mãe de Kika e Muriel se darem mal. Não agora que sobraram somente os clones covardes.
Muriel encarou um dos gêmeos, que deu um passo atrás. A mãe de Kika aterrissou com tanta rapidez e força que fez a terra do chão subir. Ela parou exatamente atrás do outro gêmeo, que se virou rapidamente para encará-la.
- Esta é a terceira pista. – disse. Seus olhos não desviavam um segundo sequer da imagem de sua mãe.
Senti um arrepio.
Podia ver a grande neblina de nervosismo prestes a me desfocar. “Não há tempo para isto! Você é forte, controle-se!” repedi várias e várias vezes em minha cabeça. Meus sentimentos estão diretamente ligados aos de Kika, portanto se eu me descontrolar tudo irá por água abaixo. Já basta ter de compartilhar sua tristeza, uma dose extra de pânico em nós duas iria complicar ainda mais as coisas.
- Por que você não me disse antes? – fitei-a. Mas ela não parecia ouvir.
- Não precisa assistir esta parte, se não quiser. – alertou.
- É agora? – perguntei espantada.
Como pode ser o final? Não há como elas perderem agora. Não contra estes dois clones idiotas.
Meus olhos encheram de grossas lágrimas, e com elas veio um aperto no coração, como se ele estivesse sendo esmagado. Algo muito além de tristeza. Aquele sentimento não estava certo, era como se alguém estivesse me apertando forte o bastante que impedisse meu coração de bater regularmente e também havia a sensação de nunca mais sentir felicidade. Doía muito, e eu realmente não estava entendendo o porquê do sentimento tão intenso. Foi aí que me lembrei de o que o Leprechaun me disse ontem quando Kika apareceu em minha janela e eu tive o meu ridículo ataque de pânico de sempre. “... seus sentimentos estão diretamente ligados aos dela. Se você entrar em pânico, automaticamente ela também entrará...”. Era óbvio que o aperto em meu coração é exatamente o que ela sentiu ao perder a mãe.
Lancei o olhar ao grande rosto da ave. Kika estava de olhos fechados, apertados, e todas as suas penas e pêlos eriçados. Parecia cem quilos mais gorda, como os pássaros ficam em dia de chuva, apesar de nela as proporções serem bem maiores.
Eu ainda não conseguia entender como Muriel e a mãe de Kika perderam aquela luta contra os gêmeos sem cérebro. Era tudo tão óbvio. Elas já os haviam dominado. Por algum tempo cheguei a pensar que talvez esta visão terminasse de maneira diferente das outras que Kika teve.
Este rápido pensamento se afastou como um relâmpago.
Os quatro homens, que era a quantidade inicial deles, não estavam sozinhos. Era por isso que os gêmeos não estavam com medo de enfrentar as duas. Eu deveria saber que havia algo mais, senão eles já teriam corrido de lá há muito tempo.
Foi aí que minha respiração acelerou.
De trás da cachoeira saiu duas grandes águias gigantescas, pouco menores de Kika, com olhos cor âmbar líquido e fulminando de raiva.
Naquele momento eu tive vontade de correr na direção delas. Gritar para chamar sua atenção, assim evitando que elas matassem Muriel e a grifo. Qualquer coisa estúpida que eu fizesse seria melhor do que ficar aqui parada assistindo o estrago ser feito.
Num impulso retardado de chamar atenção das águias atirei primeira coisa que vi. Uma pedra de tamanho mediano, pesada.
Normalmente uma pedra daquele tamanho, jogada por mim, deveria atingir no máximo dois metros à minha frente, isto se ela não caísse no meu pé, mas não foi o que aconteceu. A pedra percorreu toda a distância entre nós e a cachoeira, onde a luta acontecia, passando entre ela como uma brisa, tocando sem causar dano ou barulho. A pedra era totalmente invisível para eles, assim como não foi vista ela não esbarrou em nada. Simplesmente passou por toda a cena sem tocar nada, nem mesmo as pedras da cachoeira em que atravessou num piscar de olhos.
- O que-
- A sua força, ela já está se manifestando. – respondeu Kika, antes de eu terminar. – Bem vinda ao mundo real! – exclamou
- Mundo real? – fitei-a - Como assim? Este não é o mundo real, o que você sabe sobre o mundo real? Você vive no mundo dos contos de fada, da magia, feitiçaria. Valentina, Tayla, Cadu, Milla, Nolan, eles sim vivem no mundo real.
- Você não percebeu? – disse impaciente.
- Percebi o que? – desafiei.
- Aquele é o mundo de contos de fada, Zarah! – seus grandes olhos se encheram de lágrimas. – Este é o mundo real! O mundo em que você vivia é o mundo que todas as criaturas boas daqui gostariam de estar. Um mundo em que uma lei serve para todos e não há seres malignos percorrendo os bosques atrás de vítimas, destruindo tudo e todos que vêem pela frente. Aqui as regras mudam conforme o jogador. Cada espécie, tribo, criatura, cidade, reino, vila tem suas próprias regras. Agora você vem me dizer que eu vivo em um conto de fadas? Pense bem. Olhe ao seu redor, Zarah! Estamos assistindo minha mãe morrer, seus pais estão desaparecidos, com apenas dezoito anos você é a única que pode salvá-los. Onde no seu “mundo real” isto aconteceria? Você ouviu falar, em qualquer uma das histórias dos contos de fada, de leis ou alguém que as façam ser cumpridas? Não, você nunca ouviu! E por quê? Porque isto não existe no mundo real! – as lágrimas percorreram todo o seu rosto.
Aquilo me deixou com medo, nunca vi Kika descontrolada deste jeito, apesar de tê-la conhecido ontem. Ela falava tão calmamente, tão meiga, que esta explosão de raiva me assustou.
- Me desculpe, eu não quis... Ah, deixa pra lá. – não sabia como me desculpar. Percebi que a melhor coisa a fazer era me calar. Evitaria a chance de dizer outra idiotice.
- Sinto muito por dizer todas estas coisas, mas você realmente me tirou do sério com esta conversa de “conto de fadas”. – desculpou-se – Eu não quis te assustar. – seu rosto alternava os sentimentos de dor e culpa.
- Me desculpe. – apoiei todo o lado esquerdo do meu corpo em Kika. Fitei o chão, envergonhada. Ela passou a asa em volta de mim, aceitando minhas desculpas.
A esta altura, as águias já haviam entrado na luta. As duas foram na mãe de Kika enquanto Muriel tentava dar conta dos gêmeos covardes.
Minha atenção estava toda voltada para Muriel. Ela estava se saindo muito bem, um dos caras estada contundido, caído no chão e sem fôlego, mas o outro resistia bravamente.
É, acho que posso dar um crédito a ele. Ele até que é valente, mesmo sabendo que não vai agüentar por muito tempo.
- Ele é resistente. – sussurrei. Mas Kika não me deu ouvidos. Ela me apertou junto de si, me protegendo.
Foi aí que me lembrei de sua mãe e as duas águias. Eu sabia que aquilo não acabaria nada bem.
Elas não lutavam no chão, como Muriel e o homem. Elas sobrevoavam a cachoeira, arranhando-se, e as duas águias estavam dando um trabalho e tanto para a Grifo. Tentavam se chocar contra ela, bicavam, arranhavam e faziam de tudo para derrubá-la. Mas a mãe de Kika resistiu o máximo que pôde. Mas apesar de ser pouco maior que aquelas aves demoníacas e conseguir que seu corpo todo ficasse em chamas, ela não resistiu muito tempo, caindo aos poucos até seu corpo atingir a parte mais rasa e cheia de pedras do rio.
- Não! – gritei junto com Muriel.
Kika me apertou ainda mais, baixou a cabeça até tocar a minha, tentando me consolar.
- Shhhh... Já acabou. – disse calmamente, afagando minha cabeça com o bico.
Ficamos assim alguns segundos, até eu não agüentar mais ouvir Muriel gritar desesperadamente.
A pobre garota estava tão focada em ajudar a mãe de Kika, que esqueceu sua luta contra o gêmeo remanescente. Este se aproveitou do momento de fraqueza dela e a dominou de vez.
Naquele momento percebi que Muriel havia desistido de tudo, até mesmo de viver. Ela poderia lutar contra o homem, sim poderia, e se sairia muito bem, mas não o fez. A vida não tinha mais sentido depois que sua companheira alada se fora. Havia fraqueza e tristeza estampada em seu rosto marcado por cortes e arranhões. Os olhos não tinham vida ou brilho, o corpo não se mexia por conta própria, o único esforço visível era do homem que a carregava, amarrada e amordaçada, sobre os ombros.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Gente... quero pedir desculpas, mas ainda não consegui terminar o cap 7!
a facul está muito corrida e coisa e talss... mas prometo dar um jeito de não passar deste feriado.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Cap. 6 A Carta

Tomei coragem e, finalmente, desenrolei o papel, já amassado. Por alguns instantes fui incapaz de ler. A letra era tão linda, leve e elegante que parecia estar gravada naquele papel há mil anos. Ela dançava entre os espaços vazios, do papel, cuidadosamente desenhada.

Meu solzinho.

Antes de começar a contar tudo o que você, provavelmente, está ansiosa para saber, preciso dizer que esta carta, ao contrário do que você pensa, não foi escrita por sua mãe.
Desculpe-me por mentir, todos estes anos.

Meu nome é Bernardo, eu sou seu pai.
Assinei esta carta com o nome de Zarah por não ter outra alternativa. Você não sabe, aliás, ninguém sabe, mas eu sou o irmão adotivo de Valentina, o irmão desaparecido, que foi embora e deixou apenas um bilhete, e nunca mais voltou. É estranho que tudo esteja se repetindo, não exatamente igual, mas está.
Assim como você, eu descobri que pertencia a outra família, uma família totalmente diferente do perfil que estava acostumado.
Aos 19 anos recebi a visita de um homem muito bem vestido e de boa aparência. Este homem me contou a história de um menino que fora levado de seus pais, ainda bebê. Este menino pertencia a um mundo onde coisas que ele julgava serem impossíveis, aconteciam. Um mundo mágico, e que parte deste mundo dependia de sua volta.
Quando ele me contou, pensei que estivesse louco e não dei muita importância, apesar de a história ser muito comovente. Mas aos poucos percebi alguns “deslizes” em sua fala, como: você, meu filho e algumas características que, em parte, se pareciam comigo. Tentei pensar o contrário, mas já não havia como. Eu estava, na época, tão empenhado em encontrar meus verdadeiros pais que me agarraria até a menos provável das chances. Porém, minhas suspeitas só foram confirmadas depois de ele responder minha pergunta sobre o fim da história, com um simples: “A partir daí, é com você, meu filho!”.
O homem, que, agora, era meu verdadeiro pai, me pediu para voltar com ele, para o reino ser salvo.
Eu pedi um tempo para pensar, mas ele me disse que seu tempo era curto e eu precisava decidir o mais rápido possível. Pensei em todas as possibilidades e resolvi acompanhá-lo, pretendendo voltar a Bonito logo depois que tudo estivesse resolvido.
Não havia tempo para explicações, então minha única alternativa era deixar uma carta, para minha família, comprovando que eu estava bem e voltaria em breve.
Quando cheguei ao meu “verdadeiro lar”, tudo era completamente diferente do que eu já havia visto. Havia seres poderosos, crianças com poderes especiais, pessoas do tamanho de borboletas, comidas diferentes, centauros, fadas, unicórnios, e muitas outras coisas. Minha primeira semana lá foi horrível, por que eu não conhecia ninguém, não havia nada de bom para fazer, além de ler, e eu não podia sair na rua, que as pessoas já começavam a apontar o dedo e cochichar umas com as outras: “Olha, aquele é o filho de Bel e Nimue. O desaparecido!”. Ainda tinha que agüentar um irmão mais novo, pentelho, que só conversava comigo em outras línguas, para me irritar. A minha sorte é que consegui fazer um amigo, depois daquela semana infernal, que me levava para conhecer os reinos visinhos.
Foi numa destas visitas que eu vi Zarah, a garota mais meiga e encantadora que conheci. Eu a vi, pela primeira vez, deitada em baixo de uma macieira, dormindo profundamente. A partir deste momento eu não consegui mais tirar meus olhos dela.
Aproximei-me um pouco mais, observei os traços delicados de seu rosto, o tom alaranjado de seus cabelos e sua boca rosada. Porém, o que me chamou mais atenção foi o objeto caído sobre suas mãos, um desenho, perfeito, do meu rosto. Cheguei mais perto, a fim de pegar o pedaço de papel de suas mãos e olhar melhor, mas, sem querer, escorreguei num pequeno pedaço de madeira podre, há alguns centímetros dela. A garota acordou muito assustada, mas o susto maior foi o meu, por que assim que me viu caído no chão, morrendo de vergonha, ela soltou um sorriso hipnotizador e de abraçou. Naquele momento meu coração disparou e eu fiquei sem reação. Fui incapaz de dizer uma só palavra. Ela não me dava espaço. Ficava o tempo todo dizendo “Sabia que você viria! Eu não desisti um só minuto...”. Ela só parou de falar depois de perceber que eu havia entrado em estado de choque. Não estava acostumado a lidar com garotas. Eu era tão tímido, que a única garota que já havia chegado assim tão perto de mim era minha irmã Valentina. A garota, então, libertou-me de seu abraço e sorriu, sem graça. Ela se apresentou, educadamente, e, antes que eu dissesse o meu nome, ela o fez. Perguntei surpreso, como ela sabia, e ela me explicou que já esperava por mim há algum tempo. Contou que eu era seu prometido, segundo aquela árvore, e me disse que se eu não a quisesse, ela não se importaria, pois o que importava era que eu estava lá, naquela hora. Eu não sabia o que dizer. Corei de vergonha, meu coração acelerou ainda mais e minhas mãos gelaram. A única coisa de que tinha certeza era que, depois daquele momento, não conseguiria viver um só minuto longe daquela garota. Então, pela primeira vez em minha vida, fiz algo impensado.
A beijei.
Depois daquele dia, nós nunca mais nos desgrudamos. Sem saber com agir, uma semana depois, a pedi em casamento, e alguns meses depois do casamento ela descobriu que estava grávida.
Nove meses depois, você veio nos iluminar.
Foi o dia mais feliz de nossas vidas.
Nós dois éramos muito jovens para ser pais, mas conseguimos provar, para todos, que os míseros 20 anos pouco importavam, perto do inexplicável sentimento que tínhamos por você, e pela alegria de saber que você era o fruto do nosso amor.
Meu irmão mais novo, Dylan, ficou completamente fora de si depois que Zarah e eu unimos as quatro magias. Ele tentou me matar e foi expulso dos limites do reino.
Isto aconteceu antes de você nascer.
Ele permaneceu longe durante muito tempo, mas, quando você completou um mês de idade, ele voltou. E estava mais forte. Trazia consigo uma magia antiga, que nem eu e Bel fomos capazes de prever. Meu irmão invadiu o castelo, jogou um dos pedidos em Zarah, e ela desapareceu logo em seguida. Nós sabíamos que ele não descansaria até que todos estivéssemos fora de seu caminho. Tive alguns segundos para pensar, antes que ele desejasse algo sobre mim. Foi aí que tive a idéia de levar você para Valentina.
Você, certamente, está chocada com toda esta história. Quero que saiba que meu amor nunca mudou e nunca mudará. Não pense que eu e Zarah te abandonamos, muito pelo contrário, nós estamos te protegendo. Esta foi à única forma, que encontrei de permitir que você cresça numa ótima família e longe dos perigos do seu verdadeiro mundo.
É na certeza de que você terá um futuro seguro longe de tudo isso, que tomei todas estas decisões.
Está sendo muito difícil escrever esta carta. Olhando você aqui, dormindo profundamente em meus braços, me dá vontade de congelar este momento para toda a eternidade. Você dorme tranquilamente, o sono dos justos, nem parece que acabou de passar por tantas tragédias.
Queria que sua mãe estivesse aqui. Eu deveria estar aprisionado em seu lugar, era eu que Dylan queria. Não Zarah.
Eu a amo tanto. Assim como amo você. Isso é o que me faz forte em momentos como este que parece que o sol jamais nascerá de novo. Foi este sentimento que me amadureceu tão rápido. Quero que saiba que sua mãe e eu pensaremos em você todos os dias de nossas vidas. Não importa o que aconteça.
Provavelmente não estarei mais entre vocês quando Valentina lhe entregar esta carta, porém, saiba que a dor que estou sentindo, em deixá-la, não pode ser medida ou comparada com nenhuma outra.
Guiarei cada passo seu. Estarei sempre ao seu lado, mesmo quando você falhar. Quando o pior acontecer pense no esforço que estou fazendo a fim de mantê-la a salvo, e encontre as forças necessárias para se levantar e seguir em frente.
Alguns instantes antes de sua mãe desaparecer, Dylan me permitiu ter a visão completa de onde a havia aprisionado. Como disse anteriormente, a magia que ele usou é muito antiga e possui várias armadilhas. Uma delas é a que foi empregada em mim. Estou proibido de dizer o lugar em que Zarah está. Por este motivo, deixei algumas pistas para você. Seu trabalho é desvendá-las o mais rápido possível.
Não se preocupe. As pistas te levarão direto para sua mãe.
Tenho dois pedidos a fazer, antes de lhe entregar a primeira delas: Quando encontrar Zarah, dê um abraço bem forte, diga que eu a amo muito e que fiz tudo o que estava ao meu alcance para manter vocês a salvo.
Lembre-se...
Nunca deixe de acreditar no amor que sentimos por você!

Com amor. Papai.

Pista 01
Origem guardada em coração puro.


Duas lágrimas rolaram de minhas bochechas, direto na carta. Sequei algumas, que ainda tocavam as maçãs do meu rosto, enrolei novamente o papel e levantei-me da poltrona.
Tayla acompanhou, atentamente, todos os meus movimentos, sem se mover. Ao contrário do que previ, ela não pegou a carta de minhas mãos, perguntou o que estava escrito ou qual era a primeira pista. O que me deixou surpresa.
Eu não estava mais chorando, e as lágrimas já haviam secado, mas de repente, quando meu olhar encontrou os dois lugares vagos da mesa de jantar, uma sensação de aperto no coração fez meus olhos inundarem, fazendo-me soluçar, de tanto chorar.
- Não fique assim. – disse Tayla, vindo em minha direção.
Não fui capaz de respondê-la.
O pequeno Chinnuril, percebendo minha tristeza, desceu de volta para minha mão, olhando-me atentamente, alojou-se em minha palma, fazendo um “carinho improvisado”.
- Eu posso ver? – estendeu uma das mãos em direção à carta.
Levei a carta, lentamente, em sua direção. Minhas mãos tremiam tanto que tive dificuldades em entregá-la.
Tayla, com muito esforço, retirou-a de meu aperto forte e sentou-se, na mesma cadeira em que me observava ler a carta.
Continuei onde estava. Esperando o ataque de choro passar e meus olhos pararem de nublar. Retirei o óculos, fiz um malabarismo, tentando não deixar Elise cair, limpei as lentes embaçadas pelas lágrimas, e coloquei-o logo em seguida.
Fiz um enorme esforço para enxergar a pequena pessoa sentada na cadeira, poucos passos de mim, pois meus olhos ainda não haviam se recuperado da “super” quantidade de lágrimas.
Diferente de mim, ao ler a carta, Tayla sorria constantemente, como se aquilo fosse um gibi da Turma da Mônica. Mas, quando terminou, percebi que algumas, tímidas, lágrimas começavam a brotar de seus grandes olhos castanhos. Ela levantou-se, me devolveu o pergaminho, já amarrado ao pedaço de couro que eu havia deixado sobre a mesa, soltou um grande suspiro, secou as lágrimas e disse:
- O que nós faremos agora?
- Eu, realmente, não sei! - respondi
- Seu pai caprichou na pista em!
- Eu não entendi nada. Acho que ele escreveu em outra língua. - reclamei
- Pare de ser lerda, Zah! Não deve ser tão difícil assim desvendá-la. Ele não seria capaz de escrever algo praticamente indecifrável. Nós só precisamos pensar com calma. Você verá como as coisas simplesmente se desenrolarão em nossas mãos. É só ter um pouco mais de paciência. – soltou uma piscadela.
- Espero que você esteja certa. Espero mesmo. – fitei o chão.
- Você pode ler a pista para mim? – disse Tayla, sentando-se numa das cadeiras.
Acompanhei seu movimento, sentando-me na cadeira ao lado.
Coloquei Elise sobre a mesa. Ela reclamou um pouco, fazendo aquele barulhinho engraçado, sapateou algumas vezes, mas eu não dei muita moral para ela, então, depois de algum tempo, ela parou.
- Coitada! – reclamou Tayla.
- Ela precisa saber que minha vida não gira em torno dela, Tah! Ou eu imponho limites enquanto ela inda é um bebê, ou ela será escandalosa assim para sempre. – passei a mão sobre sua vasta penugem branca.
- Mas ela é só um bebê! - apontou
- Você não ouviu quando Aine disse que ela fica atrás da mãe o tempo todo?
- Ouvi.
- E você ouviu quando ela disse que a mãe do Chinnuril, quando espera ele sair do ovo, pode até morrer de fome por que ele não a deixa comer? Ouviu? – desafiei - Já pensou se Elise achar que eu tenho o dever de carregá-la nas mãos em todos os lugares que eu for? – espalmei as mãos na mesa - Precisarei de minhas mãos quando estivermos decifrando as pistas. E outra, ela não vai ter um ataque cardíaco só por que não está “colada” em mim.
Tayla concordou, silenciosamente.
- Vai, leia a primeira pista! – ordenou.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Geeente

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quarta-feira, 26 de agosto de 2009

importante!!!

Gente, pra quem leu desde o começo...
a Fênix do livro foi mudada para um Grifo, já que muitas pessoas me alertaram do exagero no tamanho dela. Depois de alguns dias pensando a respeito, e procurando um animal mais adequado, cheguei à conclusão de que mudá-la para um Grifo seria a melhor alternativa.

Para quem já leu, mil desculpas, mas a mudança foi necessária!!

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Cap. 5 Surpresas

A sala, assim como o resto do castelo, possui as paredes, desenhadas, de mármore e decorada com muitos quadros antigos. Possui enormes janelas medievais, com vidros desenhados, cortinas vermelhas e um lindo lustre ao centro da larga e imponente mesa de refeições.
Por que um e não dois lustres? Por que tem que ser ímpar?
Três dos idosos me deram as boas vindas abraçando-me educadamente. Como já era de se esperar.
Aine sorria, em pé ao lado de uma linda e delicada mesa de canto contendo diferentes tipos de bebidas.
- Feliz aniversário Grania! – disseram em coro.
- Grania, minha querida. Você não sabe a alegria que todos desta sala sentem em tê-la de volta. – disse a jovem senhora que, se eu não estiver errada, é minha avó paterna.
Sorri, desconcertada.
Todos os idosos parecem saídos de um conto de fadas medieval.
Assim como Aine, a mãe de meu pai possui traços delicados e a pele levemente enrugada. A única semelhança entre as duas é a forma física esbelta e o andar leve e delicado. O cabelo dela é negro e Aine é, visivelmente, uns bons dez anos mais nova.
A delicada senhora de longos cabelos negros, pele bronzeada, olhos negros penetrantes, vestia um traje parecido, no corte, com o de Aine, apesar de ser totalmente diferente na cor e textura. O tom do vestido lembrava a água do mar em dia de sol, azul esverdeado. Já o tecido era leve e descia rente ao corpo até tocar pouco abaixo da cintura marcada por um mais solto até os calcanhares, tentando realçar o “projeto de curvas” visível do esbelto corpo de modelo da jovem senhora.
Os dois homens possuem barbas e roupas combinando, em época, com as das minhas duas avós.
O marido de Aine, meu avô materno, está muitos quilos acima do peso, possui uma carranca engraçada como feição, apesar de parecer calmo e engraçado. Ele é no máximo dez centímetros mais alto que Aine. Suas vestes podem ser comparadas aos cavaleiros das frentes de batalha, exceto pela modernidade, ausência de armadura e a longa capa vermelho-sangue que cobria quase todo o seu espaçoso corpo.
Já o outro idoso, se é que posso considerá-lo um, tem aproximadamente 1,90 metros de altura e está em plena forma física. Possui o cabelo misturando em tons de loiro e branco, assim como sua barba e bigode. Este se parece perfeitamente com um príncipe, aposentado, de histórias encantadas. Ele ainda estava vestido como nos tempos de glória, apesar de, como gordinho, sua roupa era mais moderna.
Fiquei tão impressionada com a beleza de todos que sequer dei conta de já estar dentro da sala.
- Eu sei que vai parecer estranho, mas – disse a mulher, abraçando-me – Eu sou Nimue, sua avó. É muito estranho sua avó precisar se apresentar, mas aqui estamos nós. Todos precisando nos apresentar.
Senti vergonha, novamente, pela calorosa recepção de Nimue.
- Sinto por não estar ao seu lado quando acordou, mas precisei resolver alguns conflitos no mundo das águas. Os Sidh estão eufóricos com a sua chegada, todos querem saber qual o seu iznuart.
Ótimo, mais uma palavra para a “Tayla traduções simultâneas”.
Antes de eu me virar e olhá-la, já prevendo, ela respondeu.
- Iznuart é como se fosse sua preferência. Dentro de você há os poderes dos dois reinos, mas você sempre se sairá melhor em uma das ramificações. Se demonstrar melhor habilidade no céu quem te guiará nos ensinamentos será sua avó Aine. Caso controle bem o fogo, sua mãe te ajudará. Vegetação, seu avô Bel. - apontou o forte idoso ao meu lado, que deu um leve sorriso. – Em tudo o que envolve as artes, seu pai. Nas águas doce e salgada, Nimue. Não sei se você percebeu – alertou-me – mas ela mesma acabou de dizer que precisou “resolver alguns conflitos embaixo d’água”.
Assenti.
- E por último, mas não menos importante – olhou para o velho gordinho – se você for boa em lutar seu avô Berserker poderá dar conta do recado. – deu uma piscadela, retribuída, imediatamente, pelo “Senhor Fofinho”.
Eu devo ter dormido uma eternidade mesmo, pois ela já conhece tão bem todos os meus avós que já está íntima deles.
- Bem, todos nós já fomos apresentados, portanto podemos mandar servir o almoço, certo? – Berserker apressou-se, saindo da sala. Dirigiu-se à cozinha, penso eu.
- Tayla, às vezes você me assusta, sabia? Ainda vou perguntar algo que você não saiba.
Todos riram.
- Sua exagerada! – disse Tayla, depois de me dar um leve empurrão no ombro.
- Ela sabe muitas coisas sobre este mundo. Não penso que “assustar” seja a palavra correta. O termo certo é “impressionar”. – soltou Bel - Fiquei muito impressionado com as perguntas que ela me fez ontem à noite. Ela me disse ter lido na internet. Não sabia que as pessoas se interessavam tanto por nossas histórias. – virou-se à Nimue e Aine – Na Irlanda tudo bem, mas no Brasil?
- Ela não tem nada para fazer. É por isso que sabe tantas coisas. – dei alguns passos, aproximando-me deles.
- Diferente de você que só procura biografias dos compositores de música clássica e livros de magia, eu tento me informar sobre tudo. – mostrou-me a pequena língua.
- Meninas, não é hora de discussão. – disse Aine, sentando-se à mesa junto com Nimue.
- Desculpe. – dissemos juntas.
- Estão desculpadas. – sorriu Bel – Por que vocês também não se sentam? Noba servirá o almoço em alguns minutos. – puxou uma das majestosas cadeiras de madeira e sentou-se.
Tayla e eu sentamos uma em cada lado da mesa. Ao meu, estavam Nimue e Bel, ao lado dela Aine e o lugar vago de Berserker. Percebi que os pratos estavam colocados apenas nas laterais e a ponta da mesa possuía duas cadeiras vagas.
- O que tem para o almoço? – perguntei curiosa.
Se eu sou alérgica a comida humana, com certeza a daqui é muito diferente de tudo o que eu já experimentei.
- Você verá. – disse Bel – Mas não se preocupe, Noba tem mãos de ninfa em se tratando de cozinhar. Não há outra pessoa que cozinhe melhor.
- Relaxa Zah – antecipou-se Tayla.
Fiquei envergonhada por desconhecer a cultura da minha verdadeira família. Tentei desconversar.
- Porque ninguém se senta naquelas duas cadeiras? – apontei.
Tayla meneou a cabeça, olhando para baixo.
- São os lugares dos seus pais. – disse Aine. Afagou minhas costas depois de passar a mão em meu cabelo.
- Desculpa. – abaixei a cabeça, envergonhada.
- Você não precisa pedir desculpas Grania. Eles também são seus pais. Você pode perguntar qualquer coisa.
- Qualquer coisa. – Bel e Nimue disseram juntos.
Tayla soltou um riso baixo.
- O que foi? – perguntou Nimue.
- Vocês não sabem como a vida de vocês era feliz antes das perguntas da Zarah começarem. – sorriu.
- Nada a ver, sua mané. –
- Eu não entendi. – Aine apoiou-se à mesa em sinal de interesse à conversa.
- Não é nada Aine. – respondi – a Tayla que gosta de ficar me tirando.
- Eu prefiro que você me chame de vó ou vovó. – alertou, do jeito mais delicado possível.
- Vó Aine – sorri.
- Eu não ficaria tirando se você parasse de fazer perguntas idiotas e pensasse um pouco.
- Até parece que eu tenho culpa de não entender algumas coisas. – revidei. – você fala como se eu fosse burra, um porta.
- Eu sei que você não é burra, Zah, o problema é que você nunca presta atenção em nada que as pessoas dizem. Você se desliga das conversas e não percebe. Se fosse burra não iria nem chegar perto de um livro, e você lê em um mês quase a mesma quantidade que eu leio em seis. Sem mencionar as músicas clássicas. – passou os olhos em todos da sala.
- Cala essa boca Tah – alterei-me. Ela sabe muito bem que eu odeio que as pessoas saibam que eu ouço música clássica enquanto leio.
- Vejam só. – levantou-se vô Bel - Acabamos de descobrir o iznuart dela. – atravessou a mesa até posicionar-se atrás de mim – Ela será uma artista, como o pai. – beijou-me na testa, todo contente.
- Melhor você não se apressar, querido. Ela pode apenas ter puxado o bom gosto do pai. – protestou vó Nimue.
Pela primeira vez na vida senti que realmente pertencia a algum lugar. Foi divertido ver a discussão que se seguiu. Todos tentavam encontrar semelhanças comigo. Senti-me feliz, realmente existe a possibilidade de eu parecer com algum deles, desta vez é de verdade. Eu estou entre meus verdadeiros avós, em minha verdadeira casa.
- Vocês moram todos aqui? – soltei, sem perceber que eles ainda discutiam.
Dois tons diferentes de risadas inundaram a sala. Delicados sopranos, de minhas avós e o barítono do meu avô.
Outch! Pergunta errada de novo? Caramba. Será que eu não vou dar uma dentro?
- Nós não moramos aqui, Grania. Viemos te ver e relembrar o tempo em que sentávamos a esta mesa para almoçar e jantar. Seus pais faziam questão da presença de todos. Diziam que você cresceria melhor e mais feliz, nos tendo por perto o tempo todo. – disse vô Bel.
- Mas vocês moram muito longe daqui? Eu e Tayla vamos dormir sozinhas? Não é perigoso? – bombardeei-os com perguntas.
- Primeiro; tenha mais calma ao falar, foi difícil entender o bolo de palavras saídas de sua boca. Segundo; é indelicado encher as pessoas de perguntas, espere até que respondam a primeira e dê um tempo para pensarem. – disse vó Nimue.
Assenti.
- Nós moramos perto daqui, - começou vô Bel - mas para você nós moramos longe, por que os humanos, com quem foi criada, têm a noção de espaço diferente da nossa. Para nós não existem lugares longínquos e sim Sidh preguiçosos. – sorriu. – E, não se preocupe, há muitas pessoas trabalhando, dia e noite, neste castelo, e outras que dariam a vida para estar aqui cuidando de você.
- Mas se vocês moram longe – pausei – como chegavam a tempo para o almoço e jantar? E... Todos os dias.
- Magia. – respondeu Tayla – Essa eu sei!
Como se existisse alguma pergunta que ela não seja capaz de responder.
Revirei os olhos.
- Você quer o que, que eu bata palmas? – levantei as mãos.
- Não seja rude, Grania. – protestou vó Aine – Continue querida. – fez sinal para Tayla.
- Eu não tenho certeza, – coçou a cabeça – mas uma vez eu li que vocês são como o ar. Não do jeito que nós pensamos em “ar”, e sim como... Não sei qual a palavra. – olhou todos na sala.
- Vou tentar explicar de uma maneira melhor. – disse Nimue – Quando você está lendo não tem a impressão de estar dentro do livro, vivendo a história? Como se o pensamento fosse forte o bastante para romper as barreiras do papel?
- Si... Sim.
- Então. O que nós fazemos é praticamente isto. Visualizamos o lugar e a nossa alma nos transporta até ele. É a força do pensamento.
- Nossa! – arfei. Senti os pêlos dos meus braços arrepiarem – Eu também posso fazer? – meus olhos brilharam.
- Você fará melhor. – disse vô Bel – você possui todos os nossos talentos. Ainda não houve manifestação por que nunca precisou deles.
Serrei os punhos, tentando sentir algo. Mas foi só perda de tempo.
Todos riram do meu movimento repentino.
- Você precisa de treinamento. Para nós foi fácil por que sempre treinamos para que os poderes aflorassem, sempre soubemos os poderes que teríamos. Mas você perdeu muito tempo, até ontem nem imaginava ser possível carregar tantos poderes dentro de si. Demorará muito tempo até você controlar todos os poderes. - soltou Nimue, do outro lado da mesa.
- Mas se eu treinar bastante. O dia inteiro, durante um ano. – fiz uma pausa – Eu serei capaz de fazer todas as coisas, igual vocês fazem. Não é?
Esperei, aflita, pela resposta.
Todos se olharam e viraram em minha direção, ao mesmo tempo.
- Com certeza é algo a ser considerado, Grania. – sorriu vô Bel – Você precisará ser muito persistente e desprezar as falhas diárias. Tente pensar que está subindo uma escada. Se a escada é muito alta, com muitos degraus, você ficará cansada e logo pensará em desistir. Ao contrário disto, pode continuar e provar o delicioso sabor da vitória. Sem esquecer que toda vitória merece um prêmio. – deu uma piscadela.
- A escada... – engoli a seco - bom... Ela é muito alta? - encolhi
- Tudo depende do seu desempenho, querida. – disse vó Aine.
- Farei o possível! – sorri, animada.
Todos me olharam e sorriram.
- Finalmente Noba nos servirá! – vô Berserker saiu da cozinha, com um sorriso enorme tocando suas bochechas rosadas.
Sentou-se ao lado de Aine, perto da ponta da mesa.
Pouco tempo depois duas mulheres surgiram de dentro da cozinha, cada uma carregava uma bandeja média, de prata. As duas mulheres são parecidas. Cabelos negros e lisos, presos num rabo de cavalo e pele bronzeada. Ambas pouco acima do peso. Uma delas, a mais velha, usava um vestido azul, longo e avental branco. A outra, vinte anos mais jovem, estava usando um vestido pouco mais curto e lilás. Seus olhos eram de um, hipnotizador, azul celeste.
- Olá Grania. – disse a mais velha.
- Oi! – disse, desviando os olhos de seu rosto.
A outra mulher, que depois pude ver que era apenas uma garota, cumprimentou-me com um leve aceno de cabeça e um sorriso sem graça.
As bandejas possuíam dois recipientes cada. Na da garota havia uma pequena travessa, prateada, contendo verduras e legumes que eu nunca vi na vida, e outra, exatamente igual, contendo vários roedores, assados, claro, que lembravam porquinhos da índia.
- Esta é Noba – disse Aine, referindo-se à garota. – A melhor cozinheira do reino. - sorriu
A garota sentiu-se envergonhada, deu outro sorriso sem graça, colocou as bandejas na mesa e voltou para a cozinha.
- E a outra, é quem? – perguntei baixo, perto de seu ouvido.
- A outra é a mãe dela. Normalmente ela não ajuda na cozinha, ela cuida do castelo, é a “faz tudo” daqui. Divide os trabalhos igualmente, coordena, cuida do jardim. Ela é a governanta, como vocês dizem no Brasil.
- Nossa, ela dá conta de fazer todas estas coisas?
- Ela faz isto há tanto tempo que já se acostumou à cansativa rotina. – sorriu Aine.
- O que são estes animais?
- Ah! São os aifdin – respondeu Bel.
- Eles também são do Pântano Fenuso. – disse Nimue.
- Vocês comem Jinkos também?
- Não, Grania. Eles são sagrados para nós.
- Mas... e estes legumes? Eu nunca os vi. – apontei
- Estas verduras e legumes só existem aqui. – disse vó Nimue
- E o que vocês comem, além de carne e salada? – procurei por algo diferente, na mesa.
- Nosso cardápio é bastante variado. Não colocamos uma grande diversidade de alimentos por que achamos melhor você começar pela carne e salada, já que está acostumada, apesar da leve diferença.
- Ah! – admirei a preocupação deles - Mas a alimentação de vocês é muito diferente da nossa?
- Completamente. – disse vô Berserker – Todos que provaram a comida humana e depois a nossa, dizem que esta é muito melhor. – apontou.
Vô Berserker levantou-se e cortou os aifdin enquanto vó Nimue o entregava os pratos, um por um. Ele serviu a todos nós, sentou novamente em seu lugar e todos começaram a comer. Menos eu.
- Ora menina, não tenha medo, eles já estão mortos. Coma! – caçoou vô Bel.
Lancei meus olhos em Tayla, que devorava a comida com muita voracidade.
Peguei os talheres e cortei um dos vegetais. Coloquei na boca, com medo, mastigando vagarosamente. O gosto se parece com o da cenoura, apesar de ser um pouco mais adocicado. Cortei outro vegetal, uma folha branca de nervuras vermelhas. Desta eu não gostei, por ser um pouco amarga. Já a carne do aifdin é muito boa, macia, suculenta e muito bem temperada. Não lembra a de nenhum animal que eu já tenha comido, mas a sensação foi a mesma de quando comi carne de jacaré pela primeira vez. Curiosidade, por nunca ter experimentado, e alívio, ao perceber o sabor delicioso.
Depois que todos terminaram, Noba trouxe a bebida e a sobremesa.
Numa linda jarra de vidro havia um líquido esverdeado. Era tão chamativo que só de olhar já dava água na boca. Noba nos serviu, deixou uma bandeja, com várias frutinhas verdes, sobre a mesa e voltou à cozinha. O suco eu não sabia do que era, mas a frutinha eu conhecia muito bem.
- Guavira? – perguntei curiosa.
- Sim, nós comemos muito disto por aqui. – disse vó Aine.
- Mas esta é a mesma que tem lá em Bonito?
- Sim, mas a nossa é um pouco mais pura.
- Então é por isso que guavira nunca me fez mal. – peguei a maior fruta do pote.
- Ah. Este é o néctar dos Deuses! – exclamou vô Berserker, colocando várias em seu prato e sorrindo em seguida.
- Por que esta fruta também nasce no Brasil?
- A guavira é uma fruta que nasce somente em terras de coração quente. – disse vô Bel, colocando a mão sobre seu peito, como as pessoas fazem ao cantar hinos.
- Como assim? – perguntou Tayla.
- As pessoas no Brasil são muito hospitaleiras e calorosas. É por isso que dizemos “coração quente”. O Brasil está sempre de braços abertos a qualquer pessoa, de qualquer país, que vá para lá. A guavira procura nascer lugares onde as pessoas tenham, dentro de si, carinho para com os outros. É a única fruta do nosso mundo que também nasce no mundo dos humanos. Mas ela também nasce em outros países da América do Sul.
- Vocês fazem mais alguma coisa com ela? Tipo remédio ou coisa do tipo?
- Sim, ela possui grandes poderes curativos. Mas o maior de todos os poderes dela é o de fazer as pessoas voltares no tempo.
- Voltar no tempo? Como uma máquina? – perguntei, olhando para Tayla.
- Não. – disse vô Berserker.
Todos soltaram uma gostosa gargalhada.
- O que acontece, Grania, é que quando uma pessoa come a guavira, depois de muito tempo sem prová-la, consegue lembrar-se até de coisas que aconteceram quando era pequena. A pessoa se lembra dos melhores momentos da vida, os melhores sorrisos, as pessoas mais importantes, tudo o que as fez feliz.
- Nossa. Isso é muito legal! – sorri.
- Eu não sabia que era assim. Nunca senti nada parecido. – disse Tayla. – E esse suco é de quê?
- Furnequí. – respondeu vô Berserker – A fruta mais popular por qui. É como uma praga. - sorriu.
Vó Aine levantou sua taça e todos imitaram seu movimento.
- Um brinde à volta de Gania? – fitou-me, sorrindo.
- Tim-Tim – disse Tayla.
Não tive medo, desta vez. Se esta é a fruta mais popular por aqui, deve ser a mais saborosa também. Tomei um grande gole, sem me preocupar com o gosto, e percebi que realmente era muito bom. Mais uma vez não lembrei de nenhum outro que eu conheça e seja parecido. Sequei minha taça, rapidamente, e pedi para vó Aine servir-me novamente. Ela sorriu, assentiu e colocou suco até depois do meio da taça.
- Fico feliz que tenha gostado. – disse vó Aine, dando outra de suas piscadelas. – Todos terminaram? – perguntou, dirigindo-se até a ponta da sala, próxima à porta da cozinha.
- Hora das surpresas? – perguntou vô Bel
- Sim. Hora das surpresas de aniversário. - sorriu
Ai... Meus... Deuses! Eu pensei ter escapado das terríveis surpresas de aniversário, ao vir para cá. Já vi que estava errada.
Tayla olhou-me, fez sinal com as mãos para evitar futuros constrangimentos, pedindo para eu não pirar. Não prestei atenção em seus movimentos, pois estava acompanhando, com os olhos, tudo o que os quatro idosos faziam. Bel e Berserker sentaram-se em duas poltronas perto da mesa de bebidas e Aine e Nimue saíram da sala, voltando em seguida, com um presente cada.
- Feliz Aniversário! – disseram juntas, discretamente.
Nimue entregou-me uma grande e leve embalagem, decorada com uma fita azul clara.
- Quando você nasceu, nós lhe demos isto que está em seu pescoço. – apontou o camafeu – ele é seu protetor. Agora daremos algo que lhe ajudará bastante na busca pelos seus pais.
Estudei, na grande embalagem, a melhor forma de abrir sem causar danos ao presente. Consegui encontrar a ponta do laço e puxei com força, ele se desprendeu e a embalagem abriu. Tayla estendeu a mão para que eu lhe desse a embalagem, dando um passo atrás, logo em seguida. Desdobrei o presente e vi duas alças pretas. Terminei de desdobrá-lo e então pude ver do que se tratava, era uma mochila. A mochila era num couro marrom, brilhante de tão limpo, de tamanho médio e muito bonita.
- Obrigada.
Os dois deram um aceno de cabeça.
- Você não vai perguntar para quê serve? – indagou vô Bel.
- Para guardar... Coisas? – perguntei meio perdida.
- Também. Mas esta é diferente das outras. Você pode guardar seu guarda-roupa inteiro aí e ela não ficará pesada ou abarrotada.
- Nossa! – suspirei – Obrigada. Obrigada mesmo! – fui até onde estavam e dei um forte abraço.
Os dois sorriram e retribuíram o gesto.
- Agora o nosso presente. – disse vô Berserker, levantando-se da poltrona.
Estendi as mãos e vó Aine entregou-me uma pequena caixa retangular, amarela, cheia de furinhos nas laterais.
- O que é isto, um cachorrinho? – perguntei curiosa
- Abra. – encorajou-me vô Berserker, fazendo movimentos com as mãos.
A caixa não possuía amarras, portanto, para abri-la era só levantar a tampa. Foi o que eu fiz.
Dentro da caixa havia panos esfarrapados e uma bolinha branca coberta por finos pêlos macios e ouriçados.
Movi meus olhos rapidamente até vó Aine, fazendo cara de surpresa.
- O que é isto?
- O que? – disse Tayla, movendo alguns centímetros em minha direção.
- É um Chinnuril. – disse vó Aine.
- Ele morde?
- Não, Grania, por quê?
- Ele está com os olhos vendados. Por quê?
- Ah! – sorriu vó Aine – Você deve ser a primeira pessoa que ele vê. Assim pensará que é sua mãe, caso contrário ele ficaria procurando-a e faz um escândalo de trincar qualquer vidro.
- Então... – corri meus olhos em seu pequeno corpinho de bola – ele nunca viu a mãe? – meus olhos começaram a inundar.
- Ela os abandona antes que a vejam. Ninguém jamais viu uma Chinnuril com filhotes, por que eles nunca a deixam caçar e precisam de muita atenção.
- Coitado. – toquei, levemente, seu fino pêlo. – Eu posso tirar a venda?
- Agora sim, mas não o deixe olhar para outra pessoa antes de te ver.
Tayla afastou-se, assim como os quatro idosos.
Peguei o pequeno Chinnuril de dentro da caixa e o coloquei na mão. Tirei o pedaçinho de pano que cobria seus olhos, coloquei sobre a mesa e levei o bichinho perto do meu rosto. Esperei que fosse o lado certo, já que era impossível saber se estava de costas ou de frente.
O Chinnuril abriu os olhos, e fez um som muito baixinho e engraçado. Parecia o dia mais feliz de sua vida, pulava sem parar, e mexia todo o pequeno corpinho, querendo que eu me aproximasse mais. Juntei a outra mão, fazendo uma concha, e ele ficou todo contente. Olhando-o mais de perto pude ver que seus pés pareciam patas de passarinho cobertas com os finos pêlos. Ele tinha pequenos braços, também cobertos de pêlos, e quatro dedos com garrinhas. Era tão fofinho e redondo que dava vontade de apertá-lo até não querer mais.
- Agora eu posso ver? – perguntou Tayla
- Ele, com certeza, já sabe quem é a mãe – disse vó Nimue.
- Ele é muito lindo. Tão fofinho! – exclamou Tayla, quando o coloquei em sua mão.
O Chinnuril fez aquele barulho engraçado, novamente, mas desta vez não parecia estar feliz, deveria estar com medo de perder a “mãe”, já que o coloquei nas mãos de Tayla. A bolinha de pêlo começou a sapatear, aumentou o volume da reclamação e sacudiu os braços em minha direção.
Tayla o devolveu, logo em seguida, depois de receber alguns aranhões na palma da mão.
- Este bichinho é um pouco bravinho, né? – examinou os arranhões.
- Ele só estava com medo de Grania não querer mais ser sua mãe. – exclamou vó Aine.
- Podre bichinho. – alisei seu sedoso pêlo.
- Você não vai dar um nome a ele? – perguntou Tayla.
- Até queria, mas não sou boa em dar nomes. Você lembra muito bem dos animais que eu tive – tentei refrescar sua memória – a tartaruga Oi, o cachorro Cão, a gata Caolha, de um olho só, outra tartaruga, chamada Outra.
Meus avós começaram a rir.
- Você não é boa em nomes em. – disse vô Bel, aproximando-se.
Sorri, sem graça.
- Criatividade, em nomes, não é o forte dela. – gargalhou Tayla.
- É fácil – exclamou vô Berserker – O que você mais gosta de fazer?
Todos me olharam.
- Am... Ler? – tentei lembrar-me de outra atividade preferida.
- Por que você não coloca o nome do personagem que você mais gosta?
- É uma boa idéia. – refleti.
- Então, qual será o nome? – perguntou vô Berserker
- Já sei que nome colocarei nela.
- Capitu? – disse Tayla – Dom Casmurro foi o livro que você mais gostou de ler, lembra?
- Não será o nome de uma personagem. Quer dizer, vai ser o nome de uma personagem que participou indiretamente na criação da obra.
- Fale logo o nome! – disse Tayla, irritada.
- Elise! - suspirei
-Elise? Você nunca leu um livro que tenha esta personagem. – tentou lembrar-se.
- Não é um livro. É uma música. – lembrei-a.
- Fur Elise! – disse vô Bel, ainda sentado na poltrona.
- O que vocês acharam? – fitei-os.
- Nossa, Zarah, você vai colocar o nome de uma música do Chopin?
- Exatamente! – sorri.
- Depois eu que sou a nerd. – revirou os olhos. – Olha só o nome que você escolheu!
- Você sabia que esta é a música preferida do seu pai? – perguntou vô Bel
- Não. – rolei meus olhos até Tayla – também é a minha favorita. – baixei a cabeça até alcançar os brilhantes olhos azuis de Elise.
Tayla me olhou, confusa. Com certeza ela pensou que eu não fosse me importar tanto.
Meus olhos se encheram de lágrimas.
Tentei disfarçar, mas não adiantou. Vó Nimue viu as lágrimas tocarem meu rosto e avisou vó Aine.
- Não chore minha querida. – Disse vó Aine. – Não fique triste. –abraçou-me.
- Eu não estou triste. Só que – dei uma pausa – e se eu não conseguir encontrá-los? – disse, ainda sem tirar os olhos de Elise. – Se for tarde demais...
Vó Aine interrompeu-me.
- Você os encontrará. Não deixe que as duras circunstâncias a façam fraquejar. – sussurrou em meu ouvido.
Elise apoiou as duas “mãos” em meus dedos, improvisando um carinho.
Sorri, passei o dedo indicador em seu corpo de bola, e pude perceber que ela não possuía divisão entre a cabeça e o resto do corpo. Ela era uma circunferência peluda.
Lembrei-me.
- A minha carta! – reclamei – Tah, nós precisamos voltar para casa. Na pressa, esquecemos a carta. – apoiei-me em seu ombro.
- Relaxa Zah, a mamãe me entregou a carta. – retirou meu braço de seu ombro.
- Por que você não me entregou-a logo depois que eu acordei? – fitei-a.
- Você não me pediu. – olhou-me como se fosse a mais óbvia das respostas.
- Ah, claro! – queimei-a, com os olhos. – Onde ela está afinal?
- Eu entreguei a Berserker. – apontou.
Imediatamente, vô Berserker veio em minha direção. Em suas mãos havia uma espécie de pergaminho enrolado e amarrado numa fina tira de couro. Caminhou lentamente, posicionou-se frente a frente comigo, estendeu a mão ocupada pelo pequeno pergaminho.
Estendi uma das mãos e o pedaço de papel enrolado deslizou em minha palma. Olhei-o, alternando entre ele e meu avô. Sem saber como agir, permaneci estática. Toda a sala pareceu absorver minha angústia, assim como as pessoas, também paralisadas, que me olhavam apreensivas.
- Você vai ficar aí parada? – indagou Tayla.
Meu cérebro foi incapaz de formular uma resposta.
Elise, prevendo que eu precisaria das duas mãos, escalou, rapidamente, meu braço, deixando marcas de suas pequenas mãozinhas por todo o meu antebraço.
Voltei meus olhos no, velho, pergaminho e decidi desatar o laço. De repente senti meu coração disparar, meu rosto esquentar e meus dedos amolecerem. Estava com tanta pressa em desenrolá-lo e saber o que meu pai havia escrito que, sem perceber, comecei a tremer. Meus dedos foram incapazes de conciliar a tremedeira com a pressa, fazendo com que eu perdesse um bom tempo apenas no primeiro laço. Vô Berserker, como um bom, sem paciência, Senhor da Guerra, não conseguiu, apenas, me observar “apanhar” do laço e, num ataque de falta de calma, esvaziou minhas mãos. Devolveu, logo em seguida, o papel, já desenrolado e pronto para eu ler.
- Já estava ficando impaciente! – disse, enrolando a pequena tira de couro nos, gorduchos, dedos da mão esquerda.
- Ahmm – passei meus olhos em todos da sala – Será que eu posso.. Ler... Ahmm... Ler em outro lugar? Eu queria ficar sozinha, um pouco. Acho que não conseguiria ler com todos estes pares de olhos me observando. – torci para que compreendessem, de maneira correta, o que eu quis dizer.
Meus avós se entreolharam.
- O que for melhor para você, minha querida. Nós desejávamos compartilhar este momento com você, mas se prefere lê-la quando estiver sozinha, quem somos nós para discutir? Esta carta lhe pertence, nós sabemos a importância que ela representa para você. – alertou vó Aine. – Além do mais, nós precisávamos mesmo resolver alguns assuntos. – fitou os outros idosos - Voltaremos à tarde para ver como você está, e se conseguiu desvendar a primeira pista. – caminhou em minha direção – Boa sorte. – abraçou-me.
Retribuí o abraço.
Pude sentir os dedos de vô Berserker entrelaçados aos meus, fazendo carinhos leves, atrás de Aine.
- Obrigada. – respondi.
Os dois saíram da sala, de mãos dadas, lentamente. Logo em seguida vó Nimue e vô Bel vieram se despedir de mim, desejaram boa sorte, assim como Aine, e saíram.
- Eu posso ficar aqui? – perguntou Tayla.
- Se você quiser. – dei de ombros – Mas eu vou me sentar daquele lado da sala - apontei uma das poltronas – e você não vem comigo! – fitei-a.
- Ah, Zarah! – reclamou.
- Tayla. É a carta do meu pai! Você tem noção do quão importante este pequeno pedaço de papel velho representa para mim? Você pode respeitar o meu momento, pelo menos agora? – repreendi. – Eu não vou conseguir lê-la se você estiver olhando.
- Pode até ser, mas você vai me contar tudo, Tim-Tim por Tim-Tim.
- Depois, Tah. Depois. Agora, me deixe ler!
Sentei-me numa das poltronas, tremendo de tanta ansiedade. Tayla permaneceu em pé, alguns segundos, procurando, estrategicamente, na mesa, a cadeira mais próxima de mim.
Não me importei com sua curiosidade, estava tão ansiosa que permaneci um bom tempo apenas olhando a carta.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

O blog será modificado para que vocês possam ter o conteúdo dos capítulos em seus computadores. Haverá links para que as pessoas possam fazer downloads dos capítulos já postados e uma sinopse de cada um deles.